Novo amigo

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Ana estava cansada. A viagem foi longa e o corpo não se entregou ao cansaço naquela cama estranha. O café meio amargo ajudava a acordar, mas ainda não era o suficiente. A cabeça rodava  e os pensamentos perdidos entre o trabalho e outras obrigações não deixavam sua mente descansar. De qualquer forma era preciso se desligar um pouco da rotina e aproveitar o fim de semana. Ana não costumava viajar, mas aceitou de bom grado o convite de sua irmã para visitá-la e participar da festa de aniversário da sua sobrinha Sofia.

A dor de cabeça aumentou subitamente quando a porta bateu. Sua irmã estava animada e trazia consigo alguns pães e doces.

– Não dá pra tomar café puro.  Come alguma coisa! – disse a irmã de Ana.

– Parece a nossa mãe falando – respondeu Ana com um sorriso de canto enquanto tomava mais um gole do café.

– E você parece uma velha rabugenta! Como vão as coisas no trabalho?

– Vão bem, a correria e o estresse de sempre. – Ana respondeu sem muito interesse.

– Você devia ter insistido na carreira de modelo como todo mundo falava. – disse a irmã de Ana enquanto preparava a mesa.

Era verdade. Ana , mesmo mais velha  – e não tão velha, afinal estava com 32 anos – não havia perdido um milésimo de sua beleza natural. Cabelo liso escuro, magra e de pele alva. Pensando bem, talvez tivesse sido melhor ser modelo, agora estaria aposentada e com menos olheiras.

Outra batida forte a fez despertar deste pensamento. Agora era sua sobrinha que havia acordado bem animada. Queria matar a saudade da tia, pois há muito tempo não se viam. Queria mostrar seu material escolar e um adesivo que havia ganhado de um menino na escola, e faria ela prometer que não contaria nada para sua mãe. Além disso, a menina também tinha outros interesses. Faria a tia levá-la ao novo parquinho, já que seus pais nunca tinham tempo. Todas as suas amigas já tinham ido e ela não queria ficar para trás. Quando terminaram de comer, Ana não teve mais descanso e depois de muita insistência, finalmente foram ao tal parquinho.

Mal chegaram e Sofia já se perdeu em meio a areia e as outras crianças. Ana pensou em protestar, para que a menina não sujasse o vestido, mas deixou pra lá, afinal, sua irmã já sufocava a menina com os cuidados de mãe, e a menina precisava viver um pouco. O calor estava ameno e Ana ficou sentada com um sorvete, ao lado de uma mãe que estava com os dois filhos. Assim que os meninos correram, a mãe sentada ao seu lado começou a puxar assunto com Ana e elas iniciaram uma longa conversa sobre trabalho e afazeres, afinal elas trabalhavam na mesma área  e a conversa foi ficando interessante.

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Sofia correu animada para o balanço no outro lado do parque que estava mais vazio e só então viu que ele era alto demais para balançar sozinha. Olhou ao redor procurando a tia, mas ficou com medo de sair e perder o lugar. Sofia em seu pequeno drama da vida, viu uma sombra se aproximando por trás e logo ouviu uma voz amigável.

– Quer ajuda menininha?

Sofia se virou depressa e se deparou com um homem alto, com vestes negras, cabelos longos ondulados e uma barba cerrada. Ele tinha um olhar sério, mas quando olhou em seus olhos, abriu um sorriso amistoso. Sofia, desconfiada, não respondeu nada e só conseguiu ficar olhando pra ele, segurando a corrente do balanço.

– Qual é o seu nome linda? – Ele disse mais uma vez, desta vez se ajoelhando na areia para ficar da altura dela. Sua voz era grave, porém de uma forma macia. Sofia olhou para ele novamente e respondeu.

– Meu nome é Sofia.

– Que nome lindo, quem foi que escolheu?

– Minha mãe. – Sofia respondeu, agora abaixando os olhos um pouco tímida.

– E ela está aqui?

– Não.

– Você veio sozinha? – O homem disse fazendo uma expressão de surpresa.

– Não. – Sofia riu. – Eu vim com a minha tia.

– Ah, entendi. Que ótimo! Você quer ajuda com o balanço?

– Quero sim. – Sofia respondeu agora mais animada. – Você pode segurar ele pra mim enquanto eu chamo minha tia para me empurrar?

