Sonhos

lotado

Com a garganta seca e os olhos atordoados, não conseguia focar sua visão em lugar nenhum. Pior que isso, era a sensação de estar caindo, mesmo com os pés nos chão. Tentou se apoiar em alguma coisa, mas não havia nada em que se segurar. Tentou se jogar no chão de uma vez, para quem sabe sentar ou deitar, ficando seguro de si mesmo, mas por mais que fizesse força, eu corpo não obedecia a seus comandos e continuava nesta agonia sem fim.

Abriu os olhos com certo pesar, mas suspirou aliviado ao perceber que estava sentado no ônibus a caminho de casa. Não costumava dormir em transportes coletivos, por medo de perder o ponto, mas estava tão cansado aquele dia que a única coisa que conseguiu fazer foi sentar e deixar os olhos fecharem. O pesadelo deve ter sido por conta de suas preocupações diárias, do estresse do dia a dia, entre tantos outros motivos para alguém ter um pesadelo.

Voltou os olhos a janela e passou a observar as pessoas que passavam na rua. Os carros que ora passavam em alta velocidade e ora estavam parados com o trânsito, pareciam miniaturas perto do ônibus. Os motoristas, também traziam em seus rostos expressões marcadas do cansaço de um dia inteiro de trabalho.

Como se acordasse novamente despertou de seus pensamentos quando a moça que sentava ao seu lado mais próximo da janela pediu licença para levantar. Ele afastou as pernas e ela passou, quase levando o mundo com ela devido à superlotação do veículo. Ele jogou o corpo com jeito para o lado da janela e assim conseguiu ter uma visão mais ampla para seus devaneios. Ao seu lado, agora sentou um senhor, que como quase todos os idosos, gostam de conversar e falar sobre suas vidas cansadas.

Ele não costumava conversar muito, mas mesmo que não quisesse o senhor conseguia a sua atenção. Ele falava qualquer coisa sobre a bolsa de valores, e como os netos cresceram. “Rapaz, você ainda vai ver muita coisa nesta vida”, dizia ao perguntar algo e ele responder que não sabia ou não conhecia. Não que seja um problema, mas quase todo ancião anseia em passar a sua sabedoria e trás ensinamentos “filosóficos” sobre a existência da humanidade, mesmo que ninguém lhe peça tal pensamento.

Quando o senhor se levantou, gemendo com a velha dor nas costas que lhe acompanhava desde a mocidade, sentou um rapaz alto e robusto que ao colocar os fones de ouvido, deixou claro que o resto da viagem seria marcado pelo silêncio. Antes que seus olhos se fechassem novamente, percebeu quando a pessoa que estava no banco à frente pulou de susto. Aparentemente ela também tinha dormido, e acordou de repente. Pesadelo também? Talvez, ou só o medo de passar do seu destino.

Agora sentia um aperto no peito sem tamanho. Puxava o ar e seus pulmões pareciam que estavam atrofiados. Levou a mão a garganta várias vezes, na esperança de tirar seja lá o que fosse que estivesse bloqueando seu ar, mas não havia nada a ser tirado. Na verdade, seu corpo fisicamente aparentava estar perfeitamente normal, mas por dentro, a dor e a angústia dominavam. Era como estar sendo estrangulado, mas sem nenhuma mão apertando.

Tentou andar, mas não conseguiu suas pernas não obedeciam. Ao tentar dar um passo novamente, caiu no chão e não conseguiam nem mover mais seus braços para se levantar. Seus olhos agora enxergavam um céu azul com nuvens perfeitas e pássaros alegres. O mundo era maravilho visto deste ângulo, mas sua agonia era maior para poder prestar a devida atenção ao lugar. Quando estava quase desistindo de lutar pela sua vida, notou a sombra de alguém se aproximando. Não conseguiu enxergar as feições, não sabia definir o gênero, mas aqueles olhos se aproximando lhe deram uma enorme sensação de esperança. Convenceu-se de que agora estava salvo e então conseguiu respirar profundamente como há muito tempo estava tentando. Seu corpo agora era percorrido por um arrepio completo e um leve choque, como se de fato estivesse voltando à vida, até sentir o impacto na cabeça.

