Insatisfeita

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Em um quarto com paredes encardidas, ela estava sentada sobre a cama com as pernas quase em posição de lótus e as mãos sobre os pés. Observava em silêncio a movimentação dos enfermeiros que entraram para retirar as roupas espalhadas pelo quarto para lavar. Saíram e ela continuou na mesma posição, olhando fixamente para frente, concentrada em alguma coisa.

Eu já disse, por que você não me escuta?

Eu não fiz nada demais, apenas segui meu instinto.

Mas toda vez que você segue seu instinto, eu que levo bronca. Você nunca espera pra encarar a verdadeira responsabilidade, sabe muito bem o que ela acha das suas atitudes, mas sempre deixa que eu leve a culpa.

Meu único dever é fazer o que eu faço.

Mas não pode ser assim, já passou da hora de você perceber que isso que você faz…

O que aconteceu aqui afinal? Vocês ficaram loucas?

Bem, eu não tive… Ei, aonde você vai?

Não tenho nada para fazer aqui, já estou satisfeita, com licença essa briga é de vocês.

Mas você não pode…

Quantas vezes eu já falei, vocês são surdas?

Eu tentei evitar, você sabe! Eu juro que eu tentei… Eu…

Você sempre tenta isso, tenta aquilo, não acha que tá na hora de parar de tentar pra e correr atrás de realmente conseguir alguma coisa? De me apresentar um resultado satisfatório?

Eu… Eu tento… Digo, eu estou correndo atrás, mas você sabe que não depende só de mim, eu não consigo segurar sozinha se ela não…

Desculpas furadas e esfarrapadas, só isso que você sabe me apresentar. Sabe o que você é? Uma incompetente que não consegue ter responsabilidade sobre você mesma e muito menos sobre os outros. É óbvio que não vai conseguir jamais controlar aquele ser imundo, não consegue nem se controlar. Eu devia tomar conta disso, mas sou ocupada demais para parar tudo o que eu tenho para olhar crianças levadas. Vocês nunca vão crescer enquanto não conseguirem sucesso nessa missão idiota que eu dei pra vocês. Algo tão simples e você sempre inútil não consegue…

Eu não sou inútil, eu faço meu trabalho, mas não dependo só de mim, eu sempre sigo o correto conforme as regras e restrições que você me passa. Todo mês acompanho a cartilha e reviso sempre tudo o que me passa para ter certeza de que nada mudou ou o que sofreu alteração, está sendo devidamente seguido, mas ela… Ela é complicada, não quer seguir o que eu falo, só pensa nela mesma, como eu posso fazer alguma coisa?

Já desaprendeu a sua função? Eu tenho mesmo que ficar repetindo mil vezes o que é certo e o que é errado? Percebe o quão inútil que você é e se assume ser a ponto de me perguntar o que fazer como se esperasse eu fosse fazer por você? Entenda, você é o responsável por manter o controle, eu sou pago apenas para ditar as regras. Se eu tiver que fazer o seu serviço, você não precisaria estar aqui, pois eu mesma já teria me livrado de você faz tempo.

Isso é pressão. Eu não aguento tudo sozinha sabia? Afinal, não é só um lado que eu preciso controlar.

Está me chamando por acaso de descontrolada? Está insinuando o que?

Nada, não insinuei nada senhora.

Você mente muito mal. Está dizendo que eu estou ficando louca? Que eu tenho que ser controlada? É isso que está dizendo?

Não senhora. Só estou dizendo que eu não consigo controlar tudo sozinha…

Dê um jeito, se vira você não nasceu quadrada, você mais do que ninguém tem a consciência do que é certo e do que é errado. Faça seu emprego valer a pena.

Espere não me deixe aqui, eu preciso de um conselho, uma ajuda pelo menos…

Ai, ai…

Ei, espere, onde você pensa que vai?

Eu estou com fome ué. Aliás, uma fome diferente daquela primeira, e acho que vou precisar de algo a mais hoje se é que você me entende.

Não vai não. Ah não vai mesmo. Não vou permitir isso!

Em algum momento eu perguntei se eu podia ir?

Não, não perguntou, mas você…

Então, eu não preciso da sua autorização. Eu não sei por que você insiste. Parece que não sabe que eu sempre faço o que eu quero.

Custa ser moderada pelo menos, sem violência, sem indecência…

Custa, o meu prazer. E você sabe que eu não abro mão disso por nada por que…

– Falando sozinha de novo? Você tomou os remédios hoje? – Disse o enfermeiro entrando na sala, abrindo a cortina velha para que a luz do sol pudesse aquecer o quarto.

– Eu não falo sozinha. – Disse ela encolhendo as pernas com os joelhos próximos do peito.

– Então fala com quem? Com o papai Noel? – Respondeu o enfermeiro com tom irônico.

– Não.

Mais uma morte, como você acha que eu posso administrar isso perante os outros?

Eu falhei de novo, fiz de tudo pra impedir, mas ela me empurrou, não pude fazer nada…

Pare de chorar como uma idiota. Onde ela está? Vou ter que tomar as rédeas por aqui, tudo isso está indo longe demais!

Qual é a honra da visita?

Não me olhe com esse riso bobo no rosto, você sabe muito bem o que fez e que tudo o que você faz é errado. TUDO!

Por que você não me escuta… Era fome que você estava sentindo, por que não esperou ele deixar a bandeja com o café?

E quem disse que eu estava com fome de café? Eu queria carne ué. Leve, suculenta e mal passada. Claro que seria melhor se estivesse passado pelo menos no óleo, mas pelo menos estava fresca e quente…

Mas tinha que ser logo a carne do enfermeiro? Precisava abrir a barriga dele com as unhas?

VOCÊ É UMA INÚTIL! UM MONSTRO! UMA ABERRAÇÃO! COMO PODE AGIR ASSIM?

Eu acabei com o meu desejo certo? Estou feliz certo? Vocês deviam relaxar e ficar satisfeitas também, afinal…

– Oh meu Deus! O que aconteceu aqui? Chamem mais enfermeiros, rápido! Úrsula, o que você fez?!

Eu? Eu nada.

 

/juhliana_lopes 04-12-2014

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3 respostas em “Insatisfeita

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