Quem é o assassino? #9

tumblr_m6bcplGzI51rs0z9do1_500Todos se surpreenderam com os convites. Além de fornecedores e clientes, todos os funcionários foram convidados para a festa, que de um simples coquetel, estava aos poucos se transformando em um grande evento. Muitos ficaram abismados com o fato da festa estar marcada para cinco dias depois da morte de Manoela. Em todo caso, não houve questionamentos, pois, Adam estava cada vez mais recluso em sua sala tentando resolver os problemas.

Liam ficou animado, era uma oportunidade ótima para dar fim em Adam e assim fazer com que Boris assumisse o seu lugar. Depois disso, era só dar um jeito no velho e tudo seria seu. Tudo já estava arquitetado em sua mente, e só precisava de alguns materiais para que tudo ficasse pronto no dia da grande festa. Enquanto andava pelos corredores distraído com seus pensamentos, trombou com Isaque.

– Não olha por onde anda? – Disse Liam irritado.

– Desculpe, estou com pressa. – Respondeu Isaque com pressa, continuando seu caminho com mais convites nas mãos para enviar.

Liam balançou a cabeça e seguiu para sua sala, mas antes parou no bebedouro para beber um pouco de água. Quando se virou para ir embora, foi surpreendido com Anne atrás dele.

– Credo Anne, que susto. – Disse Liam levemente alterado. – Faz algum barulho da próxima vez.

Ela não respondeu. Apenas o olhava com um olhar vazio sem expressão. Ele deu um passo para o lado e ela se debruçou para também beber água. Ainda sem dizer nenhuma palavra, ela lhe encarou mais uma vez e foi embora para o refeitório.

Liam sabia que Boris havia feito alguma coisa a ela e esperava no fundo de seu coração que ele tivesse seguido o seu conselho e não feito qualquer coisa estúpida. De qualquer forma só precisava esperar o dia da festa chegar e tudo acabaria bem. Enquanto digitava alguns documentos, um funcionário bateu em sua porta.

– Liam?

– Sim, o que foi? – Ele respondeu levantando a cabeça.

– Uma encomenda para você. O porteiro recebeu e pediu para te entregar. – Disse o rapaz estendendo o pacote.

– Ah sim, esqueci de avisar que estava esperando. Muito obrigado. – Respondeu Liam educadamente, pegando o pacote de sua mão.

O rapaz foi embora e Liam com cuidado, abriu o pacote e ficou admirando sua encomenda, cauteloso para que ninguém o observasse.

– Agora sim, vai ser tudo perfeito! – Ele disse para si mesmo confiante.

No refeitório, Anne engolia qualquer coisa para voltar logo a sua sala. Tinha muito trabalho a fazer e não queria perder tempo. Quando Boris passou para também almoçar, percebeu que ele piscou para ela. Qualquer um diria que sua cabeça estaria a mil com toda aquela situação, porém ela se manteve tranquila. Ignorou a ousadia e continuou sua refeição. Não tinha porque se distrair, pois já sabia o que fazer. Sempre soube.

Quando voltou para sua sala, Isaque passou apressado lhe entregando um convite para a tal festa da empresa. Não estava com nenhum ânimo para vir, mas não poderia bancar a antipática. Alguns minutos de festa não lhe fariam mal e um sumiço súbito também não teria problema.

Boris almoçou rápido também e chamou por Liam. Queria saber a opinião dele sobre a festa e contar suas conclusões com Anne. Liam entrou na sala, sentou-se e desejou profundamente acertar um soco no velho, enquanto ele lhe contava a sua “triunfante” aproximação com Anne.

– Você não acha que se arriscou muito? – Perguntou Liam, suspirando tentando manter o tom de voz o mais calmo possível. Ele suava por baixo da camisa com uma raiva indescritível.

– Acho que não. Ela ficou em choque, estava completamente vulnerável. Eu poderia ter feito qualquer coisa com ela ali, mas o importante é que ela entendeu o recado. – Disse Boris radiante.

– Eu não sei…. – Começou Liam, pensando em dizer sobre a abordagem dela no bebedouro, porém, dizer aquilo poderia expor a si mesmo e ele não tinha intenção de se sujar com isso. – Espero que você esteja certo. – Ele disse por fim com um tom pesado.

– Claro que eu estou, seu bobo. Agora me diga, Adam comentou alguma coisa sobre a festa? – Perguntou Boris curioso. Seus olhos por um momento ficaram grandes e brilhantes. Algo lhe dizia que aquela festa iria mudar muitas coisas e ele queria juntar todas as informações possíveis para estar preparado.

– Não. Na verdade, ele mal sai da sala. Só vejo Isaque entrando e saindo com os convites e aquele cara que as vezes vêm visita-lo. – Respondeu Liam, sincero.

– Entendo. O cara é o sócio dele da outra empresa. Ele vem para cá as vezes, depois daquele dia que Adam se ausentou. É mais fácil para eles cuidarem dos negócios deles aqui do que ele sair daqui e ir para lá. Espero que ele não seja mais uma ameaça.

– Só resta esperar…. – Disse Liam pensativo. Ainda estava tentando digerir o fiasco sobre a aproximação de Boris com Anne e o que aquilo poderia custar para ele. Depois de uma pausa silenciosa, Boris falou enquanto foi para trás da cadeira de Liam e começou a massagear os ombros dele.

– Em todo caso, quero você bem bonito nesta festa. Será um momento para relaxar depois dos últimos acontecimentos e eu tenho planos para nós dois, depois da festa.

Liam engoliu seco e fingiu relaxar. Se levantou dando um sorriso sem graça e pediu licença pois, estava muito atarefado. Boris o deixou ir e continuou pensando em formas de impedir que Adam pudesse derrubá-lo.

Enquanto isso, na sala de Adam, Isaque pegava os últimos convites. Felipe, estava sentado em uma cadeira um pouco afastado da mesa de Adam com o seu notebook.

– Certifique-se que todos estejam com os convites, por favor. – Disse Adam enquanto digitava qualquer coisa no computador.

– Claro senhor, mas antes posso lhe falar algo rápido? – Disse Isaque trancando a porta.

– O que foi? – Disse Adam levantando a cabeça para lhe olhar nos olhos.

– Hoje, mais cedo eu trombei com o Liam “sem querer”, e “sem querer” também a sua carteira veio parar na minha mão….

– Isaque, o que nós havíamos conversado sobre isso? – Interrompeu Adam.

– Calma, foi por uma boa causa. Olhando rapidamente, vi esse cartão de uma loja que fica próximo a periferia da cidade, com artigos bem interessantes. E enquanto eu entregava alguns convites para o pessoal da cozinha, vi quando uma encomenda chegou para ele. Não sei se podemos associar esse cartão com a encomenda, mas acredito que é algo que deva ser considerado em seus cálculos. – Explicou Isaque. – Agora vou terminar de entregar os convites e devolver a carteira.

– Muito obrigado Isaque. – Respondeu Adam sério.

Felipe levantou os olhos para encarar Adam e falou:

– Algo com que eu deva me preocupar?

