Clichê

tumblr_lu75hgkGBw1qi1kpxo1_500_large

Era uma linda manhã de sol, e ele estava animado como nunca antes estivera. Acordou cedo e foi para o trabalho sorridente, porém, na primeira esquina, um carro passou apressado sob uma poça de água e o molhou completamente.

Respirou fundo, passou a mão na roupa, contou até 10. Estava sujo, molhado, mas aquilo ainda não podia estragar o seu dia. Continuou caminhando mesmo assim. Comprou umas flores de uma velha senhora na rua, e seguiu seu caminho.

Ao chegar no trabalho, lógico, todos com cara de surpresa. Ele, meio envergonhado com a situação, foi até o seu chefe dar uma explicação. Na hora, não pode deixar de ficar exaltado, afinal, se não fosse aquele maldito com o carro preto modelo tal, ele não teria chegado naquele estado. O chefe, estranhamente paciente, ouviu toda a história, apenas com as mãos juntas na frente da boca.

Quando terminou seu monólogo, ouviu apenas uma pergunta do chefe: “Esse carro, passou na esquina tal?” Um sim afirmativo com a cabeça e um olhar confuso. Caramba! Nem mesmo as flores que estava em suas mãos continuaram lindas naquele ambiente. O chefe um tanto envergonhado pelo ato e irritado com os comentários e “apelidos” que ganhou, mesmo indiretamente, permitiu um dia de folga.

Cabisbaixo, seguiu pela avenida de volta para casa. Sabia que não era sua culpa, mas talvez devesse aprender a medir as palavras mesmo na hora da raiva. Sabia que não era ele quem devia ficar assim, mas sabia que aquilo de certa forma podia lhe prejudicar. No meio do percurso, uma chuva rápida se formou e caiu pesadamente sobre a cidade. Deu um sorriso irônico para o chão, tudo que ele mais queria. Mais uma vez molhado, e sem dinheiro pra condução, já que ia pedir o dinheiro hoje no trabalho e esqueceu após toda confusão.

Quando finalmente chegou em casa, o sol se abriu novamente. Respirou fundo mais uma vez, mas não pôde evitar um dedo do meio mostrado para o céu como sinal de sua revolta.

Resolveu tomar um banho quente para relaxar, mas mal entrara no banheiro, ouviu a campainha chamando. “Não vou atender” pensou. Fechou os olhos e colocou a cabeça embaixo do chuveiro, mas a campainha insistia sem parar. Pegou uma toalha irritado e desceu as escadas pisando firme.

Abriu a porta sem nenhuma delicadeza, para dar de cara com uma garotinha vendendo qualquer coisa para a escola. Pegou qualquer trocado, entregou a ela e nem esperou para receber o que quer que fosse que ela estava oferecendo.

Mal voltou ao banho, e agora o telefone não parava de tocar. Ainda mais irritado, deixou que tocasse e terminou seu “relaxante” banho com a trilha sonora de tons repetitivos.  Com a cabeça ainda doendo mesmo após vestir uma roupa  confortável, o telefone tocou mais uma vez, e agora, ainda mais sem paciência que antes, tirou do gancho de uma vez.

Ruídos. A única coisa que ouviu. Já estava anoitecendo. Quanto tempo havia ficado no banho afinal? Não importava, o dia já estava sendo péssimo o bastante para se importar com um trote. Sentou e começou a ver televisão. Acabou cochilando durante uma notícia sobre fuga de prisioneiros num presídio em algum lugar.

Acordou assustado com o telefone mais uma vez. Atendeu e falou alto caso a pessoa do outro lado não estivesse ouvindo. Mais uma vez ruídos como resposta e uma leve voz dizendo qualquer coisa sobre morte, mas nada compreensível.

Desligou o telefone com raiva, tirou o aparelho do fio e o jogou pela janela. Desligou a TV e foi para cozinha tomar um copo d’água. Sozinho, ouviu alguns barulhos estranhos, mas não se importou. Podia ser até mesmo sua própria respiração já que estava quase bufando de raiva.

Quando se virou para guardar o copo, ouviu um estalo e quando olhou para trás havia uma figura sinistra com uma faca pronta para acertá-lo. Foram segundos que pareceram uma eternidade, primeiro porque ao ver a cena, a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi: “É sério?”. A segunda foi: “Não to acreditando ainda, é sério?” E antes de pensar a terceira, já tinha agido.

Numa resposta rápida, conseguiu agarrar a mão que vinha em sua direção e com a outra, agarrar a nuca, empurrando a cabeça do ser contra a parede. Depois, com a faca agora em sua mão, fincou no pescoço e deixou o sangue jorrar devagar enquanto analisava a situação.

A figura sinistra, aparentemente era um dos presos que haviam escapado, e estava sinistro pois estava magro e com roupas bem sujas. Seus olhos fundos e ossos aparentes, mostravam que não comia a muito tempo. E nem comeria mais nada agora.

Deixou aquilo na cozinha, e foi se deitar, afinal, amanhã tinha um longo dia.

Mais um amanhecer lindo, porém, com nuvens aparentes, havia se levantado uma hora e meia mais cedo do que o normal. Se levantou, tomou café, limpou a sujeira e começou a cavar o quintal. Enxugou o suor da testa, e após a última pá de terra, foi tomar um banho rápido para ir ao trabalho.

“Fazia tempo que eu não fazia isso, mas tenho que arrumar outro lugar para esconder os corpos, to ficando sem espaço pra cavar covas aqui nos fundos.A casa na outra cidade era maior… Agora sim me sinto mais calmo…” Disse para si mesmo e entrou em casa com um sorriso no rosto. Olhou o quadro na parede, passou os dedos levemente sobre ele e subiu cantarolando.

No quadro, um recorte de jornal, com uma notícia velha, porém guardada com extremo carinho: “ASSASSINO MISTERIOROSO FORAGIDO. POLICIA AFIRMA QUE SE TRATA DE UM LOUCO, UMA VEZ QUE SEUS PROPÓSITOS SÃO MOTIVADOS APENAS PARA “RELAXAMENTO PESSOAL” CONFORME RELATO DO ACUSADO. POLICIAIS ESTÃO EM BUSCA E ALERTAM A POPULAÇÃO SOBRE O PERIGO.”

 

juhliana_lopes 07-05-2014

Anúncios

3 respostas em “Clichê

  1. O sujeito pode parecer um tanto quanto sórdido, na maneira como reage as situações, pois não mede a consequencia dos seus atos, o que pode parecer um tanto quanto sórdido, por agir de forma contrária a ética, por outro lado, talvez ele se julgue superior aos outros por achar que pode resolver tudo da forma com que acha mais simples, matando quem parece lhe ameaçar de alguma forma.

  2. Me remeteu a uma espécie de “Dexter” tupiniquim, pareceu bem promissor. Tomara que, você faça alguns contos tão elaborados quanto este, e, de forma mais constante. O Elder, do blog do Rapadura Açucarada, faz contos nesta linha, porém, com uma outra temática, mas não deixe de ver. Creio que o personagem que ele criou chama-se Jerusalém Jones. Antes eu lia com mais frequência, mas agora, me falta tempo, nem sei se teve continuidade. Prossiga com suas criações, ver algo autoral, hoje em dia é difícil. Meus parabéns pela iniciativa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s