Narcisos

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Mais uma mensagem, e mais um bilhetinho no bolso. Como lidar com esse assédio? Passou seu perfume, arrumou o cabelo e pegou as chaves para sair. O assédio fazia parte de sua vida desde a adolescência, mas por mais que fosse incômoda, era perfeita para o seu ego.

Ligou para o primeiro número da sua agenda. Já estava tudo marcado, mas gostava de ligar antes para confirmar e mostrar interesse. Ao parar o carro, ela veio apressada em sua direção. Estava com um vestido vermelho e um perfume levemente doce. Sua pele alva se destacava com o rubro da roupa e seus lábios estavam pintados com um tom de rosa chá, que combinavam perfeitamente com o dourado dos cabelos. Ao vê-lo, ela suspirou de felicidade. Era como estar com um príncipe encantado, pois além da beleza, tinha uma delicadeza enorme e um galanteio sem tamanho.

Após o jantar, percebeu que além do cavalheirismo, ele tinha uma pegada forte, e depois de ir ao céu e voltar três vezes seguidas, desmaiou entre os lençóis brancos do quarto do motel. Para ele, a noite estava perfeita, mas ainda era cedo. Deixou a conta paga e a deixou dormindo, indo em direção ao seu próximo alvo. Ligou novamente e lá estava ela esperando. Esta estava com um vestido verde, discreto, mas que iluminava sua pele morena e os cabelos cacheados. Seu batom deixava sua boca mais carnuda e era difícil se concentrar no trânsito com aquele decote generoso, porém, sem ser vulgar.

Juntos foram para uma balada que já estava fervendo. Depois de muita dança e vários drinks, uns puxões leves de cabelo e algumas mordidas na orelha, era de se esperar que eles pudessem ser encontrados aos cantos escuros, com cada toque a flor da pele. Mais um motel, mais suor e mais uma linda mulher dormindo sem preocupação.

A madrugada começava e ele ainda não tinha chegado nem perto de sua satisfação. Em meio a luzes e o som alto, percebeu os olhares de cobiça de duas moças. Uma de vestido preto e outra com um vestido azul marinho, ambas de cabelo preto, porém uma levemente mais bronzeada que a outra. Não foi preciso gastar mais que algumas doses e logo estavam as duas em seu carro, quase causando um acidente antes de chegarem ao seu destino.

Mais uma conta paga. Mais corações deixados para trás com promessas e juras de amor. Não acreditava que elas estivessem mesmo amando, mas sabia que tinha o dom para que isso acontecesse. Antes se importava e procurava dar de tudo para sua escolhida, mas depois percebeu que ele não conseguia retribuir o sentimento da mesma forma, e então passou apenas a brincar com elas, coisa que parecia bem mais divertida. Quando estava de bom humor, fazia a história durar semanas ou até meses, entre mentiras e perfeitos fingimentos. Quando queria só se divertir, passava a noite apenas fazendo vítimas de sua beleza e charme incontestável.

Já estava indo embora quando encontrou outra potencial dona do seu coração. Ruiva, com o cabelo na cintura e um vestido leve apesar da noite fria. Usava uma jaqueta de couro por cima e uma bota pequena. Caminhava pela calçada sem se preocupar, talvez estivesse próxima de casa ou se encontraria com alguém, em todo caso não custava tentar.

Aproximou-se com seu carro perguntando um endereço qualquer sem parecer agressivo, ela muito gentil e dona de um sorriso encantador, lhe disse onde era e ele como um bom cavalheiro ofereceu uma carona à bela moça, já que por acaso o endereço perguntado era o mesmo para a casa dela. Com a mesma gentileza aceitou e juntos foram conversando sobre noitadas e profissões, gostos musicais e literatura entre outros assuntos lembrados no meio tempo. Ao descer do carro, agradeceu a carona e foi embora. Espera, como assim? Ela não iria mesmo convidá-lo para entrar? Será que havia feito algo de errado? Era preciso ousar mais. Fingiu um problema no carro e uma perca de bateria no celular. Pediu para entrar e usar o telefone; ela gentilmente cedeu. Uma vez dentro, ela esperou ele terminar sua ligação, e disse que poderia espera-lo com ele do lado de fora. Como assim? Será que ela é casada ou virgem? Por que essa barreira? Pra que essa distância? Ele despretensioso, perguntou se não havia um café ou alguma outra bebida energética para continuar acordado enquanto amanhecia. Ela fez um café rápido, o melhor que ele já havia tomado e logo ele estava empurrando ele para a porta novamente, dizendo qualquer coisa sobre um guincho que abria logo cedo.

Impaciente, agarrou-a pela cintura e lhe deu um beijo, longo, quase extraindo sua alma. Para sua surpresa, foi correspondido, e por mais que ele não quisesse assumir, ele tinha adorado e queria mais daqueles beijos. Muito mais bonito foi a forma como ela ficou vermelha de vergonha como uma adolescente quando tem um beijo roubado. Mas não seria apenas um beijo que ele iria lhe roubar. Arrastou-a para o sofá e se aproveitou daquele corpo. Ela não oferecia resistência e parecia também se deliciar com as sensações. Enfim estava domada, enfim, estava se entregando como devia ser, porém, após a quarta vez, não só ela, mas ele também estava cansado e desmaiou no tapete da sala.

Acordou com o sol forte do meio dia em seu rosto, e suas roupas dobradas sobre a mesa de centro. Procurou a sua dama, mas não havia ninguém. Vestiu-se e tomou mais um gole de café que ainda estava quente. Achou então um bilhete, e percebeu então a ausência do seu carro que devia estar na rua. Ao ler o bilhete, sentiu o sangue subir a cabeça, e a raiva lhe consumir por completo. Saiu bufando pela porta, a procura de um orelhão, tentando lembrar-se de cor algum número que pudesse ligar para pedir auxílio enquanto ainda lembrava com ódio das palavras escritas no papel.

“Pois bem, não é que você é capaz de tudo mesmo? Eu poderia te denunciar por abuso, mas acredito que isto não será necessário, após você me pagar de bom grado com seu carro, carteira e celular. Também peguei as senhas do seu cartão, afinal acho muito lindo quem fala dormindo. Espero que não fique chateado, mas você não é o único Narciso por aqui. Abraços e até a próxima, Ec. O.” 

 

/juhliana_lopes 17-11-2014