– Não, ainda não. – Disse Adam voltando para o seu computador e guardando o cartão na gaveta.

– É saudável ter um batedor de carteira na empresa? – Perguntou Felipe, desta vez também olhando em seu computador.

– É interessante. Aprendi a não andar mais com ela no bolso. – Respondeu Adam meio desinteressado.

Liam estava saindo da sala de Boris quando trombou com Isaque novamente.

– Qual é o seu problema? – Disse Liam visivelmente irritado.

– Desculpe-me mais uma vez. – Disse Isaque – Não foi minha intenção. Com licença.

– Sujeito idiota. – Liam resmungou enquanto entrava em sua sala. – Vou acabar dando um jeito nele também.

Os dias passaram e enfim chegou o coquetel. Naquele dia, ninguém trabalhou e como era uma festa formal, muitos exibiram trajes de gala.

– Você não vai colocar uma gravata? – Perguntou Felipe para Adam.

– Você sabe que eu não gosto dessas coisas, e eu já estou com uma camisa social e o Blazer, já basta. – Respondeu Adam terminando de arrumar o cabelo.

– Onde está Isaque? – Perguntou Felipe.

– Deve estar ajudando a organizar o pessoal do buffet e coordenando o pessoal que contratamos para recepcionar os convidados. – Disse Adam enquanto se preparava para sair da sala. – E aquela moça com quem você estava saindo? Ela vem?

– Eu espero que sim, apesar que vou precisar deixar ela esperando sozinha por um tempo no final. – Respondeu Felipe um pouco frio.

– Verdade. De qualquer forma, nada pode sair errado esta noite. Ok? – Disse por fim Adam.

– Fique tranquilo. – Respondeu Felipe saindo da sala junto com Adam. – Já está tudo pronto.

Adam estava com um blazer chumbo, e uma calça escura. Felipe, usava um terno grafite com uma gravata preta. Ambos usavam camisas brancas. Seguiram para o refeitório que foi transformado em uma espécie de salão principal.

Boris estava com um terno escuro e uma gravata azul marinho. Nada fora do seu habitual. Usava uma camisa levemente azulada e sapatos sociais que tinham um leve salto. Ao seu lado, estava Liam, com um terno cinza com corte italiano, que lhe caía perfeitamente bem. Sua gravata, também cinza com pequenas listras brancas, ajudava a compor o seu visual misterioso que fazia muitas moças perderem a cabeça. Quando viu Adam chegando, saiu do lado de Boris e foi dar uma volta para interagir com os outros convidados.

Adam apresentava um semblante tranquilo que há muito tempo não mostrava. Sua expressão era além da calma de uma pessoa em paz com suas ações. Falou com alguns convidados e cumprimentou Boris com um abraço que estranhou o gesto do rapaz. Felipe que andava ao seu lado, era a cara do desinteresse. Era aquela clara pessoa que estava ali apenas para beber e comer e mal trocava um “Boa noite” sem antes beliscar alguma coisa.

Anne estava em um canto, bebendo vinho. Usava um coque levemente bagunçado, e um vestido preto na altura dos joelhos com um decote que marcava bem o seu corpo. Além disso, ele também tinha um corte nas costas que a deixava elegante e levemente sensual, atraindo também olhares dos quais ela não estava tão à vontade uma vez que naquela noite, preferia a discrição. Ela poderia ter vindo com um vestido mais simples, é verdade, assim não chamaria atenção, mas ela queria que as pessoas soubessem que esteve na festa, para não ter problemas depois que fosse embora.

Quando todos os convidados chegaram, as luzes baixaram, dando foco para um palco montado em um dos cantos, onde Adam começou um leve discurso com um microfone.

– Essa empresa significa muito para mim. Meu tio a construiu junto com o seu melhor amigo Boris, e juntos eles ergueram esse império que temos hoje. Talvez eu esteja exagerando um pouco é verdade, mas foi através desta empresa que eu conseguir crescer com um exemplo a seguir. Hoje, depois de assumir o lugar do meu tio, tive a honra de poder trabalhar ao lado deste grande homem que muitas vezes se mostra uma maravilhosa mente pensante por trás de todo o sucesso que temos. Este coquetel, serve mais que para me apresentar e tornar todo mundo mais próximo depois de tantos problemas e pesares que tivemos. Essa festa é principalmente para homenagear esse grande homem aqui presente no dia de hoje! Boris! – Terminou Adam erguendo a taça em direção a Boris, seguido por aplausos.

Boris ficou visivelmente desconcertado pois, não esperava por aquilo. Será que havia se enganado? Será que se deixou levar pelo seu desejo e não percebeu a idolatria do sobrinho do amigo? Seria apenas fingimento? Tudo ficou muito confuso de repente. Com o suor visível em sua testa e a respiração acelerada, ele subiu ao palco e com poucas palavras agradeceu a Adam, e pediu para que todos aproveitassem a festa. Depois, pediu um momento a sós com o rapaz para tentar esclarecer algumas coisas.

Seguiram então para um corredor mais afastado, para conversarem longe do barulho. Liam, também espantado com a atitude de Adam os seguiu um tempo depois com as mãos no bolso. Não poderia arriscar que nada desse errado e muito menos que uma redenção acontecesse. Ele tinha certeza que aquele era um jogo de Adam, e não ia permitir que Boris caísse nele. Anne, que mal prestara atenção nas palavras de Adam, percebeu quando Liam seguiu os dois, e resolveu segui-lo também, afinal, era um ótimo momento para sumir e sair daquele lugar chato. O salto começava a incomodar e ela já não tinha mais humor para aguentar a festa. Felipe, também seguiu um tempo depois para o mesmo corredor. Era preciso colocar o combinado em ação.

As pessoas da festa se divertiam com bebidas e petiscos deliciosos. Logo uma música alta começou permitindo então que eles se soltassem e dessem liberdade ao álcool no sangue e muitos começaram a dançar. Apenas alguns ouviram três disparos, mas ninguém deu a devida atenção, julgando ser fogos de artifício ou algum som da própria música.

juhliana_lopes 19-07-2016

Vício

Catisofobia

“Olá, boa noite! Vamos começar agora nossa sessão. Espero que todos estejam confortáveis. Quem estiver à vontade, pode começar”. Era assim que todas as minhas noites começavam. Todos se encontravam pontualmente as 18h, mas a reunião só se iniciava as 19h. Diziam que era importante essa pequena interação antes do nosso momento, para ganhar intimidade e proximidade, perdendo assim a timidez. Eu não me importava, estava ali porque eu queria.

De fato, era algo bem curioso com os novatos. Era nítido a diferença de quem estava ali porque queria e de quem foi obrigado por algum motivo. Em todo caso, era um ambiente agradável, com um salão enorme que fazia muito eco, até mesmo com passos cautelosos. Haviam paredes brancas com uma listra cinza, que deixava com um ar meio mórbido, mas também lembrava as antigas salas de aula da escola. A luz branca e fraca bem no alto da nossa roda de conversa, dava um tom melancólico que de alguma maneira, incentivava as confissões contritas.

