Paciente

10494863_732063346852960_6922425367116091794_nEle estava aflito. Ainda não sabia bem como havia se metido naquela confusão, mas sabia que não havia feito nada de errado. Aquilo estava consumindo suas ideias e então quando se deu conta, estava tão frágil que precisou ser internado. Aproveitou a estadia para descansar. Não era tão ruim quanto achava, pelo menos não naquela parte de “internos temporários”.

Quando a agonia não cabia mais no peito, resolveu ir até a sala que era temida por muitos para tentar desabafar.

– Eu tenho muitos sonhos sabe? A melhor parte de dormir é sonhar. Eu pareço e me vejo como uma criança porque tenho muitos sonhos bobos. Eu acho incrível, eu gosto muito. Esses dias mesmo, eu sonhei que havia uma bola num pedestal. Eu simplesmente chegava perto, ficava olhando, e depois com uma tapinha leve, fazia a bola bater na parede. Depois, quando ela parava no chão, eu ficava chutando de um lado para o outro brincando feliz. Hilário. Outro dia, sonhei que estava numa rua com outras crianças, e então, surgiam algumas trincheiras e tudo parecia ter sido transformado num campo de batalha. Nós havíamos nos transformado em soldados, e estávamos lutando por nossas vidas, porém as armas eram de água. Era como se a brincadeira tivesse ganhado mais realidade, mas ainda éramos crianças brincando com arminhas de água. Foi muito divertido, lembro que consegui render um amigo meu e jogar água molhando o rosto dele, e logo depois eu batia com a arma na cabeça dele bem fraquinho, imitando os caras dos filmes quando querem que o outro desmaie. – dizia ele um pouco sem graça.

– Você se sente bem com esses sonhos? – ela olhava em seus olhos quando perguntava, com um tom imparcial. Não estava ali para julgar, muito menos questionar, seu trabalho era apenas ouvir.

– Sim, muito, acho que nunca tive um pesadelo, nada nunca dá errado nesses sonhos, é muito bom, sobretudo brincar sem se preocupar…

– Você levanta durante a noite ou dorme direto? Já aconteceu algo de estranho?

– Não senhora. Tenho o sono pesado, então quando eu durmo, não levanto mais pra nada. A única coisa estranha que acontece é que eu nunca acordo do mesmo lado que eu fui dormir. Acho que me mexo muito a noite, mas nunca percebi nada… Acho que é algo normal, considerando que muitas pessoas… – ele dizia até que foi interrompido por homens grandes que entraram na sala como furacões já o agarrando pelos braços.

– PRENDAM ESSE ANIMAL! – dizia um homem baixinho meio gordo com óculos no meio do nariz.

– Mas o quê? – ele olhava em volta assustado, enquanto a doutora tentava apaziguar.

– Senhor, mantenha a calma, não vejo necessidade para tal ação, acredito que…

– Doutora, como não tem necessidade? Sabe de quais crimes esse seu “paciente” é acusado? – o homem baixinho falava apressado com o dedo apontado para o homem.

– Ei, me solta… – ele tentava se soltar, mais uma vez a doutora tentava falar em seu socorro.

– Senhor, o meu paciente…

– Ele é acusado de agredir uma pessoa na rua, sem motivo aparente, jogando a cabeça dela contra a parede e depois, assim que ela caiu no chão, chutar repetitivamente, deixando o rosto todo machucado. Ele também é acusado de perseguir pessoas na rua e depois de encarar assustadoramente um rapaz, derrubá-lo no chão, apontar uma arma em seu rosto e atirar, explodindo a cabeça do indivíduo. Isso sem falar em vários outros crimes! – dizia o homem ora arrumando os óculos, ora gesticulando como se o mundo fosse acabar.

– Isso é mentira, eu nunca fiz isso! – gritou desesperado, não havia feito àquelas coisas, e estava com medo dos brutamontes que apertavam seus braços com mãos firmes.

– Senhor, ele é sonâmbulo… – disse q doutora calmamente, mantendo o tom imparcial.