Abriu os olhos novamente suavemente e agora com um ar de estranheza percebeu que ainda estava no ônibus sentado. Notou que o rapaz do fone de ouvido também estava ao seu lado, mas agora ele também dormia. Ao olhar pela janela, percebeu que não estava próximo de casa, mas sim apenas um ponto a frente do ponto que ele havia acordado a primeira vez.

Agora sentia uma leve dor de cabeça, mas ninguém havia lhe tocado, então não poderia ser fruto de nenhum impacto. Não se lembrava com o que tinha sonhado, mas sabia que era mais algum pesadelo, uma vez que sentiu uma sensação ruim semelhante ao primeiro.

Ficou um bom tempo olhando para a janela observando novamente os carros passarem apressados quando tinham oportunidade, tentando ficar acordado, afinal, já tinha tido pesadelos demais pra uma única viagem de ônibus.

A vida passa de uma forma diferente dentro do ônibus. Pensasse muito sobre as coisas, mas nada se pode faze por elas. Principalmente quando se está sozinho, o tempo no ônibus se transforma num momento seu para seus devaneios fluírem. Porém, quando se está acompanhado de um amigo ou qualquer coisa do gênero, não se vê o tempo passar e nem ao mesmo você se lembra de qualquer preocupação anterior.

Ouvir conversas alheias nesta situação, mesmo quando não se presta atenção nelas nos deixam pensativos, e quando somos nós que estamos conversando, não percebemos que também existem conversas ao redor.

Tudo isso lhe passava pela cabeça até perceber que estava próximo de seu ponto. Levantou-se subitamente, assustando agora o rapaz que dormia ao seu lado. Espremeu-se entre as pessoas do corredor e em uma freada brusca, ficou cara a cara com uma moça que afastou o rosto como pode para que não se tocassem. Ele gentilmente pediu desculpas, mas ao olhar em seus olhos ficou um tempo perdido, com a sensação de que já havia visto aquele olhar antes.

Em casa, no conforto de seu lar, atualizando suas redes sócias com os acontecimentos do dia, não conseguiu parar de lembrar-se daqueles olhos. Não conhecia a moça, e ela era bonita, mas não o tanto para ficar pensando nela com algum tipo de desejo depois. A verdade é que não havia desejo nenhum, mas aquele olhar lhe perturbava.

Foi para o seu quarto e deixou seu corpo cair sobre a cama. Agora era a hora de dormir em paz com o corpo completamente em repouso, mas sua mente insistia em trabalhar pensando nas coisas daquele dia e naquele olhar… Suspirou na tentativa de limpar a mente, mas ao virar de lado, sentiu um arrepio gélido passar por todo o corpo. Num pulo de susto se levantou da cama assustado com o que estava vendo.

No espelho de seu guarda roupa estava a figura de uma pessoa de costas para ele. Não sabia dizer o que era, mas não podia afirmar se era humano. Mesmo tremendo, tocou o espelho. A imagem continuava estática, então abriu a porta do guarda roupa de uma vez temendo o pior. Não havia nada.

Sentou-se na cama, com o coração a mil. Agora não havia mais nada no espelho, mas a imagem ainda estava viva em sua mente. Suspirou tentando parecer aliviado para si mesmo, mas o medo ainda dominava.

94198_Papel-de-Parede-Olhar-Profundo--94198_1920x1200– Relaxe.

– O QUE DIABOS?! O QUE É VOCÊ?

– Apenas relaxe.

– ME SOLTA, QUE PORRA É VOCÊ? COMO ENTROU AQUI? O QUE VOCÊ QUER? – Ele respondia gritando, mas quase chorando por dentro como uma criança.

