Melhor sensação

1525493_637627816283631_73225980_nDesde criança notei o quanto era importante valorizar as sensações. Lembro-me de quando meu avô me abraçava forte e me contava histórias para dormir. Muitas vezes eu só conseguia acompanhar até certa parte da história, e depois só conseguia ouvir a sonoridade de sua voz antes de cair no sono completamente. A paz que eu sentia era tão boa que eu poderia dormir a noite toda ouvindo a voz dele. Ele percebia o quanto aquilo me fazia bem e sempre ficava um pouco mais, mesmo sabendo que eu estava dormindo.

Na escola comecei a apreciar o cheiro do giz de cera quando eu o usava para pintar meus desenhos. Por consequência, desenvolvi muito a minha capacidade de desenhar e colorir, indo além de bonecos de palito que a maioria das crianças da minha idade faziam.

Na fase da escola, ainda no período infantil, senti a sensação de um abraço amigo, mesmo que por vezes eu ainda ficasse sem graça quando estes vinham do nada, sem um motivo aparente. Também senti a sensação da vergonha e desconfiança pela primeira vez – ainda que eu não soubesse nomeá-las ainda – quando algumas crianças riam de mim e cochichavam umas com as outras quando eu me isolava com meus desenhos.

Na pré-adolescência descobri mais sensações. A primeira cólica, a sensação de estranheza de acordar num belo dia e enfim se tocar que tem algo diferente. Sentir na pele a falsidade daqueles que eram “amigos de verdade”. Perceber que você realmente confiou em alguém errado. Agora, além dos desenhos, eu também havia me dedicado a instrumentos musicais e o violão era o meu companheiro. Os outros ainda me tratavam mal por eu me isolar de vez em quando, porém nem sempre eu me “isolava sozinha”. Quando se cresce, você acaba descobrindo outros parecidos com você. Não estar completamente sozinha agora era um alívio.

Conheci a emoção de receber um bilhete pedindo um encontro, e a decepção de ver que era apenas mais uma brincadeira. Conheci a emoção de ter um beijo roubado de alguém que eu nunca havia reparado e ficar me perguntando o que ele havia visto em mim. Esse amor adolescente não passou de um beijo é claro, ele estava se mudando e como não tinha coragem de falar o que sentia, fez este ato de desespero antes de ir embora.

As coisas pioraram, é verdade. Descobri-me como uma pessoa bonita, mas por causa da minha timidez, as pessoas não olhavam para mim. Tudo piorou quando descobri a tristeza de ter uma família desfeita quando meus pais se separaram. Aquilo me fechou mais para o mundo e agora, além do violão e dos desenhos, encontrava conforto procurando coisas “sombrias”. Nunca quis ser “do mal”, mas ver imagens que a maioria das pessoas renegava como “coisas ruins”, me fazia sentir que eu realmente estava à margem e longe de toda aquela insanidade normal.

Quando meu avô se foi, senti a tristeza profunda, e uma raiva incontrolável, sobretudo ao descobrir que não havia sido uma morte natural como me fizeram acreditar no início. Um bandido tentou assaltar sua casa e ele teve um ataque.  Pegaram o cara uns dias depois, mas depois de uma fiança ridícula, ele foi solto.

Apesar de tudo, minha vida não foi só tristeza. Fui muito feliz também, sobretudo em realizações pessoais. O primeiro trabalho na escola, a primeira apresentação. Mesmo com a timidez, participei de teatros e apresentações de dança. Entre os meus amigos (os isolados), dei boas risadas, contamos boas histórias, e esquecíamos o mundo quando estávamos reunidos.

Comecei a apreciar as sensações como drogas, sempre procurando uma diferente que me despertasse algo novo. De fato, a melhor, foi um misto. Reunida com meus amigos, fomos abordados por um cara armado. Todos ficaram com medo, mas ao olhar nos olhos dele, o reconheci. Talvez tenha sido os filmes ou as histórias que eu já tinha lido, mas com um movimento rápido, consegui tomar a arma de sua mão. Na verdade, foi algo idiota se você for reparar. Eu simplesmente tomei a arma de sua mão como uma mãe toma um brinquedo de uma criança. Ele não esperava e sua cara de espanto foi ainda maior quando eu disparei em seu estômago antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Todos me olhavam alarmados e ele gritava e rolava no chão com a dor.

