Coração

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A primeira vista ninguém acreditou muito menos o delegado. Era impossível atribuir tantas coisas a uma pessoa tão frágil. A promotora também não apostava, mas pela cara dos guardas que a trouxeram com muito custo, algo horrível tinha acontecido lá fora.

– Vocês estão me zoando? Eu tenho cara de otário? – Dizia o delegado irritado. – Nós temos o retrato falado do sujeito de acordo com o que as vítimas relataram e vocês me trazem a primeira pessoa que acham na rua, achando que vão me convencer de que ela é a pessoa certa na verdade? Que merda vocês tem na cabeça?

O delegado já estava ficando vermelho e andava impaciente de um lado para o outro. Sua camisa social amarelada no colarinho e justa por causa da barriga saliente, já estava amassada e com manchas de café.

A promotora se aproximou tentando acalmá-lo. Ela observou os guardas mais uma vez com ar de desconfiança. A lógica diria que não, mas ela mesma já foi surpreendida com casos que estavam praticamente ganhos que tiveram uma reviravolta impressionante nos últimos minutos, mudando o rumo de tudo.

– Vamos com calma. É óbvio que talvez o criminoso não trabalhe sozinho e o que aconteceu foi que ele distraiu os guardas deixando uma isca para trás. Tenho certeza que se interrogarmos ela e os guardas tudo vai se esclarecer.

A promotora mantinha seu tom de voz firme e calmo como se estivesse em tribunal, mas a verdade que nem tudo lhe parecia tão óbvio e certo assim. Na verdade uma ponta de medo estava crescendo dentro dela, deixando seu peito angustiado.

Os guardas por sua vez estavam em choque. Desde que ela havia entrado na sala, não se atreveram a falar uma só palavra e o suor frio lhes descia pelas costas trazendo um arrepio gélido como o beijo da morte.

Ela. Quieta, não levantava a cabeça pra olhar nada. Não dava pra dizer se ela também estava ouvindo a conversa toda ao seu redor, ou sentido o clima pesado que estava cada vez mais insuportável. Ali, parada, parecia uma surda-muda, que provavelmente seria cega também.

Enfim, o médico legista saiu de sua sala. Sua roupa branca agora estava com manchas de sangue e a máscara de seu rosto balançava forte com o ar forte que respirava. A promotora olhava apreensiva, e os guardas com seu olhar estático, já esperavam as palavras que viriam.

– Eu preciso falar algo… – começou ele com a voz baixa.

– O que foi? Mais alguma evidência? – perguntou o delegado impaciente.

– Eu… Bem, ocultei uma coisa. Em todas as vítimas que foram achadas, havia cortes na barriga…

– Como outros cortes no corpo, mas o que você quer dizer com “ocultei uma coisa”, acha que estamos de brincadeira rapaz? – o delegado ia falando enquanto andava de um lado para o outro.

– Deixe o rapaz terminar! – interrompeu a promotora falando alto.

– Bem… Eu abri esses cortes pra saber por que havia sido cortado… Eu achei… – o médico suspirou fundo. – Em cada corpo há objetos guardados.

– Objetos? – questionou a promotora pensativa.

– Sim. E mesmo eu não sendo investigador nem nada, eu resolvi tentar resolver esse quebra cabeça. – O médico respirou fundo mais uma vez e começou a falar sem parar. – Todas as pessoas mortas trabalhavam em empresas grandes, e poucos dias antes da morte, os funcionários reclamavam do sumiço de alguns objetos. Canetas, blocos de nota, tesouras, entre outros acessórios de escritório. Na última antes dessa, um funcionário comentou que sentia muito, pois, pouco antes dele sumir, uma caneta que o morto adorava havia sumido e ele se sentia culpado por isso. Quando examinei o corpo, a caneta estava lá, “guardada” dentro dele. Como os outros corpos estavam guardados para mais averiguações, comecei a verificar e todos tinham alguns objetos.

Ele falava mexendo as mãos e tentando não parecer abismado, mas a cor de seu rosto entregava seu temor.