Eram muitas as confissões. Algumas se repetiam todas as noites, mas sempre havia algo novo para ser descoberto. Lembro-me de uma moça que se auto sufocava toda vez que tinha crises de ansiedade. Ela chorava compulsivamente e ficava com falta de ar e os batimentos acelerados, então ela pegava uma faixa, passava pelo pescoço e apertava em frente ao espelho, respirando limitadamente. Quando começava a ficar roxa, ela afrouxava as faixas e se sentia bem e controlada. Ela contava feliz que agora, depois das reuniões, há muito tempo ela não precisava mais da faixa e se sentia vitoriosa com isso, pois ela percebeu que estava ficando viciada naquelas sensações.

Havia um rapaz que participava todos os dias, mas nunca falava nada. Um dia, aos prantos ele disse que seu maior vício era a pornografia. Ele não se excitava com aquilo, muito menos sentia prazer. Ele só precisava ver e rever várias vezes ao dia. Percebeu que estava ficando incontrolável quando começou a observar pessoas reais, depois de flagrar um casal em um carro. Começou a se arriscar na madrugada próximo das casas para ouvir sons, observar as janelas, se esconder em motéis. Quase foi preso, pois uma mulher o viu rondando a casa dela. Ele pedia ajuda e dizia que tinha medo de ter se transformado em um monstro. Foram mais algumas semanas até ele se sentir bem novamente, agradecer a ajuda e sumir.

Um rapaz se descobriu suicida depois de perceber que adorava ficar em lugares altos e sentir a vertigem ao olhar pra baixo. Percebeu que essa “mania” começou quando ainda era criança, depois de uma surra que levou de seu pai que estava bêbado. Ele simplesmente subiu no telhado, com hematomas aparentes e ficou olhando para o chão sentindo algo que como ele dizia era “indescritível”. Então notou que algo que ele achava normal, acontecia todas as vezes que ele passava por algum trauma ou uma situação difícil. Por recomendação do grupo, ele pulou de paraquedas com toda a segurança envolvida e descobriu nos esportes radicais algo melhor do que ficar só pensando em se jogar.

Você pode pensar que passar as noites ouvindo os problemas alheios é um tipo de fim de carreira, ou mesmo uma perda de tempo, mas acredite para algumas pessoas, aquilo é tudo que elas têm. O comportamento humano tem uma certa graça digna de cinema. Pois já vi tantas pessoas na rua, daquelas que esbarram em você ou te ignoram, mas que se encontram naquela roda e se expõe de uma forma inacreditável. Pessoas insensíveis no dia a dia, que guardam todos os seus sofrimentos para as 19h.

É como uma dupla personalidade diária. Uma capa que vestem todos os dias e convivem com ela por anos, mas fazem questão de tirar ao chegar naquele salão. Capas que são arrancadas, devidamente dobradas e guardadas com todo carinho, pois por mais que ali eles mostrem a própria carne, ainda não estão preparados para viver sem elas. A vida de fato, tem dessas coisas.

Você pode se perguntar qual o meu vício afinal, já que faço questão de estar ali todas as noites. Meu vício é pelo sofrimento alheio. Pela dor humana, pela dor do outro. Não faço questão de resolvê-la ou de toma-la para mim. Aprecio assim como os que apreciam a arte, como um quadro pendurado na parede com cores frias. Degusto como os que degustam vinhos finos em um restaurante qualquer. Sento-me confortavelmente no meio da roda com ouvidos atentos, ouvindo e me alimentando. Não, eles não podem me ver, mesmo que quisessem. Não, eles não sabem da minha existência. Alguns poderiam me chamar de anjo caído, outros de demônio, mas sou só um espírito maldito em busca de paz para o meu pequeno vício.

juhliana_lopes 28-07-16

Quem é o assassino? #8

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Liam precisava pensar rápido, mas ao mesmo tempo precisava agir com cautela. Cada vez mais que tentava fazer com que Boris parecesse ter razão naquela história toda, se distanciava do que realmente queria. Enquanto isso, Adam permanecia na cadeira principal, sem qualquer problema. A morte de Manoela foi o suficiente para que a polícia começasse a fazer perguntas demais, e a ausência de Adam naquele dia foi o suficiente para que eles ficassem por lá tempo demais. Além disso, ainda precisava se preocupar com Isaque que poderia denunciar Boris após a sua tentativa de assassinato. E o envolvimento dele com Anne, com uma carona aparentemente informal em um horário estranho, era extremamente peculiar…. “Só pode ser isso! ”, pensou consigo.

Boris espumava de raiva. Além de Isaque não ter morrido e levado sua arma, ainda tinha a polícia investigando a morte da moça para completar. Ele estava irritado, e completamente ansioso para que eles fossem embora. Adam havia se ausentado. Ele achava que tinha esse direito. Ele, o velho que deveria estar com a empresa toda para si, tinha que assumir os problemas, enquanto o garotão tirava um dia de folga. Respondeu a todas as perguntas dos policiais da forma mais mal-humorada que podia e esperou pacientemente que eles fossem embora depois que fazer a perícia e interrogar mais alguns funcionários.

– Com licença. Boris, posso conversar com você um minuto? – Disse Liam batendo na porta com um tom de voz tímido e submisso.

– Não é uma boa hora. – Boris respondeu seco, virando-se para a janela com as mãos para trás.

– É que tem uma coisa que você precisa saber…. – Insistiu Liam.

– Fale logo.

– Acredito que Isaque tenha ficado abalado com a sua investida. Ele procurou Anne, e eles vieram para o trabalho juntos essa manhã.

– E o que eu tenho com isso? Se ele tiver contado para ela, não vai ter como provar…. Não havia câmeras. Posso dizer que a arma é dele e ele que me ameaçou. Ela não viu, não pode testemunhar a favor dele, e mesmo que ela faça isso, você pode testemunhar a meu favor…. – Respondeu Boris de uma vez. Liam ficou levemente surpreso com todo o raciocínio de escape do velho. Julgava que ele fosse um pouco mais burro. Em todo caso, resolveu ir além.

– Não Boris, você não entendeu. Anne é perigosa. Logo depois que Clara foi encontrada enforcada, eu desconfiei de algumas atitudes dela. Resolvi investigar por conta, pois Clara era muito minha amiga e aquela história de que ela havia se matado por amor, ficou muito mal contada. Descobri isso no armário de Anne…. – Disse Liam colocando sobre a mesa uma garrafa pequena de vidro, com um líquido transparente dentro.

Boris olhou com cara de paisagem. Estava nítido que ele ainda não havia comprado aquela história.

– Isso Boris – Explicou Liam – É usado para dopar as pessoas. Um pouco disso num pano faz a pessoa dormir. Eu acho que Anne matou Clara. E também acho que ela tenha matado a Meg, a primeira funcionária, afinal elas viviam juntas.

– Liam…. – Disse Boris pensativo – Onde, exatamente você quer chegar?

– Como pode ser tão ingênuo meu amor? – Disse Liam, com um leve refluxo no estômago ao dizer aquelas palavras – Você ameaçou Isaque de frente, e ele com medo, deve ter contado para Anne o que aconteceu e deve ter pedido ajuda a ela. Você corre perigo! – Liam disse em tom de suplica pegando as mãos de Boris. – Ela vai matar você!

