Céu Laranja

Era para ser um fim de tarde como todos os outros. Eu levantei cedo e fui para o trabalho como todos os dias. A mesma rotina estressante e chata que faz você se arrepender de ter saído da cama. Eu queria muito estar em outro lugar, mas as circunstâncias me levaram até ali. Não que eu não estivesse tentando sair. Todos os dias eu falava com pessoas diferentes e sempre que conseguia uma folga na semana, passava horas em filas em busca de algo melhor.

Aquele dia, era mais um dia como todos os outros. Novamente acordei sem expectativa e mais uma vez pensando em como o fim do dia ia ser tedioso. Afinal, depois de um dia inteiro desmotivado, nada me animava a sair a noite com os amigos. Não que eu fosse antissocial, mas o meu fracasso pessoal me diminuía perante eles, diante de suas carreiras brilhantes. Eles  nada diziam, é verdade, mas internamente eu me sentia assim.

O amor também não era o meu forte, pois as garotas me achavam muito deslumbrado. A verdade é que eu realmente via o mundo de forma diferente e tinha sonhos loucos. Meus projetos iam muito além das minhas condições e sempre ficavam para um futuro distante, quando eu tivesse meios para concretizá-los. Ainda sim, todas achavam que “isso não vai dar certo” ou ainda “isso não dá dinheiro”, como se todo projeto pessoal tivesse obrigatoriamente que render algum retorno. Então, sem amigos e sem namorada, ia ser mais um fim de tarde como todos os outros.

Não foi.

Ao sair do trabalho, uma chuva de verão apareceu de surpresa, me deixando encharcado e fazendo eu me arrepender de ter esquecido o guarda chuva mais uma vez. Quando eu estava correndo para um ponto de ônibus para me sentir menos molhado, a chuva parou, tão de repente como tinha começado. Um ônibus apareceu extremamente lotado que nem parou. Irritado, continuei meu caminho a pé, pois seja lá o que fosse, poderia piorar a qualquer momento.

A tarde começou a cair e um tom alaranjado tomou conta do céu, dando um lindo contraste na paisagem pesada da cidade. Ainda molhado e com os pés fazendo barulho a cada passo que eu dava, passei em frente a uma pracinha, repleta de crianças que não se importavam com os brinquedos molhados.

Lembrei de quando eu também criança, não me importava com as coisas e fazia o que tinha vontade, sem ao menos ouvir os gritos de minha mãe para que colocasse um casaco. Nesta fase a gente consegue ver as coisas com mais clareza e dar prioridade ao que realmente importa.

Fui em direção da praça, e assim como as crianças, não me importei com nada. Sentei na grama molhada sob uma árvore e encostei a cabeça no tronco. Não lembro se adormeci, mas fechei os olhos e senti a brisa fria que soprava levemente após a chuva, trazendo aquele cheiro de terra molhada.

De repente, um silêncio perturbador  tomou conta dos meus ouvidos. Será possível que já havia anoitecido e eu não havia notado? Não, ao abrir os olhos, o mesmo tom alaranjado tomava conta do ambiente e a brisa leve continuava soprando. As criança ainda brincavam agitadas e os carros ainda passavam apressados na rua logo abaixo, porém, nenhum som era audível. Notei aquela figura olhando para mim fixamente e me reclinei para mais perto afim de ouvi-la. Ela não dava entender que ia falar alguma coisa, mas apesar de estranha, senti a necessidade de me aproximar. Estava coberta com um véu preto e pontas de seda que dançavam ao sabor da brisa. Não parecia ter corpo completo, ou estava flutuando completamente, uma vez que não reparei pernas tocando o chão.

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Olhava para mim atentamente com olhos brancos, sem ao menos piscar e parecia não ter respiração. Seu rosto envolto pelo capuz não permitia ver detalhes, mas sabia que tinha uma pele tão alva quanto os olhos porém, sem boca ou nariz visíveis. Com um movimento leve, me olhou da cabeça aos pés e me perguntou num tom de voz suave que não era apenas uma, mas um conjunto de vozes mais doces que eu já tinha ouvido:

– Você está cansado?

– Um pouco, e você?

A criatura pareceu surpresa com a réplica, como se não esperasse aquela reação.

– Eu… Bem, acho que um pouco também… Não está com medo?

– Na verdade não. Você está?

– Não, há muito tempo eu não sei mais o que é isso.

O silêncio voltou. Olhei mais uma vez as crianças, que continuavam brincando sem se preocupar e ao que parecia, ninguém mais conseguia enxergar a criatura que estava a minha frente.

– Sabe… – ela começou – eu posso te ajudar se você quiser…

– Como?

– Bem, você está cansado. Eu cuido das pessoas cansadas. Eu faço com que elas nunca mais se sintam cansadas e possam desfrutar daquilo que desejaram a vida inteira… Não exatamente como elas planejaram, mas ainda sim, elas ficam livres…

– E como seria isso?

– Você não sabe quem eu sou? – seu tom de voz pareceu por um momento confuso, mas depois voltou ao tom monótono do início. – Ou sabe exatamente quem eu sou?

– Eu não sei. Ou sei. Não sei, acho que estou confuso. Se você for quem eu acho que é, eu deveria estar com medo ou me batendo por estar vendo coisas. Mas eu não sinto medo. Alias, não sinto nada. Eu estou ficando maluco ou assim é a sensação de morrer?

– Nem uma coisa, nem outra. Só não é a sua a hora. Ainda sim, quando chegar, você não vai dar trabalho.

– Se não é a minha hora, porque você está aqui?

– Por que você está cansado. Eu mesma venho pessoalmente atrás de algumas pessoas cansadas para lhes oferecer uma oportunidade. A maioria aceita ou fica tão amedrontada que não quer mais ouvir falar disso nos próximos 50 anos. Mas você, apesar de cansado, parece não querer sair disso tão cedo.

– Eu estou cansado, mas eu ainda tenho sonhos. Acha que eu posso realizá-los?

– Talvez, basta você querer.

Passamos mais um momento nos olhando, como se a eternidade passasse por nós em passos lentos, quase parando. A brisa ainda soprava e suas vestes negras dançavam suavemente. Uma bola verde limão caiu perto de mim, e notei uma criança correndo em minha direção sorrindo. Antes que eu pudesse pegar a bola, ela agarrou com as duas mãos pequeninas e voltou para perto das outras crianças, sem ao menos notar a minha presença ou a da criatura.

Ao olhar mais ao longe, vi uma criança meio solitária, que riscava o chão com um graveto. As outras crianças não notavam a sua presença assim como a criança da bola não notou a minha e por mais estranho que parecesse, a criança solitária parecia de outra época.

Olhei para criatura e seus olhos brancos, ainda fixos em mim começaram a me perturbar por parecer que enxergava meu íntimo, o que me deixou pouco a vontade.

– Você tem sonhos?

– Tive, já realizei.

– E qual era?

– Ser quem eu sou. – disse a criatura, deixando seu rosto transparecer levemente com o da criança solitária e depois retornando ao original.

Confesso que fiquei surpreso, e desviei o olhar, porém, quando voltei para encarar a criatura, não havia mais nada além de um céu laranja. O barulho voltou como uma explosão em meus ouvidos, e agora as crianças começavam a se dispersar  indo de encontro a suas mães. Aos poucos, tons escuros se mesclavam com os tons alaranjados e as primeiras estralas começavam a aparecer. Não vi mais a criança solitária, e fui para casa a pé, diferente dos outros dias.

 

juhliana_lopes 28-03-2014

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