– Se você quiser eu posso empurrar você, assim você se diverte mais tempo.

E então Sofia aceitou. Ela subiu animada no balanço e ele empurrava ela levemente e aumentava a intensidade conforme a menina pedia. Ela ria animada, e ele apenas a observava. Enquanto isso, Ana continuava a conversa animada com a colega de profissão, sem fazer qualquer contato visual com Sofia.

A menina cansou do balanço e pediu pra descer. O homem a ajudou e ajoelhou na areia novamente para conversar com ela.

– Você gosta desse parquinho?

– Eu gosto. Minhas amigas já vieram aqui, só eu não tinha vindo. Agora eu posso falar pra elas que já vim.

– Que legal! Meus amigos também gostam de vir aqui. É muito legal mesmo.

– Você vem aqui? Mas você não é adulto pra brincar aqui? Seus amigos são crianças?

– Alguns são. – Ele riu. – Mas eu não sou tão adulto assim. Eu só sou um pouco mais crescido que você. Quantos anos você tem?

– Eu tenho 6, vou fazer 7 anos amanhã. Você quer vir na minha festa de aniversário?

– Sério? Nossa que legal! Pena que eu não posso. Tenho que sair  com meus pais, mas se você conseguir vir aqui amanhã de novo, eu posso te dar um presente. Você quer?

– Quero sim! Eu falo pra minha tia me trazer de novo. Ela é muito legal.

– Que ótimo! E o que você mais gosta? Brinquedo, roupa?

– Eu gosto de boneca. De todas as bonecas.

– Então amanhã eu vou te trazer uma bem bonita, ta bom?

– Sim! – Sofia respondeu animada. Agora a menina também estava sentada na areia e não sentia medo algum no seu novo amigo.

– Qual é o seu nome?

– Pode me chamar de TT.

– Que nome engraçado.

– Eu sei, mas meu nome de verdade não é TT. Meu nome de verdade é um pouco difícil de falar. Agora eu tenho que ir pra casa, mas amanhã eu te ensino a falar meu nome, na hora certa, tudo bem?

– Ta bom!

– Posso ganhar um abraço antes de ir embora? – Ele disse abrindo os braços.

– Pode sim, adoro abraços. – Sofia disse animada, se jogando nos braços dele.  Seu abraço era caloroso e aconchegante e Sofia poderia ficar ali por horas que nem perceberia. Seu novo amigo então se levantou, limpou a areia dos joelhos e foi embora com as mãos no bolso.

Sofia correu para o gira-gira e depois de mais alguns minutos, foi até a tia para irem embora. Ana se despediu da colega de trabalho que também ia embora com os filhos. Sempre era um bom momento para aumentar seu networking e ela não perdia tempo com isso.

Em casa, na hora do jantar, a irmã de Ana vendo a animação de Sofia resolveu perguntar.

– Como foi no parquinho filha?

– Foi muito legal mãe!  – A menina respondeu se ajeitando na cadeira. – Fiz um novo amigo.

– Verdade filha? Que amigo é esse?

– O nome dele é TT, mas não é o nome dele de verdade. Ele disse que depois me ensina a falar porque é difícil. Ele mora perto do parquinho. Eu chamei ele pro meu aniversário.

– Filha… Eu sei que o aniversário é seu e você está animada com isso, mas não é certo chamar pessoas que você acabou de conhecer para uma festa na sua casa, ta bom?

– Ah mãe. – respondeu Sofia um pouco emburrada. – Ele não vem. Ele vai sair com os pais dele.

– Entendi filha, fico feliz que você tenha gostado!  Ana, larga esse computador e vem pra mesa.

– Já estou indo. – Ana veio apressada. Estava respondendo alguns e-mails do trabalho e nem se deu conta do tempo.

– Você viu o novo amigo da Sofia no parquinho? – perguntou a irmã de Ana.

– Não. Você fez um amigo no parquinho Sofia? – perguntou Ana um pouco surpresa.

– Fiz tia. Você não viu? O TT, ele é muito legal. Ele me ajudou no balanço que era mais alto, me empurrando.

– Você não viu Ana? – questionou novamente a irmã de Ana.

– Realmente não percebi. Desculpa, me distrai com uma mãe que estava com os filhos dela no parquinho também.

