Flores de mamãe

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Paulo era um rapaz simples e estava muito ansioso. Mesmo com a casa toda limpa, não parava de conferir tudo a cada minuto. Ele não esperava receber nenhuma visita, muito menos trazer alguém ali, mas em todo caso, era melhor estar preparado.

Ele não tinha nada demais. E quando se olhava no espelho, ele tinha certeza que não tinha nada demais mesmo. Era alto, levemente magro de ombros largos. Seu cabelo castanho com corte baixo, e uma barba rala que quem olhasse de longe tinha a impressão que era aparada constantemente. Pura ilusão, afinal aquilo era o máximo que ela crescia. Seus olhos também castanhos, eram profundos e intensos e por vezes revelava alguma tristeza escondida.

Naquele dia, Paulo havia tomado três banhos para ter certeza de que estava limpo. Além disso, colocou sua melhor roupa, que consistia em uma calça jeans escura, uma camisa preta levemente surrada e uma bota marrom. Depois de dobrar a quantidade de perfume e se olhar no espelho pela sétima vez, estava pronto para seu compromisso especial.

Paulo não tinha amigos, e perdeu o pai muito jovem. Viveu com sua mãe até dois anos atrás e desde seu falecimento, viva sozinho em casa, tentando se acostumar com a falta dela. O lugar em que morava não era muito propício para ninguém morar, mas a casa foi ganhada e ele não precisava pagar as contas. Havia muito barro em volta e por mais tivessem feito mil propostas, ele não estava pronto para seguir a carreira do seu pai. Paulo não se arrependia, afinal Gabriel fazia o trabalho muito bem.

Na rua, esperando o ônibus, limpou o barro de seus pés. Rotina constante para toda vez que ele precisava ir à cidade. Estava ansioso e extremamente inseguro, afinal sua expectativa era imensa. Leu em vários sites dicas e sugestões e com o aplicativo foi fácil achar alguém, e depois de algumas conversas frustradas, sabia que ela seria a eleita. Pelas fotos, ela era realmente linda. Loira, olhos grandes e azuis, com um sinal no rosto perto do nariz. Delicada, gostava de livros e estudava biologia. Morava próximo ao shopping e ia estar esperando ele com um vestido azul.

Paulo nunca teve uma namorada, nem mesmo uma paixonite. Na escola, mal falava com os outros garotos, e tinha o apelido de “fantasma”, devido a sua palidez, somado a sua timidez. O bullying piorou depois que descobriram onde ele morava, mas com o tempo ele aprendeu a ignorar tudo, da mesma forma que o ignoravam.

No shopping, esperou na praça de alimentação como haviam combinado. Ao ver famílias reunidas, se divertindo, almoçando juntas, lembrou de sua mãe. Ela adorava flores e as colocava sempre sobre a mesa antes das refeições. Gostava das cores simples como branco e amarelo. “Tenho que pegar flores para mamãe” ele pensou. Lembrou-se da última refeição juntos. Ele mesmo havia preparado para fazer uma surpresa a ela, que mesmo com o rosto inexpressivo pelas ações do tempo, tinha um amor e carinho imenso por ele.

– Oi – Ela disse timidamente, interrompendo seus pensamentos. Pessoalmente ela era mais linda do que ele havia imaginado. De estatura mediana, além do vestido azul, estava usando um colar simples com uma pedra azul ciano.

– Ah, Oi! – Ele respondeu nervoso, se levantando para cumprimenta-la. Ele ergueu a mão, mas ela lhe deu um beijo no rosto. Paulo não conseguiu esconder a surpresa e ficou corado. Ela reparou, afinal ele ficou bem vermelho e riu baixinho, ficando com as bochechas rosadas também.

Ele puxou a cadeira para ela, com uma delicadeza de um lorde. Ela ficou encantada com a gentileza. Começaram uma conversa animada sobre os estudos dela e as últimas provas. Ele gostava de saber como era o dia dela, e seus projetos de vida, porém quando ela perguntava os dele, sempre dava um jeito de escapar com outro assunto. Ele tinha seus objetivos, mas achava-os muito vazios e sem graça perto dos dela.

No fim daquele dia, antes de ir embora, ela lhe roubou um beijo, que o fez ficar muito mais vermelho. Ele começou a gaguejar, tentando perguntar porque ela havia feito aquilo, mas ela o calou com outro beijo. Agora, mais tranquilo, ele correspondeu, lhe tomando em seus braços.

– Paulo… – Ela começou. – Eu não sei se você acredita nisso, e eu vou estar me arriscando muito dizendo isso, mas… acho que estou apaixonada por você…. Assim, à primeira vista! Quero muito ficar com você!

Seus olhos tinham um brilho diferente e ela estava com um sorriso lindo ao dizer essas palavras. Paulo por sua vez, além de feliz estava preocupado. Será que ele seria capaz de retribuir esse amor?

– Eu também gosto muito de você…. Mas não sei se você vai gostar tanto de mim assim…. Você sabe, eu não tenho um trabalho fixo, moro longe da cidade…. Eu não sei nem se tenho futuro….

– Paulo, – ela disse baixinho – eu te amo! Eu quero ficar com você do jeito que você é!

Paulo a abraçou forte e depois lhe deu um beijo. Desta vez, ele tomou a iniciativa e sentia como se algo estivesse queimando por dentro dele com tanta emoção.

Ele queria levar a moça para casa, mas ela queria conhecer a casa dele primeiro.  Mais uma vez ele ficou preocupado, em todo caso resolveu leva-la, afinal, caso ela não gostasse, poderia desistir dele naquele momento e evitar um sofrimento maior.

