Aquela rua, aquele dia

vidros abertos

O onibus balançava contra os buracos na rua, me acordando toda vez que o banco pulava. Eu não costumava dormir em coletivos, porém o sono era tão forte que meus olhos pesavam e se fechavam contra minha vontade. A chuva caía forte escorrendo pela janela e ensopando qualquer um que estivesse na rua. Ver os pingos caindo com tanta violencia me traziam um alivio interno por ter pego o onibus antes da chuva começar, e um certo pesar por saber que mesmo descendo no ponto final,a chuva ainda não teria parado.

As pessoas iam se amontoando pelos corredores, pois se o onibus já fica cheio em dias normais, com chuva a lotação praticamente triplica. As pessoas secas acabavam ficando molhadas pelas outras que entravam, e as ensopadas, acabavam ficando com as roupas secas no corpo por conta do calor que já tomava conta do lugar com os vidros fechados.

O mundo ficou escuro outra vez e senti minha cabeça pesar. Quando vi estava naquela rua novamente, aquela rua que eu adorava passar todos os dias mesmo não sendo caminho pra nenhum dos lugares que eu costumava ir. Uma rua que me trazia um sentimento bom, mesmo com um rio poluído ao lado, que depois de um tempo nem era tão incômodo assim…

A rua estava cheia e o sol brilhava alto. Talvez fosse meio dia pois além do calor, as panelas já soltavam seus aromas pelas janelas próximas fazendo meu estômago reclamar.

Sentei-me em um daqueles restaurantes que mais parecem botecos do interior, mas que possuem um charme que mesmo sendo um lugar rústico, chamava atenção por ser totalmente agradável e confortável.

Após o almoço, dei mais uma volta por uma praça próxima a rua que para mim, era tão especial. As árvores faziam uma sombra extensa permitindo uma brisa fresca que assanhava as folhas verdes, derrubando as secas sobre o chão. Crianças brincavam nos brinquedos e idosos jogavam dominó do outro lado, tudo fazendo parte do bom e velho clichê.

A brisa fria do fim de tarde e o céu mudando de cor para um tom azul escuro misturado com laranja me lembravam que já era hora de voltar.

Uma última volta que me fez mais uma vez me perder no tempo, me fez voltar quando as ruas já estavam escuras, iluminadas apenas pelas luzes fracas da rua. Voltando, sem qualquer preocupação, sinto uma vez forte dor de cabeça e então me deparo mais uma vez com aquela cena: um rapaz tenta assaltar outro que por sua vez reage e consegue se defender. Mais que isso, ele revida e mata o assaltante sem qualquer pudor ou compaixão. Atordoado ele joga a faca no rio e corre, sem ao menos perceber que eu estava ali, observando tudo…

Outro balanço e desta vez eu acordo próximo do ponto com a chuva mais fraca. Já não havia tantas ppessoas, somente alguns gatos pingados sentados. Minha cabeça doi e algo me incomoda. Observo ao redor e vejo que meus pertences estão todos comigo. Eafrego os meus olhos para tentar acordar de vez e então vejo enfim o que me incomodava. Olhos pesados e frios, escuros como a noite, fixos em mim.

Um homem alto com capuz, em ppé próximo da catraca, que não fazia questão de disfarçar para onde estava olhando.

Um arrepio pela nuca fez meus olhos arregalarem e o ar fugir de meus pulmões.

Era ele, o rapaz da faca, aquele que fugiu aquele dia. Eu sabia, tinha certeza que era ele, e algo me dizia que ele também sabia quem eu era.

Dei sinal para descer do ônibus, com as pernas bambas de tão fracas. Comecei a andar de depressa pelas ruas que logo hoje estavam sem iluminação. A chuva nem mesmo me importava, desde que eu chegasse o mais rápido possível em casa…

Então ele me chamou, mas continuei andando ignorando sua voz. Então ouvi passos apressados atrás de mim que me faziam quase correr pelas ruas molhadas. Então ele tocou meu ombro e de repente o mundo escureceu, junto com o ar que me faltou.

 

 

– Ei, acorde, você está bem?

 

 

juhliana_lopes 24-04-2015

Ref.: Não sabe que rua é essa?  Clique aqui e relembre! 