– Liam…. – Disse Boris acariciando o rosto do rapaz – Fico extremamente tocado com sua preocupação comigo. Mas, acho que está indo um pouco longe demais com seus pensamentos. Deve ter alguma outra explicação para esse líquido no armário dela. – Ele disse tentando tranquilizar Liam.

Boris então, deu uma volta pela sala, certificando-se que a porta estava fechada.

– Em todo caso…. – Ele continuou – Se os dois apareceram juntos, logo depois da minha ameaça, e se suas suspeitas estiverem certas, acredito que eu precise me ter um pouco mais de cautela mesmo.

– Com certeza! – Disse Liam, levemente animado com seu plano. – Eu não posso falar nada. Tenho medo de que ela tenha visto que eu a vi com Isaque. Mas você pode tirar suas próprias conclusões. Pergunte sobre Meg, de forma desinteressada, e veja sua reação. Ela não vai desconfiar de você, por que qualquer coisa você só está tentando puxar assunto para diminuir o clima ruim da empresa e ter mais amizade com os funcionários antigos…. – Disse Liam torcendo para que Boris mordesse a isca.

– Irei tentar. Agora saia, é melhor para você. – Disse Boris sem paciência.

Liam saiu sem dizer mais nada, com um sorriso triunfante. Arriscou muito com seus detalhes, mas era preciso colocar mais gente na mira de Boris. Foi surpreendido por Adam virando o corredor com outro rapaz.

– Ah, olá Liam. – Disse Adam, enquanto andava com pressa.

Liam não respondeu, apenas acenou com a cabeça. O rapaz que estava atrás dele, mal o olhou e seguiu Adam com pressa até a sua sala. Enquanto estava no bebedouro, logo viu Isaque seguir para a sala dele também acompanhado dos policiais.

Boris ficou digerindo as informações de Liam. Será mesmo que corria perigo? Em todo caso precisava arriscar um pouco para ter mais informações. Não seguiu o conselho de Liam e resolveu intimidá-la, acreditando ser uma forma melhor afinal, ela era só uma mulher e qualquer coisa poderia demiti-la facilmente. Após dar uma volta pela empresa, percebeu que ela não estava nas salas e nem no refeitório. Resolveu procura-la no vestiário e viu que havia alguém tomando banho. Se escondeu em um dos privados e esperou.

Anne, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Esqueceu de deixar sua roupa mais próximo, mas não havia problema. Saiu descalça, pisando com cuidado no chão liso. Ao ouvir seu nome, parou subitamente perto dos armários.

“Anne”, uma voz masculina chamou novamente. Ela não respondeu e também não se virou. Ouviu então uma porta abrir atrás dela.

– Como está a Meg? – Boris disse com um tom ameaçador, indo na direção dela.

– Morta. Não lembra senhor? – Respondeu Anne friamente reconhecendo a voz do seu patrão.

– Claro que está não é mesmo? – Disse Boris, sussurrando agora próximo do seu pescoço.

– O que o senhor está fazendo no vestiário feminino? – Perguntou Anne com a mesma frieza de antes.

– Eu só vim ver se estava tudo bem. Com tantas mortes acontecendo, eu iria odiar que mais uma acontecesse…. Assim, por acaso… – Boris agora falava próximo do ouvido de Anne, acariciando os braços dela.

– Não vai acontecer nada comigo senhor. – Respondeu Anne. – Pode ficar tranquilo.

– Assim espero. – O velho respondeu agora segurando a cintura de Anne. – Não importa o que o Isaque tenha lhe falado, ou…. Lhe pedido. Ninguém mais vai morrer aqui, certo?

– Senhor, poderia por favor tirar as mãos de mim? – Pediu Anne virando o rosto levemente para o lado.

– Claro…. Talvez você prefira um toque diferente…. – Disse Boris levando as mãos até o seu quadril, apertando levemente as suas coxas enquanto respirava forte em seu pescoço.

Anne então se virou para lhe dar um tapa na cara, mas ele segurou uma de suas mãos, a fazendo inclinar para trás. Anne tentou manter o equilíbrio e com a outra mão segurou sua toalha. Boris então lhe deu um soco no estomago, fazendo a moça cair e saiu devagar.

– Nada aconteceu aqui Anne. Assim como nada vai acontecer, por que toda ação tem uma reação, e você não vai querer ver o que vai te acontecer caso queira inventar alguma coisa. – Disse Boris antes de sair e ir para sua sala.

Anne se levantou devagar e se vestiu. O soco não havia doído, porém seu pensamento estava a mil. Boris havia enlouquecido? O que havia dado naquele veado velho para lhe ameaçar daquela forma? E porque havia citado Meg depois de tanto tempo? Saiu do vestiário e foi para sua sala, porém ao passar pelo corredor, percebeu que Liam estava seguindo Isaque, logo depois dele deixar a sala de Adam. Seu olhar escureceu e soube o motivo para aquilo tudo, e soube também que não poderia deixar barato.

Adam estava preocupado. Primeiro os policiais, e depois a história que Isaque lhe contou. Não sabia até que ponto aquilo poderia ser verdade, mas em todo caso era um sinal de que tudo aquilo estava indo longe demais. Depois que os policiais foram embora, Felipe tentou puxar assunto.

– Sua empresa é legal até. Prédio bonito.

– Você acha? Pena que todo mundo que entra aqui morre. – Disse Adam desinteressado.

– Você parece arrependido. – Argumentou Felipe.

– E não era para estar? De um lado pessoas morrendo e você correndo o risco de responder por isso. Do outro um velho nojento que quer roubar seu lugar na empresa, e pelo visto a todo custo. A minha vontade é dar essa merda para ele e voltar para nossa vida de antes. – Disse Adam frustrado.

– Qual é Adam? Você lucrou aqui em alguns meses mais que o triplo que toda a nossa renda até agora. Tudo bem que as coisas andam pesadas aqui, mas ainda vale a pena. – Encorajou Felipe.

– Você tem razão. – Respondeu Adam. – Mas o que eu posso fazer com Boris? – Ele disse mais para si mesmo do que como uma pergunta de verdade.

– Não há uma forma de denunciá-lo por fraude? Deve ter um jeito e….

– Senhor, mandou me chamar? – Disse Isaque interrompendo Felipe ao entrar na sala.

– Sim. Preciso que você pegue a nossa lista de fornecedores e clientes. Preciso dos endereços de todos eles para que eu possa mandar os convites. – Respondeu Adam.

– Convites? – Perguntaram Isaque e Felipe juntos.

– Sim. Vou fazer um coquetel para todos. Eu estava planejando isso antes da morte da moça, então não vou deixar de fazer. Em todo caso, agora tenho um motivo mais forte para fazer. – Explicou Adam.

– Como assim Adam? – Perguntou Felipe.

– Vou achar uma forma de manchar a imagem de Boris e tirar ele daqui, e claro, achar uma forma de denunciá-lo, porém, antes disso vou manipular algumas coisas para que ele ache que tudo não passa de paranoia da cabeça dele, dessa forma ele não vai desconfiar de nada. O coquetel será em homenagem a ele, pelos longos anos de serviço por ele dedicados a empresa…. – Respondeu Adam com um sorriso de canto.