– Doutora, com todo respeito, você está brincando comigo? Acha mesmo que eu vou ser que nem você e cair nessa mentira dele?

– Não é mentira senhor. Ele dorme a noite e sonha. Os sonhos se mostram infantis pra ele, mas na verdade refletem as ações que ele realiza durante o sono. – ela tentava explicar.

– Não querendo lhe ofender Doutora…

– Mas já está ofendendo. Você está abusando da sua autoridade, primeiro porque não tem um mandado oficial, segundo porque ele é um paciente em tratamento, logo visto suas condições mentais, a justiça permite que ele cumpra a pena, depois de condenado aqui no hospital. Agora se puder soltar o meu paciente antes que eu chame os seguranças, eu agradeço. – Disse por fim num tom firme e autoritário. Era como uma professora dando uma ordem a um aluno, que não queria lhe dar ouvidos. De certo modo soava ameaçador e fez com que todos se calassem por alguns longos minutos.

– Você vai se arrepender disso… Vamos rapazes, vamos deixar que ele a mate, assim ela aprende a parar de proteger bandido! – Saindo da sala frustrado, com os guardas logo atrás como cães.

Mais sem graça do que quando entrou, não tinha mais coragem de encarar a doutora, mas sabia que precisava falar alguma coisa.

– Ah… Obrigado doutora.

– De nada, mas não tem porque me chamar de doutora. – ela disse num tom amistoso.

– Mas a senhora é a minha médica não é?

– Não. Sou uma interna como você. Eu estava tentando pegar alguns remédios escondidos quando você chegou aflito querendo conversar então eu parei pra te ouvir. Mas cuidado, eles podem voltar…

– Interna?! Por que você está internada aqui? – disse surpreso.

– O mesmo que você, a diferença que é que fazia isso quando estava bêbada, e como eu era uma viciada, isso acontecia com certa frequência…

– O mesmo que eu? Como assim? Quer dizer que eu matei mesmo aquelas pessoas? Eu não matei ninguém, eu… – mais uma vez confuso e sem entender porque estava sendo acusado daquilo sendo que nem havia feito nada, mas ao mesmo tempo com um sentimento de culpa como se por fim percebesse que talvez ele fosse realmente o culpado.

– Relaxa, você acostuma, no seu caso só precisam trancar o seu quarto e fica tudo bem… Olhe, eu mesma… – ela explicava até ser interrompida por outra voz feminina vindo da porta aberta.

– O que você está fazendo com meu jaleco?

– Bem, tenho que ir… – disse ela saindo em disparada.

A outra mulher, se, jaleco e com um crachá nas mãos, o cabelo preso em um coque, olhava abismada para ele e para o corredor por onde a moça havia sumido, falando alto.

– Ei mocinha, espere ai! O que ela aprontou afinal? Ei, o que há com você? Ela fez alguma coisa com você? – disse por fim, se aproximando dele.

– Não… Na verdade, eu só preciso dormir um pouco…

 

juhliana_lopes 27-06-2014

Galante

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Oh meu doce galante, 
Seu cortejo me alegras muito, 
Apesar de todos os contras… 
As pessoas falam demais 
E sua estampa por ai exposta, 
Não é das mais finas. 
Me falam sobre homens 
Com muitas habilidades com as mão. 
Os ferreiros e forjam belas espadas, 
Os padeiros que preparam deliciosas massas, 
Os oradores que declamam jubilosos discursos… 
Nem mesmo o rei com toda a sua pompa 
Poderia chegar aos pés de tu, oh meu lorde. 
Como se não bastasse sua beleza que agrada aos olhos, 
Ainda tive o prazer de conhecer o dom de suas mãos. 
Todos recomendariam-me afastar-me de sua presença, 
Mas sua mácula já se espalha em minhas veias como febre, 
E tudo nos leva a uma delicada valsa, 
Quando descubro, 
Que nossos gostos se completam, 
E ao responder sua côrte, 
Poderemos juntos, 
Sangrar os pescoços alheios, 
Arrancar seus corações, 
E preparar suas carnes e músculos, 
Para um banquete. 
Meu doce assassino, 
Não daremos nós atenção aos burburinhos, 
Juntos, vamos nos divertir 
Ao matar esses bufões, 
E a noite admirar as estrelas, 
E o sorrir da lua minguante 
Para o nosso travesso dom. 

