Só mais uma história: O Nerd

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Edgar acordou cedo, mas ainda estava deitado na cama. Era preciso levantar logo, afinal hoje era dia de prova. Apesar da importância do dia ele não via a necessidade de fazer uma prova na qual ele já soubesse todas as respostas. Não que ele tenha tido acesso ao gabarito antes, mas era fato que sua inteligência estava superior até mesmo ao dos professores. Em todo caso, era preciso passar por essas meras formalidades.

Mas outra coisa também o angustiava. Conforme estava chegando o fim do ano, o bullying havia aumentado de modo significativo. Não que ele ligasse também, aprendeu cedo a ignorar xingamento ou qualquer coisa que pudessem fazer para tentar diminuí-lo, mas ultimamente estava ficando cada vez mais chato aguentar aqueles moleques. De qualquer forma, se arrumou e foi, pois apesar de todos os contras, a menina bonita que nunca lhe dava uma chance e ajudava em grande parte nas ofensas a ele, ia estar na sala e provavelmente se lembraria dele para pedir ajuda na prova.

Ele sabia que não tinha chance, ela mesma já havia deixado bem claro pra ele isso de todas as formas possíveis e até mesmo algumas impossíveis de se imaginar. Ainda sim, ele gostava de admirá-la como algo raro que ele jamais pudesse tocar.

O momento da prova chegou e todos estavam muito concentrados, mas ele se sentia apenas entediado mesmo. Enquanto o professor não olhava, Edgar foi atingido por uma bolinha de papel. Quando se virou irritado pra ver de onde veio, deu um sorriso sem graça. Era Jack, seu amigo “popular” que estava pedindo ajuda numa das questões mais fáceis. Aproveitou outra distração do professor e jogou o papel de volta.

Edgar enfim terminou a prova, entregou e foi liberado para o desespero dos outros alunos que preparavam suas bolinhas para pedir ajuda a ele. Do lado de fora, esperando paciente até Jack ser liberado para ir pra casa, foi abordado por uns garotos de uma sala mais velha. Eles tentavam intimidá-lo pelos seus óculos, pelas suas roupas, pelo seu cabelo, mas Edgar, imóvel, evitava contato visual. Sabia onde aquilo ia parar. Começou com um empurrão no ombro e um grito de “acorda moleque, não tá ouvindo a gente não?” seguido de uma tapa estralado e ardido nas costas que levou seu corpo à frente, tocando o peito na mesa. Edgar tentava se manter firme, mas mais uma vez os “caras” o provocavam, e agora mexiam com seu cabelo e lhe davam leves tapinhas no rosto. Edgar já estava ficando corado de raiva, mas ainda sim, tentava não fazer nada. Então ouviu o grito de Jack e ao se virar percebeu que a sua musa estava do lado de fora olhando toda situação. Jack correu e tentou intimidar os rapazes, dizendo-lhes para me deixar em paz ou eles teriam problemas. Eles foram embora rindo, mas não iriam desistir tão cedo. Ela, imóvel olhando a situação, foi embora quando outra amiga chegou.

– Jack, há quanto tempo a Débora saiu da sala?

– Depois que você saiu uns 5 minutos depois eu acho…

– Então ela já estava ali vendo o que estava acontecendo e não fez nada… – disse Edgar pensativo.

– Edgar, para de se iludir… O que ela poderia ter feito? Chamado os meninos da nossa sala pra ajudarem a te zoar mais. Esquece essa mina cara, tem muitas outras mais bonitas e que mesmo não sendo fáceis, te dariam uma chance.

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O que eles querem

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Em um dia de sol, com poucas nuvens para se ver,

em um dia de brisa leve, com poucas folhas para cair,

em um dia onde a vida seguia e ninguém se importava,

então eles  vieram atrás de mim.

Não perguntaram o meu nome ou a minha idade,

não quiseram saber de onde eu vim e nem pra onde iria,

apenas me olhavam, fixamente, profundamente,

sem qualquer pudor ou respeito.

Então eu corri, sem olhar para trás,

sem parar pra respirar, sem limites ou rumo.

Eu não sabia quem eram, ou quem obedeciam,

mas sabia o que eles queriam.

Me escondi em um beco, afundado em meus medos,

com os ouvidos atentos, a qualquer movimento,

com os olhos dilatados, tentando enxergar além.

Eles rápidos e ágeis,

farejavam como bichos, procurando a carne,

estavam sedentos, estavam com fome,

uma fome de pensamento, fome de ideias,

eu  não sabia quem eles eram,

não sabia de onde vieram,

mas eu sabia o que eles queriam.

Segurei firme a respiração quando passaram por perto,

fechei os olhos na esperança de me tornar invisível,

mantive meu corpo imóvel como uma pedra.

Eles então passaram, correndo para outro lugar,

observando e caçando em bando.

Eu não sabia o que eles eram, mas eu sabia o que eles queriam,

e sabia que não seria hoje que teriam isso de mim.

Eu sei a verdade, única e pura,

e irei protegê-la com minhas forças.

Eu sei da verdade, que todos querem saber,

e por isso me caçam, como já caçaram os outros.

Mas eu sei o que eles querem,

e eles não terão nada de mim.

 

juhliana_lopes 04-09-2015