– Acho que sei o que pretende…. – Disse Isaque. – Vou preparar tudo agora mesmo. – Ele disse saindo da sala.

– Eu ainda estou boiando, mas tudo bem. – Disse Felipe dando os ombros.

– Você vai entender amigo. Vai entender e eu vou precisar da sua ajuda…. – Respondeu Adam com tom sombrio.

– Eu já vi esta expressão antes Adam…. – Disse Felipe preocupado e ao mesmo tempo interessado. – O que pretende, realmente?

– Ouça bem amigo, pois só vou explicar uma vez. – Respondeu Adam com frieza.

juhliana_lopes 19-07-2016

Incomodo

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Mais um cigarro e uma mão boa. Estava enfim ficando bom no jogo e ganhando alguns trocados com isso. Sempre se perguntou se Will não se importava que ele fumasse ali dentro, ou se não falava nada só para não o contrariar.  Estava acostumado com isso afinal, desde criança sentia que as pessoas o tratavam diferente. O bullying não lhe fez mal, era até bom, ganhou uma fama. Não era tão ruim ser rejeitado pelas crianças da sua idade, só por se parecer maior. Ele pode fazer amizade com os mais velhos e com isso seu desenvolvimento foi relativamente precoce.

Bebeu mais gole daquela bebida ruim que todo mundo bebia, e tragou um pouco mais de fumaça. Deixou escapar pelas narinas enquanto analisava a jogada do seu oponente. Ele era um fraco realmente, deixando transparecer todo o seu nervosismo diante dele. Já havia perdido o dinheiro todo, mas continuava a apostar, e se ele forçasse um pouco mais, era capaz de ganhar a casa e a esposa do rapaz. Não que ele fizesse isso, mas tinha vontade com alguns idiotas que apareciam por lá todos os dias.

Mais um jogo ganho, e agora o rapaz implorava por mais uma jogada pois a sorte finalmente estava ao seu lado. Ele não quis parecer mal-educado, mas ainda tinha um pouco de dignidade. Deixou então o rapaz falando sozinho e foi pegar outra garrafa para encher o seu copo gradualmente. Will era um velho desprezível apesar de tudo. Aquele bigode grisalho e o avental sujo, forçando simpatia. Ele pouco se importava para a condição de seus clientes ou o que eles pediam. Ele se importava apenas com o dinheiro sobre o balcão. Deixou aquele ancião de lado e voltou para sua mesa, se distraindo enquanto brincava com seus cigarros. Seus melhores amigos nos últimos dias. Deixou escrito um bilhete na carteira, pedindo para ser enterrado com um maço novo, caso alguém encontrasse seu corpo. Era uma preocupação infantil afinal, mas não queria que seu último desejo fosse ignorado, por isso escreveu no papel com uma caneta vermelha em letras maiúsculas.

Ainda distraído com os cigarros, não percebeu quando ela entrou. Só percebeu depois de alguns minutos, quando o perfume dela começou a invadir o lugar. Ela tinha os cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo e usava uma roupa simples, composta por um jeans e uma blusa cinza. Estava com alguns cartazes na mão e pedia para o velho Will para colar em algum lugar do bar. Ele permitiu sem muita paciência para conversa e ela animada, colocou um próximo a porta e outro próximo dos banheiros. Depois, agradeceu o velho com delicadeza que ignorou completamente o gesto, apenas balançando a sua cabeça, enquanto lavava alguns copos.

Mas que senhor sem modos era aquele velho. Como ignorar um ser tão belo que mais se parecia um anjo? Era raro algo daquele tipo aparecer naquele bar sujo, e quando finalmente se levantou para tirar uma água do joelho, percebeu o motivo que fez aquela imagem da perfeição divina aparecer. Um cachorrinho perdido. Imaginou em quantas desculpas esfarrapadas sobre cachorro ele teria que dar para tentar transar com aquela moça caso fosse valer a pena, mas só de pensar isso, já ficou cansado e resolveu voltar ao seu carteado.

Enfim a noite chegou e ele teria que ir embora do bar. Levantou um pouco tonto depois de tantas doses e pegou seu casaco. Alguns poderiam comparar com uma lona de circo, como faziam quando ele era criança, mas a verdade é que suas roupas precisavam ser um pouco mais largas que o normal para suportar o seu tamanho.

Quando criança, era maior que a crianças de sua idade e conforme foi crescendo e com a magia da puberdade, além de mais alto, ficou mais parrudo também. Quem o visse, poderia jurar que ele vivia em academias e estava se preparando para alguma competição de fisiculturismo, porém, o único levantamento que ele fazia era o de copo e o de cigarros. Talvez por isso as pessoas não o ameaçavam e nem mesmo tinham coragem para contradizê-lo. Em parte, ele se sentia mal, pois era difícil saber quando estavam sendo verdadeiros com ele. De qualquer forma isso não o trazia nenhum sofrimento, pois era só tomar um porre que isso se tornava um benefício, afinal, se todos concordavam, ninguém lhe encheria o saco.

Foi andando a noite, pelas ruas escuras que viu a sua musa inspiradora daquele dia novamente. Sozinha, ainda colando cartazes. Os postes estavam cheios, e ela parecia bem determinada. E com frio. Ele ficou um tempo ali parado na escuridão observando os movimentos graciosos da bela moça. Talvez ele tenha a imaginado nua, uma ou duas vezes, mas ele tinha certeza que na maioria do tempo, estava apenas tentando focar sua visão turva pela bebida. Depois de um tempo, se deu conta de como aquilo iria parecer bizarro, pois caso ela o visse ali parado com aquela cara de tarado, iria achar que ele era um maldito stalker e chamaria a polícia. Eles então viriam, e não fariam nada, além de pedir gentilmente para que ele lhes acompanhasse, para algumas perguntas. Não haveria enquadro, nem mesmo qualquer tipo de agressão. Ele enfim suspirou e tentou uma abordagem. A mais amigável que pode pensar naquela hora.

Mesmo com um Oi gentil, é claro que ela ia se virar assustada, fazendo com que os cartazes caíssem. Após ajudá-la a recolher, ele perguntou se não era perigoso ela estar ali naquele horário. Droga! Que merda de pergunta era essa? Agora ela correria, ou olharia para ele com cara de desconfiança e daria um jeito de sumir da sua vista. Ele se calou subitamente após a pergunta, porém ela respondeu delicadamente que achava sim, porém estava muito preocupada com seu cachorro. Ele era muito importante para ela e ela não queria que nada de ruim acontecesse com seu filhote. Era a primeira vez que alguém não saia de perto dele depois de uma pergunta qualquer.

