Quem é o assassino?

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Sempre caminhei durante a noite, seja por causa de trabalho ou por causa de cursos. A vida noturna muitas vezes é mais agitada que o dia, e igualmente perigosa. Algumas pessoas dizem que a noite estamos mais vulneráveis, mas isso não é verdade. De noite ou de dia, os perigos são os mesmo, a diferença é o lugar certo, e a hora errada. Me peguei pensando nisso depois que Megan, a menina nova, começou a falar sobre alguns casos do jornal. Desde o inicio notei que ela era meio frágil, mas não havia percebido até então em relação a quantidade. Depois de alguns casos sobre assalto e arrastões nos pontos de ônibus ela estava realmente apavorada, e começou a grudar em mim, pois segundo ela, eu lhe passava confiança.

Não que eu não tenha medo dessas coisas, afinal já fui assaltada algumas vezes e é realmente uma experiência assustadora, mas com o tempo você aprende que demonstrar seus medos demais, só faz você andar na defensiva, e por consequência, chamar atenção.

Um dia desses no trabalho, peguei ela chorando no vestiário. Me preocupei, achando que tinha acontecido algo, mas ela só estava sofrendo por antecedência como sempre. Se culpava por ser tão medrosa, e chegou até a dizer entre soluços e lágrimas que gostaria de ser forte como eu.

– Eu não sou forte Meg… – Expliquei. – Eu só sei fingir bem.

Não que esse tipo de palavra tenha ajudado, mas é estranho quando você lida bem com uma certa situação, porque todo mundo acha que você é a “dama de ferro”, “coração gelado”, que nada te abala. Como eu já disse, muita coisa me abala sim, mas eu finjo bem.

Começamos a sair um pouco mais tarde, para esperar os meninos do TI e sairmos todos juntos. A presença de mais pessoas parece ter ajudado, mas não aliviado o seu medo.

– Anne, você viu sobre o assassino que anda rondando a nossa região? Dizem que ele se aproveita das vítimas mortas.

– Eu vi, mas isso é mentira.

– Como assim?

– Até onde eu li, ele só esta matando, não tem nada sobre estupro.

– Ah, mas vai saber, esses caras são doentes, podem fazer qualquer coisa…

– E se você fica desesperada, já sabe o que acontece. – Encerrei o assunto. Ela não retrucou e continuou o seu trabalho. Meg ia ficar louca daquele jeito, e por mais que eu tentasse ajudar, não poderia fazer mais nada.

Hoje, quinta feira, recebemos uma bela chuva de presente, o que espantou metade das pessoas da rua. Além disso, nossa estratégia de segurança deu errado, pois depois de uma queda no sistema, os meninos tiveram que fazer hora extra. Uma mistura perfeita para o surto de Meg, que no fim das contas, não surtou. Ela estava calma, parecendo “aceitar” seu destino, mas volta e meia perguntava sobre as horas e fazia comentários como “está escuro hoje”, ou “e essa chuva?”.

No ponto de ônibus, ficamos próximas a um beco, para nos protegermos da chuva. Então ela resolveu puxar novamente uma conversa sobre  o assassino.

– Será que eles matam na chuva?

– Talvez. – respondi um pouco desinteressada.

– Sua frieza as vezes me assusta. – Meg respondeu, um pouco magoada.

– Desculpa, não foi minha intenção. Só não vejo motivo de falar nisso agora.

– Eu sei, é só que… Eu tenho medo. Não dá pra prever algo assim. Normalmente a gente imagina um cara com jeito de marginal, falando errado, e ai,  de repente aparece um cara de terno e gravata.

– Realmente, esse tipo de coisa é imprevisível.

– Imprevisível e assustador. – Disse Meg se abraçando por causa do frio. – É o nosso ônibus?

– Não, ainda não… – respondi sem olhar para ela, enquanto mexia em minha bolsa.

– Como você consegue esconder o seu medo tão bem? Não tem curiosidade de saber quem é o assassino?

– Na verdade não. E na verdade também, eu escondo bem porque “o assassino” sou eu.

Então eu calei a boca dela com um tiro. Com a chuva, mirei errado e acertei seu pescoço, que mesmo com o estrago, fazia com que ela piscasse freneticamente com um olhar assustado. Dei outro na sua cabeça, fazendo uma sujeira imensa que logo a chuva iria limpar. Ocultei com cuidado o corpo no beco e caminhei calmamente até o próximo ponto. Como eu disse, eu finjo bem.

juhliana_lopes 12-03-2016

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