– Acalme-se! – disse a coisa segurando seus braços e sentando sobre ele para deixa-lo deitado. – Talvez prefira me ver nesta forma…

A “coisa” que antes era um híbrido de humano com algum tipo de animal marrom, agora virou uma bela moça numa camisola branca. Mesmo parecendo uma boneca de tão delicada, possuía a mesma força para manter ele imóvel sobre a cama.

– Esses olhos… VOCÊ?! Solte-me, por favor, me deixe em paz… – Dizia ele, deixando as lágrimas caírem.

– Xiii, calma bebê. Eu vou embora, mas antes, preciso dos seus sonhos. Antes preciso me alimentar da sua mente. Prometo que não vai doer nada… Eu já peguei alguns naquele ônibus. Alguns seus e de outros passageiros, mas eu gostei tanto de você… – Disse a moça, aproximando o rosto do dele, porém voltando a forma anterior o deixando mais aterrorizado. – Não vai doer nada bebê… – disse novamente com a mesma voz suave da moça. – Eu só vim buscar você, para mim…

 

/juhliana_lopes 25-09-2014

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Bar

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Acordou no meio da noite, completamente suado. O calor estava intenso apesar da ausência do sol. Levantou com a cabeça doendo e deu uma volta no quarto; a janela aberta deixava uma leve brisa quente entrar o que deixava o ar ainda mais abafado. Procurou um cigarro, mas não havia nenhum. Pegou uma camisa, mas não a vestiu de imediato, saiu do quarto em direção à rua, procurando algo para acalmar seu vício.

Muitos bares investem em um bom atendimento e melhorias no ambiente para atrair muitos clientes e ganhar muito dinheiro. Outros apenas funcionam com poucos clientes, até mesmo em condições precárias, mas apesar das dificuldades nunca fecham. Mesmo. Nem mesmo na madrugada, pois o que mantém o negócio funcionando não é o lucro nem mesmo a quantidade de clientes e sim a fidelidade dos poucos que tem. Foi em direção a um bar desse tipo que ele seguiu.

Com a brisa um pouco mais forte da rua, logo seu corpo estava seco e então colocou a camisa. Sentia-se sujo e logo voltaria pra casa pra jogar uma água no corpo, mas não antes de conseguir um cigarro. Chegou enfim ao bar que estava aberto como sempre. O dono lhe deu um sorriso amarelo e lhe entregou o maço, oferecendo ainda um gole de alguma bebida. Ele recusou educadamente e seguiu seu caminho, agora com a sua fumaça amiga ao seu redor.

Quando ele estava há alguns metros de sua casa percebeu sua presença. Havia muito tempo que não se falavam, na verdade nem se lembrava do motivo da distância. Sabia apenas que não fez falta e continuava não fazendo. Ela estava distraída, com pressa, talvez também voltando para casa.

Ele desviou o olhar dela por um instante observando a lua brilhante sobre o horizonte. Ela brilhava forte em meio à noite quente, completamente cheia. Ao voltar o foco para ela, percebeu então uma movimentação estranha. Um homem havia se aproximado e tentado levar a bolsa dela. Em reação ela não largou, puxando de volta, fazendo com que ficasse cara a cara com o ladrão. Ele a ameaçou com uma faca, mas para sua surpresa ela foi pra cima do meliante. Ele, como quem não espera uma reação, ficou perdido e confuso e ela agora estava com a faca na mão, lhe dando uma chave de pescoço.

Ele, por instinto, se aproximou a fim de tentar ajudar, mas chegou a tempo somente de ouvir o ladrão implorar pela vida e ter seu pescoço sangrado. Ele ficou ali agonizando no chão, e ela, ofegante olhava o corpo se contorcer enquanto o sangue banhava o asfalto.

Quando ela levantou o olhar percebeu sua testemunha. Ele pensou que talvez ela fosse demonstrar medo ou lembrar-se de sua amizade, mas ali, estava somente um rosto sem expressão.

