Reflexo

espelho-quebrado-109

Já fazia mais de dois anos que havia saído para curtir uma noite de festa. Na última, nada havia saído muito bem, afinal, além de ser roubado depois de achar que havia conquistado uma garota dos sonhos, ainda teve que cuidar de seus amigos bêbados e seu amigo com transtorno de personalidade que fez questão de dar um show particular. Depois daquilo, decidiu se dedicar ao trabalho e aos estudos e hoje, finalmente formado e com estabilidade financeira, era hora de comemorar a conquista. Sua roda de amigos havia mudado em partes. Outros rostos, outras vozes; novos perfumes e claro, o mesmo gosto insano pelo álcool.

Estava precisando mesmo sair e ver gente, afinal, nos últimos dias não estava dormindo direito. Além da insônia pelos trabalhos de conclusão de curso, quando conseguia um tempo para descansar, sempre tinha sonhos ruins. Sim, sonhos, pois ele não chamava aquilo de pesadelos ainda. Ele costumava sonhar com frequência, mesmo em curtos períodos. Sempre foi uma criança sonhadora como sua mãe dizia. Sonhos alegres ou enigmáticos, todos traziam boas lembranças ou até mesmo algum presságio. Mas estes…

Voltou sua atenção para uma colega de classe que se juntou ao grupo para comemorar a formação. Ela tinha grandes olhos escuros, que a luz natural pareciam negros, mas sob a luz do sol era possível enxergar uma camada marrom levemente avermelhada em volta de sua pupila. Seus cabelos na altura do ombro, em um loiro acinzentado com algumas mechas em azul ciano davam um ar descolado e ao mesmo tempo um toque diferenciado.

Ela era inteligente, extrovertida e se comunicava bem, e sempre que podia dava dicas de bons livros e filmes para que ele pudesse ler e assistir. Estava realmente encantado e ali era a oportunidade para que talvez, pelo menos tivesse uma boa lembrança.

Sentou ao lado dela e assim como todos participou da conversa animadamente, e notou os olhares dela curiosos sobre ele.

– O que foi? – Ele perguntou com um sorriso.

– Você não bebe? – Ela ergueu seu próprio copo.

– Não, eu dirijo, normalmente levo os bêbados para casa… – respondeu ele, rindo.

– Que ótimo! Já tenho carona então. – ela replicou com uma piscada delicada.

A noite passou depressa e a madrugava os lembravam de que já era hora de se retirarem. Depois de levar todos para casa, ela estava ali, no banco da frente, dormindo sem preocupações com a cabeça torta para o lado direito. Ele encostou o carro, acariciou seu rosto e lhe deu um beijo delicado na face. Ela despertou devagar e perguntou onde estavam.

– Na verdade, no centro. Não sei onde é sua casa. – ele disse soltando o volante.

– Não é muito longe, é só seguir a avenida e virar após um outdoor de uma loja de travesseiros. Ai é só seguir e parar em frente a uma casa azul. – ela respondeu sem olhar muito, se encolhendo para cochilar novamente.

Seguiram então pelas ruas escuras. Chegaram sem problemas a casa e então ele descobriu que ela morava sozinha. Muito gentil e cheia de segundas intenções, ela o convidou para entrar e quando perceberam, já estavam se jogando ofegantes na cama, cada um de um lado. Ela, agora cansada, dormiu do jeito que estava. Ele, carinhoso, a cobriu, e levantou para procurar algo pra comer.

– Edgar… Edgaaar… Ed… Edgar…

– O que foi linda? – Ele voltou para o quarto correndo ao ouvir o chamado.

Ela ainda dormia sem sequer ter se mexido. Voltando a cozinha, ouviu novamente um sussurro…

– Ei… Edgar… Ed…

Balançou a cabeça, confuso. Resolveu então ir ao banheiro para lavar o rosto.