juhliana_lopes 13-01-2014

Gasolina

fogoA lua já está alta no céu e eu aqui sentado com mais um copo de cerveja a minha frente. A fumaça do cigarro subindo, fazendo figuras dançantes pelo ar, e eu apenas acompanhando o movimento.

Quando ela me ligou, não entendi o que estava acontecendo. Estava desesperada, aflita, parecia mesmo estar com medo. Claro que tentei ajudar, afinal, uma amizade serve pra isso. Ela estava numa agonia tão grande que além de abraços, tive que dar colo para que ela pudesse se acalmar e me contar enfim o que havia acontecido.

Li as várias mensagens que ela havia recebido, além das cartas anônimas e, sobretudo vi os fakes que a perseguiam nas redes sociais. Não restava dúvida que alguém estava vindo atrás dela, mas por quê? Talvez ela tivesse feito inimigos, talvez tivesse sido confundida com alguém… Entre lágrimas, ela garantia que não havia feito nada de errado, pelo menos não se lembrava, e sabia que tinha amigos por toda parte, ninguém teria motivos para fazer qualquer coisa parecida.

Perguntei, mais uma vez se de repente ela não teria ofendido ninguém com alguma brincadeira, ou ainda ignorado alguém sem perceber. Talvez um amor platônico que nunca tivesse recebido atenção ou ainda algum rejeitado que não gostou de ter seu coração partido.

Também não, estava bem no que se tratava de sentimentos, e não se lembrava de nenhum amor perdido. Aliás, há muito tempo não recebia investidas de ninguém e nem mesmo troca de olhares. Suspirei quando ela voltou a chorar me contando das ligações que recebia de madrugada. A pessoa não falava nada, apenas respirava lentamente e quando ela exigia saber quem era, desligava. Não devia se incomodar com isso, mas a respiração da pessoa parecia sugar sua alma pelo telefone, como se a deixasse diante de uma condenação eminente.

Quando estávamos tomando um café, alguém bateu a porta e um papel entrou pelo vão. Ela já estava tremendo toda de novo, e então peguei o papel. Outra carta anônima, com as letras de revista cortadas com precisão e coladas suavemente como um trabalho de artes. Ela não conseguia nem segurar o papel e então eu li em voz alta. Dizia que hoje seria o fim, e não adiantaria ela escapar, pois a pessoa a acharia e a faria pagar pelos seus erros. Ela não seria perdoada e hoje, iria dormir para sempre.

Desesperada, e quase se jogando aos meus pés me pediu misericórdia e que eu a ajudasse a escondê-la. Ela não podia mais ficar ali, estava correndo um grave risco e precisava se proteger e somente eu poderia ajuda-la. Disse que talvez fosse algo perigoso, afinal, a pessoa poderia vir atrás de nós, mas ela insistiu e disse que não teria problema, ninguém desconfiaria já que meu carro estava dentro da garagem, eu só precisaria sair com o carro sem que os outros percebessem que ela estava dentro.

Depois de muita conversa, concordei e disse que sabia um lugar que seria ideal para escondê-la. Saímos com o carro e depois de muito dar voltas, ela enfim saiu do banco de trás e perguntou várias vezes se não estávamos sendo seguidas. Afirmei que não, e quando fomos para um bairro vizinho, ela finalmente se acalmou. Continuei dirigindo e ela começou a ficar aflita novamente sobre onde estávamos indo. Afirmei que era um lugar seguro, um lugar que eu mesma costumava passar algumas horas quando queria “sumir do mundo”. Ela ficou tranquila novamente e até dormiu no carro.

