Jogo

Aquele não era o melhor lugar para se jogar, mas se você estava com vontade de perder um dinheiro com jogos, ali era o lugar. Perder, pois ninguém conseguia sair dali ganhando todas, e no fim das contas, mesmo ganhando algumas, o número de vitórias era sempre menor ao número de derrotas e o dinheiro de saída era bem menor que o de entrada.

Havia jogos de todos os jeitos, desde o velho pôquer, até o tradicional jogo dos copos. Todos os níveis se juntavam ali e não havia rico nem pobre e sim, jogadores bons ou ruins.

Entrei sentindo o cheiro forte da fumaça dos cigarros e charutos que se misturavam, formando um aroma forte e horrível para qualquer alérgico. As luzes também eram fracas, se concentrando apenas nos grupos das mais diferenciadas modalidades. As bebidas que era o combustível de tudo parecia nunca acabar, e todos os seus desejos poderiam continuar sendo desejos.

Uma mesa tinha mais destaque naquele salão imundo. Não havia tantos jogadores, mas muitos espectadores. Falavam sobre apostas e discutiam sobre cartas escondidas ou falta de sorte. Falavam também sobre as pernas e uma distração com decotes.

teste1Quando conseguir passar pela multidão, percebi a razão de tanto alvoroço. Uma moça, de cabelos castanhos, preso num coque bagunçado, com um corpete justo sobre uma blusa branca. Com um short curto e também justo ao corpo, de cetim preto, ela cruzava e descruzava as pernas com movimentos suaves, revelando as pernas com uma meia 7/8 preta transparente e uma liga na coxa esquerda, preta com corações vermelhos.

Muitos ficavam apenas babando sobre a carne fresca, outros tentavam prestar atenção no jogo, e os que estavam jogando, se viam no desafio de se concentrar nas cartas ou nas pernas, sem esquecer-se de desviar do decote.

As cartas rodava a mesa, mas eu só conseguia prestar atenção nos movimentos sutis, no perfume e na forma como ela piscava os olhos. A roupa curta havia me chamado atenção, mas depois, tudo nela era perfeito demais para se acreditar. A forma como segurava as cartas e passava levemente de uma mão para outra, a forma como sorria de canto quando percebia que ia ganhar.

Certamente ela era a única que estava levando a melhor, não só pela apelação, mas pela ótima técnica de jogo ou talvez por roubar de forma tão perfeita que era capaz de iludir todos em sua volta mesmo com todo o foco sobre ela.

Então, ele chegou. Bem vestido, com um casaco preto, e uma camisa chumbo. Apesar do social, a camisa estava levemente aberta por causa do calor, e o cigarro dançava pela sua boca de um lado para o outro com uma graça notável ao falar.

Ele entrou na mesa de jogo, e não parecia nem um pouco intimidado com a presença da bela dama. Ela também não pareceu se importar e logo começaram uma nova rodada. Ela com suas manhas e ele com uma rapidez e inteligência de dar inveja. Os dois empatavam, e a cada aposta os valores subiam.

Até que houve um leve tropeço. Um movimento mínimo revelou o truque da maga, porém um descuido também entregou o galante jogador. Os dois tinham cartas escondidas, e por alguma sorte não relevada, nunca jogavam a mesma que o outro. Combinados talvez? A verdade é que a gritaria tomou conta e o cavalheiro deixou de ser delicado e bateu sobre a mesa pedindo uma explicação e puxando o dinheiro para si. Ela por sua vez, puxou um canivete que mais parecia uma adaga do decote, e colocou sobre o pescoço do lado esquerdo com o fio voltado para a pele dele. O silêncio tomou conta daquela região, e ela foi colocando nota por nota, moeda por moeda dentro de sua bolsa.

Quando terminou, tirou a faca e saiu rebolando de forma hipnotizante. Ele, saindo do transe, correu atrás falando palavrões e gritando. Ela parou se virou rapidamente a tempo de pará-lo apontando uma arma em sua testa.

O suor frio começava a tomar conta de nós, meros espectadores daquela cena de filme, mas o curioso foi que antes de ir embora novamente, ela o tomou como refém para não ser mais incomodada.

Ninguém pareceu se importar quando eles saíram, mas algo me incomodava, talvez estivessem mesmo combinando, e como minha curiosidade sempre foi forte, resolver ir atrás. Não estavam juntos afinal, mas fiquei como um voyeur, vendo tudo de longe.

Próximo de um carro, ela tirou um banco pequeno e o amarrou. Não estava mais com a bolsa, mas havia algo em sua mão. Ao me aproximar um pouco mais com toda a cautela que eu conseguia e que o álcool me permitia, notei que era um chicote.

Ele estava sem o terno e ela havia rasgado parte da sua camisa. Com as costas expostas, ela brincava com ele, passando a ponta do chicote, e puxando a sua cabeça, cochichando algo em seu ouvido. Ele fechava os olhos e respirava fundo, mas talvez estivesse gostando da brincadeira.

Ela sentava em seu colo de frente pra ele, e esfregava os seios em seu rosto, logo depois lhe dava tapas na cara. Ele continuava respirando fundo e tentando ignorar a situação, mas era difícil se conter.

De repente ela cansou, e com o pé, o empurrou pelas costas, deixando cair de cara no chão com o banco ainda amarrado. Entrou no carro, deu a partida e jogou um lenço branco sobre ele antes de ir embora.

Mais uma vez por curiosidade, me aproximei e o soltei. Ele, desconfiado, me olhava com raiva, mas no fundo havia gratidão. Sem dizer nenhuma palavra, tomamos o caminho do bar novamente, aproveitando o silencio.

Como quem leva um choque, eu percebi apenas o clarão sobre a nossa frente e a sensação do meu corpo voando alguns metros e caindo sobre o chão duro e molhado. Ele caiu um pouco mais a frente, mas já fazia força para levantar. Inútil, pois logo em seguida o carro voltou de ré, acertando-o novamente. Ainda não satisfeito, o carro voltou novamente e mais uma vez passou por cima do rapaz, agora, passando sobre sua cabeça. Em cima do corpo, ela parou o carro e me olhou de novo. Eu não conseguia me levantar, sentia uma dor na perna direita muito grande, que talvez me indicasse uma fratura. Ela não me condenou por ajuda-lo e foi embora mandando um beijo com as mãos, e jogando algumas notas por ar. Aquela noite eu sentir dor, mas ao mesmo tempo, conheci a mulher da minha vida, que nunca seria minha e que jamais iria ver novamente.

 

/juhliana_lopes 06-12-2014

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