O cara não estava sozinho afinal de contas, e quando viu o amigo ferido, fez uma amiga minha de refém ordenando que eu largasse a arma. Ele a segurava com uma faca em seu pescoço e ela chorava como uma criança. Os outros – quatro, mais uma menina e três garotos da mesma idade – em choque não conseguiam se mexer. Um dos rapazes ainda tentou dizer algumas palavras, mas então, eu atirei na perna de minha amiga que estava refém.

Ela estava no chão sangrando e o bandido amigo me olhava com uma cara de quem não sabia o que estava acontecendo, mas de certo me achava retardada. Ele não sabia se pegava outra pessoa de refém ou não, e minha amiga chorava de dor mais do que quando estava só sendo ameaçada. Os outros amigos me olhavam horrorizados e suas pernas tremiam tanto que não conseguiam correr.

– Você é louca garota? – Enfim falou o homem com a faca.

– O que você quer afinal? Já atirei no seu amigo. Já atirei na minha amiga. E vou atirar em qualquer um que você pegar de refém pra tentar me abalar. O que você está esperando afinal?

– Por que…

– Eu não me importo, não percebeu? A única pessoa com quem eu me importava me foi tirada pelo seu amiguinho. Vou te dar uma última chance, o que você está esperando?

Ele ainda me olhava surpreso quando tomou um tiro no joelho. Confesso que era a primeira vez que eu usava uma arma, mas por algum motivo minha precisão era ótima.

Ele tentou correr, mas não foi muito longe por causa da dor. Um amigo meu enfim tirou a pistola de minha mão e jogou no chão. Ele gritava no meu rosto enquanto segurava meus braços como quem balança uma boneca.

– O que está acontecendo com você?

– Sinceramente? Nada.

– Como você tem coragem de dizer “nada”? Olha o que você fez! – respondeu a outra amiga indignada.

– Gente, sério. Não sinto nada. Apenas me defendi e defendi vocês. – Apesar destas palavras, a “defesa” não era bem uma motivação. Na verdade, o nada era a absoluta verdade. Sensações como medo, angústia, raiva, vingança, surpresa, amor e dor estavam tão bagunçadas que era como se eu não estivesse sentindo nada. Na verdade, eu realmente não me importava.

– Defendendo? Você atirou na Ana sem mais nem menos? Isso é defesa? – minha amiga gritava enquanto apontava para Ana. Um dos rapazes ainda me segurava e os outros dois tentavam ajudar Ana que já estava desmaiando pela perda de sangue. O cara que chegou com a arma já estava desacordado em uma poça de sangue, provavelmente morto ou quase, já que não havia movimentos de respiração.

– Ele queria me abalar. Mostrei que ele teria que fazer melhor. – Respondi sem pensar.

– Você está louca? Como assim fazer melhor? Tá achando que isso é uma das histórias que você fica lendo? Você machucou a nossa amiga pra ele não machuca-la e nem machucar você? Você tá ouvindo a idiotice que você tá falando?

– Para gente, nem foi tão sério assim, antes eu machucar ela do que ele. Ele não teria pena… Afinal… – Eu falava até ser interrompida por um “click”.

Quando olhamos, o cara do joelho estourado havia conseguido se arrastar até a pistola, porém, não havia mais balas. Soltei-me das mãos do meu amigo, peguei a faca que não estava tão longe e antes que ele pudesse se defender, cravei na sua barriga. Não sei se acertei algum órgão vital, mas agora ele sangrava e gritava de dor. Meu amigo tentou me segurar de novo, mas com o susto, abri um corte em seu braço. Não havia sido profundo, mas o suficiente pra rasgar sua roupa.

O medo estava nos olhos de todos que não sabiam se podiam se aproximar ou falar alguma coisa. Chegaram então mais dois homens, armados chamando pelos amigos que estavam no chão. Os meus, já estavam com as mãos para o alto.

