Mulher perfeita

dinneer0906

Depois de sair do banho, ela passou o seu perfume favorito. Pegou o celular e se deitou na cama, ainda de toalha. Ficou observando a foto dele mais uma vez, e era realmente um cavalheiro. Olhos de mel, lábios desenhados com uma barba levemente cerrada, revelando suas vaidades. Haviam se conhecido há um tempo pela internet, e se encontraram algumas vezes em eventos com amigos. Sempre muito educado, era também um comediante nato com suas piadas inteligentes. Não precisava fazer nenhum esforço para chamar atenção pois, só com a sua presença ele já era notado. Foi só há três meses que começaram a ficar mais próximos e então resolveram marcar um encontro, só os dois, para “se conhecer melhor”.

Ela estava animada, afinal ele era perfeito e a noite prometia. Levantou-se, e começou a se vestir. Escolheu um vestido azul para a noite, que além de uma cor forte, marcava bem o seu corpo, valorizando suas curvas. Depois, foi se maquiar, de olho no relógio para não se atrasar. Gostava de se admirar no espelho antes de um encontro, e fazia muito tempo que ela não tinha nenhum. Seus cabelos negros, presos estrategicamente para parecer bagunçados, de um jeito levemente sensual. A sombra degrade indo do preto ao lilás, deixando seus olhos em destaque, e um leve blush rosa para dar uma leve tonalizada em sua pele alva. Finalizou então com um batom vermelho, que ela esperava que não durasse a noite inteira.

Levou um leve susto com a buzina, mas desceu alegre por ele também ser extremamente pontual. Ele, estava perfumado e muito bem arrumado em trajes sociais, e abriu a porta para ela com delicadeza. Usava uma camisa social  cinza chumbo, com uma calça preta, que além de dar a impressão que ele era mais alto, o deixava extremamente sexy. Não quis deixar claro as suas intenções, e muito menos parecer desesperada olhando para ele toda hora, mas percebeu que ele também não conseguia ficar sem admirá-la por muito tempo.

Durante o jantar a troca de olhares ficou constante, mas aos poucos ela percebeu que sem os amigos, eles não tinham tanto assunto assim, em todo caso, ela sempre puxava outros assuntos animada, na esperança de não deixar a noite morrer. Ele também não estava disposto em deixar a desejar, e tentava impressioná-la com pedidos elaborados e muito vinho. Quando o jantar terminou, ele a convidou para ir em sua casa, e ela sem fazer nenhum charme, aceitou, afinal a noite não poderia terminar ali de maneira nenhuma. No carro novamente, ele olhava descaradamente com desejo para ela, e isso estava fazendo ela sentir calor, pois seu desejo também estava escancarado, só esperando um lugar adequado. No fim das contas, era muita expectativa e ela esperava que nada desse errado.

Na casa dele, ficou feliz em ter a certeza de que ele morava sozinho e a noite seria só deles. Acompanhado de mais vinho, ele a beijou suavemente pela primeira vez. O corpo dela estremeceu e se arrepiou, e logo os beijos foram ficando mais intensos e íntimos. As mãos dele começavam a explorar o corpo dela, e ela ia se entregando cada vez mais. Deitados no sofá, o corpo dela ia ficando pequeno para o tamanho dele, que a apertava forte em sua cintura, e entre os beijos, mordia levemente o seu pescoço. Ela começava a gemer baixinho e ficando mais a mercê. Ele a virou de bruços no sofá, deitando-se sobre ela e enquanto uma mão puxava seu cabelo, a outra acariciava a sua coxa. Ela mordia os lábios e ele mordia a sua nuca com os corpos colados, desejando cada vez mais se livrar das roupas.

De repente, ele parou e pediu para que ela esperasse um pouco, e correu para o quarto. Ela já estava muito excitada com a situação, mas esperou, afinal, é sempre bom ir devagar. Logo ele pediu para que ela entrasse no quarto também, e ela foi. Ele estava no banheiro e pediu para ela ficar a vontade no quarto. Ela viu pétalas de rosas no chão, e não quis comentar sobre um vidro de álcool comum deixado em cima do criado mudo. Ela sentou-se na cama e logo ele voltou com a camisa aberta. Tomou os pequenos pés em suas mãos e foi tirando as sandálias dela enquanto beijava seus pés. Ela agora se deitava na cama, gemendo um pouco mais alto, querendo arrancar logo as roupas de ansiedade.