A bebida, o cigarro e o motivo

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A meia noite após um dia quente, a noite seguia abafada, e o céu limpo com as estrelas vivas, enfeitando a escuridão. Ao som dos grilos e dos cachorros latindo, viro mais um copo para aquecer minha alma tão fria. O líquido desce rasgando pela garganta, como um veneno que penetra as veias, desativando todas as funções importantes do corpo. O líquido desce esquentando-me por dentro e esfriando a minha mente, fazendo-me lembrar de quem eu sou. Quem vê de longe logo percebe que não existem só as estrelas que iluminam as trevas deste dia. Há também um ponto amarelo vindo da minha janela. Um ponto luminoso por onde sai uma fumaça fina e tóxica, que invade os meus pulmões, bloqueando meus brônquios e alterando minha corrente sanguínea, fazendo com que meu cérebro se agite, pedindo por mais. Meus pensamentos vão e voltam com uma velocidade tão imensa que me atropelam internamente, deixando-me com um leve enjoo, além da tontura e a dor de cabeça. Sinto-me inebriado pelas suas últimas palavras e violado pelos seus olhares. Não sei dizer o porquê, mas ao pensar em você, cada sensação se torna tão intensa que quase me faz querer repetir nosso ato. Um ato tão sublime que só permite sentir estas sensações tão magníficas somente uma vez. A arma ainda está com uma bala faltando, a mesma que invadiu seu corpo, dilacerando sua carne e se alojando em seu músculo, deixando a ferida aberta e o sangue livre para correr como bem entendesse. Ainda lembro-me de seus espasmos causados pela mistura da dor do corte com a perda de sangue pela hemorragia, além da sensação estranha de ter um objeto metálico em meio as suas entranhas. Minha mão ainda está seca com o seu sangue quente que sujou minhas roupas quando tentava em vão me fazer algum mal para compensar a desgraça que havia baixado sobre ti. O motivo para o fato ter ocorrido pouco importa, uma vez que as sensações foram tão superiores e realizadoras. Você ter me traído, me levando a te matar pouco importa, sabendo que você sempre foi meu, desde as formas mais banais, até o instante derradeiro, desde o toque mais leve, até a forma mais íntima e profunda que pode haver. Tendo a certeza que você sempre será meu, no amor e no inferno.

juhliana_lopes 21-04-2015

A nova doutora

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Desde o afastamento da última doutora que além da sua loucura visível, também foi diagnosticada com vários transtornos pós-estresse. Além disso, foi acusada de introduzir remédios controlados em alguns colegas de trabalho, misturados com outras substâncias, fazendo com que sua saúde também ficasse debilitada.

O hospital e manicômio passaram então por uma reforma e sob a nova direção, agora sob o comando do diretor Doutor Rodrigo, eu fui contratada.

A rotina era simples na ala que fiquei responsável, afinal, as moças em sua maioria eram quietas, e as mais agitadas estavam ocupadas bordando ou fazendo algum tipo de trabalho artístico.

Todas as terças, sempre que podia, reunia os internos e tocava algumas músicas para eles em meu violão. Era gratificante vê-los interagir e muitas vezes relembrar coisas boas de seu passado são.

Ainda sim, o marasmo me deixava inquieta. Queria fazer mais e sempre tentava entrar na ala masculina ou na recepção dos pacientes mais nervosos. Mantinham-me afastada, pois apesar dos meus anos de experiências, eles queriam deixar cada um em seu lugar.

Foi num dia se sol e festa que conheci a doutora que um dia foi uma das mais respeitadas do hospital. A única que conseguia controlar os loucos mais violentos, sem precisar tocar em um só membro. A única que tinha o respeito de todos. Estava visivelmente fraca, e apesar do assédio de todos que buscavam notícias ou simplesmente uma conversa sem importância, procurava se isolar sempre que podia.

A festa era em comemoração ao dia de São Patrício, e o local estava todo decorado de verde e laranja. Além de comidas típicas, a equipe do hospital distribuiu algumas fantasias aos internos, muitos estavam contentes com a festa, outros pareciam um pouco perturbados pelas cores fortes e ficavam pelos cantos.

Deram-me uma fantasia também, mas preferi manter minhas vestes brancas.

Mais tarde, quase no fim da festa, resolvi tentar conversar com a doutora tão famosa.

Para minha surpresa ela foi muito gentil, e nem de longe parecia estar doente como foi diagnosticada. Em todo caso, esta era uma das características particulares que já me avisaram sobre ela, afinal, foi por acharem que ela estava boa que a deixaram voltar ao trabalho, e foi por esse mesmo motivo que ela acabou causando um caos quase que irreversível.

Um dos meus problemas sempre foi à curiosidade, e ela não deixou de me incomodar quando a doutora me entregou uma chave, e disse apenas que se eu quisesse conhecer o hospital todo, aquela chave abriria tudo. Guardei tentando ignorar o significado, tentando fingir que poderia ser mais um delírio, mas eu sabia que não era. E ela sabia que eu sabia.

Ela sabia mais. Sabia que eu queria conhecer a ala masculina. Sabia que eu queria conhecer a parte dos violentos. Sabia que eu queria poder tomar conta de tudo como um dia ela tomou. Sabia que no meu íntimo eu desejava ter o mesmo controle e respeito que um dia ele teve.

Guardei a chave comigo e fiz um cordão com ele, deixando no meu pescoço, oculto pelas minhas roupas. Três dias depois, na minha folga, resolvi dar uma volta sem compromisso pelo hospital. Eu tinha autorização de sair pela cidade ou qualquer lugar que fosse quando não estivesse no meu horário de trabalho depois que escolhi morar lá, mas ainda sim, gostava de ficar naquele ambiente que muitos não pensariam duas vezes em ficar longe.