Depois de um breve momento de um silêncio vazio, ele seguiu seu caminho, pensando em como aquilo também não fazia diferença alguma em sua vida. Quando chegou a frente a sua casa, sentiu o ar fugir de seus pulmões e uma pontada nas costas. Ao se virar, sentiu o golpe em seu estômago e seu próprio sangue sair de seu corpo.

“Você é louca?” Foi à única coisa que conseguiu dizer antes de cair no chão. Ela se abaixou ao seu lado, acariciou seus cabelos e disse baixinho: “Eu só não quero mais testemunhas”.

juhliana_lopes 11-09-2014

Cinza

ceu_cinza_73076ed23cb3688acbcb1a9a8532326b_Paisagens 0302

A chuva caía fina sobre seu rosto. Sabia que tinha que se levantar, mas a ideia de não encarar o mundo lhe parecia extremamente mais interessante, que preferia ficar ali, de olhos fechados. Sentiu uma pontada aguda no estômago que a fez se retorcer e enfim, abriu os olhos. Enquanto ainda se retorcia com a dor do chute que havia levado, ouviu uma voz forte dizer: “Está vivo, levem-no!”.

Com sujeira por toda parte o cheiro de pólvora ainda estava forte. Seu rosto e suas roupas estavam cobertos de lama fina e poeira seca, provavelmente pertencente à explosão. O céu cinza e a garoa que tentava amenizar a situação traziam um ar ainda mais macabro para aquele cenário de guerra.

A verdade é que havia uma guerra propriamente dita, porém aquele ataque não havia partido do campo inimigo e sim dos próprios aliados. Também não havia sido algo “sem querer”; o que aconteceu foi uma “limpeza” propriamente dita, meticulosamente planejada, afinal, precisavam de terreno para um recuo, caso fosse necessário e claro, um espaço para criar uma base fixa para enfim avançar. Em algum momento, o governo ainda discutiu se talvez não fosse melhor uma retirada segura dos habitantes locais, colocando-os em um local seguro, mas no fim, após vários cálculos, perceberam que sairia bem mais barato explodir tudo e limpar a sujeira depois. Afinal, uma cidade pequena e pobre não faria tanta diferença, e a manipular a mídia era praticamente de graça.

Apesar de toda sujeira, ela tinha a pele alva e os olhos mais lindos da região. Seu cabelo um dia foi grande e um dia ela pode correr livremente pelos campos. Mas desde que seus pais haviam sido mortos algumas semanas antes, também por causa dos combates – no caso deles, foram mortos, pois estavam na fila pra pegar comida e como o alimento não era suficiente para todas as pessoas algumas foram “excluídas” para que a cota fosse atingida de maneira correta – ela começou a andar com as roupas do pai, pois eram mais quentes no frio da noite. Os cabelos, desde que a guerra havia começado, foram cortados, pois com a falta de água não seria possível manter com o mesmo cuidado. Nestas condições, ao ser pega pelos soldados, foi confundida com um menino e jogada na ala dos homens. Assim como os guardas, os prisioneiros também não notaram a diferença e ela também não fez questão de desfazer a confusão.

Desde a morte de seus pais, ela não fazia mais questão de discutir ou questionar; foi por fazer perguntas que muitos morreram no início da guerra e assim, observando, ela aprendeu que falando ou ficando calada, a morte chega para todos, sempre na forma de um tiro ou uma explosão. Buscava apenas sobreviver em meio ao caos, uma vez que ali era um pedaço esquecido por Deus – e pelos homens também.

Foi em uma questão de minutos que começou a se sufocar com o cheiro que havia aparecido de repente, sentindo seu corpo amolecer logo em seguida. Já não conseguia respirar direito e sentida todo o ácido do estômago subir pela garganta. “Será que esse é o tal gás mortífero?”, foi à única coisa que lhe passou pela cabeça antes desmaiar. Um a um, todos os homens da sala foram morrendo asfixiados.