Quando chegamos, acordei-a e pedi que ela entrasse no galpão. Era um espaço amplo, com uma mesa e algumas cadeiras e alguns materiais de arte. Ela sentou em uma das cadeiras e relaxou, respirando fundo.

Caiu no chão como uma fruta podre. Ela nem se quer notou quando eu levantei o taco para acertar a sua nuca e caiu desmaiada no mesmo instante. Certifiquei-me de que ela não estava morta e então a amarrei na cadeira. Quando acordou, gritou desesperada me chamando e buscando ajuda. O celular tocou e então, eu peguei e coloquei próximo de seu ouvido, atendendo.

– A respiração… Essa respiração…

– Sim.

Ela voltou a gritar desesperada. Questionava-me e queria saber meus motivos. Respondi que o que ela havia feito, já estava feito e agora ela pagaria por todos os erros.  Recitei todas as cartas que escrevi, todos os textos que os fakes havia mandando, tudo olhando diretamente para os olhos dela, sem esboçar qualquer emoção, afinal, já não havia mais nada para sentir.

– O que eu fiz? – soluçou entre lágrimas.

– Me roubou o único amor que eu tive.

– Mas somos amigas… Eu não sei do que você está falando…

– Mas eu sei, porque diferente de você, eu não finjo que meu passado não aconteceu quando ele não me convém. Você me tirou a única pessoa que eu amei apenas para jogar fora depois. Somos amigas sim, pois esse foi o único motivo que me fez me aproximar de você, e agora, enfim, você vai pagar.

– Eu não me… Ah… Agora eu lembro… – disse por fim, ainda confusa e chorando.

Não respondi e nem olhei para trás. A gasolina já estava espalhada e o cigarro já estava aceso. Joguei para cima fazendo o cair na poça que se incendiou imediatamente. Continuei andando mesmo com os gritos de perdão.

Agora estou aqui, com este copo de cerveja, e este cigarro enquanto eu olho a lua…

– Perdão moça, você vai fumar esse cigarro? É que eu estou precisando de um e vi que você nem tocou nele. Se você for, tem algum sobrando ai?

– Ah sim, pode ficar com esse e com o maço também, eu não fumo. Pode beber essa cerveja também, eu não gosto de beber também, só peguei, pois me trás lembranças.

Agora, enquanto volto para casa, vejo caminhões de bombeiros correndo em direção da fumaça. Eu particularmente achei que seria um espetáculo maior… Talvez eu tenha que melhorar minhas técnicas, mas por hora, está ótimo assim.

 

juhliana_lopes 19-06-2014

Amor

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Sempre muito cortês, não existia lorde mais cavalheiro do que ele. Não que fosse sério o tempo todo, mas sabia se portar muito bem. Além disso, era culto, sempre aumentando seu vocabulário com os diversos livros que lia, sem discriminar gêneros, pois por mais que não gostasse de uma obra, sabia que ela tinha seu valor. Sabia apreciar as mais variadas iguarias e bebidas. Dificilmente dispensava algo e quando não conseguia ou não tinha tanto apreço, provava pelo menos um pouco para não fazer desfeita.

Tinha muitos amigos, pessoas de real confiança. Como todos estudavam muito e a nobreza raramente se preocupava em trabalhar com algo pesado, tinha muito tempo para levar uma vida boêmia com seus companheiros. Nos bares, passavam a noite discutindo sobre seus estudos e claro, sobre os eventos nobres da cidade, onde tinham contato com todo tipo de gente importante e assim uma chance de subir cada vez mais seu nível social.

Apesar de todos os estudos, às vezes gostava de lidar com a força. Lógico que era um passatempo que guardava somente para si. Gostava de pegar objetos pesados para simplesmente trocá-los de lugar e assim se manter em forma. Essa força braçal que exercia, o deixavam com um ar de bruto, porém jamais permitiria que alguém o visse assim, trabalhando como qualquer um.

