Menino

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Nunca se viu um menino tão apegado com alguém como Alex era com seu avô. Desde muito novo, eles tinham uma conexão especial, e por vezes o menino declarava com um sorriso no rosto que gostava mais dele do que de seus próprios pais. Eles brincavam de tudo que a idade do senhor permitia, e quando este se cansava, Alex se sentava ao seu lado, paciente. Seria só mais uma história fofa e familiar, se o peso da idade não fosse cruel e com ele um acidente não tivesse ocorrido.

O avô e o menino brincavam na varanda, até que após um grande estrondo, a mãe percebeu que seu pai tinha caído da escada e Alex estava no alto, chorando sem saber o que fazer. O senhor, com o pescoço quebrado, e o sangue escorrendo da boca, não estava em uma posição que favorecesse os sonhos do garoto, e desde então ele ficou muito quieto. O garoto teve muitos pesadelos, gritava durante quase todas as noites e se recusava dormir com os pais. Falava coisas estranhas como se o avô ainda estivesse com ele, mas mesmo assim não conseguia se animar para nada.

Após dois meses, seus pais se dividiam nas opiniões. Pelo pai, era preciso levá-lo a igreja frequentemente, para estar mais próximo de Deus, e entender que apesar da fatalidade, seu querido avô estava em um lugar melhor, olhando por ele. Além disso, lá poderia ter outras crianças, e ele iria brincar e se distrair com elas. Já a mãe, achava que deveriam procurar a ajuda de um médico e um psicólogo, pois todo o quadro dele indicava uma depressão severa. Para melhorar seus argumentos, o menino também passou a passar mal algumas vezes durante a noite, sufocando sozinho. Toda vez que a mãe desesperada levava seu filho para o hospital, aumentava os argumentos para uma busca mais clínica.

No terceiro mês, Alex começou a frequentar a igreja nos encontros de catequese. Para a sorte do pai do menino, o padre que tomava conta das crianças, também era psicólogo, e após saber de toda a história, passou a prestar mais atenção no garoto para ajuda-lo da melhor forma.

Alex tinha dificuldade para se relacionar com as crianças, e não se sentia à vontade para brincar de nada, nem mesmo sozinho. Mal respondia às perguntas que faziam, e quando resolvia falar alguma coisa, as outras crianças ficavam com medo. Além da voz vazia, ele falava coisas sobre alguém ir lhes buscar, da mesma forma como buscaram seu avô.

– Bem, Sr. e Sra. Pena… – Ele começou – Acredito que o caso do Alex seja mais grave do que eu pensei.

Os pais se olhavam apreensivos. O padre estava com uma expressão pesada e parecia escolher bem as palavras antes de falar.

– Do ponto de vista clínico… – Ele os olhou com uma leve pausa – Ele está com um quadro depressivo bem desenvolvido, com todo seu isolamento, e principalmente na perda de vontade em fazer as coisas que mais gostava. Apesar disso, ele não apresentou nenhuma incidência suicida…

– Graças a Deus – o pai de Alex interrompeu.

– Ainda. – O padre continuou, sério. – Ele é um menino bom, mas seu quadro está o deixando cada vez mais distante de todos. Além disso, ele anda aparecendo com umas marcas roxas no pescoço…

– Eu disse para você! – Condenou a mãe do garoto, olhando para o pai. – Eu tenho passado ele no médico algumas vezes. Ele tem se sufocado a noite as vezes, mas ninguém conseguiu descobrir ainda como isso acontece. Um médico até insinuou que ele estivesse fazendo isso com o próprio lençol.

– Quantas vezes isso já aconteceu? – Perguntou o padre curioso.

– Pelo menos umas nove vezes, quase sempre depois de eu ir dar um beijo de boa noite nele. Quando os médicos disseram que ele poderia estar se sufocando com o lençol, eu cogitei a ideia de ele estar fazendo isso para chamar minha atenção e ficar mais com ele. – Respondeu a mãe com lágrimas nos olhos.

– Bem, se for esse o caso, é preciso estar mais atento ainda. Talvez as tendências suicidas estejam se desenvolvendo as escondidas.