Agora a chuva caía pesada formando muitas poças de lama. Antes se tinha cuidado de tirar os pertences dos mortos para enterrá-los nus, porém agora, o desinteresse pelos mortos era tão grande que seus corpos eram jogados próximo de florestas para serem devorados por animais selvagens.

Estava completamente encharcada e acordou lutando contra o peso dos corpos que estavam por cima. Viva? Talvez fosse um sonho, mas ainda que fosse somente um devaneio tolo, ainda estava com vida.

Tentou caminhar, mas suas pernas ainda estavam fracas. Talvez ainda fosse efeito do gás, talvez estivesse envenenada e ainda fosse morrer em breve, mas não se sentia como alguém prestes a morrer. Sentou sobre um galho que afundou suavemente na lama. Depois de alguns minutos começou a caminhar devagar. Observou a natureza como há muito tempo não fazia. Apesar do céu cinza, e da chuva forte, o dia estava claro e as folhas eram de um verde extremamente forte. A terra quase preta mostrava fertilidade e com o cheiro doce, deixava a água da chuva em evidência. Talvez ali fosse realmente um paraíso destinado aos mortos.

Quando chegou a um rio, a chuva já estava como uma garoa fina novamente, porém, antes que pudesse pegar um pouco de água e jogar no rosto e beber alguns goles, ouviu um forte rugido. Mesmo imaginando e torcendo para ser um trovão, se virou e ficou mais pálida do que já era normalmente.

Um enorme urso se aproximava. Suas patas estavam sujas de sangue e lama, porém sua boca estava limpa. Talvez os mortos não tenham sido tão interessantes para a fera, e algo vivo andando por dentro da floresta havia chamado mais sua atenção. Por instinto, ela pensou em correr, mas então se lembrou sobre o destino de todos. Porém, ainda que estivesse convencida da morte certa, não conseguiu ficar parada quando o animal se ergueu nas patas traseiras. Correu sem olhar pra trás, sem pensar em nada, mas como se a vida quisesse lhe dar a certeza de que aquela era a hora, chegou à beira de um barranco. O urso se aproximou lentamente novamente e mais uma vez se ergueu. Desta vez, sem saída, pode observar apenas a majestade da natureza em sua frente e fechou os olhos aceitando enfim o seu fim.

O urso continuou com fome, por culpa da própria mãe natureza. Antes de seu ataque final, uma parte do barranco se soltou por causa da terra molhada e despencou morro abaixo, levando junto seu almoço. Mesmo frustrado, o urso não se abalou e foi em busca de outro alimento.

Ela sentiu o chão fugir de seus pés e então notou apenas escuridão. Após um longo período que não soube dizer quanto, conseguiu enfim sair debaixo da terra passada. Depois desenterrar a sua perna e tirar um pouco de lama da boca, sentou sobre o chão, admirando mais uma vez o ambiente e o céu acinzentado. Como uma criança que questiona uma mãe sobre algo que ela quer e nunca acontece, olhou para o nada e disse em voz alta: “Quando vai chegar a minha vez afinal?”. 

 

juhliana_lopes Agosto/2014

Pesado

 

cama desarrumada

Não havia acordado bem. Seu corpo pesava desejando o repouso na cama por mais algumas horas. Quantas? Não sabia, mas seriam quantas fossem necessárias. Seus olhos não queriam se abrir para o mundo, desejando ainda ver o mundo fantástico dos sonhos. Nunca foi de ter muitos sonhos, é verdade, mas especialmente naquele dia, havia tido alguns ótimos e perfeitos e se pudesse voltaria a cada um só para gravá-los. No último sonho, por exemplo, pelo que se lembrava, estava em um lindo campo aberto e verde, com flores que dançavam conforme o vento e o sol que brilhava forte, porém sem esquentar muito, deixando assim o ar fresco… Tudo estava indo perfeitamente bem, até se encontrar com um dragão adormecido. Sabia que precisava continuar seu caminho, mas não podia despertar o dragão, e mesmo tomando todo o cuidado para passar ao lado, ele se acordou, olhou em sua direção e gritou.