– O que você achou nesse corpo? – disse a promotora com um tom desesperado.

– Dinheiro.

– Dinheiro? – questionou o delegado abismado.

– Sim. A mesma quantidade que vocês haviam falado que tinha sumido hoje pela manhã…

A promotora deixou o corpo cair sobre uma cadeira. Sentada, colocou a mão sobrea cabeça pensativa. O delegado que antes tinha tudo resolvido, por um momento se sentiu sem chão e também se sentou. Os guardas engoliram secos. Deram alguns passos tímidos para se afastar dela, e quem sabe sair antes de responderem alguma pergunta, mas antes que pudessem o delegado levantou a cabeça.

– Vocês… Por que a trouxeram, porque acham que é ela?

Eles se olhavam nervosos. Não queriam falar, não podiam falar. O guarda da esquerda começou a chorar com soluços disfarçados. O outro respirava forte tentando se segurar, mas logo estava berrando desesperado como uma criança com medo de médico.

– ELA ESTAVA COMENDO O CORAÇÃO DE UM CARA LÁ FORA!             ELA MATOU, ARRANCOU O CORAÇÃO E COMEÇOU A COMER, NO MEIO DE UMA PRAÇA! MATOU DA MESMA FORMA QUE OS OUTROS CORPOS FORAM ENCONTRADOS!

Ele estava respirando forte, quase sem ar. Antes de mais alguma explicação, desmaio cansado no chão com o pescoço torto. O outro trancou os lábios e cerrou os punhos. A promotora tentou ajudar o guarda e o delegado tentou arrancar mais alguma explicação. O outro não queria responder, mas também não suportou o silêncio.

– Quando nos viu, ela parou de comer o coração. Largou na calçada e “se entregou” pra gente. Veio sem a gente fazer força, sem nenhuma objeção… – Ele suspirou profundamente e enfim falou. – Ela veio nos matar.

O delegado abriu bem os olhos depois da afirmação, mas antes de qualquer objeção viu o sangue jorrar na sala. Ela tinha uma força incrível e uma faca afiada. Como um bicho, abriu o peito do guarda “mensageiro” e começou a comer seu coração.

Em seguida atacou à promotora, que tentou se defender, mas logo foi degolada. O delegado, apavorado, sofreu um ataque cardíaco, se tornando um peso morto que não chamou atenção para ser outra vítima da canibal. Com o outro guarda com o pescoço quebrado, sobrou somente o médico que em choque não conseguia se mexer.

– Você vai me usar pra guardar algum objeto não é? Por que você faz isso? – Ele dizia em pânico.

Ela se aproximou mancando, e pela primeira vez levantou a cabeça para encará-lo. Seu rosto era angelical apesar da boca manchada de sangue, e seus olhos era um tom de mel quase amarelo. Por um momento se viu encantado pela beleza dela, mas não a ponto de esquecer seu pavor.

– Não vou guardar em você. – disse ela por fim, num tom de voz calmo e suave. – Você parece ser legal. – ela falou ainda olhando fixamente para ele. Depois, se virou e começou a abrir o estomago do guarda com o pescoço quebrado. Tirou um DVD envolvido num plástico do bolso e colocou em sua barriga através da abertura que havia feito.

– O… Que tem nesse DVD? – ele disse atordoado.

– Imagens da promotora e do delegado, usando a sala da delegacia para outros fins, se é que você me entende… – Ela disse enquanto deixava o cadáver de forma confortável no chão. Então se levantou, aproximando-se do médico novamente.

– O que você quer? – Ele disse por fim.

– Agora? Você… – Ela respondeu, roubando-lhe um beijo longo e demorado, que apesar das evidências não foi rejeitado. Pela primeira vez ele beijava alguém com tanta volúpia. Pela primeira vez sentia o gosto de sangue. E apesar de toda a lógica e ética lhe mostrar que não, sentiu que gostava daquilo, tanto quanto a sua profissão.

 

juhliana_lopes 16-10-2014

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