– Ana, você já foi mais atenta. E se fosse um tarado? E se ele levasse a Sofia embora, você só ia ver que horas? –

– Relaxa ok? Não foi nada. Era um menino assim como muitos que estavam lá, não era Sofia? Ela é uma menina esperta também, não ia se deixar levar assim…

– Sim tia. Ele só era um pouco mais crescido. – respondeu Sofia distraída com sua comida.

– Viu, não foi nada.

– Tia, a gente pode ir no parquinho de novo amanhã antes da minha festa? – pediu Sofia, manhosa.

– Se sua mãe permitir, podemos sim minha linda. – respondeu Ana com um tom de ironia que Sofia não percebeu.

– Podem sim. Não vou ser a bruxa má da história. Mas preste mais atenção nela, por favor. – respondeu a irmã de Ana.

Então chegou o grande dia. Sofia se arrumou toda, e arriscou até passar um perfume de sua mãe. Ana, ainda com um cansaço mental, não investiu muito na aparência. Novamente sentada no mesmo banco, deixou Sofia se perder na areia e o primeiro lugar que ela correu foi para o tal balanço mais alto, e ficou por ali como se estivesse esperando algo. Ana resolveu então pegar um sorvete e esbarrou em um homem sem querer. Ele estava de jaqueta e calça preta, tinha os cabelos longos e uma barba cerrada, e tinha também um pacote vermelho nas mãos. Ana pediu desculpas e ele muito educado pediu desculpas também. Além disso, com uma voz amigável, ele perguntou as horas e saiu andando apressado. Ana voltou ao banco, e viu Sofia, brincando no gira-gira com outras meninas. Pegou então o celular e resolveu conferir novamente seus e-mails.

Sofia havia cansado de esperar TT no balanço e como o parquinho não estava tão cheio, foi brincar no gira-gira com outras meninas. Depois de um tempo, olhou de novo e lá estava ele sentado no balanço esperando por ela com um pacote vermelho nas mãos. Ela foi correndo com os braços abertos e ele correspondeu, ajoelhando na areia para abraçá-la. Ela contou que sua tia nem tinha visto ele ontem, e que era melhor ele se apresentar pra ela, pois sua mãe era chata e talvez não fosse deixar eles brincarem.

– Mas o que sua mãe disse? – ele disse com uma expressão preocupada.

– Eu não lembro direito, mas ela disse que alguém podia me levar embora sem minha tia ver.

– Nossa, mas isso não vai acontecer. Você é muito esperta! – ele respondeu segurando as mãos dela.

– Você não pode mesmo ir na minha festa? – Sofia perguntou manhosa da mesma forma que fazia pra pedir as coisas pra tia.

– Não posso. Mas talvez eu possa ir na sua casa depois, onde é?

– Fica perto da padaria.

– Então eu sei onde fica. Eu peço pros meus pais me levarem lá quando a gente voltar, ta bom?

– Oba! Nem vou falar nada pra minha mãe, vou fazer surpresa pra ela. – Respondeu Sofia, olhando pra ver se via sua tia de longe para chamá-la e apresentar seu amigo.

– Ei, quase esqueci de te dar. – Ele disse puxando seu rosto para o seu – Seu presente! – e então lhe deu o pacote vermelho.  – Minha mãe que escolheu pra você. Sabe como é, meninos não entendem muito de boneca.

Sofia abriu animada, e ficou encantada com a boneca de pano. Ela ainda não tinha uma daquelas, e sem se conter, pulou no colo do homem, lhe dando um abraço apertado. Ele a abraçou de volta, segurando-a em seu colo para ela não cair. Então, depois do abraço se despediu. Sofia correu para sua tia que estava ocupada com o celular e disse que elas já podiam ir pra casa.

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No caminho Ana viu o papel vermelho na mão e a boneca, e questionou a menina.

– Onde você conseguiu isso Sofia?

– Meu amigo que me deu tia. Você não viu ele? – respondeu Sofia distraída com a boneca.

– Ah claro, vi sim. O menino que é mais crescido. Que legal Sofia. – Ana disfarçou. Sabia que se dissesse que não tinha visto, ela iria falar para sua irmã e ela iria encher a sua paciência até o próximo aniversário da menina.

