Gratia Artis – Sergio Martorelli

Pelos entalhes perfeitos, eu já sabia que era obra dela.

Os policiais não achavam que fosse uma mulher, pela quantidade de fraturas no corpo. Mas eu sabia que era uma mulher. E conhecia o rosto dela.

Dizem que um assassino sempre volta ao lugar do crime. Isso é bobagem. Mas ela, para minha sorte, voltou. Toda as vezes. Miúda, morena, magra e sardenta, de roupas pretas e óculos escuros, ela sempre ressurgia nas fotos dos transeuntes que registravam as cenas do crime com seus smartphones.

Me admira que nenhum dos nossos bem pagos detetives tenha notado isso.

Mas sua obra… era linda. O corpo tinha sido totalmente esfolado da cabeça aos pés, e ainda estava vivo quando a pele foi colada de volta nos músculos em espirais, figuras geométricas e cones. O que em vida foi um homem corpulento e brutal tinha se transformado na mais bela escultura de carne já feita, com uma riqueza de detalhes que faria inveja aos Renascentistas .

É com pesar que preparo o corpo para ser cremado. É um ato de vandalismo, mas tem que ser feito.

Que artista!

E eu sei onde ela mora!

Um dia, se eu tiver sorte, irei vê-la em ação. Mas por ora, devo praticar.

Mais um corpo indigente para ser cremado, o de uma velha mendiga. Gorda, peituda. Bom. Mais carne para praticar. Escolho as ferramentas e começo a descarnar os seios como se fossem cascas de laranja. Estou ficando bom nisso. Muito bom.

 …

 Ela tem outro. Não acredito. E é um idiota que, com certeza, não vai saber aproveitar a arte de minha amada.

Do meu prédio eu a observo espreitando seu vítima. Há dois dias ela acompanha seus hábitos, esperando o momento certo. E me pergunto como, sendo tão pequena, minha artista consegue dominar pessoas tão maiores.

Sedução? Ela não faz o tipo. Parece uma freira. Artes marciais? Estou curioso demais.

Mas, primeiro, preciso me livrar desse estorvo. Desperdiçar sua arte com… ele? Eu não permitirei.

 É a minha primeira vítima, viva. E cada vez mais admiro a arte dela. O imbecil não sobrevive quando retiro a pele de seu peito, desajeitadamente. O corpo… ficou inutilizável. Mas ainda resta a cabeça. Tenho ideias conceituais para ela. Será que ela, como eu, faz esboços antes de cortar? Ou improvisa na hora?

Ligo a serra e penso como ela faz para partir o osso da coluna. Minha pequena artista. Minha musa.

Ela não parece muito surpresa quando me vê parar o carro exatamente ao lado dela. Timidamente, informo que sua vítima não vai aparecer hoje. E mostro, dentro da caixa de papelão no banco do carona, o motivo.

Ela observa minha obra. Seu rosto é indecifrável. Passa os dedos pelos cortes. Examina as tiras de pele cozida coladas nos músculos. Tenho orgulho do que consegui fazer com os olhos. Congelados, depois fatiados e remontados. Será que ela gostou?

Ela é rápida. Muito rápida. Nem vi a arma de choque que ela colocou no meu pescoço, só senti a pancada elétrica e o cheiro de queimado quando perdi a consciência. Era ASSIM que ela dominava suas vítimas. Ah.

Ela é linda e está nua, colocando longas tiras da minha pele no panelão, para prepará-las.

“Amador”, ela diz, apenas. Não  posso retrucar porque eu já estava sem a língua quando acordei. É assim que ela consegue trabalhar, com suas vítimas desacordadas. Ah.

Felizmente, pelo meu olhar, me faço entender que não quero ser morto tão cedo. Quero ver o processo inteiro. Quero ver como serei  transformado em mais uma obra de arte. Estou tão excitado que nem sinto a dor.

Sei que ficarei lindo. E sei que os malditos “críticos de arte” do distrito vão incinerar meu corpo no fim das contas. Mas vai valer a pena. Ah, como vai.

 

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Sergio Martorelli

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