– Mas padre… – suplicou o pai – E as crianças? Elas não tentam brincar com o Alex? Talvez se você falasse com elas…

– Sr. Pena, ultimamente as crianças andam com medo do Alex. – O padre falou cauteloso.

– Como assim padre? – O pai do garoto perguntou incrédulo.

– Bem, esse é o ponto religioso. Algumas crianças reclamaram que Alex anda falando coisas estranhas, e com uma voz estranha. Dizem que ele as assustam com gritos e fala coisas pesadas sobre elas caírem das escadas, e que ele mesmo vai buscá-las caso não parem de enchê-lo.

– Meu Deus… – disse o pai incrédulo com a mão sobre a boca. – Meu filho está possuído!

– Ah, por favor Thomas… – desdenhou a mulher.

– Senhor Pena, não estou afirmando nada. As crianças se impressionam com pouca coisa, do ponto de vista clínico, essa pode ser só uma resposta para que elas se afastem e…

– E do ponto de vista de Deus? Hein? – Perguntou o pai alterado. – Eu não te procurei para ficar me falando sobre a medicina e todas as desculpas que ela tem para coisas sérias! Para isso eu já tenho minha esposa ateia hipocondríaca que não sai do hospital!

– Thomas! – Gritou a mulher.

– Cala a boca Agatha. – Respondeu o pai sério para a mulher. Ela não disse mais nada, pois nunca o viu agir daquela forma. – O senhor é uma farsa como padre, como pude ser tão cego. Invés de ajudar meu filho com as suas orações, fica fazendo suas análises. Invés de trazê-lo para junto de Deus, o distancia, permitindo que o inimigo haja sobre o corpo dele. Eu não vou mais permitir isso! Vou leva-lo agora a um seminário, lá, ele vai ter contato com Deus de verdade!

Alex estava sentando no último banco da igreja, olhando para o chão quando seu pai saiu da Sacristia batendo o pé e falando alto. Ele levantou os olhos assustado, e viu sua mãe correndo atrás dele, e o padre tentando remediar a situação. Seu pai se aproximou e o puxou pelo braço, o arrastando para fora da igreja. O menino, tentou se livrar do pai que apertava seu pequeno braço com força. A mãe então interveio, conseguindo livrar Alex dos braços de Thomas, mas em contrapartida, acabou se desequilibrando e rolando a escadaria até a calçada.

O marido assustado, esqueceu do menino e correu para socorrer a mulher que não havia se machucado gravemente. O padre acolheu o menino em um abraço que chorava soluçando, depois de ver a mãe se machucar.

– Padre, por favor, cuida do Alex – Thomas suplicou, quase em tom choroso. – Vou leva-la para o hospital.

– Thomas, eu estou bem… – disse a mulher com um tom de voz fraco e sem conseguir se levantar.

O marido pegou a esposa no colo e a colocou com cuidado no carro. Arrancou em seguida enquanto Alex, calado observava. O padre passou a mão na cabeça do menino e o convidou para entrar.

– Está com fome Alex? Vamos fazer um lanche? – Perguntou o padre com um tom amigável. A expressão do menino era sombria, mas ele acompanhou o padre sem questionar.

Durante o lanche, o padre resolveu olhar melhor as marcas no pescoço do menino. Enquanto ele comia em silêncio, resolveu perguntar.

– Alex, o que são essas marcas no seu pescoço?

O menino mastigava, sem sequer olhar para o padre. Quando parecia que ia responder, ele dava uma nova mordida no pão e voltava a mastigar, olhando para o chão.

– Alex, eu quero te ajudar. Você está se machucando?

O menino então, parou de mastigar e começou a falar. Além de falar sobre as marcas, falou sobre seus pesadelos e as vezes que foi para o hospital. Quando Thomas ligou, o padre pegou o endereço do hospital e foi com o menino para lá. Era preciso conversar com todos.

– Olá Agatha, se sente melhor? – O padre começou.

– Sim padre. Foram só algumas pancadas, mas nenhuma fratura. Por que tudo isso? – Perguntou a mãe desconfiada.

– Bem, eu vou falar de uma vez, e como imagino que isso pode trazer mais conflitos – disse o padre olhando em volta – pedi para o médico que está cuidando de você e os enfermeiros para estarem juntos. Eu descobri sobre as marcas do Alex.