Acordou assustado, temendo pela sua vida, mas o grito do dragão não era nada mais que seu despertador irritante. Era hora de acordar, mesmo seu corpo se recusando, era preciso seguir. Tomou um banho gelado na tentativa inútil de espantar o sono, e mesmo o choque gerado da água fria contra o calor confortante do corpo, não fez mais do que fazer seus ossos doerem e os poros se arrepiarem. Era preciso mais, para enfim se livrar do cansaço e então um bom dia. Um café forte, sem açúcar seria a solução, seria o néctar dos deuses para seu despertar.

Nada, o café dos deuses serviu apenas para deixar um gosto ruim na boca, que provavelmente seria sentido até a noite em possíveis arrotos tardios. Arrastou-se mesmo assim para o ponto de ônibus, afinal, talvez o ar da rua pudesse lhe fazer as narinas coçarem e então acordar para o mundo. Seu nariz começou a coçar realmente, no ônibus, entre tantos perfumes e aromas misturados, porém nada disso o fez querer realmente estar ali e sim voltar para o conforto do seu lar.

E assim passou o dia, mesmo os relatórios, mesmo os gritos do chefe, as conversas indiferentes dos colegas, nem a tia que vendia trufa na frente da empresa, nem os cigarros passivamente fumados, nem a música aleatória de elevador, nem a notícia de uma possível promoção, nem mesmo o bônus no salário e a cesta básica que ganhou por atingir a meta do mês. Nem os bilhetes secretos, românticos, que recebeu, nem as olhadas e piscadas discretas das moças da recepção, nem a história contada pela vigésima quinta vez pelo porteiro, nem mesmo o colega que caiu “acidentalmente” da escada, quebrando o pescoço e morrendo asfixiado após alguns segundos, depois de lhe desejar uma boa tarde e dizer que ele estava com frescura…

Alias essa morte acidental até que fez com que ele esboçasse um leve sorriso de canto de boca. Ainda mais quando percebeu que não havia câmeras ao redor. Ver aquele chato do trabalho que todos odiavam agonizar, fez com que soltasse um leve suspiro de satisfação. Mas, foi momentâneo, afinal, precisava de alguma explicar o acontecido aos colegas.

Saiu mais cedo do serviço aquele dia, mas nem isso fez com que sua felicidade fosse completa. Foi um trauma muito grande disseram-lhes alguns colegas. Presenciar a morte de um amigo tão querido e ainda sim tentar fazer algo por ele e não conseguir deve ter abalado seu psicológico, lhe disseram algumas moças. Obrigado por nos avisar e tentar ajudar, mas vejo que você está muito abalado e talvez precise de um descanso por hoje, esteja aqui amanhã ao 12h, assim você trabalhar só metade do dia de amanhã se estiver melhor, lhe disse o chefe.

A história era perfeita e ninguém lhe questionaria do contrário. Mesmo com essa volta pra casa, o caminho ainda lhe parecia pesado, como se estivesse carregando o mundo nas costas. Não era o peso da morte, isso ele sabia bem, e sim o mais puro cansaço aliado à preguiça.

Ao chegar a casa, foi até um mural oculto pela porta e marcou com um risco o dia de hoje. “Mais um idiota inútil fora do caminho”, pensou ele. E realmente era. Só precisava tomar cuidado antes que resolvessem investigar como ele sempre é o bom samaritano que está por perto quando alguém estava prestes a morrer. Já haviam sido cinco eliminados na semana passada; talvez fosse hora de dar uma folga na sua caça;

Mesmo contente com seu objetivo pessoal de se livrar dos idiotas do mundo, sobretudo os pés no saco, ainda não estava completo. Foi então para sua cama, mesmo sem tomar banho. Apenas tirou as roupas e se deitou. Enfim abriu um enorme sorriso e suspirou longamente. Enfim estava em sua cama e poderia dormir, o quanto precisasse desde que fosse até antes do 12h.

 

juhliana_lopes 25-08-2014