Ezequiel

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“Não podemos confiar em nossa memória a longo prazo, pois ela já estará corrompida pela tinta da ficção”

– Frederico Felini

Sempre quis contar histórias. Sabe, quando me formei em jornalismo pensava em falar sobre coisas importantes, algo que realmente poderia fazer diferença na vida das pessoas. Contar as histórias do cotidiano, as suas personagens e situações que poderiam definir e até, quem sabe, inspirar, pois esse é o poder da mídia.

Todo aquele sonho de fazer a diferença e mudar o mundo foi para o saco quando me deparei com o maior inimigo de um sonhador: A realidade. A minha não foi tão parecida com a do sonho. O que era para ser importante, se tornou tudo o que eu mais abominava no meio jornalístico, algo que nos tempos de faculdade seria uma piada de muito mal gosto. Passei a narrar relatos de moradores da região sobre experiências sobrenaturais, mas na maioria das vezes eram só crendices que eu tinha que colocar alguma grandiloquência, o jornal tem que vender para que eu possa continuar escrevendo, nem que sejam estas histórias cheias de relatos repletos de ignorância e sensacionalismo da minha parte. Era quase sempre um exercício de criatividade que eu tinha que exercer e para ser sincero, era muito bom em inventar, porém chegou o dia em que isso não foi necessário.

Certo dia, estava procurando material para uma nova história para a minha coluna, algo que era muito comum na verdade, já que deixava diversos relatos prontos para assim, adiantar meu trabalho. Começou como uma terça feira cotidiana, onde pegava transporte público até a área rural de meu município – Note que: a área rural é sempre onde há mais material, já que os centros urbanos não possuem mais o misticismo de antes, é algo muito mais cético, contrariando a expressão “lenda urbana” – da onde geralmente retirava todo o meu material. Era uma viagem frustrante, as estradas de terra causavam desconforto a viagem inteira e os tons de marrom avermelhado tomavam conta da paisagem, assim como a completa falta de postes de iluminação e cabeamento, o que só aumentava a sensação de solidão daquele lugar atípico.

Com a situação precária da estrada, era bastante comum se ter atolamentos por ali e foi isso que aconteceu naquela manhã. Eu e alguns poucos passageiros se viram obrigados a seguir caminho a pé, e para ser sincero, até me senti aliviado em não ter que aguentar os tremores causados pela estrada de terra. Caminhar para mim, é um dos momentos de maior existencialismo e foi nessa situação que me deparei com uma figura estranha no caminho, um senhor sentado no meio da estrada – quase que em posição fetal – murmurando palavras que não pude compreender e claro, como bom jornalista senti que dali viria uma boa história.

Naquele momento me vi em um dilema: Entrevistar aquele homem poderia sim me render uma boa história, assim como também poderia me render tripas para fora.

Ali, naquele lugar, tomei coragem e me aproximei do rapaz. Ele, com roupas rasgadas, usando um cavanhaque (extremamente brega, por sinal) e cabelos ao vento. Não sabia como começar uma conversa produtiva, a única coisa realmente interessante em tal homem era sua aparência bizarra e não poderia começar uma conversa dizendo: “Hey, porque está vestido como um figurante de Thriller?”. Não, isso com certeza me renderiam boas facadas no estômago.

O interessante em se começar conversas é que o primeiro contato é o que realmente define a sua relação com a pessoa. Sempre digo para mim mesmo que com um “oi” você vira apenas mais um. Com um “olá”, a mesma coisa, só que mais formal. Não, eu não podia ser apenas mais um, precisa extrair o máximo de informação daquele pobre individuo então comecei assim:

– Bela manhã, não é mesmo?