Nesta hora Thomas olhava aflito para o padre, enquanto Agatha ficava pálida.

– Thomas, sua própria esposa provocava o sufocamento no menino. Ele me contou. Estranhei pelo fato dela sempre estar presente quando isso ocorria. Acredito que ela tenha o que chamamos de síndrome de Münchausen. – O padre tentava explicar rapidamente percebendo a fúria de Thomas tomando conta do homem. – Nesta síndrome, a mãe de forma intencional, provoca sintomas em seu filho, para que ele seja considerado doente, e tenha cuidados médicos, colocando a vítima geralmente em situação de risco. É compulsivo e muitas vezes é difícil se livrar desse comportamento, mesmo depois de se tomar conhecimento dele, por isso…

– Sua vaca! – Interrompeu Thomas, tentando asfixiar a mulher. Os enfermeiros interviram na hora segurando o homem enlouquecido. A mulher, chorava tentando se explicar.

– Eu não fiz por mal… – Ela dizia enquanto soluçava. – Ele precisava de cuidados, e você não entendia, se fosse algo mais grave você iria perceber…

– Por favor, parem com isso. Alex esta lá fora, vai estranhar essa gritaria. – Tentou acalmar o padre. – Doutor, eu já lhe expliquei o caso antes de vir aqui, por favor cuide deles, eu vou olhar o menino. – Disse o padre, deixando o médico tomando conta da situação enquanto ia ver o estado de Alex.

Alex não estava no corredor, mas sim sentado no canto de um degrau no alto da escada. O padre, sentou do lado dele, com o braço sobre seus ombros.

– Vai ficar tudo bem Alex. Eu vou te ajudar. – Disse o padre consolando o menino.

– Tudo bem. – O menino respondeu enxugando as lágrimas. – Mas não sei se você terá tempo.

O padre estranhando as palavras do menino, perguntou sobre o que ele estava falando. O menino então se levantou, pedindo um abraço. O padre, o abraçou sem se levantar, e pode ouvir o menino sussurrar em seu ouvido.

– Você não tem mais tempo. Primeiro eu busquei o avô, agora você. Depois será o pai e por último a mãe. – A voz do menino estava alterada, carregada como se fosse mais velha. Antes que ele pudesse olhar o rosto de Alex, o padre sentiu o garoto o empurrando com uma força anormal. Ele perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo, batendo a cabeça repetidas vezes na quina dos degraus, falecendo logo depois.

O menino, voltou a se sentar no degrau, com um sorriso no rosto e os olhos negros olhando para o chão.

juhliana_lopes 28-05-2016

Sugestão do tema: Leonardo de Paula

Referências: Sobre a síndrome de Münchausen (clique aqui)

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Quem é o assassino? #5

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Se passaram dois meses. Para alguns, os dias passaram voando, enquanto para outros o tempo se arrastou. Adam estava se saindo muito bem na sua administração, para o desespero de Boris. Nem mesmo os comentários ácidos e venenosos que Boris pediu para Liam espalhar estavam funcionando. De toda forma, Liam era o grande responsável por isso, pois viu ali uma oportunidade de ganhar a confiança do novo chefe, sem precisar descer mais ao nível onde ele estava com Boris.

Adam contratou Isaque, um rapaz alto de cabelos curtos e elegante que o ajudava a organizar sua agenda, além dos documentos importantes das duas empresas, e com isso, Boris não tinha mais tanto acesso como tinha no tempo de Leo. Isaque era discreto e educado, da mesma forma que Adam, que mantinha um bom relacionamento com os outros funcionários, evitando o assédio feminino por parte de algumas funcionárias. Por um momento Liam se sentiu enciumado, pois os olhos claros do rapaz estavam chamando mais atenção do que ele, mas não permitiu que isso o atrapalhasse. Após uma semana da chegada de Isaque, Manoela foi contratada e começou a trabalhar junto com Anne. As duas agora eram responsáveis pelo marketing e pela captação de novos clientes, e estavam indo muito bem em suas funções.

Apesar dos resultados positivos, Adam estava preocupado, pois alguns números ainda não batiam e por mais pequenos que fossem, podiam levar a uma diferença enorme mais tarde. Ele estava perdido em seus pensamentos quando Isaque entrou em sua sala sem bater.