– É ela… – gemeu o cara do joelho.

Apontaram a arma para mim então, porém o segundo homem abaixou e correu para socorrer o outro que já devia estar esfriando. Meus amigos agora tremiam dos pés a cabeça e quando a minha amiga da perna gritou de dor, o homem a chutou na costela para que se calasse. Os dois amigos que a socorriam, tentaram afastá-lo, mas logo paralisaram com a arma apontada. Com a distração, cravei a faca (com uma força que até hoje não sei como consegui) em suas costas, próximo do ombro. Ele se virou para atirar em mim, mas errou, e se distraiu com a própria dor ao tentar tirar a faca. Tomei a arma assim como havia tomado do primeiro e atirei em sua cabeça. Sujei-me com o sangue que espirrou e agora ouvia os gritos do outro cara me chamando de louca e o disparo feito contra a minha outra amiga que estava em pé de costas pra ele. Ela caiu imediatamente no chão.

Confesso que não sei quanto tempo se passou, nem as horas em que tudo ocorreu, mas estranhei principalmente o fato que ninguém passava naquela rua, nem para ver o que estava acontecendo. Talvez estivéssemos perdidos, ou as pessoas estivessem tão desinteressadas quanto eu.

Minha amiga não se mexia, mas o sangue mais uma vez tomava conta da rua. Então, dei mais um tiro nela.  O cara que estava pronto para atirar em mim não entendeu o que estava acontecendo, e então com o tempo que ganhei, disparei contra ele, o tiro acertou seu peito. Meu amigo, o que me segurou a primeira vez agora tentava me segurar novamente, mas então me virei e acertei um tiro em seu braço. Os outros tentaram correr, mas levaram tiros de raspão nas coxas. Uma vez no chão, atirei mais uma vez em suas pernas, no local onde o tiro havia acertado a primeira vez, apenas para abrir mais o ferimento.

Com todos no chão – alguns mortos – me sentei no chão, sob o sangue, e peguei o celular. Liguei para a polícia.

– Central de emergência.

– Oi, eu preciso de algumas ambulâncias.

– Qual o problema?

– Bem, eu estava com meus amigos e fomos abordados por quatro bandidos. Eles estavam armados e meus amigos estão feridos. É meio urgente, tem muito sangue aqui.

– Sim senhora, me informe o endereço para que eu possa estar enviando o carro imediatamente.

– Sim, Rua Cardeal Mourinho, na Praça das Marrecas. São pelo menos nove corpos, acredito que cinco estão mortos. Duas moças e três bandidos.

– Senhora, me desculpe a pergunta, estou lhe achando muito calma. Preciso me certificar que não é um trote. Você está sozinha, só você não foi acertada?

– Sim. Eu que disparei contra a maioria para autodefesa. Venham rápido antes que tenham que buscar mais mortos por causa da perda de sangue. Sim, fui eu que atirei. E talvez eu tenha matado alguns deles. De qualquer forma, precisamos de socorro.

O silêncio do outro lado da linha ficou evidente e um: “Ok, estamos indo para ir. Exijo que a senhora espere no local” foi tudo antes da linha cair. Não esperei. Fui embora pra casa, mesmo com a roupa suja de sangue. Fiz outro caminho pra casa e quando cheguei, minha mãe me questionou. Respondi apenas, apática, que estava suja de tinta. Ela, que não parecia se importar, voltou a seus afazeres.

Troquei de roupa e sai àquela noite. Sabia que uma hora ou outra iam me encontrar e mesmo não sentindo nada, não estava a fim de responder perguntas.

