Quase livre

Fotos-de-homens-tatuados-24

Depois de um enorme tempo de reclusão resolvi dar uma volta sozinha. Era bom respirar ar puro novamente e me sentir livre. A brisa leve que tocava meu corpo, o luar que me cobria na noite fria, o silêncio das ruas que era perturbado pelos sons dos grilos, tudo era perfeito.

Há muito tempo, eu estaria trancada, pedindo por socorro, sem ser ouvida, e me afundando cada vez mais nos meus quadris. Então, veio à libertação, e as portas foram arrombadas. Hoje, é tudo tão novo e tão bonito que o que passou não passou de um pesadelo insano.

Claro que eu não precisei ir longe para encontrar problemas. Na verdade eu notei que estava sendo seguida desde que passei em frente a minha antiga prisão, mas ignorei para ver se o estranho me ignoraria também. Quando parei em um ponto de ônibus, ele se aproximou, se posicionando ao meu lado, sem dizer uma só palavra. Dei sinal para o ônibus e ele entrou atrás de mim. Sentei-me no fundo, e ele ao meu lado.

Depois de passarmos de mais um ponto de ônibus ele enfim falou.

– Ele me mandou.

– Imaginei, não existe outra pessoa que poderia ter mandado você. A pergunta não é quem e sim por quê?

– Bem, ele queria saber se você estava bem. Preocupação…

O ser que estava ao meu lado tinha por volta dos 1,80 de altura ou até mais. Branco pálido, tatuado no rosto e careca, magro e com uma regata preta, chamava atenção de qualquer policial que ele encontrasse na rua. Toda pinta de skinhead, também fazia as pessoas do ônibus tremerem de medo só de olhar.

– Não faz o tipo dele.

– Talvez agora faça.

– O que ele quer?

– Nada. Na verdade, pediu pra eu te entregar isto.

Ele me deu então um pacote com alguns livros. Nem precisei ver os títulos para saber do que se tratava.

– Se ele vai começar a devolver as coisas, é melhor eu fazer uma lista…

– Talvez seja uma forma de pedir desculpas…

– Ou pisar em cima da ferida… Acredita mesmo em um lado bom?

– Talvez… – Ele abaixou a cabeça e não me encarou com os olhos. Na cabeça, era possível ver as marcas de algumas cicatrizes, provavelmente feita com facas, que ficavam mais aparentes com o cabelo raspado.

– Diga a ele que queime, não quero mais nada.

– Tudo bem.

– Algo mais?

– Pediu para que eu a acompanhasse até em casa?

– Eu não quero.

– Ele disse que diria isso. E eu vou mesmo assim.

– Ele disse isso também?

– Não. Ele disse que se você dissesse isso, eu poderia ir embora.

– E por que não vai?

– Estou sem vontade.

– Entendi. Bem, minha pergunta ainda não foi respondida. Por quê?

– Já disse, ele…

– Não. Por que você aceitou vir? Por que aceitou ser garoto de recados e burro de carga?

– Eu…

– Ele mandou você vir?

– Ele não manda em mim…

– Você veio. Então ele manda.

– Não…

– Agora sim.

– Ele não manda em mim.

– Manda. A partir de hoje ele manda.

– Não…

– Sim.

– ELE NÃO MANDA EM MIM, ENTENDEU? NUNCA VAI MANDAR! – o ser havia perdido a palidez e estava vermelho. Seu punho fechado estava sobre o banco do ônibus da frente e sua voz mais grave. Cheguei perto o bastante de seus lábios, sem esboçar nenhuma emoção ou reação e disse uma última vez.

– Manda.

Dava pra sentir sua respiração pesada, mas também não houve nenhuma reação de sua parte além de uma leve tremida na pálpebra direita.

Afastei-me e me levantei, pedindo licença para levantar. Dei o sinal e desci do ônibus, andando tranquilamente.

– Você vai mesmo me seguir?

– Estou te acompanhando.

– Obrigada, mas não precisa.

– Tudo bem, então, eu estou apenas indo pelo mesmo caminho que você.

Não respondi mais. Apressei meus passos e então fiquei a frente, seguindo o meu caminho.

Ao chegar ao meu portão, olhei para trás e ele não estava mais. Respirei aliviada de não ter que me despedir, porém, respirei cedo demais. Ao olhar para o lado, ele estava parado, como uma estátua e agora me olhava nos olhos.

– Agora eu entendo.

– Que bom. Ia ser horrível ter que lhe explicar tudo desde o início para ver se você iria…

Fui interrompida por um beijo. Algo estranho. Ele era frio como um cadáver, mas ao mesmo tempo seu beijo era intenso e aterrador que me deixava em brasa por dentro. Afastei-me de uma vez com minha mão sobre a boca.

– Entendo você, e…

– Não fale! – Eu o interrompi colocando a minha mão sobre a sua boca. – Não diga. Apenas vá embora e nunca volte, por favor. Eu não quero, não estou pronta, não vou suportar tudo de novo…

Seu olho direito agora tremia de tal forma que era possível vê-lo piscar sem controle, algumas vezes seguidas. Ele não disse nada. Apenas se virou e foi embora, mas não foi à última vez que nos encontramos…

 

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