Sombras

maicon

Poderia ser um dia como outro qualquer, como todos os outros dias que já haviam passado tantas vezes por sua vida, porém aquele era para ser um dia especial, um dia alegre, um dia inesquecível. Era seu aniversário, mas além de uma enorme dor de cabeça, a única coisa que havia ganhado aquele dia, era um gosto amargo na boca que vinha do fundo da garganta.

Levantou e começou a andar pelas ruas, pensando em como era melhor ter ficado em casa, entre tantos outros pensamentos insanos e pesarosos. Houve um momento, porém que pensou já ter virado uma rua, quando se viu nela novamente. Andou mais um pouco e ao virar a esquina novamente, ainda estava na mesma rua. Foi na terceira vez que se convenceu que havia algo errado e que não era só um engano de sua mente. Parou, olhou ao redor e respirou fundo. Não havia carro, não havia mais pessoas, somente o vazio. Andou mais um pouco e desta vez virou para o outro lado. Mais uma vez a mesma rua. Mais uma vez o vazio.

Sentou então na calçada e fumou um cigarro. Quando menos percebeu, o movimento havia voltado. As pessoas andavam apressadas e os carros buzinavam sem parar em um trânsito infernal. Levantou e começou a andar novamente, mas acabou esbarrando em um rapaz. Era um rapaz alto, com o cabelo baixo e um alargador na orelha esquerda. Ele não deu muita atenção e continuou andando e olhando para os lados, desconfiado. Ele mais uma vez pensou ser um engano, mas uma coisa estava clara. Não era mais a mesma rua e aquele cara era ele. O seguiu com cautela. Não sabia exatamente o que podia acontecer, mas nada poderia ficar mais estranho do que aquele momento.

Aquele cara, aquela sombra de si mesmo, apesar de ser igual em aparência, andava com passos largos, sempre olhando ao redor. Com uma das mãos no bolso, parava em alguns becos observando a multidão com um olhar perdido.

Ele virou uma rua pequena que mais parecia uma viela. A sua frente havia um casal, que andava apaixonado. A moça também lhe trazia lembranças, pois era muito semelhante a sua ex-namorada, mas não era ela. Suas pernas pararam e ele se viu sem movimento quando viu o que sua sombra estava fazendo. O cara simplesmente pegou uma pedra na calçada e acertou a cabeça do rapaz que estava com a moça. Ela assustada começou a gritar, e ele, incomodado a derrubou com um soco no rosto. Enquanto ela estava caída, ele tirava um canivete do bolso e degolava o rapaz que confuso não conseguiu se defender. A moça, que agora tentava se levantar para fugir do assassino, recebeu um novo golpe e agora além de ter o pescoço cortado, teve também o seu estômago aberto.

Sua mente não sabia processar o que era mais bizarro. Aquele cara igual a ele matando aquelas pessoas sem qualquer motivo aparente, ou ele que estava ali parado no meio da rua, sem conseguir fazer nada, apenas observando, ficando totalmente a mercê daquele estranho.

Quando terminou o serviço, deixando a calçada completamente ensanguentada, ele se levantou limpando as mãos na roupa, e olhando para trás, não parecia surpreso em ver uma “cópia” sua estática, como testemunha de sua ação.

– O que você quer? – Ele perguntou sem cerimônias.

– Eu… Nada. – respondeu baixando os olhos.

– Então vaza.

– Nossa… Tudo bem.  – Ele disse saindo finalmente de sua paralisia momentânea, virando as costas.

– Mas que babaca você é. Volta aqui!

Ele se virou, ainda sem encarar diretamente o seu outro eu.

– Faz logo a pergunta óbvia que você quer perguntar. – disse o cara impaciente.

– Bem, eu… Quem é você?

– Eu sou você, mas em outra “dimensão”, em um “universo paralelo” ou qualquer outra merda de nome que as pessoas dão pra esse tipo de coisa.

– Então, eu sou um assassino?

– Sim, em algum lugar você é. Em outro que é de onde você veio você é um depressivo suicida. Em algum outro lugar você é um galante tarado, e por mais que você não acredite, existe um lugar onde você é feliz.

– Sério?

– Sério, mas até hoje só trombei com o tarado e com você. Talvez o Feliz esteja ocupado de mais fazendo coisas legais pra ficar vagando por ai perdido que nem a gente.

– Isso é muito bizarro cara.

– Não, isso é a sua mente.

Então viu a mão dele com a mesma pedra que havia atacado o cara vindo à direção do seu rosto. Fechou os olhos e inclinou a cabeça, levantando a mão direita para se proteger. Abriu os olhos, e se viu sentando na calçada, naquela rua em que havia ficado preso. As pessoas andavam calmamente, e alguns carros passavam poluindo a cidade. Levantou-se e olhou em volta. Não soube dizer a quanto tempo esteve ali. Resolveu ignorar, afinal, podia ser só um lapso da sua mente doente. Foi para o cemitério ver seu pai e quando saiu, por um momento pensou que talvez ele já tivesse trombado a sua sombra feliz, e que atualmente, talvez ele já tivesse morrido na mão do seu eu assassino.

À noite, depois de mais um cigarro e um tempo nas redes sociais, fechou os olhos no desejo de que aquele seu eu assassino, voltasse para terminar o serviço que havia começado. Ou seu eu tarado lhe trouxesse alguma mulher para compartilhar em um ménage.

Foi dormir, pois seus pensamentos acordados não seriam capazes de leva-lo tão longe novamente, pelo menos não tão cedo.  Escreveu alguns versos em uma folha de papel, e tentou dormir em meio à confusão de seus pensamentos, em meio a confusão de seus universos.

juhliana_lopes 08-12-2015

Inspirado na crônica de Maicon Küster para ler, (e você deve ler) clique aqui

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