O que eu senti com tudo isso? Nada. Realmente um nada profundo e libertador. Pode parecer insano, e muitas pessoas não vão entender ou vão me classificar, porém não existe sensação melhor do que sentir nada. As coisas acontecem na sua frente e mesmo sendo absurdo, você continua não se importando. Não que eu não gostasse dos meus amigos, eu gosto deles, e muito. Nunca tive amigos tão verdadeiros como eles, porém naquele momento, não havia outra coisa a se fazer. É por estar preso a sentimentos que as pessoas sofrem e eu não queria sofrer mais. Meus sentimentos são totalmente verdadeiros por eles, e espero sinceramente que estejam bem, os que restaram vivos. Fui ao enterro das minhas amigas, depois na verdade, afinal não podia ser vista, e realmente, sinto muito por elas. E não, não vou dizer que não sabia o que estava fazendo, nem que fui possuída e muito menos que agi por impulso. Eu sei que atirei naquelas pessoas. Sei que matei pessoas, e fiz porque me deu vontade. Vontade de sentir algo novo, algo que não havia experimentado. E mais uma vez, eu digo, a melhor sensação que existe, é o Nada.

Provocação

img_179839523_1316273019_abigAntes de fechar a porta deu mais um daqueles sorrisos encantadores e saiu deixando seu perfume. Estava contratada, mas se quisesse nem precisava trabalhar, afinal, sempre conseguia o que queria. Sempre caprichando na cruzada de pernas, percebeu enfim que foi uma boa hora de investir naquela saia com dois dedos a menos, imperceptíveis com a postura correta, mas bastante revelador em uma posição mais ousada. Seu chefe também era um bobo. Casado, casamento com rotina, foi fácil mostrar a carne ao lobo faminto, seria uma questão de tempo até acontecer às primeiras reuniões à noite.

Com seu charme, não havia chamado atenção apenas de seu superior. Os outros homens do setor também caíam de suspiros ao vê-la passar, e com um jeito tímido, porém extremamente sensual, ia partindo mais corações.

Mas o que um demônio poderia querer numa empresa tão simplória que cuidava da produção de jarras e taças de cristal? O que um ser como ela poderia querer em algo que já havia alcançado o ápice, e dali não poderia ir para nenhum lugar a não ser para baixo?

Mais do que dinheiro, ela procurava a força vital, os sonhos, aquilo que alimentava os homens e lhes dava forças para viver. Queria tudo até ficar sem nada. Começaria por um e aos poucos tomaria conta de todos.

Um mês depois, já era assunto entre as rodinhas masculinas. Sobre como a blusa se ajusta bem ao seu corpo, deixando escapar um decote generoso de vez em quando. Em como a saia que ajusta em suas coxas e vai subindo aos poucos conforme o seu rebolado enquanto caminha. E que mesmo com toda sensualidade, como nenhum homem tinha coragem de chegar nela e lhe falar todas as coisas insanas que tinham vontade, por causa daquele rostinho tímido e lindo de menina, que fazia parecer um anjo tão inocente que seria um pecado mortal se referir a ela com qualquer coisa maldosa.

Na sala do chefe, ele sempre dava um jeito de encostar ou se esfregar nela. Já estava até sentando no colo dele de vez em quando, com algum papinho mole no ouvido, mas nada de avançar demais, afinal, aquele olhar meigo que ao mesmo tempo o provocava não o deixava se concentrar.

Já ela, estava começando a ficar com fome, o clima já estava perfeito, mas tinha que ser cautelosa afinal, qualquer passo errado e o encanto iria se perder. Então se aproximou de Jaime. Homem bonito, viril, o cara da balada de fim de semana, porém excelente profissional. Quase um galã. Respeitava todas as mulheres no ambiente de trabalho como se fossem suas mães, mas ao ficar preso – sem entender como – no estoque com a nova secretária, e ela ficar lhe abraçando com medo de locais fechados, não se conteve e teve que se aproveitar da situação. Ela é claro, pareceu ofendida, mas quando ele teria uma oportunidade daquelas de novo? Prometeu a si mesmo manter discrição e ela também não parecia à vontade para lhe denunciar. Acabou ficando por isso mesmo.

Mesmo que ele quisesse, não poderia ter contado, afinal, no dia seguinte estava com uma forte gripe que lhe deixou de molho por uma semana. Sentia-se um pouco desmotivado também, o trabalho já não atendia suas expectativas, mas preferiu manter o foco em seu trabalho como sempre para ver se as coisas melhoravam.

