Mais um ano…

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Então ela se sentou em uma das mesas da lanchonete, com seu pão com manteiga, bem simples e um café pingado. Estava tão distraída, observando a rua pela janela, vendo a vida passar rápido pelos pés daqueles que só sabem correr de um lado para o outro, interessada nos ruídos da cidade e seus carros barulhentos, que não percebeu quando ele se aproximou educadamente.

Ele pediu licença balançando levemente a cabeça em reverência. Perguntou, curvado, se poderia sentar-se na mesma mesa, se com a voz macia, terminou perguntando também se não seria incomodo. Respondi que sim, olhando em seus olhos, que desviaram ligeiramente para a direita enquanto ele sentava-se.

Então, em uma conversa sem muito fundamento, ele foi tentando colher informações, e não tirava os olhos de suas mãos, como quem procura alguma coisa. Ela, igualmente educada, respondia suas perguntas e às vezes até ria de suas piadas, porém, como sem muito interesse, não lhe perguntava muitas coisas de volta, o deixando levar a conversa sozinho.

Então, ele começou com seu flerte, aproximando suas mãos das dela, inclinando-se levemente pra frente, e mostrando uma ansiedade infantil, como de quem espera algo importante. Ela, sem o mesmo entusiasmo do início, olhava para ele, de cima abaixo, pensando em uma maneira educada de terminar aquela conversa.

– Desculpe, mas sua esposa sabe que você está aqui? – Ela resolveu ser direta.

– Esposa? Como assim? Eu não tenho esposa. – disse ele coçando o nariz.

– Mais uma vez mentindo. Você não tem vergonha não? – desta vez estava ligeiramente irritada.

– Como assim? – ele respondeu surpreso com as sobrancelhas arqueadas.

– Como assim? Você esconde sua mão esquerda disfarçadamente com a mão direita, tirando-a do meu campo de visão. Quando me conta coisas sobre sua vida e sobre sua vida de “morar sozinho”, normalmente seu olhar se move para o lado esquerdo, e você é destro. Sempre que lhe pergunto algo direto, além de responder com uma longa história, você coça o nariz várias vezes, e não me venha dizer que é alergia à poeira da cidade, porque senão você não aguentaria ficar um minuto sem coçar esse nariz ao lado dessa janela que trás toda a fumaça da rua. Você só coça esse nariz quando precisa falar algo pessoal.

Ele, sem palavras, apenas abriu a boca levemente e apertou os lábios novamente, como quem não quer dizer nada.

– Você procurou muito uma aliança em minhas mãos ou qualquer marca que lembrasse o uso de um anel por um longo período. Você fala comigo, mas nem sempre olha em meus olhos, a menos quando está em silêncio. Até ai tudo bem, é uma atitude comum de quem é tímido, mas se você quer me paquerar, faça isso quando estiver solteiro, de verdade. – disse ela levantando, deixando-o sozinho na mesa.

Ele, claramente frustrado, olhou novamente para ela indo embora e a chamou uma última vez. Ela parou e virou apenas o tronco para observá-lo, esperando para ver o que ele falaria. Ele então, perguntou com um tom de derrota, mas levemente irônico consigo: – Psicóloga?

Ela, com um sorriso de canto que fazia uma leve covinha em sua bochecha, respondeu inclinando a cabeça levemente: – O que você acha? – E continuou andando em direção à saída.

Já na rua, enquanto caminhava em direção ao ponto de ônibus, se viu rindo sozinha da situação e pensando: “É, mais um ano solteira pelo visto…”.

 

juhliana_lopes 23-06-2015.

 

 

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