– Senhor, desculpe entrar assim…

– O que foi Isaque? – Adam respondeu se inclinando para frente. Isaque sentou organizando os papéis em sua mão. Engoliu um pouco de saliva antes de falar, enquanto encarava o olhar frio de Adam. Ele era uma ótima pessoa, mas suas feições as vezes o assustavam. Ele era aquele tipo de cara que tinha um olhar perdido e uma expressão de quem vai matar um a qualquer momento se ficar chateado. Isaque antes achava que estava sempre fazendo algo errado, ou que ele lhe julgava pelo seu descuido no passado, mas depois percebeu que Adam nascera com aquela expressão e sempre a tinha, mesmo sem ser sua intenção.

– Encontrei algumas coisas, achei que talvez fosse interessante para você.

– Fale logo.

– Bem… – Ele respirou fundo. – Eu estava por acaso andando pelas salas enquanto o pessoal estava no horário de almoço, e quando eu digo por acaso é por acaso mesmo, pois eu estava deixando os convites para a nossa ação social naquele orfanato que nós patrocinamos, e vi algo interessante na sala de Boris.

– Uma carteira nova? – Respondeu Adam com um sorriso de canto.

– Não senhor… – respondeu Isaque um pouco envergonhado. – Vi esses papéis. Documentos muito parecidos com o que vimos hoje de manhã, mas com diferenças de valores…

– Deixe-me ver isso. – Adam pegou os papéis. Era os mesmos documentos com os quais ficou preocupado desde o começo da semana. Documentos que possuíam números que faziam muito mais sentido e deixavam algumas coisas evidentes. – Você tirou esses papéis de lá? É melhor colocar de volta, ele pode reparar.

– Ele não vai reparar, afinal, eu tirei algumas cópias e deixei lá, exatamente no mesmo lugar. Ninguém me viu sair, pode ficar tranquilo. – Respondeu Isaque confiante.

– Sei que ninguém te viu. Conheço suas habilidades.

– Nunca vai esquecer o lance das carteiras, não é? – Isaque disse, quase como um pedido de desculpas.

– Não, mas foi por causa disso que te contratei, então não precisa se preocupar, aliás, não andou pegando carteiras daqui, não é? – Adam perguntou com um sorriso sarcástico.

– Não senhor. Só quando estão do lado de fora, como me recomendou. Agora se me der licença…

– Claro, pode ir. Muito obrigado pelas informações. Se quiser, pode ficar o resto do dia de folga, você merece. – Disse Adam, que precisava de um tempo sozinho para analisar tudo aquilo.

– Se você acha, muito obrigado. – Disse Isaque saindo da sala.

Enquanto arrumada suas coisas para sair, Isaque pensou em aproveitar para passar novamente na sala de Boris, afinal ele realmente tinha uma carteira nova muito atraente, porém quando se aproximou percebeu que ele já estava na sala, mas, pôde ouvir algo a mais. Da mesma forma discreta que se aproximou, se afastou sem ser visto. Então, ele foi para o refeitório e quando passou por uma das mesas, ouviu as moças comentando: “Onde será que Liam está? Quem será a vadia de sorte que está com ele desta vez?”. Rindo, Isaque foi para a sua mesa pensando: “Vadia… Se elas soubessem…” E logo se pegou rindo sozinho.

No dia seguinte, Isaque encontrou um bilhete no seu armário. Com uma letra forçada para não ser reconhecia dizia apenas “Cuidado”. Amassou o papel com uma mão e guardou no seu bolso. Estava cedo e a maioria do pessoal ainda não havia chego, e depois daquele bilhete, ele percebeu que havia um silêncio perturbador no vestiário. Então fechou o armário e se virou devagar, levando um susto em seguida.

– Você é um cara muito esperto não é Isaque?

– A maioria das pessoas dizem que sim, mas na escola eu não tinha certeza. – Respondeu Isaque com frieza.

– Como consegue enganar o Adam? Ou é ele que manda você fazer essas coisas?

– Eu tenho que saber primeiro do que você está falando para poder responder a sua pergunta. – Isaque respondeu sem paciência.

– Não se faça de sonso! Onde estão os documentos?