Adriano foi o mais sortudo. Ficar três horas com ela preso no elevador por causa da falta de luz foi o melhor momento de sua vida. Nunca pensou que uma pessoa tão tímida poderia ser um furacão com aquele. Sobretudo como foi rápida em colocar a roupa de volta quando o elevador voltou a funcionar. Realmente, segundo ele, daria uma obra prima se alguém pintasse um quadro sobre o assunto. Assim como Jaime, não conseguiu contar a ninguém, e nesse caso nem foi uma gripe, mas uma fatalidade que lhe tirou do seu rumo. Atropelado quando estava indo ao trabalho no outro dia, encontrava-se em coma no hospital.

Anderson seria o próximo. Estava contente porque ela respondeu seu bilhete durante a festa da empresa. Estaria esperando por ele na sacada do andar de cima. Subiu as escadas assobiando e lá estava ela, linda, com um vestido branco que marcava a cintura e deixava as costas nuas. Ficaram ali conversando por um bom tempo, e enfim, um beijo apaixonado se seguiu. Em seguida, como dois adolescentes já estavam se enroscando, com medo de serem pegos.

Depois do êxtase, ele parou para admirar a lua e ela seguiu para a escada.

– Ei, não vai me esperar linda?

– Talvez… Acho que você não vai mais querer nada comigo não é? – Ela parecia abatida, triste, com lágrimas juntando aos olhos.

– E porque não iria querer? Eu adorei nossa primeira noite, escondido, com perigo sempre dá mais prazer…

– Mas eu não acabei sendo fácil demais?

– Claro que não. Você acha que eu não vou querer mais nada com você porque já fiz o que a maioria dos homens quer fazer? Eu não sou como eles… Eu quero ficar com você, namorar, quero ter você pra mim! – Ele dizia segurando suas mãos. Secou suas lágrimas e lhe deu mais um beijo, e então juntos desceram as escadas.

Aproveitaram o resto da festa e então foram embora. Para não ficar chato na frente da turma, ele subiu mais uma vez, pois ela já estava lá esperando para uma despedida.

– E quando vamos assumir? – agora ela falava num tom manhoso.

– Quando você quiser meu amor!

– Amanhã então, quando você chegar!

– Tudo bem! Até amanhã meu amor! – Ele disse lhe beijando a última vez.

Ao descer as escadas, só teve tempo de ouvir um barulho forte e desviar quando algo veio rolando atrás dele. O desespero tomou conta quando percebeu que quem estava lá embaixo no fim da escadaria ela sua musa. Olhou para cima assustado e viu uma figura tirando os óculos e segurando no corrimão. Desceu correndo para verificar o estado de sua amada.

– Largue-a!

– Do que você está falando Walter? – Ele gritou quando seu colega de trabalho lhe puxava para longe da bela dama.

– Você não vê? Ela ia te empurrar! Ela é um demônio!

– Você é imbecil? Está ficando louco? – Anderson se soltou e correu mais uma vez para sua amada, mas quando chegou perto, sentiu um arrepio profundo que fez a nuca eriçar.

Ela estava torta por causa da queda, mas tinha um sorriso maligno no rosto. Seus olhos que eram de um verde delicado, agora estavam vermelhos e as unhas pareciam ter dobrado de tamanho como garras.

– Walter seu maldito, porque tinha que estragar tudo? – Ela se levantou mesmo torta falando com uma voz forte que nada lembrava a mocinha delicada como criança.

– Volte para o inferno! Não precisamos de súcubos aqui!

– Eu vou te matar! – Disse ela partindo para cima dele como uma besta feroz. Anderson mal podia acreditar em seus olhos. Parecia uma fera selvagem atrás de uma caça, mas antes que conseguisse se aproximar demais, Walter sacou um revólver e a derrubou.

– O que você fez? O que está acontecendo afinal? – Disse Anderson tremendo.

– Vamos embora daqui, ela não morreu, e quando acordar vai vir com uma fúria ainda maior!

– E como você sabia que ela era… Aquilo? – Disse Anderson ofegante enquanto corria.