Não chegava aos pés de Narciso, mas ainda sim era um homem bonito. Suas curvas suaves davam um contraste interessante com o olhar duro que apresentava, diriam até que se tratava de um mero plebeu, mas sabiam que tinha porte para um rei. Apesar de pesado, seus olhos eram lindos, num tom castanho nem muito escuro e nem muito claro, que sob a luz ficavam cada vez mais esplêndidos, e na ausência dela, a dilatação das pupilas dava um ar de mistério ao seu rosto de provocante.  Com os cabelos encaracolados, o faziam assumir um ar angelical (por vezes ouviu que era como um anjo quando criança), não se importava com o título, uma vez que não simpatizava com as crenças da época, mas com a educação que tinha, apenas agradecia os elogios (sempre caçoando mais tarde no bar com os amigos, ainda mais quando partia de alguma senhora pomposa).

Mulheres… Grande apreciador do gênero, porém, enchia o peito para dizer que nunca se apaixonou o que era realmente verdade. Nas festas, sempre fazia presença diante das moças, e com um jeito suave com um leve toque rústico, deixava as donzelas suspirando esperando a sua vez de dançar com o nobre galanteador. Sempre muito criterioso, só reservava sua atenção a aquelas que considerava serem as mais bonitas, e realmente eram. Por vezes conseguiu “contatos” para seus amigos e alguns deles, agora casados e senhores de uma casa, o agradeciam muito. Ele preferia ter a sua vida como havia seguido até agora, conseguindo uma meretriz de vez em quando para saciar seus desejos ocultos, ou desvirtuando alguma moçoila de família, de alguma cidade distante a qual jamais voltaria ou passaria por perto.

Numa noite de festa e pompa, de alguma figura importante da cidade, um de seus amigos lhe apresentou um novo companheiro, que ainda tímido e muito novo estava começando a se enturmar. Ele não estava sozinho naquela noite, pois além de estar acompanhado de alguns familiares, trouxe também a sua irmã de criação. A verdade é que as duas famílias eram muito próximas e os dois cresceram juntos em fraternidade. Ela passaria despercebida por ele se o novo amigo não a tivesse apresentado, porém, algo era diferente.

Ela preferia estar próxima dos homens que das outras moças, tinha muito assunto para uma mulher. Era letrada, estudava e muito inteligente, tinha até mesmo algumas teorias sobre o universo e eventos sociais, sobre como as pessoas se comportam e o funcionamento da mente. Claro que alguns homens ficaram incomodados, mas ela, extremamente cortês e educada, percebendo o desconforto, foi se retirando gradativamente e logo, não nos dava mais atenção. Quando ele se deu conta, ela já estava com outras damas, porém calada.

Lógico que os homens se sentiram intimidados, mas nele, o que foi despertou foi curiosidade. Ela era realmente diferente. As outras moças investiam em vestidos bufantes e joias chamativas, em cabelos altos e maquiagem que as fizessem parecer de porcelana. Suas cinturas eram marcadas com os espartilhos apertados até o limite, subindo os seios completamente até quase chegar ao pescoço. Em compensação, por mais bonitas que ficassem não conseguiam falar mais que duas palavras sobre qualquer assunto aleatório, e preferiam dar risinhos tímidos quando não entendiam algo ou quando não sabiam o que comentar, ou seja, quase sempre.

Ela era linda, seu rosto era perfeito a seus olhos. Seus cabelos negros davam um contraste magnífico com sua pele branca, mesmo com as sobrancelhas marcadas, sendo um pouco mais grossas que a maioria feminina deixava, tinha um ar suave quase frágil ao seu rosto. Sua boca, levemente marcada com um batom claro, lhe deixava hipnotizado quando falava e a forma como tirava o cabelo dos olhos o deixou encantado. Seu vestido não era pomposo. Na verdade bem simples comparado com o brilho que os outros tinham. Sua cintura não era tão marcada, mas dava pra perceber que não precisava daquilo. Sem o espartilho e com a saia do vestido de um tecido leve que se adequava ao corpo, dava pra perceber que seus quadris não eram não finos como de algumas moças que já havia visto nuas, e o leve decote, com uma suave marcação, mostrava que não tinha seios tão fartos, mas que pareciam ser lindos.

