Grades

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Eles não paravam de falar sobre festas no fim de semana. Acho que era só disso que eles viviam. Enquanto isso, eu esperava pacientemente, sentado em um banco de couro, daqueles que fazem um barulho horrível quando você senta ou levanta, com as mãos à frente, e cabeça baixa. Enquanto o ruído deles me incomodava os ouvidos, eu ficava pensando nas coisas que já me aconteceram, e onde eu errei para chegar ali. Eu era uma criança normal, que brincava e irritava os outros e agora estava eu ali, pronto para ser preso. Pelo menos minha família estava bem longe dali, para não ter esse desgosto, mas notícias ruins correm rápidas, e logo eles saberiam, e todo aquele drama mexicano começaria igualzinho quando ele fez a primeira tatuagem. Talvez, se eu tivesse ouvido a minha mãe naquela época e desistido de fazer a tal tatuagem, talvez se eu não tivesse entrado pra aquele clube de tatuagens na escola para ser aceito pelos meus amigos, talvez, eu não estivesse aqui, agora. A verdade é que o que passou não importava mais, eu estava ali. Fui pego, vacilei. Era a única verdade simples no momento.
Enfim eles cansaram de conversar e fui encaminhado para a cela. Era um espaço pequeno, sujo e com um cheiro horrível. Mal iluminada, aparentemente vazia, com dois colchões no chão e uma pia de plástico imunda. Depois de tirar minhas algemas, e arrancar minha camisa sem qualquer motivo aparente, os guardas me jogaram dentro daquele espaço nojento. Trancaram as grades e foram embora, dizendo alto que amanhã todos seriam transferidos.
Fiquei um tempo sentado no chão, olhando as grades com certo pesar. A lua iluminava um pouco do chão pelo quadrado que havia na parede que chamavam de janela, e era possível perceber alguns pontos de infiltrações. Nas outras celas, os presos dormiam amontoados e os poucos que estavam acordados, também estavam sentados, encarando o vazio.
Confesso que levei um susto grande, que fez meu corpo tremer muito quando notei que não estava sozinho. Acho que eu praticamente pulei quando ela disse “Oi”. Sim, ela. Uma mulher que estava num canto escuro da cela, enrolada com alguns cobertores e uma touca velha na cabeça que escondia seus cabelos. Seus olhos eram claros e sua boca com lábios finos, pouco se mexiam quando ela falava. Estava suja, mas parecia ter uma pele bem alva e suas mãos, agarradas ao pano velho, eram pequenas e delicadas. Perguntei o que ela fazia ali, numa cela masculina, num lugar tão horrível como aquele. Então, ela olhou bem em meus olhos e me respondeu:
– Assim como você, eu tive um motivo para vir parar aqui. Eles não ligam muito pra banho como você pode reparar, então, foi fácil me passar por homem, um moleque na verdade. As pessoas falam mal dos presos, mas ainda existe um código de honra dentro das prisões. Já vi estupradores serem estuprados, pedófilos sendo estuprados, racistas servindo de colchão. Eles não mexem com “crianças” ou qualquer um que pareça debilitados. Eles não mexem com “barras-pesadas”, mas enchem os folgados. É algo na base da reflexão, se você ficar quieto, vão te deixar quieto, se você fizer algo, vão fazer algo. Por isso, eu prefiro ficar aqui, quietinha.
Ela terminou de falar e eu não perguntei mais nada. De fato devia ser realmente difícil estar ali, todos os dias. Perguntei então se já houve transferências antes e há quanto tempo ela estava ali.
– Houve sim, mas foi só com uma cela específica. Estou aqui há muito tempo, mas parei de contar quando completou um mês. Eu estou aqui, porque matei… Algumas pessoas.
Ela deu um sorriso de canto quando disse isso, e eu fiquei calado. Ao mesmo tempo em que ela parecia tão angelical e frágil para um lugar como aquele, eu não tinha nenhuma dúvida sobre a sua capacidade.
– Eu roubei algumas pessoas em um esquema, mas acabei fazendo uma burrada e fui pego. – Eu falei seco, apesar dela não ter me feito nenhuma pergunta.
A noite foi passando, mas eu não conseguia dormir e minha companheira também não parecia animada para um cochilo. Até que ela olhou para a janela, por longos segundos, se levantou e foi para a grade. Tive vontade de perguntar o que havia acontecido, se ela queria algo, mas não tive coragem. Então, ela voltou para o seu canto, se enrolou novamente com o cobertor e ficou lá, imóvel.