Quando finalmente ele tirou o seu vestido, revelando uma lingerie roxa de renda, ela resolveu tomar conta da situação e o deitou na cama, se livrando da camisa dele, e abrindo seu cinto. Ele então se permitiu a um gemido abafado enquanto ela beijava a sua barriga, lambendo com movimentos circulares. Porém, antes que ela pudesse deixá-lo nu, ele pediu um momento novamente, e foi ao banheiro. Ela estranhou mas esperou, paciente.

Ele retornou então com uma corda e uma faca na mão, junto com um sorriso maníaco. Ela, levemente pálida de susto, deu um riso nervoso, perguntando o porquê daquilo. Ele riu com ela e colocou as coisas em seu colo, perguntando a ela o que poderia doer mais.

– Como assim Rafa? Você está louco?

– É sério Beck, me diz. Qual você acha que machuca mais? Por que ó, se você reparar, a faca abre uns cortes né? Então dói, mas a corda, colocando direitinho no pescoço, faz a pessoa sufocar, com isso ela acaba sofrendo mais pra morrer… Não quero te influenciar, mas escolhe um que você achar mais legal! – Rafael dizia animado colocando as mãos sobre as coxas dela.

– Rafa tira isso daqui! – Respondeu Rebeca tirando a corda e a faca de seu colo, jogando para o lado. – Eu vou embora! – Disse ela pegando suas roupas do chão.

Rafael a puxou então, jogando-a na cama, subindo sobre ela, beijado-lhe o pescoço. Ela queria resistir, afinal que palhaçada era aquela? Alguma tara sexual grotesca? Mas a verdade é que ela estava rendida pelos seus beijos.

Podia-se dizer que estava em verdadeiro transe mental com ele por cima, em contato com seu corpo quente, prestes a unir seus corpos, mas quando ele sussurrou em seu ouvido, ela ficou tão aterrorizada que esqueceu completamente de qualquer tesão que havia.

– Eu quero que você me mate. Quando eu gozar, assim que eu terminar, você vai pegar a faca e me degolar. Eu esperei muito tempo por isso, confio em você. Curta o momento, eu preparei tudo e ninguém vai desconfiar de você.

– Rafa, me solta, que conversa é essa? Me solta! Você é louco? Já perdi o clima, me larga! – Ela gritava tentando se livrar dele.

– Você não entende não é? Você é a mulher perfeita! E eu quero morrer, só você pode me matar!

– Rafa, me larga! – Ela tentava em vão se soltar.

Ele então tentou virá-la de costas para penetrá-la. Ela, percebendo sua intenção, lutou mais até conseguir acertar um chute nele. Enquanto ele reclamava de dor, ela se soltou pegou seu vestido e correu para a rua. Assustada e seminua, correu até um beco para então se vestir.

Controlou sua respiração, pois não sabia se ele havia ido atrás dela, e aquele era o bairro dele, devia conhecer tudo por ali, mesmo a noite. Ouviu então a batida de uma porta. Do beco era possível observar a frente de sua casa. Ele estava descalço e sem camisa, com um pano branco em uma das mãos. “O álcool” , ela pensou. Se escondeu mais na escuridão do beco, rezando para que ele não a achasse. Para sua sorte, ele foi correndo para o outro lado, procurando ela entre as outras casas. Ela permaneceu ali, imóvel e ficaria até o amanhecer se fosse preciso. “Droga!”, ela pensou. “Nem na minha casa eu posso me esconder, ele vai me procurar lá, ou pior, vai me esperar lá!”. Ouviu então ele ligar o carro que estava estacionado do lado de fora e sair em disparada para qualquer lugar. Então, depois de um tempo, ela saiu de seu esconderijo com cuidado.

Ligou para sua amiga que a buscou e jurou que contaria tudo quando tivesse certeza de que estava segura. Na antiga república da amiga, onde agora só ela dormia mesmo, começou a falar sobre Rafael.

