Pesado

 

cama desarrumada

Não havia acordado bem. Seu corpo pesava desejando o repouso na cama por mais algumas horas. Quantas? Não sabia, mas seriam quantas fossem necessárias. Seus olhos não queriam se abrir para o mundo, desejando ainda ver o mundo fantástico dos sonhos. Nunca foi de ter muitos sonhos, é verdade, mas especialmente naquele dia, havia tido alguns ótimos e perfeitos e se pudesse voltaria a cada um só para gravá-los. No último sonho, por exemplo, pelo que se lembrava, estava em um lindo campo aberto e verde, com flores que dançavam conforme o vento e o sol que brilhava forte, porém sem esquentar muito, deixando assim o ar fresco… Tudo estava indo perfeitamente bem, até se encontrar com um dragão adormecido. Sabia que precisava continuar seu caminho, mas não podia despertar o dragão, e mesmo tomando todo o cuidado para passar ao lado, ele se acordou, olhou em sua direção e gritou.

Acordou assustado, temendo pela sua vida, mas o grito do dragão não era nada mais que seu despertador irritante. Era hora de acordar, mesmo seu corpo se recusando, era preciso seguir. Tomou um banho gelado na tentativa inútil de espantar o sono, e mesmo o choque gerado da água fria contra o calor confortante do corpo, não fez mais do que fazer seus ossos doerem e os poros se arrepiarem. Era preciso mais, para enfim se livrar do cansaço e então um bom dia. Um café forte, sem açúcar seria a solução, seria o néctar dos deuses para seu despertar.

Nada, o café dos deuses serviu apenas para deixar um gosto ruim na boca, que provavelmente seria sentido até a noite em possíveis arrotos tardios. Arrastou-se mesmo assim para o ponto de ônibus, afinal, talvez o ar da rua pudesse lhe fazer as narinas coçarem e então acordar para o mundo. Seu nariz começou a coçar realmente, no ônibus, entre tantos perfumes e aromas misturados, porém nada disso o fez querer realmente estar ali e sim voltar para o conforto do seu lar.

E assim passou o dia, mesmo os relatórios, mesmo os gritos do chefe, as conversas indiferentes dos colegas, nem a tia que vendia trufa na frente da empresa, nem os cigarros passivamente fumados, nem a música aleatória de elevador, nem a notícia de uma possível promoção, nem mesmo o bônus no salário e a cesta básica que ganhou por atingir a meta do mês. Nem os bilhetes secretos, românticos, que recebeu, nem as olhadas e piscadas discretas das moças da recepção, nem a história contada pela vigésima quinta vez pelo porteiro, nem mesmo o colega que caiu “acidentalmente” da escada, quebrando o pescoço e morrendo asfixiado após alguns segundos, depois de lhe desejar uma boa tarde e dizer que ele estava com frescura…

Alias essa morte acidental até que fez com que ele esboçasse um leve sorriso de canto de boca. Ainda mais quando percebeu que não havia câmeras ao redor. Ver aquele chato do trabalho que todos odiavam agonizar, fez com que soltasse um leve suspiro de satisfação. Mas, foi momentâneo, afinal, precisava de alguma explicar o acontecido aos colegas.

Saiu mais cedo do serviço aquele dia, mas nem isso fez com que sua felicidade fosse completa. Foi um trauma muito grande disseram-lhes alguns colegas. Presenciar a morte de um amigo tão querido e ainda sim tentar fazer algo por ele e não conseguir deve ter abalado seu psicológico, lhe disseram algumas moças. Obrigado por nos avisar e tentar ajudar, mas vejo que você está muito abalado e talvez precise de um descanso por hoje, esteja aqui amanhã ao 12h, assim você trabalhar só metade do dia de amanhã se estiver melhor, lhe disse o chefe.

A história era perfeita e ninguém lhe questionaria do contrário. Mesmo com essa volta pra casa, o caminho ainda lhe parecia pesado, como se estivesse carregando o mundo nas costas. Não era o peso da morte, isso ele sabia bem, e sim o mais puro cansaço aliado à preguiça.

Ao chegar a casa, foi até um mural oculto pela porta e marcou com um risco o dia de hoje. “Mais um idiota inútil fora do caminho”, pensou ele. E realmente era. Só precisava tomar cuidado antes que resolvessem investigar como ele sempre é o bom samaritano que está por perto quando alguém estava prestes a morrer. Já haviam sido cinco eliminados na semana passada; talvez fosse hora de dar uma folga na sua caça;

Mesmo contente com seu objetivo pessoal de se livrar dos idiotas do mundo, sobretudo os pés no saco, ainda não estava completo. Foi então para sua cama, mesmo sem tomar banho. Apenas tirou as roupas e se deitou. Enfim abriu um enorme sorriso e suspirou longamente. Enfim estava em sua cama e poderia dormir, o quanto precisasse desde que fosse até antes do 12h.

 

juhliana_lopes 25-08-2014

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