Olhos secos

OLHAR FEMININO 053

A capacidade humana às vezes pode surpreender. O que as pessoas farão para se proteger? O que elas farão para proteger alguém querido ou as pessoas que dependem dela? Existem muitas formas de reação, mas nenhuma delas me chamou mais atenção como esses dias.

Estava eu, levando meu filho para o curso, onde até pouco tempo atrás eu também já estudei. Era uma tarde quente de terça feira, e apesar das férias estarem próximas, a escola estava cheia. Na recepção, havia alguns pais esperando os filhos saírem e outros como eu que estava trazendo os filhos.

Nas salas, os professores orientavam os alunos, e davam uma olhada na recepção, ajudando a secretária que como sempre estava atolada de serviço. As salas também eram auxiliadas pelos monitores que como antigos alunos, sabiam todo o esquema de cursos.

Um dia normal como todos os outros, dia de calor, onde normalmente a maioria das pessoas fica um pouco irritadiça por conta do tempo abafado, ou com tendência ao estresse rápido. Um dia em que nada poderia dar errado exceto por um detalhe. Um assalto.

O bandido entrou rápido enquanto uma mãe que tinha acabado de tocar a campainha entrava. Ele a arrastou pelo braço subindo as escadas depressa, a mandando ficar quieta. Ao chegar à recepção, avisou aos berros que se tratava de um roubo e com xingamentos e agressões físicas começou a hostilizar todos ali.

Uma professora, que já havia dado aulas pra mim e agora auxiliava meu filho, ouviu os gritos. Como primeira ação instintiva, ela pediu para todos os alunos ficarem na sala e não saírem por nada. Pediu que os monitores cuidassem da sala e não abrissem a sala, por mais barulho que estivesse fazendo lá fora. Então, foi à sala ao lado e deu as mesmas ordens, explicando o que estava acontecendo.

Seguiu então para a recepção e presenciou o momento em que o bandido, hostilizando a todos, me agredia, batendo em meu rosto e me empurrando, me fazendo cair da cadeira. Meu filho assustado segurava o choro, e outras mães também.

A secretária estava em choque, sem reação, apenas fazendo movimentos mecânicos para pegar o dinheiro e entregar para o assaltante. Ninguém poderia ter uma reação tão rápida como ela teve quando o bandido para forçar a secretária ir mais rápido, bateu forte em sua cabeça. Ele estava armado apenas com uma faca aparentemente, pois a sacudia na mão em nossa frente o tempo todo.

No minuto seguinte, ela o acertou com um soco na boca do estômago e quando ele se abaixou de dor, ela levou a outra mão ao seu pescoço dando uma pancada forte que aparentemente havia acertado o pomo de adão. Enquanto tomava ar, ela o agarrou na nuca e bateu com sua cabeça na beirada no balcão com uma habilidade absurda.

Agora ele gemia de dor no chão, e em volta só havia silêncio. Com os olhos secos, ela subiu sobre ele, colocando os joelhos sobre seus antebraços de forma que ele não conseguia dobrar o braço. Agora meu filho me abraçava, mas não chorava mais. Todos olhavam apreensivos, pois algo parecia estar fora do controle.

Ela tirou um canivete do bolso, encostou sobre o pescoço dele. Foi falando num tom assustadoramente calmo, alternando entre baixo e alto para que ele pudesse ouvir com atenção.

“Você vai levantar e vai embora, vai pedir desculpas e nunca mais vai voltar aqui. Se você me vir na rua, você vai continuar andando mais vai abaixar a cabeça e NUNCA me encarar nos olhos. Você vai embora e se eu vir você ao menos passando aqui perto de novo ou se qualquer merdinha como você tentar entrar aqui de novo, EU VOU TE CAÇAR, VOU SANGRAR SEU PESCOÇO E BEBER SEU SANGUE NUMA TAÇA, você me entendeu?”

Ele ouviu tudo atentamente, agora mais assustado que as próprias mães que estavam no local. A secretária permanecia paralisada, apenas observando a situação.

“Você vai descer as escadas devagar, SEM olhar pra trás e eu vou acompanha-lo até chegar ao portão. SE você correr, SE olhar pra trás, eu vou te empurrar da escada e te arrastar até a delegacia. Estamos entendidos?”

Ao terminar suas palavras e levantou. Ele com medo, levantou o mais rápido que a dor lhe permitia, mas estava pálido de medo. Em algum momento talvez, ele achou que ainda pudesse virar o jogo e então como último golpe de misericórdia, tentou pegar o dinheiro que agora estava em cima do balcão e correr. Antes, porém, encontrou um pé certeiro no caminho e tropeçou, deixando o dinheiro cair e ficando de quatro no chão.

Foi pego pelo colarinho e arrastado até a escada, lá se podia ouvir apenas o barulho de algo caindo e os gritos de dor. Como se não bastasse, antes de descer, ela me chamou, e falou para eu ir junto, fingindo a maior dor que eu pudesse. Vi quando ele conseguiu parar de rolar e tentava se levantar. Antes de ganhar firmeza, ela colocou o pé nas suas costas e o empurrou novamente. Ele terminou de descer as escadas rolando e gritando muito.

Lá embaixo, ela agarrou seu braço direito pelo cotovelo, e o arrastou pela rua. Todos olhavam, estranhando a situação, sem perceber do que se tratava. A delegacia era próxima, e então, após alguns metros, largou o homem na frente próximo de uns policiais. Eles olhavam com indiferença, talvez achando que se tratava de alguma briga de casal. Então ela explicou que ele havia tentando assaltar a escola, que havia ameaçado a segurança de crianças e gestantes, que agrediu os funcionários e havia me agredido gravemente também. Cheguei com cara de dor, não pelo empurrão que havia levado, mas pelo esforço rápido de acompanhar correndo. Os policiais em questão me conheciam e então, não pensaram duas vezes em leva-lo para dentro. Um terceiro guarda, porém, questionou a professora sobre os métodos que ela usou para se defender. Nesta hora, ela começou a chorar e a bater contra a própria cabeça, repetindo que tentou apenas defender todo mundo, que não queria ver ninguém machucado. Chorava e soluçava. O guarda percebendo o desequilíbrio emocional por conta do estresse envolvido pediu para que ela retornasse mais tarde para um depoimento contra o acusado.

Saímos então, em direção à escola. Agora ela não chorava mais e tinha um sorriso sádico no rosto. Seus olhos estavam secos e não brilhavam como costumava fazer todos os dias. Questionei sobre o choro, e as batidas na cabeça. Ela disse que de fato havia exagerado um pouco, porém realmente sentiu vontade de chorar, mas claro não com aquela intensidade. O tom calmo de sua voz era de trazer calafrios a qualquer um, pois parecia que nada havia acontecido. Ela sorriu e quando se certificou que todos estavam bem, notei que o brilho havia voltado e os olhos estavam molhados novamente. A rotina voltou ao normal, e nunca mais vi os olhos secarem, mas algo me dizia que aquilo que havia saído aquele dia, estava ali, guardado, apenas esperando o momento certo para sair, mesmo que fosse para fazer a coisa certa da forma errada se isso significasse a proteção daqueles que gostava.

/juhliana_lopes 09-12-2014

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