A moça tremia de frio e ele ofereceu então o seu casaco, que poderia enrolar duas ou três moças iguais a ela de uma vez. Ela sorriu e aceitou, ficando um pouco mais próxima dele desta vez. Aquilo era realmente estranho. Pelo menos para ele. Suas experiências com o sexo feminino sempre foram muito simplórias. Na escola, as meninas o ignoravam, mas no ensino médio as coisas começaram a mudar com o incentivo dos garotos mais velhos. Logo estava quebrando corações em troca de alguns momentos ofegantes e desde que se lembra, nunca foi diferente. Talvez aquilo significasse que o ciclo se repetiria.

Ela parecia ser tão frágil, tão delicada, aquele tipo de pessoa que precisava ser protegida. Ele não sabia ainda se queria protege-la, afinal seus pensamentos ainda estavam um pouco pervertidos. Em todo caso, ela era uma companhia agradável e tinha uma ótima conversa.

Enfim chegaram na casa dela, que para a sorte dele, não era tão longe do bar. Ela agradeceu a gentileza com um sorriso lindo, e ele percebeu então que talvez aquilo valesse mais do que uma simples transa. Percebeu então naquele mínimo instante que talvez aquele sorriso ficaria em sua cabeça por mais alguns dias e logo ele estaria passando por ali, como quem não quer nada, apenas para quem sabe, por acaso, encontra-la de novo e no meio de uma conversa desinteressada, convidá-la para sair. Percebeu que depois de algumas saídas, ela não o convidaria para entrar, e mesmo assim ele não se importaria. Notou que quando eles tivessem enfim uma oportunidade mais propícia aos desejos carnais, ele não teria pressa, e iria fazer de tudo para que ela ficasse satisfeita antes dele. Com um certo terror oculto nos olhos, percebeu então que talvez, aquilo fosse o tal “amor” que todos falavam. Ele não precisava daquilo.

Se despediu da moça, e acendeu um cigarro. Ela estava quase entrando em casa quando ele sentiu uma leve fisgada do lado esquerdo do peito e uma vontade incontrolável de voltar atrás. Parte dele sabia que não devia, que não era natural. Ele voltou. A chamou. Perguntou seu nome e se ofereceu para ajudá-la a procurar o cachorro no dia seguinte. Ela voltou sorridente, lhe deu seu número e um beijo no rosto.

Porém, o cachorro apareceu. Maldito.

Ela já estava com aquela coisa imunda no colo, quando ele sentiu mais um incomodo no peito. “Ainda podemos nos ver amanhã? ” Ele perguntou. “Sim, claro. ” Ela respondeu com aquele mesmo sorriso. Ele então saiu sorridente pelas ruas escuras, enquanto acendia seu cigarro.

No alto do telhado, com um olhar travesso, um pequeno ser com asas douradas levemente transparentes sorria feito criança. Seu arco estava na mão e as flechas nas costas. O Cupido havia feito um bom trabalho naquela noite afinal.

juhliana_lopes 24-07-2016

Quem é o assassino? #7

macha

Anne ficou levemente preocupada naquele dia. Além da conversa estranha de Adam, Manoela estava muito nervosa por ter flagrado Lara aos beijos com Liam. Em todo caso, foi para casa sozinha aquele dia. Durante o caminho, um carro encostou lhe oferendo carona. O nome do rapaz era Henrique e ele insistia que a conhecia dos tempos da escola. Ela tentou se lembrar dele, mas realmente não conseguiu. Quando o rapaz começou a insistir mais pela carona, ela se afastou preparando a sua defensiva, até que outro rapaz se aproximou. Ele veio cheio de intimidades a beijando no rosto, e encarou o rapaz. Perguntou de uma forma fria se estava tudo bem, e o louco do carro foi obrigado a ir embora frustrado. Depois, o bom samaritano foi com Anne até o ponto de ônibus.

– Obrigada pela ajuda. – Anne disse depois de um longo tempo em silêncio.

– De nada. – Respondeu o rapaz com uma voz amigável.  – Qual o seu nome?

– Anne, e o seu?

– Felipe. Por acaso eu conheço a empresa onde você trabalha. Um amigo meu está trabalhando lá agora.

Só então Anne percebeu que ainda estava de uniforme.

– Ah sim. Deve ser o Leandro, um dos funcionários novos que entraram junto com as meninas. – Anne respondeu jogando um nome qualquer.

– Na verdade não. Meu amigo meio que se tornou dono da empresa. Nem ele está acreditando ainda.

– Adam?

– Sim. Ele mesmo. Somos sócios. Já tínhamos uma empresa antes dele assumir a do tio.

– Interessante. Bem, adoraria conversar mais, mas meu ônibus está vindo. – Anne disse dando sinal para o primeiro ônibus que passou.

– Ah sim, tenha uma ótima noite. – Felipe respondeu educado.

No ônibus, Anne começou a pensar como o mundo era pequeno, e como de uma hora para outra sua vida estava interligada com a de tanta gente. Pensou tanto que não prestou atenção nos pontos e foi parar do outro lado da cidade. Desceu, mesmo sendo avisada pelo motorista que não havia mais ônibus naquele horário. Ela não se importou. Estava precisando de um tempo sozinha.

No ponto de ônibus, ficou quase duas horas curtindo sua solidão, observando a escuridão tomando conta da madrugada. Reparou que havia um beco próximo do ponto, mas não foi examiná-lo. Em meio aos barulhos noturnos, pegou seu livro que começou a ler tranquilamente, até ser surpreendida por um assaltante.

“Hoje é dia”, Anne pensou.

Ele não era do tipo carinhoso. Chegou jogando seu livro no chão e lhe dando um tapa no rosto. Depois a empurrou no chão e tentou pegar sua bolsa. Anne lhe deu um chute no meio das pernas e enquanto ele se contorcia de dor, se levantou e procurou seu canivete na bolsa. Antes que pudesse atingir o bandido, viu um machado descer no pescoço dele. O golpe não conseguiu mata-lo de uma vez e ele ficou se debatendo no chão. Novamente o machado desceu, desta vez separando a cabeça do corpo. O sangue lavava a calçada e ela pode ouvir uma voz grossa dizer: “Até que é interessante”.

O autor dos golpes era um rapaz meio alto, que devia ter pelo menos 1,80. Tinha uma barba grande, e o machado em sua mão o fazia parecer um lenhador. Ele usava uma jaqueta aberta, e uma camiseta branca que agora estava machada de sangue. Seu olhar era vazio, mas sua expressão era curiosa. Ele, lembrando-se da moça, lhe encarou intimamente.

– Bonito canivete, bem desenhado. – Ele disse com um tom de voz frio.

– Obrigada. É de família. Bonito machado, anodizado? – Anne perguntou, também com um tom de voz frio.

– Sim. – Ele pareceu levemente surpreso. – Demora para enferrujar.

– Um dos melhores. O que a gente faz com isso? – Anne apontou para o corpo.

– Bem…. É a primeira vez que eu… eu faço isso. O que su… sugere? – Ele respondeu gaguejando.

– Nervoso? Para sua sorte o beco é um bom lugar para esconder. Você estava lá?

– Eu sou ga… Gago mesmo. – Ele respondeu limpando o machado com os dedos. – Sim. Tem uns latões de lixo ali. – Ele disse arrastando o corpo. – Pega a cabeça por favor.

