Aposta

Sua respiração pesada e contínua era tão forte que parecia que podia ser ouvida a quilômetros de distância. Seus olhos bem abertos e as pupilas dilatadas, tal como um bicho assustado fazia com que seu sangue circulasse tão depressa que era quase impossível pensar direito ao sentir seu corpo todo trabalhando ao mesmo tempo. Será que tinha ouvido um ruído, ou era apenas coisa de sua cabeça? Será que era hora de correr novamente ou não se tratava de outro truque para revelar a sua localização?

Tentou se acalmar, era preciso deixar os ouvidos aguçados e a respiração amena para que conseguisse ao menos tomar uma decisão certa. Parou para pensar em tudo, e em como havia parado naquela situação. Lembrou de sua família e dos momentos felizes. Pensou em seus amigos e no caos que aquela simples brincadeira havia se tornado. Por um momento lágrimas deram sinal de vida, mas logo outro estalo chamou sua atenção.

Segurou o ar o máximo que pode, para que ficasse totalmente inaudível. Longo segundos se passaram como horas e quando ouviu o barulho do motor se distanciando, respirou fundo num suspiro de alívio. Olhou para o céu que dava sinais de que iria anoitecer e depois de mais um tempo, saiu de seu lugar.

Se livrou das folhas e galhos que estavam ao seu redor e presos em seu cabelo e logo estava na rua, andando quase tranquilamente se não fosse as olhadelas para trás e para os lados a cada ruído que considerasse estranho.

Quando já começava a respirar aliviado e até mesmo a admirar a natureza ao seu redor, olhou para trás por distração e viu o objeto alvo se aproximando. Não havia escapatória a não ser correr o mais rápido que conseguisse. O veículo se aproximava cada vez mais rápido, e após uma tentativa de atropelamento frustrada, conseguiu se jogar novamente em meio as folhagens e a correr feito louco sem noção alguma de direção.

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Quando seus pés já não suportavam mais e o ar parecia que ia explodir seus pulmões e seu coração, encostou em um tronco com as mãos apoiadas no joelho e ofegante, tentava focalizar o ambiente ao seu redor. Quando enfim voltou a enxergar as formas, notou que já era tarde.

Num único movimento, estava com o corpo pressionado contra o tronco, e com aquelas mãos em seu pescoço. Não era mãos grandes, tão pouco fortes para destruir qualquer coisa com apenas um movimento, mas eram precisas o suficiente para não te dar escapatória.

Pedidos desesperados de perdão e qualquer tentativa de persuasão, se misturavam com soluços e choros implorados de uma chance de sair vivo. Porém, os olhos assustados só conseguiam enxergar um olhar gélido, sem nenhuma alteração de expressão ou até mesmo compaixão, o que aumentava mais e mais o seu medo.

Depois de uma pressão mais forte e quase ficar sem ar, seu corpo foi empurrado contra o chão, coberto de lama e folhas secas que como uma pedra lançada, não conseguia se mover para fugir ou se defender. Sentiu o corpo subir sobre o seu e a lâmina perfurar seu pescoço e logo depois seu estômago.

Nada mais que um corpo sangrando compulsivamente e olhos assustados perdendo seu brilho. Nada mais que uma faca manchada ao lado de um corpo que pouco a pouco ia perdendo seu calor.

O céu já estava escuro e apenas as estrelas como testemunhas podiam depor contra sua versão. Ao entrar no carro, o olhar gélido foi de encontro ao espelho e depois de um tempo ainda parado por cautela, tomou o rumo contrário admirando a paisagem sinistra que se formou com o breu do anoitecer.

“Apostas são apostas”, dizia para si mesma, com um leve sorriso de canto de boca. “E eu nunca perco uma”, disse por fim antes de tomar o caminho para auto estrada e sumir em meio aos outros carros.

 

juhliana_lopes 29-03-2014

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