Figurante

A noite quente e abafada lhe ardia os olhos. Lágrimas involuntárias escorriam pelo rosto e o mormaço lhe trazia uma sensação ruim ao peito. Não conseguia respirar direito, não conseguia se sentir a vontade, mas também não tinha outro lugar para ir. Enxugou o rosto e levantou-se lentamente, esticando as pernas para o sangue circular. Uma caminhada não lhe faria mal, na verdade não faria diferença nenhuma, uma vez que o calor estava em todo canto. Era tarde e o único som que se ouvia eram os grilos com suas sinfonias sem fim. O céu estava limpo e estrelado e a lua quase oculta no fim de sua minguante. Não havia brisa, apenas um leve ar quente que vez ou outra fazia as folhas dançarem.

Não tinha lugar para ir, assim como não sabia se deveria voltar. A solidão não lhe incomodava a ponto de buscar companhia, mas também não lhe deixava completamente satisfeito. Por mais que não fizesse questão, estranhou a ausência de qualquer alma vagante aquela hora na rua. Seus passos vazios não emitiam som, logo era possível ouvir tudo ao seu redor, mas mesmo com os ouvidos atentos, o que se ouvia era o som do nada. Apenas o silêncio.

mais um beco sem saida

Depois de uma caminhada sem contar a distância, minutos que podem ter sido horas ou só alguns segundos, finalmente encontrou sinais de vida. Um bar de beira de estrada, com mosquitos dançando em volta das luzes incandescentes e uma música qualquer ao fundo. Sentando num canto o dono do estabelecimento, com sua camisa suada e dedos ligeiros batendo sobre a mesa, como se estivesse numa briga eterna contra do tempo e sua impaciência. Apesar disso, sua respiração era controlada, como se ao mesmo tempo que desejasse uma corrida, quisesse ver apenas a vida passar sobre seus dedos.

Numa mesa, alguns senhores da noite, bêbados, em sua eterna filosofia  espiritual. Conversas fiadas que só mudam os temas, mas que sempre são lembradas por uma ou outra lição que acaba fazendo sentido depois. Bêbados sem nomes e sem rostos, apenas seres que ali estão descansando seus corpos sobre as mesas e os abastecendo com o álcool para que continuem falando e falando sem parar.

Não perdeu tempo com conversar e foi logo ao balcão. Não precisava de muito, apenas uma dose para acordar e talvez se livrar do calor e um cigarro para aquecer os pensamentos, deixando tudo na mesma temperatura. A bebida, não era gelada, e como brasa desceu pela garganta, trazendo aquele arrepio frio pela espinha e a sensação de estar sendo queimado de dentro para fora. Saiu de lá com os mesmo passos ligeiros com os quais entrou e voltou a sua caminhada, tentando encontrar o ponto inicial.

Apesar de não ter prestado atenção no caminho, sabia que estava passando por um lugar diferente, e mesmo que isso não fizesse diferença, pensou em talvez retornar pelo caminho inicial, mas a noite ainda duraria eras, e o cigarro já estava quase no fim. Mais alguns passos adiante e não se ouvia mais os grilos, as estrelas continuavam a lhe espiar e a lua, quase como um sorriso, parecia anunciar uma novidade.

Seu momento de apreciação foi interrompido por gritos de desespero, vindo de algum lugar que de início ele não saberia dizer qual era. Olhou ao redor e viu quando dois homens empurraram uma mulher para um beco. Ela caiu no chão com o empurrão e agora um deles estava arrastando-a para o canto mais escuro. No seu silêncio, ficou ali parado observando. Sem corpo não exercia nenhuma reação, então permaneceu ali inerte como qualquer poste ou cerca que estava ao redor.

Os gritos continuaram, porém de desespero passaram para gritos de ordem, ou até mesmo conquista. Palavrões da boca dos homens também foram ouvidos, e depois de um sussurros repentinos, gritos de terror ecoaram pelas ruas vazias, terminando num silêncio perturbador.

Uma gota de suor frio desceu pelo rosto até o pescoço, lhe dando um arrepio diferente daquele da bebida que havia tomado. Não havia percebido, mas aquela uma brisa leve soprava, trazendo um frio agradável que se mesclava ao calor trazendo um toque suave a pele. olhou ao redor, a mesma solidão e agora seu coração estava agitado, mais de curiosidade que de medo. Queria ver, queria saber, mas não sabia se era adequado. Na verdade, tinha em mente que não era nem um pouco apropriado ele ainda estar ali depois de tudo, mas não conseguia conter sua ansiedade.

Sua perna se moveu, quando percebeu, já estava próximo do beco e quando deu mais um passo para espiar, a moça estava a sua frente, como um espectro. Olhou atrás dela, os dois homens no chão, esfaqueados, com cortes profundos no abdômen e alguns cortes rasos no rosto. Um deles tinha um corte profundo no pescoço que ainda sangrava e outro estava com a faca cravada mais ou menos no mesmo ponto onde o outro tinha o corte. Neste, além dos cortes no rosto, também tinha cortes nas mãos e braços.

Ela, estava com os cabelos bagunçados, e as mãos meladas de sangue que já estava começando a coagular. Com a bolsa em uma das mãos, tinha uma expressão vazia e lhe encarava no fundo dos olhos. Ele, permaneceu ali, parado, também como um fantasma, com um olhar que não expressava mais do que uma pura curiosidade como uma criança quando está aprendendo e presta atenção a tudo para não perder nenhum detalhe.

Ela, saiu, caminhando para o lado oposto. Ele, continuou seu trajeto, ainda sem proferir nenhuma palavra. A noite ficava mais escura e as estrelas mais nítidas. O ar começava a ficar mais agradável porém o calor ainda era intenso. Reclinou-se sobre sua cama, olhando para o teto do seu quarto, com a janela aberta por onde uma corrente de ar circulava.

Permaneceu ali, com os olhos abertos, sem conseguir dormir como todos os dias. Ao amanhecer, sua vida de mentira continuaria com rotinas e horários, voltando tudo ao normal durante a noite, quando ele poderia novamente ser o que sempre foi, o que estava destinado a ser, um figurante, aquele que está ali, mas que ninguém faz questão de lembrar ou reparar, aquele que é simplesmente ninguém.

 

/juhliana_lopes 10-02-2014

Anúncios