Já era noite quando eles chegaram e Gabriel já havia ido embora pois, não haveria trabalho naquela noite. Ela ficou calada quando viu o lugar e ele apreensivo não se atrevia a trocar olhares com ela.

– Bem, eu moro aqui… – Paulo disse, sem graça.

– Você mora em um cemitério? – Ela respondeu abismada.

– Sim. – Paulo respondeu sério. – Se você quiser eu posso levar você para sua casa e a gente não se fala nunca mais…

– E por que eu faria isso? – Ela respondeu ainda surpresa. – Deve ser o máximo morar aqui! Essa terra toda para estudo sobre decomposição e ação natural, os nutrientes das plantas que nascem aqui…. Por que não me contou que morava aqui?

– Eu achei que você fosse achar estranho e me rejeitar… – Ele respondeu com a cabeça baixa.

– Claro que não! – Ela disse levantando a cabeça dele para olhá-lo nos olhos. – Você é incrível!

Ele nunca achou alguém que pudesse dar valor a ele e ao lugar que morava além de sua mãe. Resolveu então convidá-la para jantar. Em casa, ele a deixou à vontade na sala. Preparou uma comida rápida, porém deliciosa, e trancou as portas e as janelas. Colocou a mesa, foi até o quarto para trocar de camisa e a chamou para cozinha.

Assim que entrou na cozinha deixou sua bolsa cair. Seus olhos arregalados demonstravam mais do que uma simples surpresa e sim um leve terror.

– O que é isso? – Ela disse pausadamente.

– O que? As flores? Mamãe gostava delas na mesa, por isso resolvi colocar, você não gosta de flores? – Ele perguntou confuso.

– Paulo, o que esse corpo está fazendo aí sentado?

– Ah sim, deixe-me apresentar…. Essa é minha mãe. Mamãe, essa é a moça que eu falei. – Ele disse satisfeito, colocando a comida no prato para o cadáver.

– Paulo, você é louco? Por que você tem o cadáver da sua mãe em casa? – Ela disse em tom alto e desesperado.

– Eu fico muito sozinho aqui sabia? Não enterrei mamãe para que eu pudesse conversar com alguém, afinal ela gosta muito de conversar…. Meu pai era coveiro aqui e ganhou a casa quando casou com a minha mãe. Ela não se importou. Quando ele morreu, contrataram o Gabriel para trabalhar aqui, mas ele não gosta muito de ficar aqui, então ele só vem trabalhar e vai embora. Eu troquei o corpo de mamãe no enterro e conservo ela no quarto, e jantamos juntos todos os dias.

Paulo respondia tudo com tranquilidade. Seu olhar era vazio e ele estava completamente à vontade. Ela estava com medo e correu para porta para fugir. Ele não se moveu para impedir, apenas continuou a colocar a comida nos pratos. Com a porta trancada, ela deu um grito desesperado e pediu para ir embora. Ele parecia não se abalar com o seu desespero.

– Não entendo sua reação meu amor… – Ele dizia calmamente. – Você me achou uma pessoa incrível, gosta tanto de estudar sobre reações naturais, não entendo esse desespero. Venha, sente-se. – Ele terminou, puxando a cadeira para ela.

Ela chorava de desespero e correu para sala quando ele tentou puxá-la pelo braço. Lá, conseguiu abrir uma janela e pulou, caindo de joelho na lama. Paulo ficou vermelho novamente, mas desta vez era de raiva.

Ela corria no escuro e começou a tropeçar nas covas que foram cobertas recentemente. Tentou procurar alguma vazia para se esconder, mas ficou com medo dele querer enterrá-la viva. Então correu para o lado da caixa de ossos onde os restos mortais eram guardados depois de exumados, mas antes que pudesse chegar lá, foi surpreendida com uma pá acertando sua cabeça.

Paulo estava suando e nervoso. Ela era mais linda ainda dormindo, porém ela não acordava mais. Além do sangue que saia pela testa do corte que a pá fez, ela caiu com o pescoço torto. Paulo fez de tudo para reanima-la, mas nada adiantou.

– Minha linda adora brincar…. – Ele disse trazendo ela nos braços para dentro de casa novamente. – Achei realmente que iria me deixar.

Em casa ele a deitou no sofá, e foi recolher os pratos da mesa. Depois, pegou o corpo da sua mãe, o despiu e guardou no caixão de vidro com formol que havia sobre a cama, no quarto dela.

Quando voltou, o corpo da moça loira havia rolado do sofá para o chão, deixando-a de pernas abertas com o vestido levemente levantado. Ele ficou por algumas horas ali, admirando-a. Seus lábios estavam brancos e o sangue seco já havia manchado o sofá e o tapete.

– Você é mesmo uma danadinha. – Ele disse com um sorriso insano no rosto. – Me provocando desse jeito… – Ele continuou se ajoelhando na frente do corpo, colocando suas mãos nos joelhos dela. – Não sei se mamãe vai permitir esse tipo de coisa na sala, mas já que vamos morar juntos e ela já está dormindo, acredito que ela não vai se importar…

Na manhã seguinte, Paulo acordou assustado com um celular tocando. Era o da moça na bolsa que estava no chão. Ele quebrou o celular com um martelo e voltou a se deitar sobre o corpo frio e nu da moça, deixando a cabeça debruçada sobre os seios dela. Ele também nu, acariciava as coxas dela, enquanto olhava para o vestido amassado do outro lado da sala.

– Vamos ser muito felizes juntos meu amor…. Pode ter certeza.

 

juhliana_lopes 12-07-2016

 

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