– Ah, mas o Rafa tem uns gostos estranhos mesmo…

– Como assim Ruth? – perguntou Rebeca surpresa.

– Eu não sei Beck, só sei que uma colega que dividia quarto comigo saiu com ele uma vez. Faz um bom tempo isso. Ela tava toda animada achando que ia finalmente namorar alguém, mas ai depois que eles saíram umas três vezes, ela se afastou dele, disse que ele era maluco. Ainda tentei saber o que havia acontecido mas ela não falou, só disse que ele era doido e logo depois ela sumiu sem dar mais explicações. Esses dias fiquei sabendo que ela mudou de estado, mas me fez jurar que eu não contaria nada para ele. – Respondeu Ruth dando ombros.

Rebeca então ficou pensativa. Será que se ela contasse tudo para Ruth, colocaria ela em risco também. E se ele resolvesse matar as duas. Talvez devesse se mudar também, voltar a morar com os pais, ou quem sabe para uma cidade nova… Ou então contar tudo a polícia e assim não precisar se esconder…

– Beck, o que ele fez com você que te assustou tanto? – Ruth perguntou ao perceber a distração da amiga.

– Nada demais Ruth… Ele só é estranho mesmo… – respondeu Rebeca, disfarçando.

– Beck, você me prometeu que contaria tudo… O que aconteceu? – Intimou Ruth.

– Ruth… Eu não quero te envolver nisso. Não quero que você se machuque, então se alguém te perguntar você por favor, finja que não sabe de nada! Para o seu próprio bem! – respondeu por fim Rebeca chorando.

– O que ele fez com você Beck?

– Ele… Ele me pediu pra matar ele. Ele queria morrer Ruth! Disse que eu era a mulher perfeita para isso! E não é “matar de prazer”. Ele colocou uma faca e uma corda no meu colo! – Rebeca começo a soluçar. – Eu me recusei, lógico. Tentei ir embora, ele não queria deixar e ainda tentou me estuprar… Eu consegui fugir, mas ele saiu com um pano que devia ter álcool pra me desacordar caso conseguisse me achar. Eu estou com medo Ruth! Ele deve estar na frente da minha casa me esperando a uma hora dessas. Eu não sei o que fazer Ruth! – chorou por fim no colo dela.

– Beck, tenta dormir um pouco… – Disse Ruth acariciando os cabelos de Rebeca. – Você está muito impressionada com toda situação. Amanhã a gente pensa com calma o que pode fazer, tudo bem?

– Tudo bem… – respondeu Rebeca, por fim.

No dia seguinte, mais calma, as duas foram ao shopping para comprar algumas roupas para Rebeca. Ainda assustada, não conseguia parar de olhar para os lados com medo de que Rafael fosse aparecer. Ruth tentava fazê-la relaxar, mostrando mil roupas e sapatos diferentes. No meio do percurso, quando pararam para um sorvete, o grupo de amigos de sempre estava caminhando próximo e pararam para uma conversa.

O sangue de Rebeca gelou quando viu Rafael se aproximando, como todos os outros dias, naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Tentou correr mas isso chamaria atenção dos outros. Ruth, percebendo a sua chegada, tomou conta da situação para que Rebeca não entrasse em pânico.

Ele, por sua vez, cumprimentou o pessoal e sentou-se longe das meninas. Elogiou o vestido de Rebeca com um sorriso levemente sarcástico, e perguntou se ela e os outros tinham algum programa para mais tarde. Ruth respondeu que Rebeca a ajudaria em um trabalho da faculdade, enquanto os outros iam descrevendo suas tarefas. Aproveitando uma distração dele, elas se afastaram com a desculpa de quem jogariam a casquinha do sorvete no lixo.

Já no carro, longe do shopping, Rebeca olhava para trás desesperada.

– Tem certeza que ele não viu a gente?

– Tenho Beck, fica calma!

