Menino

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Nunca se viu um menino tão apegado com alguém como Alex era com seu avô. Desde muito novo, eles tinham uma conexão especial, e por vezes o menino declarava com um sorriso no rosto que gostava mais dele do que de seus próprios pais. Eles brincavam de tudo que a idade do senhor permitia, e quando este se cansava, Alex se sentava ao seu lado, paciente. Seria só mais uma história fofa e familiar, se o peso da idade não fosse cruel e com ele um acidente não tivesse ocorrido.

O avô e o menino brincavam na varanda, até que após um grande estrondo, a mãe percebeu que seu pai tinha caído da escada e Alex estava no alto, chorando sem saber o que fazer. O senhor, com o pescoço quebrado, e o sangue escorrendo da boca, não estava em uma posição que favorecesse os sonhos do garoto, e desde então ele ficou muito quieto. O garoto teve muitos pesadelos, gritava durante quase todas as noites e se recusava dormir com os pais. Falava coisas estranhas como se o avô ainda estivesse com ele, mas mesmo assim não conseguia se animar para nada.

Após dois meses, seus pais se dividiam nas opiniões. Pelo pai, era preciso levá-lo a igreja frequentemente, para estar mais próximo de Deus, e entender que apesar da fatalidade, seu querido avô estava em um lugar melhor, olhando por ele. Além disso, lá poderia ter outras crianças, e ele iria brincar e se distrair com elas. Já a mãe, achava que deveriam procurar a ajuda de um médico e um psicólogo, pois todo o quadro dele indicava uma depressão severa. Para melhorar seus argumentos, o menino também passou a passar mal algumas vezes durante a noite, sufocando sozinho. Toda vez que a mãe desesperada levava seu filho para o hospital, aumentava os argumentos para uma busca mais clínica.

No terceiro mês, Alex começou a frequentar a igreja nos encontros de catequese. Para a sorte do pai do menino, o padre que tomava conta das crianças, também era psicólogo, e após saber de toda a história, passou a prestar mais atenção no garoto para ajuda-lo da melhor forma.

Alex tinha dificuldade para se relacionar com as crianças, e não se sentia à vontade para brincar de nada, nem mesmo sozinho. Mal respondia às perguntas que faziam, e quando resolvia falar alguma coisa, as outras crianças ficavam com medo. Além da voz vazia, ele falava coisas sobre alguém ir lhes buscar, da mesma forma como buscaram seu avô.

– Bem, Sr. e Sra. Pena… – Ele começou – Acredito que o caso do Alex seja mais grave do que eu pensei.

Os pais se olhavam apreensivos. O padre estava com uma expressão pesada e parecia escolher bem as palavras antes de falar.

– Do ponto de vista clínico… – Ele os olhou com uma leve pausa – Ele está com um quadro depressivo bem desenvolvido, com todo seu isolamento, e principalmente na perda de vontade em fazer as coisas que mais gostava. Apesar disso, ele não apresentou nenhuma incidência suicida…

– Graças a Deus – o pai de Alex interrompeu.

– Ainda. – O padre continuou, sério. – Ele é um menino bom, mas seu quadro está o deixando cada vez mais distante de todos. Além disso, ele anda aparecendo com umas marcas roxas no pescoço…

– Eu disse para você! – Condenou a mãe do garoto, olhando para o pai. – Eu tenho passado ele no médico algumas vezes. Ele tem se sufocado a noite as vezes, mas ninguém conseguiu descobrir ainda como isso acontece. Um médico até insinuou que ele estivesse fazendo isso com o próprio lençol.

– Quantas vezes isso já aconteceu? – Perguntou o padre curioso.

– Pelo menos umas nove vezes, quase sempre depois de eu ir dar um beijo de boa noite nele. Quando os médicos disseram que ele poderia estar se sufocando com o lençol, eu cogitei a ideia de ele estar fazendo isso para chamar minha atenção e ficar mais com ele. – Respondeu a mãe com lágrimas nos olhos.

– Bem, se for esse o caso, é preciso estar mais atento ainda. Talvez as tendências suicidas estejam se desenvolvendo as escondidas.

– Mas padre… – suplicou o pai – E as crianças? Elas não tentam brincar com o Alex? Talvez se você falasse com elas…

– Sr. Pena, ultimamente as crianças andam com medo do Alex. – O padre falou cauteloso.

– Como assim padre? – O pai do garoto perguntou incrédulo.

– Bem, esse é o ponto religioso. Algumas crianças reclamaram que Alex anda falando coisas estranhas, e com uma voz estranha. Dizem que ele as assustam com gritos e fala coisas pesadas sobre elas caírem das escadas, e que ele mesmo vai buscá-las caso não parem de enchê-lo.

– Meu Deus… – disse o pai incrédulo com a mão sobre a boca. – Meu filho está possuído!

– Ah, por favor Thomas… – desdenhou a mulher.

– Senhor Pena, não estou afirmando nada. As crianças se impressionam com pouca coisa, do ponto de vista clínico, essa pode ser só uma resposta para que elas se afastem e…

– E do ponto de vista de Deus? Hein? – Perguntou o pai alterado. – Eu não te procurei para ficar me falando sobre a medicina e todas as desculpas que ela tem para coisas sérias! Para isso eu já tenho minha esposa ateia hipocondríaca que não sai do hospital!

– Thomas! – Gritou a mulher.

