Serviço

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Estava eu jogado num bar, tomando mais uma dose daquela coisa amarga que descia quente pela garganta. Quem me visse naquela situação diria que eu estava largado à própria sorte, mais um traste entregue ao destino. A verdade é que eu só estava aquecendo, aquela que seria uma noite daquelas. Há muito não conseguia algum motivo pra sair e hoje, até então, estava tudo perfeito.

Mais algumas doses enquanto observava o lugar. Vi quando Jack sentou ao lado de um cara qualquer, daqueles que aparecem todo dia nos bares, mas nenhum com um motivo forte o bastante para terem suas mágoas reveladas. O rapaz aparentemente só estava degustando assim como eu, e Jack, também estava se aquecendo. Em outra situação eu já teria ido embora, mas hoje não. Nada melhor para fechar a noite que aquela melodia peculiar.

Acredito que qualquer outra pessoa teria uma reação meio estranha e possa adquirir até mesmo certa aversão, mas Jack consegue ser o ser mais normal que você encontra num bar, considerando tantas outras figuras que passam todos os dias por eles em busca de um escape.

Eu estava somente me aquecendo, e agora, no fim de mais uma canção espetacular, sai em busca da minha atração principal. Ainda pingava sobre a rua molhada, e não havia mais ninguém nas ruas. Ouvia apenas os meus passos que eram abafados pelos poucos carros que passavam apressados naquela madrugada.

Meu cigarro já estava apagado jogado em alguma calçada suja quando encontrei meu objetivo. Estava ali, parado, esperando alguém que não era eu muito provavelmente. O segui durante toda a semana e estranhei o fato dele ainda continuar indo para lá esperar. É claro que ela não iria aparecer, não sei como alguém pode ser tão idiota.

Solange, uma guria linda, que faz inveja para as outras e provoca sempre brigas entre os seres do sexo masculino por onde passa. Viu em Marcelo, o que ela nunca encontrava num homem: serenidade, carinho e romantismo. Logo enjoou. Era muito doce e então percebeu porque as mulheres gostavam de serem maltratadas de vez em quando, mas como ainda ganhava presentes, o enrolou por um tempo.

Veio então o ultimato, afinal, quem tanto tem a oferecer, espera no mínimo algum retorno. E então os encontros foram marcados, e todos os dias ele estava no mesmo lugar, esperando, aguardando, com a chama acesa da esperança viva em seu peito, pronta para se transformar num fogo ardente de paixão sob os lençóis da bela dama.

Desde então eu o venho seguindo, pois a bela dama nada mais é que uma ótima patroa e me prometeu alguns pagamentos dobrados por alguns serviços extras… Eu não espero que ela me recompense com “algo a mais”, até por que, vindo dela, pode ser muito perigoso.

Então ali está Marcelo numa rua escura a espera da sua musa, molhado dos pingos da chuva, mas sem o menor sinal de querer desistir de seu sonho. É uma pena, uma profunda pena, mas estou aqui para lhe dar um recado, e seria extremamente frustrante lhe deixar sem uma resposta.

“Auuuuuu, auuuuu”, cantei baixinho, lembrando-me dos versos de Jack D. Wolf. A chuva estava ameaçando cair pesada novamente, e logo eu teria que me apressar. Não gosto quando a rua fica molhada por não consigo ser silencioso da forma que gosto de ser. Ele me ouviu assim que apontei atrás dele e se virou depressa com um ar apaixonado que logo se transmutou para apavorado. Eu não estava tão mal assim, apenas usava um casaco sobre minha blusa cacharréu que escondia minha boca e meu queixo.

Antes que ele mexesse seus lábios para fazer qualquer pergunta ou mesmo gritar, descobri a minha boca e então notei seu rosto ficando tão pálido quanto à lua sob a neblina. Eu não sou o pior dos homens no quesito beleza, mas digamos que minha aparência seja singular. Ele não conseguia correr, estava claramente em choque, e então entreguei o bilhete em sua mão. Ele, claro, desconfiado até as orelhas, o abriu com muito cuidado e deixou escapar o que pareceu ser um suspiro de alívio ao reconhecer a letra do manuscrito. Antes que seu sorriso ficasse por mais alguns segundos, seu rosto assumiu novamente uma expressão confusa e sua respiração ficou mais acelerada.

Quando olhou pra mim novamente, sentiu apenas minha mão pesar sobre seu rosto. Muito curioso como alguém despreparado cai rápido no chão. Talvez eu ainda estivesse meio alto por causa das tequilas, talvez não devesse ter exagerado, afinal, tenho a leve impressão que meu golpe deveria ter tirado um dente, mas ele apenas caiu de cara no chão como qualquer coisa podre. Tentou se levantar desajeitado, mas lhe dei um chute certeiro no estômago.

Ouvi uma espécie de choro baixo e algum sussurro sobre o porquê e um pedido de misericórdia. O puxei pela gola da camisa, o coloquei em pé e cheguei bem próximo de seu rosto. “Não existe misericórdia, não existiu para mim quando fizeram isso com meu rosto”, disse com minha voz rouca e pesada, mais uma voz de bêbado do que ameaçadora…

Ele ainda tentou dizer qualquer coisa começando com “ela…”, mas a faca entrou em seu pescoço tão fácil como seu sangue saía quando começou a jorrar. Limpei minhas mãos como pude, guardei meu instrumento e voltei calmamente para o bar.

Para minha sorte, Jack ainda estava tocando a saideira, e tratei logo de me jogar em outra cadeira qualquer para terminar de ver o show. O bar estava quase vazio agora e com menos vozes, era muito melhor apreciar a apresentação.

Tudo perfeito, boa música, bebida, serviço feito… Amanhã irei ganhar o prometido, e talvez seja morto no mesmo dia, mas não importava, pois hoje, já tinha valido a pena. Despedi-me de Jack com um aceno e voltei para casa. Mais um cigarro e a lua a me acompanhar. Passei a mão, coçando as cicatrizes “horríveis” de meu rosto. Agora não havia necessidade de esconder, afinal, os seres que andam a noite não costumam se importar com a aparência dos outros.

“Misericórdia…” me peguei rindo e repetindo aquela palavra tão idiota que todas às vezes eram proferidas como se aquilo pudesse salvar alguém… Não me salvou e não salvaria ninguém vindo de mim. Não das mãos de alguém que um dia foi conhecido como o grande Glokta… Uma pena não ser o verdadeiro…

 

juhliana_lopes 28-05-2014

REFERÊNCIA: Não conhece o Jack D. Wolf? Clique aqui e saiba um pouco mais…

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