– Acho que logo vai amanhecer. – Eu tentei puxar assunto – Disseram que a transferência seria amanhã, ou melhor, hoje, mas não disseram o horário… – Eu falava pra ela, mas na verdade, tinha certeza que ela não estava muita a fim de papo.
– Amanhã… – Ela disse, rindo baixinho. – Não haverá um amanhã… – agora ela dizia séria olhando em meus olhos com uma voz pesada, que faria qualquer um se ajoelhar aos seus pés. – Pelo menos não aqui. Nunca mais. – Ela então se ajeitou dobrando os joelhos, encostando a cabeça na parede e fechando os olhos.
Eu, sem entender direito o que ela queira dizer com isso, tentei dormir também, ou pelo menos cochilar um pouco. Quando meu corpo estava sendo vencido pelo cansaço, fui surpreendido pelo barulho das chaves e o som das vozes dos dois guardas que me trouxeram.
Olhei pro lado e ela estava acordada, com os olhos atentos, porém quando um dos guardas estava abrindo a nossa cela, ela encostou a cabeça novamente na parede e fechou os olhos. Um deles então me pegou pelo braço e colocou um par de algemas, me fazendo esperar do lado de fora. Notei que os outros presos olhavam atentos, esperando a sua vez de saírem das grades. Ela não levantava. Estava dura como pedra. O outro guarda xingando, entrou para ajudar o amigo a levantar o “moleque”. Quando percebeu que os dois estavam dentro e que não viria mais ninguém, ela pulou agarrando o pescoço de um dos guardas jogando ele no chão. Quando o outro pegou a pistola, ela deu um chute em sua mão, fazendo a arma voar, e em seguida, lhe deu um soco no queixo. Sobre esse que levantou a arma, ela o derrubou no chão, subindo em cima dele e deixando uma dar pernas dobradas sobre o seu pescoço. Sem muito esforço, ela só tirou a perna quando ouviu um estralo. O outro guarda, se recuperando do susto, levantou, mas logo voltou ao chão e ela o enforcou da mesma maneira que o seu colega, quebrando também o seu pescoço.
Ela pegou as pistolas, as armas, e as chaves. Tirou minhas algemas e me deu uma das armas e então, uma a uma, foi abrindo todas as celas e pedindo para que os presos esperassem o sinal dela para sair. Com todas as grades abertas, ela foi para o fim do corredor, bem longe do portão de saída e deu um tiro pro alto. Todos os presos correram pra fora como bichos treinados, pisoteando tudo pela frente. Então, corri com ela que com uma mira perfeita, ia atirando em todos os policiais que encontrava pelo caminho, roubando as armas deles. Quando finalmente saímos e o caos se espalhava pelo lado de fora com os outros presos, ela largou as armas e correu para um beco. Corri com ela que parecia muito mais animada agora, em liberdade e muito mais encantadora.
Então, ela começou a pular um muro para roubar um carro que estava no quintal. Ela conseguiu abrir o carro com uma destreza incrível e logo estava na rua. Deu-me uma carona e conseguimos fugir dali sem chamar muita atenção, em meio aos muitos presos espalhados na rua.
Depois de andar bastante, parou em um posto de gasolina para tomar um banho e trocar de roupas. Que roupas, eu me perguntava, mas lembrei que para ela, era fácil ter qualquer coisa. Fiquei admirando a paisagem do caminho, pensando o que faria da minha vida agora. Era estranho porque agora não me dava conta de como o tempo passava rápido mesmo parecendo devagar. Logo ela apareceu limpa e linda, bem arrumada, mas apressada. Deu-me um dinheiro e disse para eu continuar de ônibus, pois para onde ela iria, eu não poderia acompanhá-la.
Perguntei aflito, para onde estava indo, para quem sabe um dia, nos encontrar de novo. Ela não me respondeu, apenas deu a volta com o carro, sorrindo e foi embora mais rápido do que chegamos.
Realmente não houve um amanhã naquela cela, e muito menos um depois, ou depois, depois de amanhã. Eu tentei levar uma vida certa, mas às vezes, ainda dou uns tropeços e acabo parando em alguns becos, para quem sabe, encontrar a dama assassina de novo.

juhliana_lopes 21-10-2015