– Cala a boca Agatha. – Respondeu o pai sério para a mulher. Ela não disse mais nada, pois nunca o viu agir daquela forma. – O senhor é uma farsa como padre, como pude ser tão cego. Invés de ajudar meu filho com as suas orações, fica fazendo suas análises. Invés de trazê-lo para junto de Deus, o distancia, permitindo que o inimigo haja sobre o corpo dele. Eu não vou mais permitir isso! Vou leva-lo agora a um seminário, lá, ele vai ter contato com Deus de verdade!

Alex estava sentando no último banco da igreja, olhando para o chão quando seu pai saiu da Sacristia batendo o pé e falando alto. Ele levantou os olhos assustado, e viu sua mãe correndo atrás dele, e o padre tentando remediar a situação. Seu pai se aproximou e o puxou pelo braço, o arrastando para fora da igreja. O menino, tentou se livrar do pai que apertava seu pequeno braço com força. A mãe então interveio, conseguindo livrar Alex dos braços de Thomas, mas em contrapartida, acabou se desequilibrando e rolando a escadaria até a calçada.

O marido assustado, esqueceu do menino e correu para socorrer a mulher que não havia se machucado gravemente. O padre acolheu o menino em um abraço que chorava soluçando, depois de ver a mãe se machucar.

– Padre, por favor, cuida do Alex – Thomas suplicou, quase em tom choroso. – Vou leva-la para o hospital.

– Thomas, eu estou bem… – disse a mulher com um tom de voz fraco e sem conseguir se levantar.

O marido pegou a esposa no colo e a colocou com cuidado no carro. Arrancou em seguida enquanto Alex, calado observava. O padre passou a mão na cabeça do menino e o convidou para entrar.

– Está com fome Alex? Vamos fazer um lanche? – Perguntou o padre com um tom amigável. A expressão do menino era sombria, mas ele acompanhou o padre sem questionar.

Durante o lanche, o padre resolveu olhar melhor as marcas no pescoço do menino. Enquanto ele comia em silêncio, resolveu perguntar.

– Alex, o que são essas marcas no seu pescoço?

O menino mastigava, sem sequer olhar para o padre. Quando parecia que ia responder, ele dava uma nova mordida no pão e voltava a mastigar, olhando para o chão.

– Alex, eu quero te ajudar. Você está se machucando?

O menino então, parou de mastigar e começou a falar. Além de falar sobre as marcas, falou sobre seus pesadelos e as vezes que foi para o hospital. Quando Thomas ligou, o padre pegou o endereço do hospital e foi com o menino para lá. Era preciso conversar com todos.

– Olá Agatha, se sente melhor? – O padre começou.

– Sim padre. Foram só algumas pancadas, mas nenhuma fratura. Por que tudo isso? – Perguntou a mãe desconfiada.

– Bem, eu vou falar de uma vez, e como imagino que isso pode trazer mais conflitos – disse o padre olhando em volta – pedi para o médico que está cuidando de você e os enfermeiros para estarem juntos. Eu descobri sobre as marcas do Alex.

Nesta hora Thomas olhava aflito para o padre, enquanto Agatha ficava pálida.

– Thomas, sua própria esposa provocava o sufocamento no menino. Ele me contou. Estranhei pelo fato dela sempre estar presente quando isso ocorria. Acredito que ela tenha o que chamamos de síndrome de Münchausen. – O padre tentava explicar rapidamente percebendo a fúria de Thomas tomando conta do homem. – Nesta síndrome, a mãe de forma intencional, provoca sintomas em seu filho, para que ele seja considerado doente, e tenha cuidados médicos, colocando a vítima geralmente em situação de risco. É compulsivo e muitas vezes é difícil se livrar desse comportamento, mesmo depois de se tomar conhecimento dele, por isso…

– Sua vaca! – Interrompeu Thomas, tentando asfixiar a mulher. Os enfermeiros interviram na hora segurando o homem enlouquecido. A mulher, chorava tentando se explicar.

– Eu não fiz por mal… – Ela dizia enquanto soluçava. – Ele precisava de cuidados, e você não entendia, se fosse algo mais grave você iria perceber…

– Por favor, parem com isso. Alex esta lá fora, vai estranhar essa gritaria. – Tentou acalmar o padre. – Doutor, eu já lhe expliquei o caso antes de vir aqui, por favor cuide deles, eu vou olhar o menino. – Disse o padre, deixando o médico tomando conta da situação enquanto ia ver o estado de Alex.

Alex não estava no corredor, mas sim sentado no canto de um degrau no alto da escada. O padre, sentou do lado dele, com o braço sobre seus ombros.

– Vai ficar tudo bem Alex. Eu vou te ajudar. – Disse o padre consolando o menino.

– Tudo bem. – O menino respondeu enxugando as lágrimas. – Mas não sei se você terá tempo.

O padre estranhando as palavras do menino, perguntou sobre o que ele estava falando. O menino então se levantou, pedindo um abraço. O padre, o abraçou sem se levantar, e pode ouvir o menino sussurrar em seu ouvido.

– Você não tem mais tempo. Primeiro eu busquei o avô, agora você. Depois será o pai e por último a mãe. – A voz do menino estava alterada, carregada como se fosse mais velha. Antes que ele pudesse olhar o rosto de Alex, o padre sentiu o garoto o empurrando com uma força anormal. Ele perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo, batendo a cabeça repetidas vezes na quina dos degraus, falecendo logo depois.

O menino, voltou a se sentar no degrau, com um sorriso no rosto e os olhos negros olhando para o chão.

juhliana_lopes 28-05-2016

Sugestão do tema: Leonardo de Paula

Referências: Sobre a síndrome de Münchausen (clique aqui)

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