O que vai querer?

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Entrou sorrateiro, desviando gentilmente das pessoas que estavam no caminho. Com passos leves rapidamente chegou ao balcão. Sentou-se puxando o capuz para ocultar mais o seu rosto. Um esforço inútil, pois Abe já sabia bem quem era e o que queria.

Ele estava nitidamente assustado, olhava para os lados, mesmo não conseguindo enxergar nada por causa do capuz. Não se atrevia a tirá-lo para ter uma visão mais ampla, preferia se afundar em seus próprios ombros magros. Distraído, tentando ouvir os murmúrios do bar ao seu redor, quase caiu da banqueta quando Abe colocou o copo a sua frente.

– Do que você tanto se esconde? – disse o dono do bar com sua voz cavernosa que era capaz de entrar pelos ouvidos invadindo cada miligrama de alma do seu corpo, possuindo qualquer chance de paz que houvesse em seu ser.

– Abe assim você me enfarta! – respondeu ele, sussurrando, mas ao mesmo tempo querendo gritar mais alto que o tom natural daquele senhor.

– O que vai querer? – disse Abe com os olhos baixos, servindo um copo com um líquido rosado de uma garrafa qualquer.

– Por que você pergunta se já sabe o que eu quero? – ele respondeu pegando o copo e tomando seu conteúdo em um gole só. Disfarçou uma careta e pousou o copo suavemente sobre o balcão enquanto Abe o enchia novamente.

– Porque é meu dever perguntar. E essas mãos? Você não parece ser do tipo que trabalha com nada pesado para estar com as mãos desse jeito… – dizia Abe enquanto guardava a garrafa e buscava um Jack para o cavalheiro surdo ao lado.

– Você está muito curioso hoje Abe, pensei que o seu bar fosse para homens, não para maricas fofoqueiras! – Ele respondeu agora com seu tom de voz normal e um sorriso de canto, tentando soar o mais sarcástico que conseguisse.

Abe então bateu com o punho fechado em sua frente no balcão, e a cara fechada. Seus olhos eram de tamanho normal, mas agora pareciam muito miúdos, de forma que a íris parecia tomar conta do olho todo, e do ponto de vista dele, parecia que Abe tinha os olhos completamente negros. Com o barulho da pancada, deu um pulo de susto, quase caindo novamente da banqueta onde ficava com as pernas penduradas. Com o coração pulsando forte, quase saindo pela garganta, sentiu suas orelhas esquentarem ao ponto de arderem quando Abe abriu um sorriso e voltou a sua pose normal de barman nem um pouco dinâmico.

Odiava quando ele lhe assustava e se sentia mal por se sentir intimidado diante dele. Mas Abe tinha um bom coração e além de questionamentos aleatórios sobre coisas que sabia que nunca teria resposta, ele não lhe cobrava pela bebida ou comida que pedia. No fim das contas dava até pra chamar ele daquilo que as pessoas chamam as outras quando confiam nelas, mas ele não sabia bem do nome.

Abe estava de costas lavando alguns copos, e ele estava no balcão, pensando em uma forma de ir embora sem chamar atenção até sentir um gelo na nuca. As portas se abriram de repente e logo sons de passos pesados tomaram o salão. Sentia como se pudesse se enfiar completamente dentro de sua blusa e desaparecer, mas era tarde demais. Abe se virou lentamente com um sorriso no rosto que quase sempre ficava meio oculto entre a sua barba cheia. Os homens que entraram, e deviam ser pelo menos cinco, já que seu pescoço estava travado a frente com o medo de olhar para os lados, não se aproximaram muito do balcão. Eles ficaram apenas a espreita, estavam procurando alguém. Ele não queria, mas acabou deixando Abe perceber quando escondeu suas mãos com as mangas do moletom.

Um dos homens então, ainda não tão próximo do balcão perguntou para Abe se havia alguma mesa vazia. Abe gentilmente e ao mesmo tempo com o seu desdém costumeiro, apontou uma mesa ao fundo. Logo os passos pesados silenciaram, e deram lugar a vozes com diferentes tons em uma conversa aleatória ao fundo. Ele tremia por dentro e só conseguia encarar o balcão. Não piscava e mal respirava. Aos poucos estava ficando mais branco que uma vela. Abe recolheu alguns copos no balcão, deu uma tapa em minhas costas e jogou algumas moedas no balcão. Dizendo em seu tom de voz cavernoso de sempre, porém de modo que a conversa chegasse à mesa do fundo, disse:

– Pronto garoto, acabou o horário de almoço. Agora pegue essas moedas e vá buscar lenha, a cozinheira vem hoje à noite e eu quero servir coisa boa.

Ele, ainda assustado, não questionou. Juntou as moedas rapidamente e se virou para a porta, mas não andou afinal a mesa dos fundos era uma das mais próximas da entrada, e era um ótimo ângulo para olhar a cara de qualquer um que passasse. Novamente Abe tocou em seu ombro, desta vez como quem estivesse dando uma bronca.

– Ei moleque! Vou ter que repetir toda vez? Vá lá por trás! Não quero você espantando meus clientes! Agora anda, vai! – Lhe deu mais um empurrão no braço em direção ao balcão e voltou aos copos sujos.

Ele então foi para traz do balcão e quando chegou à cozinha, pode respirar adequadamente. Seu coração pulsava tão forte que estava quase ficando surdo como o cavalheiro que só pedia Jack. Saiu então pela porta do fundo, olhando em volta antes de sair correndo para o seu esconderijo de sempre. Ele não tinha certeza do por que Abe havia lhe ajudado, mesmo sem saber o motivo, mas agora tinha certeza que podia confiar nele.

No beco, próximo do poço abandonado, pegou seu cobertor gelado e se enrolou. Agora sentia frio e a noite seria muito longa. Mais um dia “vivo”, seja lá o que isso pudesse significar.

Na manhã seguinte, acordou com os pássaros se esquentando com os primeiros raios de sol. Deixou seu cobertor dentro do balde do poço e foi dar uma volta, cauteloso. Chegou então até a livraria queimada. Até alguns anos atrás era uma livraria normal, a primeira que ele ouviu falar, mas então, ela foi queimada por conta de algum decreto, pois o dono estava ensinando algumas pessoas a lerem e contando as histórias para aqueles que não conseguiam aprender. Apesar do crime, não queimaram tudo, e ainda era possível ter acesso a muitos exemplares que aos poucos eram tomados pela poeira e os cupins.

Mais uma vez ele conseguiu entrar escondido entre o descanso dos guardas. Suas mãos nem tinham cicatrizado e agora estavam sangrando novamente com o vidro quebrado de onde ele tirou o livro que até então era o seu preferido. Enfim achou a palavra que procurava. A palavra que podia definir o que Abe significava para ele. Agora sabia que Abe podia ser chamado de Amigo. Guardou então o livro com todo cuidado, se cortando novamente no vidro quebrado. Não levava o livro consigo porque sabia que ele estava mais seguro ali, e que ele apanharia menos se fosse pego sem nada. Conseguiu sair por pouco antes que um dos guardas voltasse, – Ele estava ocupado demais cortejando uma moça – e correu para pegar um pouco de lenha com as moedas de Abe.

Entrou sorrateiro, desta vez pela mesma porta que saiu ontem. Deixou a lenha no canto próximo do armário fazendo o mínimo de barulho possível. Aproximou-se lentamente de Abe para lhe dar um susto, mas antes que pudesse tocar nele, ele o assustou com a sua voz cavernosa:

– O que vai querer?

 

juhliana_lopes 04-01-2016

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