Estava começando a nutrir um desejo por aquela mulher, mas não iria conseguir com ela o que conseguia com as donzelas, pois elas eram burras e moravam longe. Por mais que os pais descobrissem que elas não poderiam mais casar, não poderiam ir atrás dele para obriga-lo. Mas ela era diferente. Ele não ia consegui leva-la na lábia tão rápido, e não ia conseguir se livrar dela tão rápido depois. Poderia estar se condenando se envolvendo com ela e então voltou a beber e resolveu esquecê-la.

No dia seguinte ao ir para uma reunião na casa do novo amigo, notou um belo jardim e uma moça abaixada mexendo num vaso. Mesmo com o rosto sujo de terra continuava linda e logo percebeu que estava ali parado no meio do caminho admirando a mesma mulher da noite passada novamente. Parecia uma camponesa, mas a camponesa mais linda que poderia existir. Ela acenou tímida e voltou concentrada para seus trabalhos o ignorando completamente. Ele estava acostumado a ter total atenção das moças quando chegava a algum lugar, mesmo quando elas não estavam interessadas nele. Estava acostumado com o fato de toda mulher parar o que estava fazendo para dar atenção a um homem, quando ele chegava até que seus companheiros também viessem para que então começassem a conversar. Como ela o ignorava, ele não se deu conta que continuou ali esperando o mínimo de atenção enquanto admirava seus movimentos. Ela, linda estava cultivando algumas flores, e então, e quando se levantou para arrastar um vaso pesado que nem conseguia mover, ele se viu ao lado dela, levando o vaso para o lugar que ela desejava. Ela agradeceu com um sorriso magnífico, e um “obrigado”. Ele, enfeitiçado pelo sorriso encantador, agarrou a sua cintura como jamais havia feito, mostrando uma selvageria fora do comum e tentou beijá-la. Ela, para sua surpresa revidou com um soco certeiro em seu queixo, que ficou latejando por causa da dor. Apesar da ousadia, – de ambas as partes, pois como uma mulher poderia revidar daquela maneira? – ela sorriu mais uma vez, limpou as mãos no avental e foi para dentro de casa. Ele entrou para a outra casa e seus amigos o esperavam com certa impaciência.

Mais tarde, quando estava indo embora, um pouco altos por causa do vinho e outras bebidas, viram a bela dama sair acompanhada de mais duas amigas. Elas eram bonitas, mas para ele, não tanto quanto ela. Seu amigo que apresentou o irmão dela, a chamou e ela se aproximou, deixando as amigas esperando para ver o que ele queria. Talvez por causa da bebida, ou por algum sentimento guardado, ele começou a se declarar, mas ficou claro que a sua real intenção era só conseguir um pouco de atenção. O nobre cavalheiro, um pouco incomodado com a situação de ser passado para trás, ia deixar os dois a sós quando ela respondeu – um tanto grosseiro para uma mulher – que ele estava fazendo papel de ridículo e deu-lhe as costas. Ele a agarrou pelo braço e quando ela, com um olhar feroz – que deixou o nobre mais ardente – ia revidar, ele puxou a mão do amigo pedindo desculpas pela ousadia do rapaz e falando gentilmente que resolveria tudo. Ela agradeceu desta vez com um sorriso forçado e foi embora com suas amigas.

Não queria assumir, mas talvez aquilo fosse amor. Estava extremamente envolvido e seu coração estava apertado em perceber que jamais teria uma chance ou que talvez fosse arriscar a sua reputação. Ao mesmo tempo em que nada mais daquilo importava, não queria se entregar a esse sentimento estranho que estava começando a sentir. Percebeu então que só sentia aquilo quando estava perto dela. Longe era o mesmo cara de sempre, e com as meretrizes nem se quer se lembrava do nome dela. Resolveu ignorar o sentimento e se afastar, assim não teria problemas.