Passei pelo portão da ala masculina. Senti a chave fria em meu pescoço, mas não arrisquei. Perdida em meus pensamentos fui surpreendida pelo Doutor Rogério, irmão e braço direito do Diretor Rodrigo. Ele me convidou para um café em sua sala enquanto perguntava sobre o hospital e como estava sendo minha experiência no local. A conversa estava boa e amistosa, até ele fechar a porta da sua sala e trancá-la sutilmente, agindo como se não tivesse feito nada.

Então, ele mudou a pose e ficou levemente mais grosseiro e bonachão. Disse que pretendia assumir a direção do hospital e cortar muitos “privilégios” que ele acreditava que existia no local, começando pelas festas de interação e o horário estendido de visitas nos fins de semana. Para ele, tudo aquilo não passava de perda de tempo, e nenhum daqueles “trastes” muitos deles “assassinos cruéis” não mereciam o menor apreço.

Ele começou a me olhar mais profundamente e a acariciar meus ombros. Falava coisas em meu ouvido e então começou a ousar mais passando a mão pelo meu corpo. No início meu sangue gelou e eu fiquei paralisada sem reação. Eu queria sair dali, mas não sabia como. Eu queria entrega-lo a todos, mas sabia que ninguém acreditaria em mim.

Ainda surpresa, ele pediu que eu me levantasse e me despisse para um “exame especial”. Meio hipnotizada, eu levantei-me, porém quando ele começou a desabotoar a minha blusa eu o empurrei. Ele, obviamente não gostou e se aproximou novamente, lentamente, tentando tirar a minha blusa. Mais uma vez o joguei para longe e me afastei indo em direção à porta.

Desta vez, ele segurou meu braço e me debruçou sobre a mesa, segurando minhas mãos nas costas e com a outra mão, tentando rasgar minhas roupas. Como não conseguia me segurar e me despir ao mesmo tempo, me deu algumas tapas e passava a mão em mim, me ofendendo. Eu tentava em vão me defender, mas era difícil, uma vez q ele tinha quase o dobro do meu tamanho.

Quando ele me virou de frente para rasgar a minha blusa, a porta da sua sala se abriu num golpe forte e então pude ver Rodrigo surpreso acompanhado de dois enfermeiros “armários” e a antiga doutora em seus trajes de paciente encardidos.

Os enfermeiros seguravam Rogério que gritava dizendo que eu havia pedido para ele fazer aquilo, e que eu o havia provocado.

Rodrigo me explicou então que depois que eu entrei na sala, a doutora que estava próxima, pois estava no seu banho de sol, avisou uma enfermeira e insistiu para que eles viessem até ali, pois ela havia ouvido gritos. Primeiro ele pensou que fosse invenção, mas quando passou como quem não queria nada e percebeu que a porta estava trancada, chamou dois enfermeiros que ouviram os meus gemidos e as tapas que ele me deu.

Agradeci muito pela defesa, e agradeci a doutora também que com um rosto sem muita emoção disse que só fez o trabalho dela. Após um mês do ocorrido, fui promovida a “braço direito” do Diretor, e seu irmão foi afastado e encaminhado a uma delegacia onde foi condenado a prestar serviço comunitário em uma escola militar do outro lado da cidade como punição por assédio, tentativa de estupro e desvio de verbas, além de alguns anos de prisão domiciliar.

Agora eu tinha acesso a todo hospital, mas ainda era a principal responsável pela ala feminina. A curiosidade sobre a chave acabou ficando um pouco de lado depois do aumento e algumas vezes, até pelo acúmulo de tarefas.

Um dia, à noite, após uma comemoração da administração pelos bons resultados, com uma dor de cabeça aguda causada pela leve ressaca de algumas bebidas, fiquei observando a lua que estava alta e cheia e era muito nítida da minha janela. Coloquei uma roupa qualquer e fui dar uma volta pelo hospital.

Com a chave em meu pescoço fui até o portão da ala masculina. Quando a chave girou sem sofrimento e abriu o portão em um click suave, abri com todo cuidado e entrei. O local era muito silencioso e calmo, nada diferente das outras alas do hospital.

Voltei para o meu quarto e dormi como uma pedra, dopada pelos vários remédios para aliviar a dor de cabeça.

Pela manhã, acordei ainda com um pouco de dor aguda, e um bilhete no chão, escrito com uma letra bem desenhada “Eu sabia que você ia lá. Agora vamos ao segundo passo… É preciso aprender mais.”.

Eu sabia de quem era aquele bilhete. Eu sabia o que ela queria que eu fizesse e o que ela esperava acontecer. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia o que eu não sabia, o que eu jamais imaginaria…

 

juhliana_lopes 17-04-2015