Tudo o que veio a seguir foi um silencio enorme, o rapaz havia se calado. Era como se tivesse dito “me caguei” em um lugar lotado e ninguém desse atenção ao meu feito. Aí me dei conta, a estrada estava vazia e era tomada por uma solidão inexplicável. O ônibus já tinha sido concertado e havia partido enquanto eu tinha a minha crise existencial de como “chegar no cara”. Quando voltei minha atenção para o homem, ele estava com os olhos fixos em mim, mais assustado do que antes, praticamente em estado de choque.  O que eu estava fazendo afinal? Era muito mais fácil ignorar aquele senhor doente e seguir o meu caminho, inventar alguma história e terminar o trabalho mais cedo. De qualquer forma, mesmo sem plateia, eu precisava pelo menos terminar o que comecei, não poderia simplesmente sair andando depois de uma saudação como aquela. Então, fiz a pergunta mais idiota que alguém pode fazer:

– O senhor está bem?

Se ele fosse da cidade responderia com outra pergunta do tipo “você é cego? ” Ou “eu pareço bem para você? ”, mas ele não disse nada. Eu não sei o que me incomodava mais, aquele silêncio constante ou aqueles olhos grandes olhando diretamente aos meus. Por mais que eu desviasse o olhar, disfarçasse, lá estavam eles me encarando. “Que merda eu vim fazer? ” Era só o que eu pensava. Cada vez a situação ficava mais ridícula, e eu comecei a cogitar a real ideia de sair dali andando como se nada tivesse acontecido.

Por outro lado, meu lado bom samaritano dizia que eu não podia deixar aquele senhor sozinho naquele estado, seria ter um coração muito frio para tal feito. O sol quente começava a arder em minha pele, e a minha paciência a se esgotar. Antes que eu pudesse perder a paciência, ouvi um barulho no mato. Primeiro imaginei ser um bom ou algum outro bicho. Depois cogitei a ideia de ser algum bicho mais selvagem. Permaneci parado, observando para ver se conseguia ver de onde sairia o barulho. O velho por sua vez, finalmente se mexeu e correu para atrás de mim, se escondendo. Ele tremia feito uma criança, e começou a balbuciar as palavras de antes que continuavam a ser irreconhecíveis.

Então, saiu do mato uma bela moça de pele alva e cabelos negros. Na verdade, sua pele parecia acinzentada, mas talvez fosse o sol que estava fazendo mal para minha cabeça. Ela me olhou da cabeça aos pés, e eu não pude deixar de reparar no seu vestido rasgado, que mostrava parte da sua barriga. O velho por sua vez entrou em pânico, agarrando a minha camisa.

“Papai”, a moça disse. Ela tentou se aproximar do senhor, mas ele começou a rodar em minha volta, na direção contrária à dela. Então, eu o agarrei pelo braço. Ele ainda tremia, e estava gelado.

– Ele é seu pai mesmo? – Perguntei desconfiado, afinal, porque aquele medo todo de uma bela mulher?

– Sim. Está muito doente coitadinho. Mal de Alzheimer, nem me reconhece mais… – A moça respondeu com uma bela voz, com um tom triste.

Ela tentava pegar no braço dele, mas ele tentava se livrar do meu para correr. Tentei acalmá-lo, afinal, era só a sua filha, por mais que eu mesmo ainda não tivesse me convencido disso, de qualquer forma, eu só queria me livrar da responsabilidade.

Me vi então olhando para ela. Um corpo esguio, com curvas delicadas. Aquele vestido velho que marcava as partes certas e o cabelo solto, preto que balançava ao vento. Somente aquela pele acinzentada que ainda incomodava meus olhos, afinal, a cor padrão da roça é normalmente um bronzeado delicado que deixa a pele levemente dourada. Talvez nem na cidade tenha visto aquele tom de pele. Enquanto eu me perdia olhando para o corpo da moça, o senhor se soltou do meu braço e correu para o mato, mais rápido do que eu julgava que ele conseguia. Ela parecia decepcionada, mas agradeceu pela ajuda e foi atrás dele. Depois de ficar um tempo parado, processando toda a situação, segui meu caminho.

Na cidade o burburinho era bom. Pessoas desaparecidas, encontradas depois de alguns dias com o corpo seco e penduradas pelo pescoço com linhas de tricô. Pelo meu olhar, talvez fosse só um assassino fetichista, então pensei em procurar lendas sobre monstros que usam linhas, só para deixar a história mais curiosa. No entanto, não foi necessário.