Foi quando um acidente aconteceu que notou que talvez jamais fossem se separar. Ele voltava para casa de madrugada, suando frio por causa do álcool, e quando um homem tentou assalta-lo, num ato de sobrevivência – e desabafo da raiva – empurrou o cara contra a calçada, pegou uma pedra e acertou a cabeça dele várias vezes até que um filete escarlate se transformasse numa hemorragia. Levantou-se, limpou suas roupas e respirou. Havia matado um homem, então porque não se sentia culpado? Lembrou que não tinha religião e que por isso tinha em seu pensamento que não teria nenhuma punição divina. Deu-se conta que precisaria ocultar o corpo, mas como faria isso?

Ao ouvir passos em meio à névoa que baixava, pegou a pedra novamente e se preparou para atacar, até que desistiu e se viu novamente encantado – e confuso. Ela olhou para o corpo e assim como ele compartilhava da mesma falta de culpa – ou horror. Ele não fez questão de tentar esconder ou se explicar, era até bom, assim ela poderia se afastar dele mais rápido e ele esqueceria essa baboseira de amor. Ela por sua vez apenas suspirou e disse para que ele arrastasse o corpo até onde ela indicaria.

Levaram então para um campo aberto, que com o breu da noite parecia um cemitério, e usando uma pequena pá de mão, ela começou a cavar. Ele não disse nada, apenas empurrou o corpo para dentro do buraco que logo estava enorme e fundo apesar do mínimo esforço para cavá-lo. Depois, pegou algumas mudas de plantas que estranhamente estavam próximas e colocou sobre a cova, logo formando um jardim meio sem cor por falta da luz da lua.

Quando ela se levantou e limpou o vestido, ele se ofereceu para leva-la em casa, mas com um sorriso terno ela respondeu que não seria necessário. “Já estou em casa”. Então se deu conta que estava no mesmo jardim que esteve pela manhã, mas entrou por um lugar escondido com ela. Ele deu um riso nervoso que foi abafado pelos dedos dela em sua boca. Os olhos se encontraram e por um longo período permaneceram ali, em transe. Quando suas respirações sincronizaram, seus lábios se tocaram num beijo ardente e selvagem que um não reconheceria o outro. Os corpos grudados, as mãos em urgência abraçando e explorando o corpo do outro faziam parecer que iam morrer a qualquer momento e deveriam aproveitar cada momento. Antes que o calor acabasse de vez com os sentidos, ela se afastou ofegante e ele com os braços foram em busca de mais. Ela não permitiu mais e falou que ele deveria ir para casa. Ela entrou apressada e ele então notou que os outros jardins próximos tinham o mesmo formato da cova, e então antes que ela sumisse a chamou baixinho e perguntou o que ela fazia andando àquela hora na rua. Olhando de lado, com um tom travesso encantador, respondeu quase num sussurro: “Matando.”. Era o golpe final do amor em seu coração.

juhliana_lopes 10-06-2014

A guerra (prefácio)

Homem de chapéuHá certas coisas que não devemos questionar. Principalmente aquilo que não entendemos, ou não queremos entender. Mas como se teoricamente são estas coisas que devemos mais questionar? Como se são estas as coisas que devemos virar do avesso até saber de onde vem como veio e pra quê veio? Como simplesmente deixar pra lá algo que nos desperta curiosidade de tal forma por justamente não compreendermos?

Pois eu digo que são essas coisas que nos levam a um buraco tão fundo que se as pessoas tivesse a oportunidade de verem antes de terem a opção de “querer saber” de algo, deixariam para lá qualquer possibilidade disso.

Não generalizo. É claro que devemos buscar conhecimento sobre a maior parte das coisas que conseguirmos, mas existem coisas que a mente humana ainda não esta preparada para compreender. Existe um mundo… Um “submundo” por assim dizer, que muitas pessoas chamam de “só imaginação” ou “não existe”. Há nomes alternativos como “coisa da sua cabeça” ou “ideias de jericos”, mas a verdade é que esse mundo existe, e muitos não querem entender porque não conseguem compreender, vendo assim é melhor que não questionem mesmo, afinal, não se trata de um lugar agradável.