Anne pegou a cabeça pelos cabelos. O rosto ainda trazia uma expressão de horror. Anne riu. O homem, pegou o corpo e colocou dentro do latão. A cabeça não coube, então Anne ocultou com outras sacolas de lixo que estavam próximas.

– O lixeiro vai ter uma boa surpresa. – Anne disse rindo baixinho.

– Realmente. – Ele concordou. – Qual o seu nome?

– Anne. E o seu?

– Santiago. E pensar que eu quase te matei.

– Que ótimo. – Anne respondeu com deboche. – Mais um dia viva. Obrigada.

O rapaz não parecia ser muito de falar. Ele já estava virando as costas para ir embora quando Anne o chamou.

– Primeira vez? Por que?

– Bem, queria ver como era. Faz parte de algumas metas. – Ele respondeu, amigável apesar da voz grave.

– Quais são? Se você quiser falar é claro.

– Roubo, sequestro, assassinato, estupro, terror psicológico, perseguição, massacres… A lista aumenta as vezes.

– Interessante – respondeu Anne pensativa. – E dessa lista, o que você já cumpriu?

– Roubo, sequestro e assassinato. O próximo é estupro. – Ele respondeu, com um tom frio novamente. Só então Anne percebeu como ele estava a encarando. Não era mais somente o olhar frio. Era um olhar tímido, medindo tudo que podia ser medido. Pela primeira vez, ela sentiu um leve arrepio na espinha.

– Mas prefiro uma coisa de cada vez. Por hoje já deu para me divertir. – Ele disse em um tom mais suave, percebendo que havia a intimidado. Não era a sua intenção. Não naquele momento. – Bem, está tarde. Vou indo. Você devia ir também.

– Estou esperando meu ônibus. – Anne respondeu friamente, ainda desconfiada sobre o próximo item da lista.

– Boa sorte. – Ele respondeu, se afastando e sumindo na escuridão.

O sangue secou, parecendo apenas uma enorme mancha de sujeira na calçada na escuridão. Quando acabou o livro, o dia estava amanhecendo. Ela não sabia bem qual ônibus poderia pegar para ir ao trabalho. Com os sapatos sujos, foi até o beco procurar algum jornal para tentar limpar um pouco do sangue. Estava levemente cansada, afinal, não havia dormido e iria trabalhar. “Preciso de um banho, tomara que tenha água quente na empresa…” pensou Anne até se surpreender com a buzina. Era Isaque, o assistente de Adam, lhe oferecendo uma carona. Não pensou duas vezes e entrou. O mundo era realmente pequeno, Anne pensou. Não tinha como aquilo ficar mais estranho. Além disso, Isaque também era curioso demais, mas aceitava qualquer desculpa fácil. Na empresa, ignorou o escândalo da empresa em relação a morte de Lara, cometida por Manoela. “Ela realmente fez o que disse. Quem diria…” pensou Anne seguindo para o vestiário. Ao ligar o chuveiro, deixou a água correr por um tempo até juntar vapor. “Era disso que eu precisava”, ela pensou por fim, ficando embaixo do chuveiro, deixando a água cair em seu rosto com os olhos fechados.

juhliana_lopes 23-05-2016

Flores de mamãe

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Paulo era um rapaz simples e estava muito ansioso. Mesmo com a casa toda limpa, não parava de conferir tudo a cada minuto. Ele não esperava receber nenhuma visita, muito menos trazer alguém ali, mas em todo caso, era melhor estar preparado.

Ele não tinha nada demais. E quando se olhava no espelho, ele tinha certeza que não tinha nada demais mesmo. Era alto, levemente magro de ombros largos. Seu cabelo castanho com corte baixo, e uma barba rala que quem olhasse de longe tinha a impressão que era aparada constantemente. Pura ilusão, afinal aquilo era o máximo que ela crescia. Seus olhos também castanhos, eram profundos e intensos e por vezes revelava alguma tristeza escondida.

Naquele dia, Paulo havia tomado três banhos para ter certeza de que estava limpo. Além disso, colocou sua melhor roupa, que consistia em uma calça jeans escura, uma camisa preta levemente surrada e uma bota marrom. Depois de dobrar a quantidade de perfume e se olhar no espelho pela sétima vez, estava pronto para seu compromisso especial.

Paulo não tinha amigos, e perdeu o pai muito jovem. Viveu com sua mãe até dois anos atrás e desde seu falecimento, viva sozinho em casa, tentando se acostumar com a falta dela. O lugar em que morava não era muito propício para ninguém morar, mas a casa foi ganhada e ele não precisava pagar as contas. Havia muito barro em volta e por mais tivessem feito mil propostas, ele não estava pronto para seguir a carreira do seu pai. Paulo não se arrependia, afinal Gabriel fazia o trabalho muito bem.

Na rua, esperando o ônibus, limpou o barro de seus pés. Rotina constante para toda vez que ele precisava ir à cidade. Estava ansioso e extremamente inseguro, afinal sua expectativa era imensa. Leu em vários sites dicas e sugestões e com o aplicativo foi fácil achar alguém, e depois de algumas conversas frustradas, sabia que ela seria a eleita. Pelas fotos, ela era realmente linda. Loira, olhos grandes e azuis, com um sinal no rosto perto do nariz. Delicada, gostava de livros e estudava biologia. Morava próximo ao shopping e ia estar esperando ele com um vestido azul.

Paulo nunca teve uma namorada, nem mesmo uma paixonite. Na escola, mal falava com os outros garotos, e tinha o apelido de “fantasma”, devido a sua palidez, somado a sua timidez. O bullying piorou depois que descobriram onde ele morava, mas com o tempo ele aprendeu a ignorar tudo, da mesma forma que o ignoravam.

No shopping, esperou na praça de alimentação como haviam combinado. Ao ver famílias reunidas, se divertindo, almoçando juntas, lembrou de sua mãe. Ela adorava flores e as colocava sempre sobre a mesa antes das refeições. Gostava das cores simples como branco e amarelo. “Tenho que pegar flores para mamãe” ele pensou. Lembrou-se da última refeição juntos. Ele mesmo havia preparado para fazer uma surpresa a ela, que mesmo com o rosto inexpressivo pelas ações do tempo, tinha um amor e carinho imenso por ele.

– Oi – Ela disse timidamente, interrompendo seus pensamentos. Pessoalmente ela era mais linda do que ele havia imaginado. De estatura mediana, além do vestido azul, estava usando um colar simples com uma pedra azul ciano.

– Ah, Oi! – Ele respondeu nervoso, se levantando para cumprimenta-la. Ele ergueu a mão, mas ela lhe deu um beijo no rosto. Paulo não conseguiu esconder a surpresa e ficou corado. Ela reparou, afinal ele ficou bem vermelho e riu baixinho, ficando com as bochechas rosadas também.

Ele puxou a cadeira para ela, com uma delicadeza de um lorde. Ela ficou encantada com a gentileza. Começaram uma conversa animada sobre os estudos dela e as últimas provas. Ele gostava de saber como era o dia dela, e seus projetos de vida, porém quando ela perguntava os dele, sempre dava um jeito de escapar com outro assunto. Ele tinha seus objetivos, mas achava-os muito vazios e sem graça perto dos dela.

