História de pescador

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Entre muitas das minhas aventuras no mar, nenhuma poderia ter sido tão trágica e ao mesmo tempo tão surpreendente como esta. Eu não era exatamente um marujo, apenas ajudava como ferreiro do rei, porém tinha alguns conhecimentos de navegação e por isso, o príncipe me convidava para auxiliar em suas buscas próximas por pequenas ilhas e quem sabe alguns tesouros perdidos por piratas.

Neste dia, saímos cedo, com 50 homens, para ajudar no convés, na cozinha e no timão. Ismael era o principal responsável pela navegação,  mas como era cego de um olho, as vezes me pedia auxílio. Além disso eu também auxiliava na artilharia e monitorava os arredores.

Tudo ia bem, sem maiores surpresas, ficamos três dias em alto mar e então resolvemos voltar, afinal os mantimentos estavam acabando. A noite era de lua clara, e a brisa soprava leve e fria trazendo um ar fresco agradável com a maré. Era uma noite tranquila, de muito rum e conversa fiada, todos dormiram bêbados, como crianças travessas.

Porém, pela manhã, fomos surpreendidos por uma tempestade, que nos afastou muito da costa e da área que estávamos acostumados a navegar. O mar em fúria, agitava a embarcação com uma força tão extrema que era difícil se equilibrar. Por mais que nos esforçássemos era difícil manter tudo em ordem e assim, batemos contra algumas pedras  e afundamos.

Alguns marujos conseguiram nadar, outros afundaram junto com os destroços. Eu, fiquei boiando a deriva sobre um pedaço do casco, mas o frio da manhã já congelava os meus ossos e o sol que apesar do brilho, ainda não irradiava calor, me deixava mais frágil ainda.

Aos poucos, fui perdendo os sentidos e quando percebi, começava a afundar lentamente em meio a imensidão. Então, senti um arrepio mesmo estando debaixo d’água e ouvi um som agradável como um canto. Então, a vi se aproximando, lentamente, esguia como um peixe curioso. Nadou ao meu redor enquanto eu afundava, se aproximava e se afastava, com os olhos curiosos e acesos. Então chegou próximo suficiente do meu rosto, e passou a mão pelos meus cabelos.

Ela era linda, com sua pele alva quase rosada, e abaixo da cintura havia algo que se assemelhava a uma cauda esverdeada. Seus cabelos negros dançavam conforme a corrente, cobrindo e revelando seus olhos escuros. Nunca havia visto olhos tão negros assim, afinal todas as moças do reino tinham olhos claros, assim como seus cabelos.

Não sei quanto tempo fiquei submerso, mas ao ver aquela linda criatura, não me lembrei mais de respirar ou de qualquer coisa. Estava completamente encantado, seduzido. Ela poderia me devorar e arrancar os meus membros que eu nem perceberia, tal era a sua beleza envolvente.

Então, suas mãos me tocaram no peito. O toque eletrificou o meu corpo me trazendo um êxtase nunca sentido, de tal forma que eu poderia morrer naquele momento, que eu morreria feliz. Mas não morri. Ela também não me devorou lentamente, pelo contrário, ergueu meu corpo até a superfície, onde o choque de pressão me fez voltar a razão e perceber que há muito eu não sabia o que era ar nos pulmões, me causando uma dor aguda no peito, que dificultava a minha respiração.

Ao olhar ao redor, ela estava ali, olhando de canto, me observando, esperando alguma reação. Ao ver minha dificuldade, me puxou pelo braço e foi me guiando, seguindo as ondas até chegar a uma praia rasa. Lá, pude me arrastar pela areia molhada e respirar com calma, para recobrar a consciência.

Não cheguei a dormir, mas quando me dei conta, voltei a água, na parte rasa para tentar encontrá-la. Poderia realmente ter sido um sonho, mas para o desespero da minha loucura, lá estava ela, debruçada sobre uma pedra lisa me observando.

Cheguei perto com cautela, ela ainda tinha os mesmo olhos acesos que me observavam como quem olha para a sua alma. Ficamos um tempo ali nos observando, e então, rompi o silêncio e perguntei, com uma voz rouca seguida de tosse, devido a quantidade de água que havia engolido.

– Por que não me devorou como costumam fazer com os homens do mar?

Ela me olhava com a mesma expressão, mas então piscou os olhos lentamente e com um movimento suave, colocou a mão para apoiar o rosto e respondeu:

– Porque não era a sua hora e porque eu não estou com fome.

Ficamos ainda por um tempo parados, mas o sol já começava a esquentar e ela começava a recolher água com as mãos para molhar as partes que não estavam mergulhadas. Tirei então dos meus bolsos um saquinho que estranhamente ainda permanecia no meu bolso. Retirei um anel e estendi para entregar-lhe. Ela, se recolheu desconfiada, porém curiosa.

– Tome, pegue. É um sinal. Se nos encontrarmos de novo, não permitirei que ninguém lhe faça mal. Estou em débito com você.

Ela pegou o anel, e o colocou no dedo. Em seguida, juntou um pouco de água com as mãos, colocou na boca e depois retirou algo que parecia uma gosma transparente mas que brilhava sobre o sol em cores azul e verde misturadas. Então, espalhou aquela gosma fria sobre o meu pescoço e se afastou. Logo aquilo secou. Ela me explicou então que aquilo também era uma marca, para que qualquer sereia que visse, não me agredisse ou viesse me fazer de refeição. Uma marca que só poderia ser visto por elas, e que me garantiria proteção.

Agradeci o presente e ela também agradeceu o anel balançando a cabeça. Então, voltou para a água, lentamente como um peixe quando é devolvido para  água, se acostumando novamente com a umidade. Antes que ela pudesse ir embora, lhe perguntei sem muito entusiasmo:

– Posso contar isso a outras pessoas?

– Contar o que, que você foi atacado por uma sereia que na verdade salvou sua vida? Quem acreditaria nisso?

Pensei um pouco e realmente, ninguém acreditaria. Não havia sequela alguma e nenhum sinal de luta, o máximo que diriam era se tratava de um louco do mar.

– Se quiser contar, conte. Mas não vai passar de uma história de pescador. – Ela disse por fim com uma voz suave como a brisa, que bagunçava os meus cabelos. Então ela se virou num bote e sumiu pelo mar. Depois de um tempo consegui voltar ao reino, pois tive a sorte de parar em uma ilha próxima com moradores que pescavam na região.

Ao voltar ao reino, todos ficaram surpresos pois eu já havia sido dado como desaparecido há dias. Os únicos que sobreviveram foram o príncipe, Ismael o navegador e alguns marujos da cozinha que também se agarraram a destroços e conseguiram seguir até a praia mais próxima. Eu, inicialmente usei a mesma história, mas depois lhes contei sobre a sereia. Eles não me depositaram muita fé, porém afirmaram que sereias foram vistas comendo marujos e se deliciando com seu sangue naquela manhã.

Não sei qual foi a minha sorte, mas a noite ainda ouço seus cantos em meus sonhos, e sinto seus olhos negros me observando, desejando-me por completo, assim como eu desejei tê-los para mim.

 

/juhliana_lopes 16-12-2014

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