Em casa, a irmã de Ana questionou o presente, mas como as histórias batiam, não se preocupou. Após a festa, colocou Sofia pra dormir que não largava a boneca um só minuto. Por dentro, a menina ainda estava um pouco apreensiva, pois ele disse que viria visitá-la, mas talvez os pais dele acharam melhor trazer ele no outro dia e não a noite. Todas as luzes se apagaram e quando a menina estava quase pegando no sono, ouviu leves batidas na janela. Com medo, agarrada a boneca, ficou sentada na cama e ouviu novamente as batidas. Levantou-se devagar, e foi até a janela e então seu medo se foi. Ela abriu animada, e ele entrou. Parecia mais alto do que ela se lembrava, e tinha alguma coisa nas costas que pareciam ser asas. Suas roupas pretas, pareciam rasgadas, mas ainda sim, não era possível ver sua pele, além das suas mãos, seu rosto e um pouco do seu peito. Ele se ajoelhou e ela lhe deu um abraço. Não se importou com a aparência dele, e até esqueceu um pouco da boneca. Pegou em sua mão e o levou até a cama. Ele sentou e ela acendeu seu abajur, podendo enfim ver as asas com mais nitidez.

– São asas de verdade?

– Sim meu amor, são sim.

– Mas porque elas são pretas?

– É a minha cor favorita. Qual a sua cor favorita?

– A minha é rosa. – Ela respondeu com um sorriso. – Você é tipo um anjo então?

– Sim meu amor, e você também é. Um anjinho lindo! – Ele respondeu fazendo cócegas na menina. – Vem cá, senta no meu colo…

E Sofia sentou. Ele lhe deu mais um abraço, e a menina sentiu o calor do seu corpo. Um calor que ela nunca havia sentido.

– Me ensina a falar seu nome. Você disse que ia me ensinar. – disse a menina ansiosa.

– Você acha que é a hora certa? – ele disse com uma expressão de dúvida.

– Sim, me ensina. Eu aprendo rápido.

– Então ta bom linda. Mas você precisa deitar primeiro.

Sofia então se deitou, e ele se ajoelhou na cama, sobre ela. Neste instante foi como se ele não tivesse mais as asas. Ele se abaixou com cuidado, quase se deitando sobre ela e disse baixinho no seu ouvido.

– Mister, Tinker, Train.

– O que? – respondeu a menina sentindo um leve arrepio quando ele tocou seu ombro.

– Mister Tinkertrain. Você consegue dizer? – acariciando levemente o braço esquerdo da menina.

– Mister… Tinke Trei?

– Tenta mais uma vez… Se quiser pode falar daquele jeito que você me pediu pra ir na sua festa, lembra? Mister Tinkertrain… – Ele explicou, agora acariciando o ombro dela e descendo a mão levemente pelo seu tronco.

– Mister Tinker Train! Eu consegui, é assim? Mister Tinker Train! – respondeu a menina animada, porém um pouco assustada com os toques do seu amigo.

– Muito bem. Você é mesmo uma menina muito esperta! Agora vou te ensinar outra coisa, é uma brincadeira. Eu vou fazer uma coisa e se você gostar você fala meu nome, ta bom? Se você não gostar, é só falar pra parar.

– Ta bom, eu quero brincar!

Tinkertrain então começou a acariciar o corpo da menina com mais força e de uma forma mais obscena. Sua mão era suave e aos poucos ia despindo a menina. Com os corpos quase colados, ela como se estivessem abraçados. A cada toque novo a menina ia chamando seu nome, e aos poucos ele ia possuindo a menina, com beijos delicados no pescoço, tampando seu olhos com uma mão, enquanto a acariciava com a outra. A cada novo toque a respiração dela ia ficando pesada, mas ela não deixava de chamar seu nome. A boneca, jogada no chão era a única testemunha, a única ouvinte.

O dia amanheceu, com a janela aberta. Ana se levantou e foi tomar o café meio amargo. Sentia-se finalmente revigorada, pena que seu estresse voltaria assim que chegasse ao escritório. Ainda meio sonolenta, despertou de ver com os gritos de sua irmã e seu cunhado correndo pelas escadas procurando alguma coisa ao lado de fora. Ana se engasgou com o café quando viu ele retornar com Sofia nos braços, pálida e cheia de manchas rochas, principalmente no pescoço. Sua irmã desceu correndo as escadas chorando, e Ana se aproximou da menina, a tempo de ouvi-la dizer sussurrando antes de fechar os olhos: “Mr. Tinkertrain”.

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Texto inspirado na música “Mr. Tinkertrain” de Ozzy Osbourne.

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