Se você vê um homem, com roupas rasgadas na rua, sua mente já o associa com um mendigo. Se esse homem estiver com um objeto estranho na mão, sua mente já o associa com um mendigo com um lixo qualquer na mão. Se você vê, esse mesmo homem de roupas rasgadas, com um objeto estranho na mão, fazendo movimentos estranhos de forma que o objeto acaba se movendo estranhamente como se tivesse, sua mente o associa como um mendigo louco com um lixo qualquer na mão, afinal sua mente não irá processar a ideia do objeto ter vida e sim do mendigo estar fazendo qualquer coisa de louco com as mãos para ganhar atenção.

Como eu entrei aqui, neste lugar onde mendigos como esse homem que citei agora podem ser magos poderosos, alguns já sabem, mas não é disso que vou falar agora, e sim do que é esse mundo. Um lugar “mágico” como diriam alguns que de campos verdes e unicórnios saltitantes só alguns cartazes colados nas paredes sujas e pegajosas dos becos. Mágico sim, pois não se vê um mercado de duendes a toa por ai, e muito menos seres que “não existem” desfilando com suas mercadorias para vender e trocar. Uma magia “suja” como diriam alguns, mas não “magia negra”, como vocês poderiam julgar. Claro que não temos uma cidade só para gente, fazendo com que muitas criaturas fiquem escondidas entre os civis, se passando por “gente”, ou vivendo “bem” no subterrâneo.

O uso de tantas aspas se deve ao fato que nada é fácil para nós. Vivemos em meio à sujeira do mundo, ao lodo e ao lixo. Vivemos a beira de brigas e assaltos, dormindo nas ruas para que possamos correr caso algo aconteça. Claro, não somos todos pobres, há aqueles que têm suas casas e uma boa vida financeira, mas quando se vive à beira da morte, é melhor virar nômade e viver mais uns dias.

Foi-se o tempo onde recebíamos alguma pompa e clamor. Não que eu seja tão velho a ponto de vir dessa época, mas sei de tempos de glória, onde havia castelos e roupas limpas para magos q hoje vivem como mendigos. Onde havia cavaleiros e guerreiros com suas espadas pesadas e narizes quebrados escondidos por elmos lustrosos. Foi se o tempo onde tudo isso também era considerado um mero mimo burguês e chegamos ao tempo – eles chegaram, eu entrei agora – onde a vida é como ela é. Suja como os becos, pegajosa como as paredes úmidas ondem crescem os lodos e perigosa como a noite sem luar.

Já faz tempo desde minha última “aventura”, conheci muita gente desde então, e posso dizer, não é fácil administrar tantos amigos. Nesse ramo, é melhor não é nenhum ou pelo menos cinco para nos livrar de enrascadas.

A verdade é que enquanto nossa preocupação eram somente os Corvos, tudo ainda estava no controle, pois ainda tínhamos um pouco de honra, tanto do nosso lado como do deles, mas agora, com novas e antigas famílias surgindo e ressurgindo, temos que nos preocupar em nos proteger e proteger o mundo “real” onde as pessoas vivem confortavelmente sem acreditar em nós.

Esse registro, escrito as pressas e sem sentido para alguns, se deve a uma guerra eminente que está prestes a acontecer. Os clãs estão crescendo e uma força poderosa foi descoberta, porém ninguém sabe de onde vai vir e muitas coisas ainda estão a caminho. Apesar do meu “clã” não ser unido – se é que da pra chamar de clã – prevejo a hora que teremos que nos unir e ficar de igual para conseguirmos nos tornar uma força tão potente quanto às outras…

E por que eu me preocupo? Por que o mundo mágico se preocupa? Pois uma guerra entre nós acabaria com o mundo como “vocês conhecem”, e como não vão compreender, vai acabar acontecendo alguma bobagem…

E quem eu sou? Um caçador…

 

juhliana_lopes 04-06-2014