A massagista

sexo07

Depois de uma pré avaliação, disseram que eu estava liberada pois tudo não passou de um susto, um pequeno lapso que podia ser facilmente controlado com calmantes. O diagnóstico estava errado, pois eu sinto que está errado. As pessoas podem manifestar distúrbios e até mesmo doenças mais graves de formas sutis inicialmente que, normalmente, são ignoradas ou cuidadas com pouco caso por se tratar de algo “pequeno” ou “só isso” que “logo passa”… Mas não passa.

A maioria das pessoas também convive bem com isso, escondendo seus medos e anseios em alguma coisa, seja trabalhando demais ou bebendo demais. O vício, seja ele no que for, entra como uma válvula de escape, mas ao mesmo tempo é seu maior veneno pois vai matando e sufocando a vítima aos poucos e então, ela surta de vez liberando aquele problema ou se mata sozinha quando a doença se expande.

No meu caso, ainda não tenho um vício propriamente dito, mas meu trabalho é o meu pior castigo. Como conviver com aquilo que você deveria evitar? É como um pedófilo que quer “se curar” na Disney, um alcoólatra trabalhando como provador de vinhos, ou qualquer coisa do gênero… Não presta entende? Uma hora vai dar merda, mas eu pelo menos sigo firme e forte, pelo menos por enquanto.

Não existe nada demais em trabalhar onde eu trabalho, afinal, eu ajudo as pessoas, elas vem cansadas, estressadas em sua maioria e buscam apenas relaxar. Pelo menos eu não tenho que usar roupas sensuais como é o desejo de alguns marmanjos que por aqui aparecem, mas ainda sim, não é isso que me incomoda.

Fazer massagens nos outros não é ruim. É um bom exercício pra mente. Você consegue atingir pontos específicos que mexem com os nervos das pessoas. Pontos nos braços que atingem o emocional da pessoa diretamente no pulmão ou no coração por exemplo. Pontos que mesmo que doam um pouco ao apertar, trazem um alívio enorme depois. Já cansei de contar as pessoas que chegam com os ombros duros como pedra saírem molinhos como travesseiros.

Já vi pessoas desesperadas encontrarem soluções geniais para seus problemas depois de um tempinho relaxando, e até pessoas que aparentemente estavam completamente “zens”, perceberem que na verdade o problema só estava oculto.

Como vê, não há nada demais na minha vida, no meu trabalho, e em tudo mais. Talvez seja um exagero meu me achar uma louca em potencial, talvez realmente tenha sido algo pequeno como o médico disse… Poderia, claro, por que não? Não, não pode, simplesmente porque eu tenho um gosto insaciável em apertar pescoços, segurá-los e só soltar quando o corpo estiver mole em minhas mãos. Não pode porque cada vez que eu vejo um pescoço vulnerável, indefeso, minha boca enche de água e minhas mãos coçam como um cão sarnento e meu sangue ferve me deixando em um ponto além do ponto de ebulição de uma jarra de água qualquer. O suor frio que corre em minhas costas a cada vez que alguém está sonado, curtindo seu momento relaxante me faz tremer e sangrar por dentro, e apenas respirar fundo e morder os lábios por fora.

 

Se eu já esganei alguém? Sim, mas não sei mais dizer quantos. A primeira vez foi pra me defender de um assalto e eu acho que o bandido nem morreu, só desmaiou mesmo, mas a segunda pessoa eu tenho certeza que se foi, afinal, eu ouvi e senti um estralo profundo em seu pescoço. O que eu fiz com o corpo? Bem, digamos que ele ficou escondido em algum lugar.

Nesse meio tempo ocorreram outras e nem todas eu tenho certeza se matei como o meu segundo, e desde então só acontecia quando eu resolvia sair sozinha para curtir baladas em outras cidades onde ninguém me conhecia. Se tornou algo bom de se fazer pois eu podia me sentir livre e ainda curtir meu estranho prazer em paz. Tudo ia bem e eu poderia ter levado isso pra frente por muito tempo se não fosse uma discussão na casa de um amigo meu.

Eu só fui defender ele, mas no fim das contas acabei com o pescoço do cara que estava discutindo com ele nas mãos. Não morreu, mas ficou em coma por uns dias. Como o meu segredo que ninguém sabia nem que existia um segredo foi revelado, me levaram para um médico que diagnosticou apenas como um leve surto pós estresse, sem risco, pois eu era uma menina de boa família, boa educação e desde que eu me acalmasse, não aconteceria novamente.

Mas acontece. Todos os dias, pelo menos um pouquinho, sem danos é claro, de forma mais disfarçada possível entre um movimento e outro durante as massagens. Ninguém até hoje reclamou ou percebeu, ninguém pediu pra parar ou pra continuar, e então eu sigo nesse disfarce, mas só leves apertos não me satisfazem.

Com o tempo e com alguns parceiros descobri que também gosto deste tipo de “carinho”, as vezes, até mesmo pra me acalmar um pouco depois de um longo dia com vários pescoços , eu mesma me enforco, buscando quem sabe sanar um pouco desta loucura. Um dia quem sabe, quando eu não tiver mais nada a perder, eu me acabe no meu prazer, e destrua tudo com as minhas mãos, apertando, segurando, sentindo cada pulsação, cada alma se esvaindo, cada sonho se acabando… Quem sabe um dia, eu respire enquanto os outros não podem mais respirar…

/juhliana_lopes 28-12-2014

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