– Quer dizer que a biba fica nervosinha? – Isaque provocou. Adorava a oportunidade de irritar as pessoas.

– Como você ousa? Eu vou dar um jeito de te tirar daqui e agora!

– Olha Boris… – Isaque o interrompeu pegando sua mão como se estivesse o cumprimentando e colando seu ombro no dele – As coisas nem sempre são fáceis e eu entendo sua frustração, mas não é assim que você vai conseguir me ameaçar. – Isaque o largou, lhe dando as costas.

– Ora seu verme! – Boris mexeu nos bolsos. – Espera… Estava aqui… Idiota, me devolve! – Boris gritou nervoso.

– Devolver o que? Isso? – Isaque disse sorrindo com balançando um revolver. – Você não vai precisar dele, mas eu vou guardar para você. – Ele respondeu em tom de deboche piscando. – Tenha um ótimo dia senhor.

Isaque saiu do prédio o mais rápido que pode. Pegou o carro e tratou de se livrar do revolver o mais rápido possível. Aproveitou também para jogar fora os cartões de Boris, mas aproveitou o dinheiro para rechear a sua própria carteira. A de Boris era uma ótima carteira, mas não daria motivo para que ele velho pudesse lhe prejudicar mais.

Quando voltou, encontrou Anne saindo de um beco próximo de um ponto de ônibus.

– Quer carona Anne? Estou indo para empresa.

– Ah sim, claro. Muito obrigada. – Ela respondeu com a voz levemente trêmula. Não parecia estar esperando ninguém conhecido naquela região.

– Você não mora do outro lado? – Isaque perguntou depois de lembrar que aquele era um lugar muito longe para ela estar.

– Sim. Vim visitar minha mãe. – Respondeu sem olhar para ele, distraída com a paisagem.

Chegando na empresa, cada um foi para seus afazeres. Naquele dia Adam não foi trabalhar, e a notícia da morte de mais um funcionário deixou todos surpresos.

juhliana_lopes 23-05-2016

Quem é o assassino? #4

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Boris estava realmente surpreso. Não imaginava que isso pudesse ser possível, mas tudo estava ali acontecendo diante dos seus olhos e ele não podia fazer nada. Leonardo estava animado com a novidade, e nem podia imaginar a frustração de Boris naquele momento. A notícia era para ser acompanhada de uma grande festa na empresa, mas após os últimos acontecimentos, não era adequado. O jantar “íntimo” dos três já foi o suficiente para a queda de muitos sonhos.

Leonardo iria viajar, se arriscar nas terras europeias, na tentativa de levantar uma nova empresa com o mesmo conceito que eles haviam aplicado por aqui. Boris não ficaria no seu lugar, Boris continuaria sendo o “vice”, porque Leonardo tinha uma maldita carta na manga.

Quando fizeram o contrato social de abertura da empresa, Leo pediu para Boris deixar uma pequena porcentagem para seu sobrinho que estava muito doente, para que os lucros pudessem custear seus tratamentos. Sensibilizado e com 1% da empresa, Boris aceitou, afinal, ele não poderia fazer muito com 1%. Mas e agora? Leonardo vai embora do país, as ações poderiam passar para ele e com isso, ele seria praticamente o único dono da empresa. Leonardo não tem filhos e nem mesmo esposa, não teria ninguém para passar a bola se não fosse aqueles 1%.

O sobrinho doente, ficou bom, cresceu e se formou. Sangue novo, pronto para administrar. Boris poderia intervir, dizer que ele não tinha experiência necessária para ficar à frente de um negócio do porte deles, mas toda sua argumentação nem começou depois que ficou sabendo que o brilhante sobrinho tinha sua própria empresa onde produzia e vendia artigos para presentes e tinha um público forte na internet.

Boris viu o advogado se aproximar e viu aquele 1%, se transformar em 52%, e os seus 48% continuarem ali, intocados. Depois das assinaturas, Boris resolveu parar de fingir sorrisos e pediu para se retirar, afinal o dia tinha sido longo e ele não estava muito bem. Antes de chegar ao carro no estacionamento, fez uma breve ligação.

