Sem cura

1920616_666346226756281_60204240_n

O suor frio desce pela espinha me causando arrepios que gelam a alma. Já me pediram mas não consigo parar. É tocante, viciante, sufocante, prazeroso. Eu necessito, preciso, imploro por um minuto apenas. Não preciso de esforço, além do trabalho da mente, e até de cabeça pra baixo consigo o que quero. A maioria das pessoas acham lindo, as próximas não entendem e as mais ligadas chamam de doença.

A todo instante, não há como resistir. O barulho das teclas me chama, os movimentos leves e sutis da caneta me seduzem, transformando leves rabiscos em uma realidade paralela , em um mundo só meu, onde só eu e mais alguns tem acesso, apenas os escolhidos.

Com movimentos delicados, descrevo uma história de amor, recheada de paixão e calor, com toques ardentes que incendeiam os corpos transformando-os em um só, onde o ponto final apenas marca a pausa daquela vida ali descrita.

Com movimentos mais rudes, rápidos e sem capricho, transformo as linhas em becos sem saída, prontas para servir de cenário para algum crime cruel ou até mesmo um momento de glória, acompanhados de ruas mal iluminadas e o ar gelado que corta a pele como navalha enquanto o orvalho da madrugada umedece as madeixas de algum azarado.

Movimentos simples podem falar de alguém ou de algo mais simples que os próprios rascunhos, fazendo apenas uma passagem ou quem sabe um soneto, não ser esquecido. Acompanhado de riscos e corte de palavras, linhas apertadas sobre as outras, faço do simples algo maior, como uma árvore que mesmo de um galho formado, pode sair um novo broto.

Não como e não bebo, não durmo pra não ter que acordar. Olhos grande como os de uma coruja em meio a escuridão, guiados apenas pela claridade de uma luminária qualquer, forçando a visão para das trevas retirar a inspiração, transformando-as em luz.

Meus braços e dedos tremem, não conheço mais a paz. Seja no trem, ônibus ou numa praça, com o sem espaço para meu corpo repousar, a caneta dança em meio a meus dedos, trazendo assim aquela sensação que aos poucos cresce dentro de mim, explodindo num êxtase completo no fim de mais um “enfim”.

Um vicio que me engrandece ao fim de um ato heroico, quase como se eu ouvisse os aplausos em um “final feliz”. Me machuco quando o mocinho se fere e mais ainda quando o vilão tem que morrer… Um alívio me percorre o peito quando a calmaria chega após a tempestade e o sarcasmo me alimenta após um “final inesperado”, com aquele que todos menos desejam se dando bem.

Um vicio que me corrói o estômago, com a vida de tantos em minha mão e o poder de fazer nascer tantos outros e quem sabe até renascer os que já foram enterrados. Tal como um verme que come a carne, me sinto devorado pelos meus próprios monstros que me sufoco com todos querendo sair do meu ser ao mesmo tempo.

Minha mente gira sem parar, e eu já não penso por mim ou sou responsável pelos meus atos, apenas sei que da mesma forma que assumo outras personalidades, mudando constantemente de nomes e esquecendo de mim mesmo, posso ser bom ou ruim, e ainda sim, não saber quem eu sou.

Pois se nem as estrelas no céu e a lua que ilumina as noites mais densas podem ser o que são o tempo todo, porque eu, um mero mortal em busca de minha psiquê perdida em tantas outras, haveria de desejar ser um só quando se pode viver uma eterna transformação?

Estou mesmo viciado e não procuro a cura. Estou mesmo doente e não faço questão de melhorar. Me afundo mais e mais neste poço em busca de mais uma palavra e uma vírgula, me alimentando de letras que mal tenho tempo de mastigar e já cuspo versos que outrora me engasgavam e agora pode engasgar a outros e libertá-los também de seus corpos, assim como já abandono o meu, todas vez que a “pena” está em minhas mãos.

Em minhas veias, não é mais apenas sangue. Na caneta, não será mais apenas tinta. Uma única mistura com gosto de “era uma vez”, que me faz lembrar que “nunca mais” irei me curar.

 

juhliana_lopes 01-03-2014

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s