– Não pode ser… Era um sonho, me chamavam no sonho e eu não conseguia ver, eu só devo ter ficado impressionado, é isso… Chamavam-me, gritavam, mas eu não conseguia ver quem me chamava…

– Porque você nunca levantou para olhar no espelho…

Edgar então deu um pulo que derrubou um vasinho que sua bela deixou no banheiro. Ele olhava fixamente, assustado para o espelho, se beliscando discretamente.

– Pare com essa tolice de se beliscar, sim, eu estou falando com você… Chamando-te, clamando, implorando por um pouco de atenção… Você é realmente um cara difícil. As garotas gostam disso sabia?

– Eu…

– Eu sinceramente não sei por que o espanto, você já viu isso acontecer antes, a diferença, é que não era com você…

– Estou ficando louco, só pode… – Edgar soltou o ar que prendia sem perceber em um só desabafo andando em círculos pelo banheiro, atordoado.

– Está me deixando tonto sabia… Vai me deixar falar, ou não?

– Falar o que? O que você quer dizer? O que eu estou dizendo? Não posso alimentar essa loucura… – Edgar saiu do banheiro fechando a porta, voltando para o quarto.

Ela estava ali, tão linda, dormindo com uma inocência de criança. Quando estava se deitando para ficar ao lado dela, ouviu um “toc, toc” vindo da porta do guarda-roupa. Fechou os olhos na esperança de ter ouvido errado, mas novamente ouviu a leve batida de quem pede permissão para entrar. Apertou os olhos então, escondendo o rosto atrás do ombro dela, esperando pelo silêncio mórbido da noite. Após um período quase sepulcral foi surpreendido por um grito em seu ouvido. “Abre!”.

Atordoado, abriu a porta e lá estava um espelho enorme de corpo inteiro, e ninguém menos que ele novamente.

– Pensei que não ia abrir. Sério, nós precisamos conversar, eu quero ter uma relação boa com você, por isso quero te mostrar uma coisa…

Edgar apenas observava em silêncio, como quem se deixa levar por uma nova sensação.

– Ei, para de ficar com essa cara porque você não tá drogado.

– O que significa tudo isso afinal? Por que eu te vejo, porque você está falando comigo? O que você quer afinal? – Ele enfim respondeu como quem está sem forças.

– Isso, é a vida, duplicada. Sempre existiu sabe, mas ninguém para pra prestar atenção. Você fala de mim como se eu fosse um estranho, mas eu sou você Edgar. Sou você, aqui do outro lado, onde tudo acontece de outra forma, do mesmo jeito. Onde os pontos finais são iguais, mesmo indo por outros meios.

– O que? – Edgar parecia confuso.

– Esta é uma das coisas que faz parte da grande verdade. Aquela que apenas um homem descobriu, e quando tentou contar as pessoas ninguém deu atenção. Esta é só um dos pontos. O que vocês ai desse lado chamam de loucura, vozes, esquizofrenia, nada mais é do que pessoas que nasceram com capacidade de ter um contato direto aqui do outro lado.

– Do que você está falando? – Agora Edgar estava realmente disposto a entender.

– Raciona criatura! Esta situação não te lembra de nada? Ou melhor, não lembra ninguém? – A pessoa no espelho gesticulava animada. De fato, o corpo, a altura, o porte e até as roupas eram suas características, mas o rosto estava oculto pela escuridão. Então lhe veio à lembrança, de dois anos atrás, seu amigo perturbado, seu amigo bêbado, seu amigo…

– Hugo! – Edgar disse por fim. – Ele estava falando com…

– Com o espelho aquele dia. Ele estava falando com ele mesmo, o lado mais divertido e perigoso dele, diga-se de passagem.