Me instalei em um hotel naquela noite, e enquanto dormia, sonhei com a dama da pele cinza, sentada sobre mim, tirando o seu vestido. É, eu estava a muito tempo solitário e o sonho era bem agradável. Acordei assustado com gritos e choro na rua, além de sirene de polícia. Olhei pela janela e vi algumas pessoas reunidas em uma árvore. Me vesti o mais rápido possível e desci para averiguar, de repente um caso que não fosse sobrenatural pudesse me render uns trocados a mais.

Lá estava o velho da estrada, pendurado pelo pescoço e agora eu entendia o que eles queriam dizer com o corpo seco. Era como se algo tivesse sugado toda carne de seus ossos. Estava terrivelmente magro, com os olhos fundos e a boca torta. Quando abaixaram o corpo, me aproximei e vi que haviam duas marcas em sua garganta, como se fosse dois furos. Então, ouvi quando um senhor próximo de mim disse baixinho “mais um”.

– Senhor, você o conhecia? – Perguntei sem cerimônias, de uma forma até indiscreta.

– Não muito. Sabia que era caseiro de uma fazenda próxima. – Respondeu o senhor sem se importar.

– A filha dele vai ficar bem triste… – Comentei sem pensar.

– Que filha? Ele não tem família. – Respondeu o senhor curioso.

– Como não? Eu o vi na estrada hoje de manhã, estava com medo de alguma coisa, a filha dele apareceu para busca-lo.

O senhor olhava para mim como se eu fosse um maluco, mas falou mais uma vez.

– Ele não tem ninguém. A esposa foi embora com o irmão dele, mas eles nunca tiveram filhos. Como… como era essa filha que você viu? – O senhor arriscou perguntar.

– Alta, cabelo preto e pele…

– Cinza? – O senhor me interrompeu.

– Sim. Por que? – Respondi friamente. Eu não gostava muito de ser interrompido, mesmo quando a situação já estava estranha o suficiente.

O senhor mudou de comportamento. Se afastou de mim e disse que eu devia ir embora, o mais rápido possível. Talvez até naquela noite mesmo, porque a “Artesã” viria atrás de mim.

Confesso que fiquei levemente assustado. Parecia aquelas profecias e filme de terror. Em todo caso tentei buscar mais informações, mas nada produtivo. As pessoas simplesmente olhavam para minha cara e se afastavam, e eu continuava sem entender. Eu poderia noticiar como histeria coletiva com alucinações, mas aquele corpo pendurado pelo pescoço era real demais para ser só imaginação.

Procurei na internet algo sobre artesãs, e além de contatos de artesãs reais, não achei nada relevante que pudesse justificar qualquer coisa. Frustrado, pensei em ir para casa, já que dali só consegui a rejeição das pessoas, uma lição que eu devia ter aprendido faz tempo. As pessoas do interior sempre rejeitam pessoas da cidade quando suas crendices estão em “alta”, pois atribuem ao “forasteiro” a incidência do sobrenatural. Carne nova, essas coisas.

Então, resolvei voltar a dormir e aproveitar o resto de noite que ainda tinha. Ao me deitar, notei a janela aberta que estava fechada até meio segundo atrás. Na janela uma moça de pele acinzentada, seminua, com um novelo de lã na mão.

“Isso é um sonho? ” Eu pensava. Então ela se aproximou devagar, com os pés descalços, delicadamente. Sentou sobre mim, por cima dos lençóis. Senti seu corpo quente e suas mãos que procuravam meu pescoço.

Tentei levantar, acordar daquele sonho louco, mas quando ela passou o fio em meu pescoço, notei que não era um sonho. Notei também que suas pernas mudaram, não eram mais duas coxas grossas e nuas, e sim, patas como de uma aranha. Uma aranha gigante.

Eu tentei gritar, pedir ajuda, mas o ar me faltava. Ouvi quando ela disse seu nome. Aracne Artisan e ela ainda estava com fome. Meu celular tocou quando ela abriu a boca de uma forma medonha, saindo duas presas para morder meu peito. Ela se assustou e me largou. Como não viu de onde vinha o barulho, correu pela janela, indo embora.