Então Ruth freou de repente. A sua frente estava um carro fechando o caminho e do lado de fora, com um sorriso maníaco, estava ele, que se aproximou do carro de Ruth, lentamente. Rebeca estava em pânico e mal conseguia respirar. Ruth travou as portas do carro, mas com um pé de cabra, Rafael quebrou o vidro do lado do passageiro e a abriu por dentro. Rebeca só dizia “não” em sussurros, e agora ofegava, completamente pálida com cacos de vidro sobre o corpo. Ruth tentou intervir, mas ele a ameaçou com um pé de cabra. Arrastando Rebeca pelo braço que olhava desolada para Ruth, lutava para não ir. Ele, sem olhar para trás apenas disse:

– Você vai me matar! Eu quero morrer pelas suas mãos! Aceite isso, e será tudo mais fácil!

E fechou a porta do carro. Olhou uma última vez para Ruth e entrou também, saindo em disparada.

juhliana_lopes 11-01-2016

O que vai querer?

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Entrou sorrateiro, desviando gentilmente das pessoas que estavam no caminho. Com passos leves rapidamente chegou ao balcão. Sentou-se puxando o capuz para ocultar mais o seu rosto. Um esforço inútil, pois Abe já sabia bem quem era e o que queria.

Ele estava nitidamente assustado, olhava para os lados, mesmo não conseguindo enxergar nada por causa do capuz. Não se atrevia a tirá-lo para ter uma visão mais ampla, preferia se afundar em seus próprios ombros magros. Distraído, tentando ouvir os murmúrios do bar ao seu redor, quase caiu da banqueta quando Abe colocou o copo a sua frente.

– Do que você tanto se esconde? – disse o dono do bar com sua voz cavernosa que era capaz de entrar pelos ouvidos invadindo cada miligrama de alma do seu corpo, possuindo qualquer chance de paz que houvesse em seu ser.

– Abe assim você me enfarta! – respondeu ele, sussurrando, mas ao mesmo tempo querendo gritar mais alto que o tom natural daquele senhor.

– O que vai querer? – disse Abe com os olhos baixos, servindo um copo com um líquido rosado de uma garrafa qualquer.

– Por que você pergunta se já sabe o que eu quero? – ele respondeu pegando o copo e tomando seu conteúdo em um gole só. Disfarçou uma careta e pousou o copo suavemente sobre o balcão enquanto Abe o enchia novamente.

– Porque é meu dever perguntar. E essas mãos? Você não parece ser do tipo que trabalha com nada pesado para estar com as mãos desse jeito… – dizia Abe enquanto guardava a garrafa e buscava um Jack para o cavalheiro surdo ao lado.

– Você está muito curioso hoje Abe, pensei que o seu bar fosse para homens, não para maricas fofoqueiras! – Ele respondeu agora com seu tom de voz normal e um sorriso de canto, tentando soar o mais sarcástico que conseguisse.

Abe então bateu com o punho fechado em sua frente no balcão, e a cara fechada. Seus olhos eram de tamanho normal, mas agora pareciam muito miúdos, de forma que a íris parecia tomar conta do olho todo, e do ponto de vista dele, parecia que Abe tinha os olhos completamente negros. Com o barulho da pancada, deu um pulo de susto, quase caindo novamente da banqueta onde ficava com as pernas penduradas. Com o coração pulsando forte, quase saindo pela garganta, sentiu suas orelhas esquentarem ao ponto de arderem quando Abe abriu um sorriso e voltou a sua pose normal de barman nem um pouco dinâmico.

Odiava quando ele lhe assustava e se sentia mal por se sentir intimidado diante dele. Mas Abe tinha um bom coração e além de questionamentos aleatórios sobre coisas que sabia que nunca teria resposta, ele não lhe cobrava pela bebida ou comida que pedia. No fim das contas dava até pra chamar ele daquilo que as pessoas chamam as outras quando confiam nelas, mas ele não sabia bem do nome.

Abe estava de costas lavando alguns copos, e ele estava no balcão, pensando em uma forma de ir embora sem chamar atenção até sentir um gelo na nuca. As portas se abriram de repente e logo sons de passos pesados tomaram o salão. Sentia como se pudesse se enfiar completamente dentro de sua blusa e desaparecer, mas era tarde demais. Abe se virou lentamente com um sorriso no rosto que quase sempre ficava meio oculto entre a sua barba cheia. Os homens que entraram, e deviam ser pelo menos cinco, já que seu pescoço estava travado a frente com o medo de olhar para os lados, não se aproximaram muito do balcão. Eles ficaram apenas a espreita, estavam procurando alguém. Ele não queria, mas acabou deixando Abe perceber quando escondeu suas mãos com as mangas do moletom.