– Mas…

– Vamos simplificar? Tá vendo essa linda menina deitadinha ai na cama? Você a conquistou, ela te chamou pra casa dela e ela quis fazer tudo certo? Aqui, bem… Foi assim…

Agora a imagem do espelho se mexia e mostrava o mesmo quarto, porém a menina estava torna na cama de barriga pra cima, as mãos amarradas, e claramente desacordada. Então, ele aparecia em cena. Mesmo cabelo, mesma roupa, tudo. Ele a pegava e a despia e então possuía o corpo da bela dama. Ela acordava assustada em meio ao processo, e mesmo gritando pedindo para que ele parasse, ele continuava sem pudores. Só restou a ela se render, na esperança que acabasse logo. A imagem tremeu e então mostrou um momento antes, quando estavam no carro e ela agradecia sóbria e timidamente a carona, enquanto ele avançava sobre ela tentando lhe roubar um beijo. Então, antes de sair do carro, ele lhe ofereceu uma água, já que ela não havia bebido nada a noite toda. Ela negou, mas como ele insistiu, ela tomou alguns goles na esperança de sair logo do carro.

Mais uma vez a imagem tremeu, mostrando mais uma vez a imagem de antes, quando ainda estavam no bar. Ela tímida com algumas amigas e ele com alguns amigos, cada um puxando uma menina para um lado, e ela assustada pedindo para ele ir embora.

A imagem tremeu pela última vez, voltando a sua imagem com o rosto oculto.

– Eu não sou esse monstro que você é… – Edgar respondia colocando as mãos na cabeça.

– Realmente não é. Por isso que eu fazia isso. Mas lembre-se, se um dia você precisar, um dia você estiver sozinho, lembre-se que sempre pode contar comigo. Eu estou aqui, sempre com você, tão certo como a sua sombra…

– Eu nunca iria precisar de um maníaco como você! – Edgar falou alto, dando um passo a frente para ficar mais perto do espelho, mas ainda sem olhar o rosto oculto do reflexo.

– Por que não olha em meus olhos?

– Não tenho porque encarar um monstro… – Disse Edgar disfarçando com a cabeça para a direita, para não admitir seu medo.

– Um monstro… E quem você acha que é o monstro mesmo?

– Não há dúvidas de que é você!

– E quem sou eu?

– Você… – Edgar então olhou diretamente para o espelho. Não havia mais nada ocultando a face e então viu seu rosto, um pouco mais ávido, com olhos acesos e espertos, com uma expressão mais forte de quem está atento a tudo.

– Eu sou você Edgar… – algo sussurrou em seu ouvido. – Eu sou você…

Edgar então fechou a porta do guarda roupa com força. Sua respiração era forte, como quem correu uma maratona para estar ali. Virou-se para tentar dormir ao lado de sua bela, mas acabou abafando seu grito com sua própria mão.

Ela não estava mais deitada carinhosamente como ele havia deixado. Ela estava amarrada, dopada com as roupas rasgadas, em volta de várias garrafas de bebida e alguns comprimidos. Correu para o banheiro novamente, lavou o rosto e olhou fixamente para o espelho.

– Mas que merda é essa? – Ele gritou pra si mesmo. Ninguém respondeu e ele não esperou resposta. Desamarrou a moça e correu pela rua escura, deixando seu carro para trás. Uma faixa laranja se formava no horizonte anunciando um novo dia, mas Edgar não parou para reparar, pois corria em meio a uma confusão de sussurros.

No quarto, a bela dama acordou tonta, se equilibrando da maneira que pôde. Abriu a porta do guarda roupa com dificuldade e sentou na cama. E falou com uma voz trêmula:

– Ei, eu quero trocar de lado, por favor…

 

juhliana_lopes 04-07-2015

Então gente, este texto foi inspirado na música Reflexo Inverso, da Banda Burlesca do meu amigo Jedai! Eu amei a música e ela foi realmente o impulso para um texto que já tinha um bom tempo que eu estava tentando escrever. Talvez tenha saído mais perturbado do que eu imaginei, mas ainda sim, espero que gostem, e claro, não deixem de ouvir a música logo abaixo e curtir a page da banda clicando AQUI. o/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s