– Porque eu também não sou humano…

 

juhliana_lopes 23-07-2014

 

Mais uma!

cigarro-e-bebida

Devia estar no quinto cigarro seguido. A fumaça tomava conta do lugar, mas ninguém se incomodava, na verdade, ali era o único lugar onde ainda se podia fumar com conforto. Assim como o cigarro, a cerveja já havia ultrapassado seus limites e já era possível sentir seu cheiro à distância. Como quem acorda de um sono bom, daqueles últimos da manhã, ele se levantou e saiu pela porta dos fundos onde havia uma pequena área. Precisava esticar as pernas antes que o sangue parasse de circular.

No horizonte o sol começava a se por, pintando o céu quase por completo em um tom de laranja forte, quase como a cor de madeira em brasa. A brisa soprava leve carregando a poeira para todos os lugares. Com a mão no bolso, terminando seu cigarro, não conseguia pensar em nada além do que fazia para passar o tempo.

Pensou ter ouvido alguma confusão no bar e voltou para ter um pouco de diversão, mas não passava de alguns moleques tentando roubar alguma fruta. Nada que valesse a pena. Jogou seu corpo pesado sobre a cadeira e ao pegar mais um cigarro e quem sabe variar a cerveja com um copo de uísque.

Então ela chegou. Bem vestida e perfumada, com a pele alva e o cabelo ruivo. Era longo, mas estava preso com um rabo de cavalo, de modo que uma franja leve caía aos olhos. Olhos cor de mel, contrariando as expectativas de verde ou azul, mas que davam um toque tão especial que a deixava ainda mais bela. O vestido vermelho solto na cintura dava destaque ao batom de seus lábios num tom carmim, e a bolsa preta que carregava a mão, dava um leve toque de rebeldia em relação à moda.

Não deu atenção aos demais do bar, entrou, foi para o balcão, trocou duas palavras rápidas e saiu apressada. Não deve ter dado mais que alguns minutos, mas para ele, foram os melhores de sua vida.

A noite agora caía sobre todo o ambiente lá fora, e dentro as luzes fracas de lampião ardiam com o querosene. Mais cigarros e bebidas e agora um ou dois petiscos para enganar o estômago. Saiu novamente, desta vez na porta da frente. Apesar de ser uma noite aparentemente fria, não sentia a necessidade de se agasalhar, e mesmo com o vento frio cortando o rosto, não queria voltar para dentro, mas voltou, quando o cigarro mais uma vez acabou e ele se viu forçado a buscar outro.

Um homem baixo limpava o balcão com um pano surrado e encardido. Ele vestia uma camisa branca, social, e um avental tão encardido quanto o pano cobria sua roupa. A testa calva aparente brilhava sobre a luz fraca que iluminava o local, e ao passar o pano com movimentos marcados, cantarolava baixinho uma canção aleatória.

– Quem era ela? – perguntou de cabeça baixa ao rapaz do balcão.

– Quem? – ele respondeu, também sem levantar a cabeça continuando seu trabalho.

– A ruiva.

– Ela? Não era ninguém. Ela foi para baixo.

– Uma pena. – ele respondeu voltando a sentar em sua mesa.

Estava no paraíso, é verdade. Ganhou o privilégio de estar no céu, porém, do que isso adiantava se os escolhidos haviam sido tão poucos. Tinha tudo que queria, mas não podia saciar sua curiosidade de saber como era o outro lado. Como era “lá em baixo”.

– Mais uma! – levantou o caneco em direção do balcão.

Não se lembrava de ter passado tanto tempo pensando, mas agora já estava amanhecendo. Ao pegar mais um cigarro, tinha certeza que já devia estar no décimo ou décimo quinto, mas quando pegou, ainda era o primeiro do maço. O tempo parecia andar depressa mesmo passando lentamente para ele com a falta do que fazer.

– Mais um dia, afinal… – suspirou pesadamente enquanto acendia seu cigarro. – Mais um dia perfeito… Um brinde ao paraíso! – Disse por fim levantando a caneca ao ar, mas ninguém respondeu o brinde ou se quer olhou para ele, como todos os dias, até a eternidade.

 

juhliana_lopes 23-07-2014