Fumaça

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Acordou pela manhã com aquele cheiro de fumaça característico que conhecia bem e com os lençóis da cama molhados. Além disso um ruído o perturbava. Atendeu o telefone ainda  sonolento e tudo o que conseguiu distinguir foram poucas palavras sobre não deixar cigarros acesos para não disparar os alarmes de incêndio do quarto. Sentou-se na cama e esfregou os olhos. Cobertor, forro de cama, colchão, tudo encharcado.

Abriu a janela e sentiu o vento frio bater em sua pele enquanto o brilho do sol da manhã lhe cegava lenta e sadicamente. Respirou fundo e olhou o estrago. Seria sempre a mesma coisa, e não se sentia tão incomodado com isso, desde que suas roupas permanecessem seguras, poderia continuar vivendo em hotéis como mochileiro playboy.

Foi ao banheiro e então procurou marcas no rosto. Nada, nem uma espinha. Até que esse tipo de tratamento surtia efeito como diziam. Olhou mais uma vez ao redor dos olhos. Nenhuma ruga. Talvez tudo o que disseram não fosse verdade, o que era ótimo considerando esta parte.

Abriu o chuveiro e deixou o vapor tomar conta do lugar. Respirou fundo e tentou lembrar de algo da noite passada antes de toda a tequila e a vodka cor de rosa. Entrou na água e era possível sentir a pele cozinhando de tão quente, mas até que não sentia dor. Na verdade, há muito tempo queimaduras havia deixado de ser um problema.

Após um longo tempo, enrolou-se na toalha e mais uma vez deu uma volta pelo quarto avaliando os prejuízos. Cigarros, disse para si mesmo rindo baixinho. Pegou então suas roupas numa pequena caixa de metal revestida por dentro que sempre levava consigo. Dobrando com jeitinho tudo cabia ali, mas seus sapatos sempre ficavam de fora. Guardou suas coisas e o resto de muitas delas e foi acertar sua conta.

Mais tarde, almoçando em uma lanchonete de esquina bem longe do hotel percebeu que não havia pego o número dela. No fim era até melhor, afinal sua pele era tão fria e seu rosto tão bonito, seria uma pena estragá-lo em um momento de êxtase. Em todo caso, não conseguia parar de pensar na forma como sua língua havia invadido sua boca de forma tão sutil convidando-o para algo mais. Não sabia se a encontraria de novo, mas se encontra-se, não perderia tempo. Seria um desperdício no fim das contas, mas ele dava conta de ocultar um corpo sozinho se fosse o caso.

Ainda perdido em pensamentos, foi surpreendido com um tapa nas costas e um aperto de mãos. Uma leve fumaça saiu dos seus ombros mas logo estava tudo tranquilo como sempre. O agressor em questão era um velho amigo que há muito tempo havia saído para conhecer mundo como ele, talvez por motivos pessoais ou até mesmo motivos bizarros como os dele.

– Anda sumido cara, o que anda fazendo de bom?

– Nada, só curtindo. E você?

– Curtindo também, daquele jeito. Fechei alguns negócios bons ontem. As vendas andam boas.

– Ainda com o negócio de ervas?

– Sim, mas expandi para o álcool também, o pessoal daqui adora uma balada.

– Entendo. Tem que aproveitar mesmo, está certo.

– E você hein? Acho que vi uma fumaça suspeita ontem do décimo quinto andar… – disse o amigo dando um soco leve em seu braço.

– Era o décimo terceiro. Eu já nem esquento mais com isso,  acontece sempre… – pensou um pouco enquanto tomava um gole do seu chá – perdão pela piada infame, não foi intencional.

– Não tem problema, as vezes a gente esquece! Mas uma coisa que você poderia esquecer e não consegue é esse negócio de chá…

– É a única bebida que não fica ruim quando requentada.

– Sei como é, bem, vou indo antes que eu tenha uma “combustão”, digo, indigestão – o amigo se despediu rindo como se tivesse tido algo brilhante.

Terminou o seu chá e foi embora. Percebeu ao pagar a conta a surpresa da garçonete em quase queimar os dedos quando retirou a xícara e os talheres da mesa. Percebeu por um momento os olhares dela como se estivesse vendo o demônio, mas quando a encarou de volta, ela desviou o olha, sem graça.

Caminhando sob o sol forte da tarde, resolveu descansar um pouco embaixo de uma árvore. Enquanto se ajeitava procurando uma posição confortável sentiu um leve incomodo no nariz.  Não se contendo, espirrou e então aconteceu de novo. Não demorou para que as folhas mais baixas da  árvore ficasse pretas como carvão e as outras chamuscadas. A alça da sua mochila já era mas pelo menos suas roupas feitas com tecido especial daqueles que usam em roupas de bombeiros, não tinham dado uma perda total.

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Quando criança não se lembra de entrar em combustão constante, mas na adolescência era só se ver sob uma situação de pressão que sentia suas orelhas arderem. Na primeira vez o susto de ver tudo pegando fogo e correr de um lado para o outro como um idiota. Depois perceber que o fogo em si não queimava como deveria e por último mais uma vez foi ver que a garota do primeiro beijo estava com queimaduras graves na boca e no rosto e uma semana depois ainda estava internada com o rosto desfigurado sem saber explicar como aquilo tudo aconteceu.

Demorou mas aprendeu a controlar, mas ainda tem algumas crises surpresas quando dorme ou quando está entediado. Percebeu também que qualquer coisa que conduza calor vai conduzir quando ele o toca, mesmo sem querer, então problema de tomar bebidas frias pois elas chegam fervendo em sua boa, perdendo toda a graça.

Descobriu que com sua condição, ele era sozinho no mundo, porém havia um lar de esquisitices onde ele pode fazer algumas amizades. Isto incluía um caçador, um rato e o Cássio  que tinha uma inteligência enorme em criar coisas e receitas, e claro no cultivo de plantas.

Se ajeitou novamente e fechou os olhos lentamente, esperando que ninguém aparecesse ali de surpresa. Quem pudesse ver com atenção, era possível perceber uma leve fumaça saindo de suas narinas ao respirar e ver o mormaço saindo de seu corpo, mesmo na sombra, da mesma forma que se vê em uma telha ao sol do meio dia.

04-06-2015 /juhliana_lopes

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