No fim daquele dia, antes de ir embora, ela lhe roubou um beijo, que o fez ficar muito mais vermelho. Ele começou a gaguejar, tentando perguntar porque ela havia feito aquilo, mas ela o calou com outro beijo. Agora, mais tranquilo, ele correspondeu, lhe tomando em seus braços.

– Paulo… – Ela começou. – Eu não sei se você acredita nisso, e eu vou estar me arriscando muito dizendo isso, mas… acho que estou apaixonada por você…. Assim, à primeira vista! Quero muito ficar com você!

Seus olhos tinham um brilho diferente e ela estava com um sorriso lindo ao dizer essas palavras. Paulo por sua vez, além de feliz estava preocupado. Será que ele seria capaz de retribuir esse amor?

– Eu também gosto muito de você…. Mas não sei se você vai gostar tanto de mim assim…. Você sabe, eu não tenho um trabalho fixo, moro longe da cidade…. Eu não sei nem se tenho futuro….

– Paulo, – ela disse baixinho – eu te amo! Eu quero ficar com você do jeito que você é!

Paulo a abraçou forte e depois lhe deu um beijo. Desta vez, ele tomou a iniciativa e sentia como se algo estivesse queimando por dentro dele com tanta emoção.

Ele queria levar a moça para casa, mas ela queria conhecer a casa dele primeiro.  Mais uma vez ele ficou preocupado, em todo caso resolveu leva-la, afinal, caso ela não gostasse, poderia desistir dele naquele momento e evitar um sofrimento maior.

Já era noite quando eles chegaram e Gabriel já havia ido embora pois, não haveria trabalho naquela noite. Ela ficou calada quando viu o lugar e ele apreensivo não se atrevia a trocar olhares com ela.

– Bem, eu moro aqui… – Paulo disse, sem graça.

– Você mora em um cemitério? – Ela respondeu abismada.

– Sim. – Paulo respondeu sério. – Se você quiser eu posso levar você para sua casa e a gente não se fala nunca mais…

– E por que eu faria isso? – Ela respondeu ainda surpresa. – Deve ser o máximo morar aqui! Essa terra toda para estudo sobre decomposição e ação natural, os nutrientes das plantas que nascem aqui…. Por que não me contou que morava aqui?

– Eu achei que você fosse achar estranho e me rejeitar… – Ele respondeu com a cabeça baixa.

– Claro que não! – Ela disse levantando a cabeça dele para olhá-lo nos olhos. – Você é incrível!

Ele nunca achou alguém que pudesse dar valor a ele e ao lugar que morava além de sua mãe. Resolveu então convidá-la para jantar. Em casa, ele a deixou à vontade na sala. Preparou uma comida rápida, porém deliciosa, e trancou as portas e as janelas. Colocou a mesa, foi até o quarto para trocar de camisa e a chamou para cozinha.

Assim que entrou na cozinha deixou sua bolsa cair. Seus olhos arregalados demonstravam mais do que uma simples surpresa e sim um leve terror.

– O que é isso? – Ela disse pausadamente.

– O que? As flores? Mamãe gostava delas na mesa, por isso resolvi colocar, você não gosta de flores? – Ele perguntou confuso.

– Paulo, o que esse corpo está fazendo aí sentado?

– Ah sim, deixe-me apresentar…. Essa é minha mãe. Mamãe, essa é a moça que eu falei. – Ele disse satisfeito, colocando a comida no prato para o cadáver.

– Paulo, você é louco? Por que você tem o cadáver da sua mãe em casa? – Ela disse em tom alto e desesperado.

– Eu fico muito sozinho aqui sabia? Não enterrei mamãe para que eu pudesse conversar com alguém, afinal ela gosta muito de conversar…. Meu pai era coveiro aqui e ganhou a casa quando casou com a minha mãe. Ela não se importou. Quando ele morreu, contrataram o Gabriel para trabalhar aqui, mas ele não gosta muito de ficar aqui, então ele só vem trabalhar e vai embora. Eu troquei o corpo de mamãe no enterro e conservo ela no quarto, e jantamos juntos todos os dias.

Paulo respondia tudo com tranquilidade. Seu olhar era vazio e ele estava completamente à vontade. Ela estava com medo e correu para porta para fugir. Ele não se moveu para impedir, apenas continuou a colocar a comida nos pratos. Com a porta trancada, ela deu um grito desesperado e pediu para ir embora. Ele parecia não se abalar com o seu desespero.

– Não entendo sua reação meu amor… – Ele dizia calmamente. – Você me achou uma pessoa incrível, gosta tanto de estudar sobre reações naturais, não entendo esse desespero. Venha, sente-se. – Ele terminou, puxando a cadeira para ela.

Ela chorava de desespero e correu para sala quando ele tentou puxá-la pelo braço. Lá, conseguiu abrir uma janela e pulou, caindo de joelho na lama. Paulo ficou vermelho novamente, mas desta vez era de raiva.

Ela corria no escuro e começou a tropeçar nas covas que foram cobertas recentemente. Tentou procurar alguma vazia para se esconder, mas ficou com medo dele querer enterrá-la viva. Então correu para o lado da caixa de ossos onde os restos mortais eram guardados depois de exumados, mas antes que pudesse chegar lá, foi surpreendida com uma pá acertando sua cabeça.

Paulo estava suando e nervoso. Ela era mais linda ainda dormindo, porém ela não acordava mais. Além do sangue que saia pela testa do corte que a pá fez, ela caiu com o pescoço torto. Paulo fez de tudo para reanima-la, mas nada adiantou.

– Minha linda adora brincar…. – Ele disse trazendo ela nos braços para dentro de casa novamente. – Achei realmente que iria me deixar.

Em casa ele a deitou no sofá, e foi recolher os pratos da mesa. Depois, pegou o corpo da sua mãe, o despiu e guardou no caixão de vidro com formol que havia sobre a cama, no quarto dela.

Quando voltou, o corpo da moça loira havia rolado do sofá para o chão, deixando-a de pernas abertas com o vestido levemente levantado. Ele ficou por algumas horas ali, admirando-a. Seus lábios estavam brancos e o sangue seco já havia manchado o sofá e o tapete.

– Você é mesmo uma danadinha. – Ele disse com um sorriso insano no rosto. – Me provocando desse jeito… – Ele continuou se ajoelhando na frente do corpo, colocando suas mãos nos joelhos dela. – Não sei se mamãe vai permitir esse tipo de coisa na sala, mas já que vamos morar juntos e ela já está dormindo, acredito que ela não vai se importar…

Na manhã seguinte, Paulo acordou assustado com um celular tocando. Era o da moça na bolsa que estava no chão. Ele quebrou o celular com um martelo e voltou a se deitar sobre o corpo frio e nu da moça, deixando a cabeça debruçada sobre os seios dela. Ele também nu, acariciava as coxas dela, enquanto olhava para o vestido amassado do outro lado da sala.

– Vamos ser muito felizes juntos meu amor…. Pode ter certeza.

 

juhliana_lopes 12-07-2016