Gasolina

fogoA lua já está alta no céu e eu aqui sentado com mais um copo de cerveja a minha frente. A fumaça do cigarro subindo, fazendo figuras dançantes pelo ar, e eu apenas acompanhando o movimento.

Quando ela me ligou, não entendi o que estava acontecendo. Estava desesperada, aflita, parecia mesmo estar com medo. Claro que tentei ajudar, afinal, uma amizade serve pra isso. Ela estava numa agonia tão grande que além de abraços, tive que dar colo para que ela pudesse se acalmar e me contar enfim o que havia acontecido.

Li as várias mensagens que ela havia recebido, além das cartas anônimas e, sobretudo vi os fakes que a perseguiam nas redes sociais. Não restava dúvida que alguém estava vindo atrás dela, mas por quê? Talvez ela tivesse feito inimigos, talvez tivesse sido confundida com alguém… Entre lágrimas, ela garantia que não havia feito nada de errado, pelo menos não se lembrava, e sabia que tinha amigos por toda parte, ninguém teria motivos para fazer qualquer coisa parecida.

Perguntei, mais uma vez se de repente ela não teria ofendido ninguém com alguma brincadeira, ou ainda ignorado alguém sem perceber. Talvez um amor platônico que nunca tivesse recebido atenção ou ainda algum rejeitado que não gostou de ter seu coração partido.

Também não, estava bem no que se tratava de sentimentos, e não se lembrava de nenhum amor perdido. Aliás, há muito tempo não recebia investidas de ninguém e nem mesmo troca de olhares. Suspirei quando ela voltou a chorar me contando das ligações que recebia de madrugada. A pessoa não falava nada, apenas respirava lentamente e quando ela exigia saber quem era, desligava. Não devia se incomodar com isso, mas a respiração da pessoa parecia sugar sua alma pelo telefone, como se a deixasse diante de uma condenação eminente.

Quando estávamos tomando um café, alguém bateu a porta e um papel entrou pelo vão. Ela já estava tremendo toda de novo, e então peguei o papel. Outra carta anônima, com as letras de revista cortadas com precisão e coladas suavemente como um trabalho de artes. Ela não conseguia nem segurar o papel e então eu li em voz alta. Dizia que hoje seria o fim, e não adiantaria ela escapar, pois a pessoa a acharia e a faria pagar pelos seus erros. Ela não seria perdoada e hoje, iria dormir para sempre.

Desesperada, e quase se jogando aos meus pés me pediu misericórdia e que eu a ajudasse a escondê-la. Ela não podia mais ficar ali, estava correndo um grave risco e precisava se proteger e somente eu poderia ajuda-la. Disse que talvez fosse algo perigoso, afinal, a pessoa poderia vir atrás de nós, mas ela insistiu e disse que não teria problema, ninguém desconfiaria já que meu carro estava dentro da garagem, eu só precisaria sair com o carro sem que os outros percebessem que ela estava dentro.

Depois de muita conversa, concordei e disse que sabia um lugar que seria ideal para escondê-la. Saímos com o carro e depois de muito dar voltas, ela enfim saiu do banco de trás e perguntou várias vezes se não estávamos sendo seguidas. Afirmei que não, e quando fomos para um bairro vizinho, ela finalmente se acalmou. Continuei dirigindo e ela começou a ficar aflita novamente sobre onde estávamos indo. Afirmei que era um lugar seguro, um lugar que eu mesma costumava passar algumas horas quando queria “sumir do mundo”. Ela ficou tranquila novamente e até dormiu no carro.

Quando chegamos, acordei-a e pedi que ela entrasse no galpão. Era um espaço amplo, com uma mesa e algumas cadeiras e alguns materiais de arte. Ela sentou em uma das cadeiras e relaxou, respirando fundo.

Caiu no chão como uma fruta podre. Ela nem se quer notou quando eu levantei o taco para acertar a sua nuca e caiu desmaiada no mesmo instante. Certifiquei-me de que ela não estava morta e então a amarrei na cadeira. Quando acordou, gritou desesperada me chamando e buscando ajuda. O celular tocou e então, eu peguei e coloquei próximo de seu ouvido, atendendo.

– A respiração… Essa respiração…

– Sim.

Ela voltou a gritar desesperada. Questionava-me e queria saber meus motivos. Respondi que o que ela havia feito, já estava feito e agora ela pagaria por todos os erros.  Recitei todas as cartas que escrevi, todos os textos que os fakes havia mandando, tudo olhando diretamente para os olhos dela, sem esboçar qualquer emoção, afinal, já não havia mais nada para sentir.

– O que eu fiz? – soluçou entre lágrimas.

– Me roubou o único amor que eu tive.

– Mas somos amigas… Eu não sei do que você está falando…

– Mas eu sei, porque diferente de você, eu não finjo que meu passado não aconteceu quando ele não me convém. Você me tirou a única pessoa que eu amei apenas para jogar fora depois. Somos amigas sim, pois esse foi o único motivo que me fez me aproximar de você, e agora, enfim, você vai pagar.

– Eu não me… Ah… Agora eu lembro… – disse por fim, ainda confusa e chorando.

Não respondi e nem olhei para trás. A gasolina já estava espalhada e o cigarro já estava aceso. Joguei para cima fazendo o cair na poça que se incendiou imediatamente. Continuei andando mesmo com os gritos de perdão.

Agora estou aqui, com este copo de cerveja, e este cigarro enquanto eu olho a lua…

– Perdão moça, você vai fumar esse cigarro? É que eu estou precisando de um e vi que você nem tocou nele. Se você for, tem algum sobrando ai?

– Ah sim, pode ficar com esse e com o maço também, eu não fumo. Pode beber essa cerveja também, eu não gosto de beber também, só peguei, pois me trás lembranças.

Agora, enquanto volto para casa, vejo caminhões de bombeiros correndo em direção da fumaça. Eu particularmente achei que seria um espetáculo maior… Talvez eu tenha que melhorar minhas técnicas, mas por hora, está ótimo assim.

 

juhliana_lopes 19-06-2014

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