Então, eu amanheci ali, sentado no chão com um cordão amarrado no pescoço, que eu tive uma grande dificuldade para tirar. Não atendi o celular, era uma ligação da operadora, que sem saber me salvou.

Fui embora naquele dia um pouco menos cético, percebendo que talvez o sobrenatural, não seja feito só de crendice. De qualquer forma ainda não sabia se aquilo era o sonho. No celular, nas buscas sobre artesã que eu havia feito, notei um nome e um endereço peculiar. “A. Artisan. Artesã e Costureira”. Apaguei a busca e comecei a digitar uma história qualquer sobre lobisomem. Foi muito mais saudável e ganhei os trocados de sempre.

Foram noites e mais noites sem dormir, pensando no que eu apelidei de “A criatura”. Aliás, este seria um bom título para uma boa história, esta que ainda não possuía. O jornalismo nunca foi fruto de experiências pessoais ou achismos, sempre considerei isso coisa de amadores e o meu orgulho não me deixava simplesmente inventar algo que teria desafiado minhas convicções e crenças. Porém, durante os próximos meses, comecei a acreditar que tal experiência só fosse fruto da minha mente e talvez, alguma lembrança traumática com artesãs assassinas. Não sei dizer ao certo, mas com o tempo, esqueci aquilo.

Continuava escrevendo muito, mas sem nunca sair do senso comum. Acho que com o tempo, minhas histórias foram se desgastando e já não interessava mais as pessoas. O jornal não vendia como antes, minha coluna era descartável e estava à beira de uma demissão. Eu não podia ser demitido, já tentei ingressar em outros jornais e sou motivo de piada pelo teor de minhas antigas matérias. Era uma herança maldita que eu carregava, um legado tão banal que nem o mais medíocre dos jornalistas gostariam de carregar.

Em outra manhã fria, fui chamado para uma conversa com o diretor do jornal, em particular e em sua casa, sem maneirismos ou firulas. Sim, ele iria me demitir.

Entrando na sala, percebo o diretor ali, parado em pé de frente com a mesa. Sua postura se mostrava confiante, como um bom chefe que está acostumado a ser duro com os seus empregados e demiti-los quando necessário. Ele era uma piada, um homem cujo os sonhos de ser um roteirista de filmes de Hollywood foram tomados pela fraqueza do dinheiro fácil. Ele tinha se rendido aos maneirismos da indústria e deu tudo de si para criar um veículo de comunicação baseado em mentiras. Infelizmente, eu fazia parte daquilo.

– Olá, aceita um bom whisky? – Me perguntando com um bom Johnny Walker nas mãos, com certeza ostentando poder com sua bebida cara.

– Não, obrigado. Aliás, porque não vamos direto ao ponto? Você vai me demitir aqui, né? Nesta sala, com sua bebida cara para causar certa simpatia com sua pessoa.

– Bom…Demitir bons funcionários nunca foi fácil e como você foi um funcionário importante, merecia mais do que um simples “Está demitido”. – Ele fazia seu discurso já colocando a bebida em um copo com gelo.

– Engraçado, soube que você demite todos assim.

– Nunca tive o desprazer de contratar maus funcionários. – Terminou a frase levando o copo a boca.

– Escute, sei de coisas sobre esta companhia. “Coisas” que aposto que você não gostaria que se espalhassem. – Disse em tom ameaçador, era minha tentativa desesperada de me manter naquele lugar.

Ele riu em tom irônico

– Se você acha que pode me ameaçar está muito enganado. Quem iria acreditar em um romancista genérico como você? Soube que procurou outros empregos, mas ninguém quer contratar alguém que escreve o tipo de lixo que você produz. – Fato engraçado, este “lixo” foi o carro chefe do jornal deste senhor por muito tempo.

– Eu tenho uma última história, algo que poderia levantar este jornal.