Um dos homens então, ainda não tão próximo do balcão perguntou para Abe se havia alguma mesa vazia. Abe gentilmente e ao mesmo tempo com o seu desdém costumeiro, apontou uma mesa ao fundo. Logo os passos pesados silenciaram, e deram lugar a vozes com diferentes tons em uma conversa aleatória ao fundo. Ele tremia por dentro e só conseguia encarar o balcão. Não piscava e mal respirava. Aos poucos estava ficando mais branco que uma vela. Abe recolheu alguns copos no balcão, deu uma tapa em minhas costas e jogou algumas moedas no balcão. Dizendo em seu tom de voz cavernoso de sempre, porém de modo que a conversa chegasse à mesa do fundo, disse:

– Pronto garoto, acabou o horário de almoço. Agora pegue essas moedas e vá buscar lenha, a cozinheira vem hoje à noite e eu quero servir coisa boa.

Ele, ainda assustado, não questionou. Juntou as moedas rapidamente e se virou para a porta, mas não andou afinal a mesa dos fundos era uma das mais próximas da entrada, e era um ótimo ângulo para olhar a cara de qualquer um que passasse. Novamente Abe tocou em seu ombro, desta vez como quem estivesse dando uma bronca.

– Ei moleque! Vou ter que repetir toda vez? Vá lá por trás! Não quero você espantando meus clientes! Agora anda, vai! – Lhe deu mais um empurrão no braço em direção ao balcão e voltou aos copos sujos.

Ele então foi para traz do balcão e quando chegou à cozinha, pode respirar adequadamente. Seu coração pulsava tão forte que estava quase ficando surdo como o cavalheiro que só pedia Jack. Saiu então pela porta do fundo, olhando em volta antes de sair correndo para o seu esconderijo de sempre. Ele não tinha certeza do por que Abe havia lhe ajudado, mesmo sem saber o motivo, mas agora tinha certeza que podia confiar nele.

No beco, próximo do poço abandonado, pegou seu cobertor gelado e se enrolou. Agora sentia frio e a noite seria muito longa. Mais um dia “vivo”, seja lá o que isso pudesse significar.

Na manhã seguinte, acordou com os pássaros se esquentando com os primeiros raios de sol. Deixou seu cobertor dentro do balde do poço e foi dar uma volta, cauteloso. Chegou então até a livraria queimada. Até alguns anos atrás era uma livraria normal, a primeira que ele ouviu falar, mas então, ela foi queimada por conta de algum decreto, pois o dono estava ensinando algumas pessoas a lerem e contando as histórias para aqueles que não conseguiam aprender. Apesar do crime, não queimaram tudo, e ainda era possível ter acesso a muitos exemplares que aos poucos eram tomados pela poeira e os cupins.

Mais uma vez ele conseguiu entrar escondido entre o descanso dos guardas. Suas mãos nem tinham cicatrizado e agora estavam sangrando novamente com o vidro quebrado de onde ele tirou o livro que até então era o seu preferido. Enfim achou a palavra que procurava. A palavra que podia definir o que Abe significava para ele. Agora sabia que Abe podia ser chamado de Amigo. Guardou então o livro com todo cuidado, se cortando novamente no vidro quebrado. Não levava o livro consigo porque sabia que ele estava mais seguro ali, e que ele apanharia menos se fosse pego sem nada. Conseguiu sair por pouco antes que um dos guardas voltasse, – Ele estava ocupado demais cortejando uma moça – e correu para pegar um pouco de lenha com as moedas de Abe.

Entrou sorrateiro, desta vez pela mesma porta que saiu ontem. Deixou a lenha no canto próximo do armário fazendo o mínimo de barulho possível. Aproximou-se lentamente de Abe para lhe dar um susto, mas antes que pudesse tocar nele, ele o assustou com a sua voz cavernosa:

– O que vai querer?

 

juhliana_lopes 04-01-2016