– Oi, onde você está? Certo, esquece a noite de hoje ok? Sim. Não, eu não posso te ver hoje. Aconteceram algumas coisas, te conto tudo amanhã, hoje não é um bom momento. – Disse Boris finalizando a ligação, sem cerimônias.

Na mesa, o advogado também se despedia dos dois e seguia o seu caminho.

– Tio, eu gostaria de agradecer…

– Não é necessário Adam, eu já lhe disse.

– Eu sei, mas eu nunca teria nada disso sem você. Obrigado por acreditar nos meus projetos.

– Adam, você é um menino brilhante, sempre foi. Me agradeça fazendo com que a empresa cresça muito mais, ok? – Respondeu Leo bebendo vinho.

– Eu achei incrível que o seu amigo Boris tenha aceitado tudo tão tranquilamente. Ele é realmente um ótimo amigo como você tinha dito…

– Ou um ótimo amigo, ou um falso completo. Às vezes eu não sei como posso classificar…

– Por que diz isso tio?

– Bem Adam… – Leonardo tomou outro gole enquanto olhava ao redor. – Eu poderia ter passado a empresa para ele sem o menor problema. Você continuaria ganhando a sua parte e continuaria com seus projetos. Tudo seria lindo, mas encontrei algumas divergências nas documentações dos últimos meses. Alterações graves que me fizeram mudar de planos. Eu prefiro ter alguém sangue do meu sangue ou pelo menos quase isso no controle da empresa, do que alguém que consegue se dissimular tão bem.

– Eu entendo… devo me preocupar?

– Claro que não Adam. Você tem carta branca para fazer o que quiser e o que julgar necessário. Não se sinta intimidado por ele. Você vai ser a minha voz e consciência naquela empresa. Faça da melhor forma possível.

– Mais uma vez, muito obrigado pela confiança tio. – Respondeu Adam tomando um pouco de água. – Poderia me dar licença um instante? Preciso ir ao banheiro.

– Claro, fique à vontade!

Adam seguiu para o banheiro sentindo que suas orelhas estavam quentes. Uma sensação que ele tinha quando se sentia irritado ou desconfiado. Ao chegar na porta do banheiro, acabou trombando com um distinto cavalheiro, alto de terno e cabelos curtos que com o impacto, acabou derrubando uma carteira feminina no chão.

– Nossa, me desculpe senhor, não foi minha intenção…

– Não, tudo bem. – Respondeu Adam se abaixando. – Aqui está a sua… carteira.

– Ah claro. Da minha esposa na verdade. Muito obrigado. – Ele disse indo em direção as mesas.

Adam entrou e lavou o rosto. Sabia que iria enfrentar uma grande dificuldade com Boris, mas precisaria ser forte. Seu tio era uma pessoa boa, e não merecia passar por qualquer coisa ruim, e se Boris fosse dificultar as coisas, Adam estaria preparado para tomar as providências cabíveis. Retornou com seus pensamentos, mas preferiu não falar mais sobre aquilo para não chatear o seu tio.

Na mesa, o garçom se aproximou com a conta e Adam levou as mãos no bolso para pagar e se deu conta que não estava com a sua carteira.

– Tio, eu…

– Tudo bem Adam… – Leonardo respondeu rindo. – Todo mundo esquece a carteira as vezes. E que tio seria eu se não pagasse um último jantar para o sobrinho antes de viajar?

Seguiram então em direção ao carro, e Adam novamente bateu com as mãos nos bolsos.

– O que foi Adam? – Perguntou Leonardo percebendo o silêncio do sobrinho.

– Eu não esqueci a minha carteira tio. – Ele respondeu sem contato visual. – Eu acho que fui roubado no restaurante.

– Como assim? Do que você está falando?

– Eu trombei com um cara no banheiro, e depois disso minha carteira sumiu. Não sei se foi ele, por isso não falei nada. Talvez eu tenha esquecido em casa mesmo…

– Bem, de qualquer forma se foi roubo, agora não dá para se fazer muita coisa. Mas tente não se preocupar com isso, aproveite a noite! Você é jovem, daqui pode ir para uma balada, curtir a vida…

– Verdade tio. – Disse Adam com um sorriso de canto.