– Não! Ninguém mais acredita nos seus contos de fadas, seu farsante de merda. – Ironia era EU ser o farsante, mas tudo bem. Naquela sala, não havia ninguém digno de nota.

– Eu….eu… – lagrimas saiam dos meus olhos, não podia controlar.

Toda a minha vida passava por eles agora, todas as escolhas, de como fui acomodado e não me esforcei. Minha carreira estava acabada, com um simples telefonema aquele senhor poderia garantir que eu não fosse contratado nem para uma padaria como faxineiro e eu já o havia ameaçado. Cutuquei o leão com os dedos e estava prestes a perder as mãos, ele só não contava que eu era um dragão.

– Eu quero que você se foda – Fiz isso retirando uma pistola da cintura.

– O que é isso? Você está ficando maluco? – Alarmado, é claro. Adorava o ver naquela posição assustada.

– Você gosta muito de cinema, né? – Perguntei.

– O que isso tem a ver? Abaixe isto! – Ele estava com as mãos sobre o rosto.

– Tenha calma e responda à pergunta. Você gosta de filmes, né? – Perguntava sempre apontando o revolver para o seu rosto.

-Sim… – Em tom mais abaixo.

– Tudo bem, mas e a bíblia, você lê?

– Não tenho o costume, mas sim, já li. – Ele parecia mais calmo com a minha fala mansa.

– Há uma passagem que eu memorizei, que parece oportuna para esta situação: Ezequiel 25:17. “O caminho do justo está cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos perversos. Bendito é aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, pastoreia os fracos pelo vale das trevas, pois ele é verdadeiramente o protetor de seus irmãos e o salvador dos filhos perdidos. E eu atacarei com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: meu nome é o Senhor quando minha vingança cair sobre ti!”.

Pulp… – Interrompi sua fala com dois tiros em sua garganta.

 

Perdurei seu corpo e sai daquele lugar, em conflito de consciência.

Mais tarde, escrevi sobre a Artesã e seus assassinatos medonhos.  Uma mulher de pele cinzenta que secava o corpo de suas vítimas e lhes deixava uma marca de dois furos no pescoço. Coincidência ou não, o jornal realmente pode influenciar as massas.

 

29-06-2016 juhliana_lopes e Leonardo de Paula.

 

Quer conhecer mais sobre a Artesã? 

Clique aqui e aqui

E para conhecer mais sobre o trabalho do Léo, é só ver as resenhas dele aqui.

 

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Quem é o assassino? #6

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– Nunca vai esquecer o lance das carteiras, não é? – Isaque disse, quase como um pedido de desculpas.

– Não, mas foi por causa disso que te contratei, então não precisa se preocupar, aliás, não andou pegando carteiras daqui, não é? – Adam perguntou com um sorriso sarcástico.

– Não senhor. Só quando estão do lado de fora, como me recomendou. Agora se me der licença…

– Claro, pode ir. Muito obrigado pelas informações. Se quiser, pode ficar o resto do dia de folga, você merece. – Disse Adam, que precisava de um tempo sozinho para analisar tudo aquilo.

– Se você acha, muito obrigado. – Disse Isaque saindo da sala.

Anne estava sentada com Manoela quando viu Isaque passar apressado. Ela normalmente não perdia tempo reparando em pessoas aleatórias, mas percebeu que ele tinha algo diferente. De qualquer forma preferiu não se envolver e ficou perdida nos seus pensamentos. Tão perdida que não percebeu a pergunta de Manoela.

– O que você acha? – Manoela esperava a resposta ansiosa.

– Desculpa, eu não prestei atenção. – Anne se concentrou nela.

– Sobre o Liam, Anne. Você acha que eu tenho chance?

– Sinceramente? Eu não sei Manu. Ele é sempre tão seguro de si, não sei se ele ficaria frágil por estar gostando de alguém. – Anne respondeu um pouco desinteressada.

– Mas ele pode ter mudado. Ele pode estar diferente porque é verdadeiro. Ele é tão educado, e bonito, e parece ser tão gentil, inteligente… – dizia Manoela com cara de sonhadora.

