Quem é o assassino? #7

macha

Anne ficou levemente preocupada naquele dia. Além da conversa estranha de Adam, Manoela estava muito nervosa por ter flagrado Lara aos beijos com Liam. Em todo caso, foi para casa sozinha aquele dia. Durante o caminho, um carro encostou lhe oferendo carona. O nome do rapaz era Henrique e ele insistia que a conhecia dos tempos da escola. Ela tentou se lembrar dele, mas realmente não conseguiu. Quando o rapaz começou a insistir mais pela carona, ela se afastou preparando a sua defensiva, até que outro rapaz se aproximou. Ele veio cheio de intimidades a beijando no rosto, e encarou o rapaz. Perguntou de uma forma fria se estava tudo bem, e o louco do carro foi obrigado a ir embora frustrado. Depois, o bom samaritano foi com Anne até o ponto de ônibus.

– Obrigada pela ajuda. – Anne disse depois de um longo tempo em silêncio.

– De nada. – Respondeu o rapaz com uma voz amigável.  – Qual o seu nome?

– Anne, e o seu?

– Felipe. Por acaso eu conheço a empresa onde você trabalha. Um amigo meu está trabalhando lá agora.

Só então Anne percebeu que ainda estava de uniforme.

– Ah sim. Deve ser o Leandro, um dos funcionários novos que entraram junto com as meninas. – Anne respondeu jogando um nome qualquer.

– Na verdade não. Meu amigo meio que se tornou dono da empresa. Nem ele está acreditando ainda.

– Adam?

– Sim. Ele mesmo. Somos sócios. Já tínhamos uma empresa antes dele assumir a do tio.

– Interessante. Bem, adoraria conversar mais, mas meu ônibus está vindo. – Anne disse dando sinal para o primeiro ônibus que passou.

– Ah sim, tenha uma ótima noite. – Felipe respondeu educado.

No ônibus, Anne começou a pensar como o mundo era pequeno, e como de uma hora para outra sua vida estava interligada com a de tanta gente. Pensou tanto que não prestou atenção nos pontos e foi parar do outro lado da cidade. Desceu, mesmo sendo avisada pelo motorista que não havia mais ônibus naquele horário. Ela não se importou. Estava precisando de um tempo sozinha.

No ponto de ônibus, ficou quase duas horas curtindo sua solidão, observando a escuridão tomando conta da madrugada. Reparou que havia um beco próximo do ponto, mas não foi examiná-lo. Em meio aos barulhos noturnos, pegou seu livro que começou a ler tranquilamente, até ser surpreendida por um assaltante.

“Hoje é dia”, Anne pensou.

Ele não era do tipo carinhoso. Chegou jogando seu livro no chão e lhe dando um tapa no rosto. Depois a empurrou no chão e tentou pegar sua bolsa. Anne lhe deu um chute no meio das pernas e enquanto ele se contorcia de dor, se levantou e procurou seu canivete na bolsa. Antes que pudesse atingir o bandido, viu um machado descer no pescoço dele. O golpe não conseguiu mata-lo de uma vez e ele ficou se debatendo no chão. Novamente o machado desceu, desta vez separando a cabeça do corpo. O sangue lavava a calçada e ela pode ouvir uma voz grossa dizer: “Até que é interessante”.

O autor dos golpes era um rapaz meio alto, que devia ter pelo menos 1,80. Tinha uma barba grande, e o machado em sua mão o fazia parecer um lenhador. Ele usava uma jaqueta aberta, e uma camiseta branca que agora estava machada de sangue. Seu olhar era vazio, mas sua expressão era curiosa. Ele, lembrando-se da moça, lhe encarou intimamente.

– Bonito canivete, bem desenhado. – Ele disse com um tom de voz frio.

– Obrigada. É de família. Bonito machado, anodizado? – Anne perguntou, também com um tom de voz frio.

– Sim. – Ele pareceu levemente surpreso. – Demora para enferrujar.

– Um dos melhores. O que a gente faz com isso? – Anne apontou para o corpo.

– Bem…. É a primeira vez que eu… eu faço isso. O que su… sugere? – Ele respondeu gaguejando.

– Nervoso? Para sua sorte o beco é um bom lugar para esconder. Você estava lá?

– Eu sou ga… Gago mesmo. – Ele respondeu limpando o machado com os dedos. – Sim. Tem uns latões de lixo ali. – Ele disse arrastando o corpo. – Pega a cabeça por favor.

Anne pegou a cabeça pelos cabelos. O rosto ainda trazia uma expressão de horror. Anne riu. O homem, pegou o corpo e colocou dentro do latão. A cabeça não coube, então Anne ocultou com outras sacolas de lixo que estavam próximas.

– O lixeiro vai ter uma boa surpresa. – Anne disse rindo baixinho.

– Realmente. – Ele concordou. – Qual o seu nome?

– Anne. E o seu?

– Santiago. E pensar que eu quase te matei.

– Que ótimo. – Anne respondeu com deboche. – Mais um dia viva. Obrigada.

O rapaz não parecia ser muito de falar. Ele já estava virando as costas para ir embora quando Anne o chamou.

– Primeira vez? Por que?

– Bem, queria ver como era. Faz parte de algumas metas. – Ele respondeu, amigável apesar da voz grave.

– Quais são? Se você quiser falar é claro.

– Roubo, sequestro, assassinato, estupro, terror psicológico, perseguição, massacres… A lista aumenta as vezes.

– Interessante – respondeu Anne pensativa. – E dessa lista, o que você já cumpriu?

– Roubo, sequestro e assassinato. O próximo é estupro. – Ele respondeu, com um tom frio novamente. Só então Anne percebeu como ele estava a encarando. Não era mais somente o olhar frio. Era um olhar tímido, medindo tudo que podia ser medido. Pela primeira vez, ela sentiu um leve arrepio na espinha.

– Mas prefiro uma coisa de cada vez. Por hoje já deu para me divertir. – Ele disse em um tom mais suave, percebendo que havia a intimidado. Não era a sua intenção. Não naquele momento. – Bem, está tarde. Vou indo. Você devia ir também.

– Estou esperando meu ônibus. – Anne respondeu friamente, ainda desconfiada sobre o próximo item da lista.

– Boa sorte. – Ele respondeu, se afastando e sumindo na escuridão.

O sangue secou, parecendo apenas uma enorme mancha de sujeira na calçada na escuridão. Quando acabou o livro, o dia estava amanhecendo. Ela não sabia bem qual ônibus poderia pegar para ir ao trabalho. Com os sapatos sujos, foi até o beco procurar algum jornal para tentar limpar um pouco do sangue. Estava levemente cansada, afinal, não havia dormido e iria trabalhar. “Preciso de um banho, tomara que tenha água quente na empresa…” pensou Anne até se surpreender com a buzina. Era Isaque, o assistente de Adam, lhe oferecendo uma carona. Não pensou duas vezes e entrou. O mundo era realmente pequeno, Anne pensou. Não tinha como aquilo ficar mais estranho. Além disso, Isaque também era curioso demais, mas aceitava qualquer desculpa fácil. Na empresa, ignorou o escândalo da empresa em relação a morte de Lara, cometida por Manoela. “Ela realmente fez o que disse. Quem diria…” pensou Anne seguindo para o vestiário. Ao ligar o chuveiro, deixou a água correr por um tempo até juntar vapor. “Era disso que eu precisava”, ela pensou por fim, ficando embaixo do chuveiro, deixando a água cair em seu rosto com os olhos fechados.

juhliana_lopes 23-05-2016

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