Após deixar seu tio em casa, seguiu em direção a sua que ficava do outro lado da cidade. No caminho viu uma moça no ponto de ônibus sozinha, e pensou em lhe dar carona. Desistiu, pois pelo horário ela pensaria que ele era um tarado querendo “atenção”. Seguiu o seu caminho com músicas aleatórias no rádio, até que viu alguém sinalizar na rua para ele parar.

– Por favor, poderia me ajudar o meu pneu furou e… – Disse o rapaz até parar de falar subitamente.

– Sem o terno eu quase não te reconheci. A gente podia fazer uma troca, minha carteira pelo macaco para você trocar o pneu do seu carro. O que acha?

O rapaz gaguejou. Tentou disfarçar fingindo que não o reconhecia, mas logo foi para o carro buscar algumas carteiras para que ele pudesse ver qual era a dele, depois que Adam saiu do carro com um pé de cabra na mão.

– Ah sim, obrigado, a minha é essa. – Disse Adam com um sorriso no rosto, indo em direção ao seu porta malas. – Aqui está o macaco. Tenha uma ótima noite. – Adam se despediu.

– Ah… muito obrigado e desculpa qualquer coisa. – Respondeu o rapaz sem graça, guardando as carteiras no bolso enquanto pegava o pneu reserva para fazer a troca e ir embora.

juhliana_lopes 05-05-2016

Quem é o assassino? #3

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A empresa amanheceu em luto. Todos ficaram chocado e extremamente sentidos, e claro curiosos com todo o desenrolar da história. Ninguém imaginava que Clara, uma funcionária antiga, teve um caso com Valéria, uma funcionária também antiga que havia sido demitida há 6 meses. Depois da morte de Meg, que havia sido contratada para ficar no lugar de Valéria, Clara não aguentou de saudades e foi encontrada enforcada no estoque. Há quem suspeite que ela tenha contribuído para a morte de Meg, já que Valéria desapareceu depois de sua demissão.

Durante o velório, realizado na empresa, Liam tomou a palavra.

– É realmente uma perda enorme, para a empresa, para a família e para nós, os amigos. Eu me considero um amigo, pois acompanhei todo o progresso de Clara aqui na empresa e muitas vezes, eu mesmo pedi conselhos para ela, pois sempre de forma assertiva, ela conseguia levar a suas funções a excelência, e com sua delicadeza, trazia isso também as pessoas próximas, que lhe queriam bem. – Ele então fez uma pausa, com a voz levemente mais rouca, como quem está emocionado. – Mesmo sabendo das condições de sua morte, espero e peço que Deus seja misericordioso com sua alma, para que ela tenha o descanso desejado.

Então, todos aplaudiram e Liam se recolheu junto as outras pessoas para a despedida final.

– Anne, gostaria de agradecer… – Liam se aproximou falando baixo.

– Esse não é o melhor momento. – Respondeu Anne sem fazer contato visual.

– Eu sei, mas você não teria mais daquele líquido? Acho que vou precisar de mais.

– Liam, já disse, esse não é o melhor momento. – Respondeu Anne, pausadamente, olhando nos olhos dele.

– Tudo bem, depois conversamos.

Liam se afastou de Anne e ficou próximo da mãe de Clara. Ela estava arrasada e não entendia como sua filha havia chego naquela situação, e pior, como havia se envolvido em tanta coisa sem que ninguém percebesse. Os sócios e chefes da empresa também ficaram tristes com toda situação, por isso permitiram um dia de folga e o velório no prédio. Boris, percebendo que Liam estava abalado, se aproximou lhe dando um abraço.

– Calma Liam, vai ficar tudo bem… – Disse Boris baixinho em seu ouvido.

– Eu sei… – Liam respondeu com jeito choroso. – Mas ela era minha amiga… vai ser tão difícil…

– Não se preocupe… – Boris soltou Liam, mas manteve o tom de voz baixo. – Passa lá em casa mais tarde que eu te ajudo a ficar mais calmo…

– Muito obrigado senhor… – respondeu Liam com um leve sorriso de canto.

Durante o enterro, um rapaz chegou atrasado e abraçou Leonardo, o sócio majoritário. Este mesmo rapaz abraçou Boris, mas fora isso, não fez contato com mais ninguém. Liam observou de longe, e percebeu que ninguém sabia quem era o rapaz. Decidiu então continuar observando e conversar com Boris mais tarde para ter mais informações sobre aquele cara.