– Bem, não custa tentar, não é? – Respondeu Anne se levantando. – Eu vou aproveitar que ainda tenho um tempo e vou ler um pouco. Você pode aproveitar e procurar o Liam.

Anne saiu da mesa onde estava sentada com Manoela, e foi para o seu armário pegar seu livro. Quando passou pelo corredor, ouviu Adam chamando. Ele não falava muito com os funcionários fora das reuniões, mas mesmo assim ela o seguiu até a sala dele e ficou mais desconfiada quando ele trancou a porta assim que ela passou.

– Algum problema? – Ela perguntou antes de se sentar.

– Ainda não. Fique à vontade. – Ele respondeu indicando a cadeira. – Você é uma das funcionárias mais antigas daqui. Uma das mais dedicadas também. Gostaria só de saber algumas coisas.

Ela se ajeitou na cadeira para ouvi-lo melhor. Não falou nada, apenas esperou que ele continuasse.

– Bem, o que você sabe sobre o Boris? – Adam parecia levemente nervoso, por mais que tentasse disfarçar isso.

– Boris é seu sócio. – Ela começou. – E foi o sócio do seu tio. Havia uma relação de confiança entre eles. Sei que ele é organizado com suas coisas e costuma ser bem exigente com tudo. Nunca fui próxima dele no meu cargo, então não sei dizer muito.

– Ele tem alguma amizade mais próxima aqui na empresa?

Anne percebeu então o que estava acontecendo. Foi cautelosa, afinal, sabia muito bem o que poderia acontecer depois.

– Nunca o vi com amigos. Talvez Liam, mas ele é amigo de todo mundo. Acho que a Lara também, mas não tenho certeza.

– Tudo bem. – Respondeu Adam pensativo. Não conseguiria arrancar nada dela realmente. Talvez fosse melhor investir em outro. – Está liberada, obrigado pela conversa. – Ele disse levantando e destrancando a porta. – Se possível…

– Manter essa conversa entre nós. – Ela o interrompeu. – Não se preocupe. Com licença. – Ela disse abaixando a cabeça e saindo da sala depressa. Infelizmente, depois de passar pelo corredor, que dava acesso a sala de Adam, encontrou Liam saindo da sala de Boris.

– Você está aí a muito tempo? – Liam perguntou com frieza.

– Acabei de chegar. – Anne respondeu com a voz pesada.

– Então eu não te vi. – Ele disse a encarando.

– Eu também não. – Ela respondeu seguindo o seu caminho.

Liam estava levemente preocupado. O que começou com a tortuosa “hora de amor” de todos os dias, acabou com Boris paranoico com seus documentos. De certa forma estava aliviado pois, pelo menos não teve que terminar o serviço. O contraponto é que agora Boris poderia descontar a raiva nele, e ele não estava com muita disposição. Para esquecer os problemas, aproveitou que a maioria das pessoas ainda estava no horário de almoço e chamou Lara, uma funcionária nova, loira e muito bonita para uma reunião particular em sua sala, mas antes que pudesse aproveitar, precisou conter os hormônios femininos em fúria, pois Manoela o flagrou aos beijos com a loira. Por sorte, conseguiu conter as duas antes de um escândalo e no fim, não ficou com nenhuma das duas, se trancando em sua sala.

O que Adam poderia estar tramando, era só o que Liam pensava. Ele também tentava achar formas e brechas para se aproximar dele, mas com aquele garoto novo trabalhando diretamente com ele, era muito mais difícil. Depois de pensar um pouco mais, arquitetou uma estratégia boba que poderia resolver parte dos seus problemas.

– Boris, meu senhor. – Liam entrou falando com uma voz mansa.

– O que você quer Liam… – Boris respondeu cansado.

– Isaque… com certeza foi o Isaque que pegou os documentos.

– Como assim Liam? – Boris perguntou surpreso.

– É só pensar. Ele é novo, quer ganhar pontos com o patrão. Ele deve ter visto uma oportunidade de chamar atenção e aproveitou.

– Aquele filho da…

– Precisamos dar um jeito nele… – Liam disse pensativo.

