Cavalos

xamã

Estávamos nós, cavalgando pelos campos, com o vento soprando depressa, bagunçando nossos cabelos. Meu cavalo, negro como a noite ia à frente, rápido como uma flecha, sem nunca se cansar. Meu irmão me acompanhava uma cabeça atrás, com o seu cavalo malhado, que não era tão rápido como o meu, mas duas vezes mais preciso e cauteloso, além de ser um ótimo rastreador.

Íamos nós, pelas campinas que dançavam ao sabor da brisa, espalhando o perfume das flores e agitando as abelhas. Não tínhamos saído para caçar, nem tão pouco para fazer a ronda. A aldeia estava tranquila e havia comida para todos. Era apenas um passeio, uma contemplação de tudo que a natureza tem nos oferecido há anos.

Escama, o cavalo malhado sentiu algo e ficou inquieto. Estávamos embaixo de uma jabuticabeira distraídos pela sombra, mas ele sabia como chamar atenção. Bateu com a pata no chão, relinchou e começou a andar de um lado para o outro. Passo Preto, meu cavalo, entendeu o recado e para chamar mais atenção, começou a correr em círculos. Levantamo-nos para acalmá-los e seguimos Escama em direção ao rio. Não sabíamos o que havia, mas era importante.

Ao chegar próximo, conseguimos sentir melhor o cheiro que tanto incomodava os cavalos. Pólvora. Nossa tribo jamais usaria tão vil arma para caçar ou guerrear, logo era fácil concluir que não se tratava de um de nós. Deixamos os cavalos próximos das árvores e seguimos espreitando entre os arbustos. Não havia briga e nem fogueira, mas havia um homem caído.

Ele usava roupas sujas de lama, e o cabelo era curto e embaraçado. Meu irmão fez um sinal para que eu ficasse escondida enquanto ele analisava o corpo. Aproximou-se devagar e ele não se mexeu. Então lhe tocou o braço e viu que ainda estava quente de tal maneira que ardia. Ao virar o corpo de barriga pra cima, pode ver o sangue em suas roupas, e perceber que ainda respirava. Aproximei-me com igual cautela, e juntos conseguimos improvisar uma rede para leva-lo.

Sabíamos que era errado trazer pessoas de fora da tribo, mas quando encontramos alguém ferido, temos que cuidar. Foi assim comigo. Não nasci nesta tribo, mas por algum motivo meus pais tiveram que me deixar e então, meu irmão me encontrou na floresta e cuidou de mim.

A verdade é que ele não era meu irmão de sangue, mas eu tratava como se fosse, afinal um cuidava do outro com muita dedicação, e graças a ele, me tornei guerreira defensora.

Levamos o homem à aldeia, porém o deixamos um pouco afastado. Não tínhamos certeza de era confiável. Ele estava com febre, um tipo de doença que deixava os homens brancos ardentes. Depois de preparar um chá com as ervas próximas, ele voltou à temperatura normal e parecia dormir tranquilamente. O sangue se deu por conta de uma ferida aberta próxima a sua costela esquerda. Não era um corte de flecha muito menos de punhal. Havia cheiro de queimado e um pouco de pólvora misturado ao seu sangue seco.

Limpamos seu ferimento, e o deixamos dormir. Na aldeia, comemos e bebemos, festejando a noite dos espíritos com nossos irmãos. O céu estava estrelado e a lua cheia brilhava alta em contemplação.

Então, percebi a ausência de meu irmão e ao ir atrás, lá estava ele ao lado do homem novamente verificando seu estado. Ao me aproximar, percebi que ele olhava atentamente uma mancha em seu braço. Era um sinal, marcado por uma pancada, mas que tinha a forma exata de um peixe. A luz brilhava forte naquele momento sobre o corpo, e então, o espírito do Corvo se aproximou para o momento de cura. Ele voava alto no meio da noite como uma sombra e parou sobre meu ombro direito. Meu irmão e eu entoamos orações, derramando um pouco de água do lago Cristal sobre ele. Ele estava curado e o Corvo foi embora.

Não era apenas a pólvora que havia ferido o homem, mas a ganância de quem atirou. Levantamo-nos então para uma ronda aproveitando a lua clara, pois tudo indicava que a guerra estava por vir.

 

/juhliana_lopes 08-12-2014

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