A noite caiu e todos foram embora, com o peso daquele momento nas costas. Anne caminhava em uma rua escura e pensou ter ouvido um estalo como se algo tivesse sido pisado. Ela não deu muita atenção e continuou caminhando. Começou a se lembrar de Meg, e de como ela estaria apavorada naquele momento, e quando percebeu, estava rindo sozinha. Então, após mais alguns passos, voltou a ouvir o som. Desta vez parou, olhou as horas para disfarçar e voltou a caminhar calmamente. Não foram mais que dez passos para que Anne se virasse subitamente. Liam, atrás dela, com uma barra de ferro na mão, tentou disfarçar, mas era notável a sua expressão de fracasso em uma emboscada.

– Eu só vou perguntar uma vez. – Disse Anne séria. – Para quê?

Liam gaguejou algo sobre ela saber demais e estar no seu caminho, mas ficou nervoso e contido. Nunca havia se sentido assim. Sempre tão cheio de si com a influência que tinha sobre as mulheres, conquistando-as com sua aparência e fala macia, agora estava amedrontado e se sentia levemente frágil.

– Você também está no meu caminho Liam. – Ela respondeu desinteressada. – Atrás de mim na verdade. Com uma barra de ferro na mão, tentando fazer alguma idiotice. Se é isso que você quer… – Ela disse abrindo a bolsa – Toma, e me deixa em paz. – Disse jogando um frasco na direção dele que pegou no ar.

– Isso é…

– O liquido que você pediu. Em um tipo de garrafa que não pega oleosidade, logo não fica com marca de digitais. Quer mais alguma coisa ou vai tentar mais alguma estupidez? – Anne agora falava com um tom de voz pesado, sem paciência.

– Bem eu… você quer sair hoje?

– Liam… Vai a merda!

Anne virou as costas e voltou a andar, com passos rápidos. Liam guardou o vidro no bolso, largou a barra de ferro no chão e correu atrás dela que mais uma vez parou subitamente se virando para ele.

– Liam, me deixa em paz.

– Anne, qual é? Você é como eu… tem um objetivo e faz de tudo por ele. Somos alma gêmeas! Eu nunca fiquei correndo atrás de ninguém, e nunca me senti assim… Por favor, um jantar pelo menos…

– Primeiro – interrompeu Anne – que psicopata de araque você é que se “apaixona” pela primeira assassina que encontra, o que eu acho pouco provável que seja isso, afinal o que você quer mesmo é me tirar do seu caminho, mas Liam, eu não sou a Clara. Segundo, meu único objetivo nesse momento é ir para casa. Terceiro, eu não vou cair nessa de jantar para você ficar testando as suas coisas em mim e não seja idiota de mentir, dizendo que não é isso, porque é isso sim. Afinal somos “iguais”, com a leve diferença que eu chamo menos atenção que você. Além disso, até onde eu bem me lembro, acredito que o Boris tenha marcado algo com você hoje à noite, mas provavelmente ele não vai se importar com o atraso, pois o Leonardo deve ter feito ele ir no jantar junto com o sobrinho dele. E não Liam, eu não quero e não vou sair com você.

– Sobrinho? Então aquele cara…

– É Liam, só você não sabia disso? Ah é, você só se finge de gay. As meninas não pararam de comentar sobre os olhos dele. Enfim, se vira com suas estratégias aí.

Anne então voltou a caminhar, enquanto Liam ficou paralisado. Olhou para trás e pensou em voltar para pegar a barra de ferro, até ouvir Anne novamente um pouco mais longe.

– E se você está pensando em pegar a barra de ferro para me acertar, vai ter que admitir que você é um merdinha sem foco e todo o seu plano até agora foi inútil, pois você permitiu que seu objetivo mudasse, como um bandido qualquer.

Liam respirou fundo. Viu Anne sumir na escuridão, deixando a brisa da noite bagunçar seus cabelos. Havia uma nova informação que ele tinha que administrar. Ela tinha razão, ele não podia perder tempo com ela. Colocou as mãos no bolso e andou na direção contrária, sumindo também na escuridão.

juhliana_lopes 05-05-2016