– Liam, você acha que poderia dar um susto nele? – Boris perguntou cauteloso.

– Que tipo de susto senhor? – Liam perguntou curioso.

– Bem, eu tenho uma arma. Você poderia surpreendê-lo sozinho e…

– Não senhor! Isso é muito perigoso! – Respondeu Liam, parecendo surpreso com a proposta, mas no fundo era exatamente esse tipo de reação que ele esperava de Boris.

– Eu entendo. – Boris respondeu frustrado. – Então, eu mesmo farei.

– Não senhor, não faça isso… – Liam disse em tom preocupado, segurando suas mãos. – Prometa para mim que não fará uma besteira!

– Tudo bem Liam… – respondeu Boris disfarçando. – Você tem razão. É arriscado. Vou pensar em outra coisa. – Boris tranquilizou Liam. A verdade é que ele não iria desistir, mas não envolveria ele nisso.

No dia seguinte, os funcionários foram surpreendidos pela morte de um funcionário. Na verdade, Lara, a moça nova foi encontrada morta no fim da escada. Tudo indicava que ela havia sido empurrada e como a escada é longa, não suportou as fraturas que ganhou com a queda, falecendo na mesma hora. A responsável logo foi encontrada no estoque, escondida e completamente alterada. Manoela parecia estar sob efeito de drogas e só conseguia repetir que Liam seria dela de qualquer jeito. Quando ele chegou depois, horrorizado com a notícia foi prestar depoimento. Um pouco mais tarde, retornando a empresa, viu Anne saindo do carro de Isaque, entrando com ele na empresa. Na hora, não deu tanta atenção, mas quando entrou na sala de Boris, encarando toda a sua raiva, percebeu que talvez devesse considerar mais uma pessoa que deveria entrar na lista de “desaparecidos”.

juhliana_lopes 23-05-2016

Olhar atrevido

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No começo foi meio sem querer.

Eu estava ocupado e então reparei no seu olhar.

Por alguns segundos me vi perdido naquele rosto,

E seus cabelos esvoaçantes me enfeitiçaram.

Então, o encanto se perdeu e eu voltei aos meus afazeres,

E quando terminei, não a vi mais.

Então, um outro dia, esbarrei com ela sem querer na rua.

Novamente me vi preso naquele olhar,

Pude reparar também em sua pele e suas mãos delicadas.

Com um sorriso lindo e encantador, me pediu desculpas.

Eu só conseguia sorrir de volta, desejando-a para mim.

Então, sem motivo qualquer ela achou meu endereço,

Bateu a minha porta me oferecendo um presente.

Na mesma hora a convidei para entrar, esquecendo-me de todos os compromissos.

Ela era linda, mais linda que uma fada ou um anjo.

Delicada e educada, sentou-se em meu sofá e me observava com atenção.

Minha vontade era toma-la em meus braços,

Fazê-la mulher e me tornar seu homem,

Mas eu precisava me conter.

Quando ela foi embora, depois de uma agradável conversa,

Me dei conta de todos que deixei na mão,

E um por um, me desculpei, mas sem deixar de pensar na bela dama.

Hoje, acordei com seu sorriso.

No início pensei estar sonhando, mas então me dei conta

De que ela estava realmente em cima de mim.

Seminua e com um olhar travesso, tão perto do meu.

Eu deveria perguntar como ela entrou ali,

E porque estava fazendo aquilo,

Mas perdi a concentração com seus lábios tão perto dos meus.

Aqueles olhos grandes e atrevidos, e o sorriso sacana,

Aquele corpo alvo com curvas perfeitas,

Me convidavam para um dia delicioso, que aceitei de bom grado.

Ela era minha dona, minha amante, meu amor.

Eu era seu servo, seu rei, seu devoto.

No meu telefone, várias chamadas perdidas e mensagens urgentes.

Na minha cama, lençóis amassados e um sono tranquilo.

Desculpe-me mais uma vez meus amigos,

Mas a preguiça me seduziu mais uma vez.

 

juhliana_lopes 17-06-2016