Sem efeito

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Era o terceiro caso só aquela semana. Era simplesmente estranho. Foi só voltar das férias que seu consultório estava um caos. Pra tornar tudo mais bizarro, aparentemente todos os seus pacientes estavam passando pela mesma virose.

Os sintomas eram sempre parecidos, dor no estômago, diarreia, vômitos… Por mais remédios que receitasse, só havia uma pequena calmaria, porém depois os sintomas voltavam com força.

E pensar que há alguns dias ele estava numa praia com a família curtindo tranquilamente. Passou anos extremamente ocupado com seus afazeres, contado com a ajuda apenas do seu melhor amigo para atender os pacientes e finalmente conseguiu um descanso. Foi notável seu amigo se oferecer para ficar cuidando de seus pacientes para que ele pudesse descansar. Agora seu amigo merecia a folga e ele iria trabalhar dia e noite para descobrir o que estava causando aquela contaminação geral.

Por mais que perguntasse, todos negavam ter comido algo diferente ou estragado. Um ou outro assumia que tinha comido algo na rua, porém, não parecia ser apenas uma intoxicação alimentar. Ainda que fosse, como aquilo afetaria todos de uma vez?

Resolveu então procurar alguns pontos em comum, lugares onde as pessoas mais frequentavam que pudesse ser igual ao de outras pessoas assim e talvez com isso definir um mapa de lugares “estragados”.

Estava exausto, não conseguiu parar um só minuto em seu primeiro dia depois da folga. Lembrou de quando estava se formando com seu melhor amigo. Das promessas, expectativas. Claro que no começo não foi aquilo tudo que ele esperava, mas ainda sim, conseguiu ser melhor do que ele poderia ter imaginado. Mesmo quando tudo parecia que ia dar errado, ele e seu amigo conseguiam dar um jeito.

Sentou sem postura e colocou as mãos sobre a cabeça respirando fundo olhando para o alto. As férias tinham sido perfeitas. Desde que comprou o espaço e montou o consultório, não havia tido mais tempo pros filhos e nem pra mulher. As férias, vieram em boa hora e serviram para compensar de certa forma todo o tempo perdido. Conseguiu conhecer seus filhos novamente, saber do que eles gostavam e apoiá-los.

Conseguiu reconquistar a sua mulher também, o amor dos dois que antes estava frio, agora voltou a queimar em paixão como sempre foi. Tudo estava perfeito. Ou deveria estar. O cansaço estava vencendo e então resolveu tomar alguns dos seus comprimidos pessoais para relaxar e foi para casa.

Mais uma árdua semana trabalhando para tentar descobrir o que estava acontecendo com seus pacientes, porém, agora ele também começava a ficar doente. Contagioso? Como se não conseguia descobrir nem a causa. Se medicava e medicava os outros. Assim como todos, tinha dias que parecia que ia melhorar, enquanto outros estava ruim de novo.

Quando o mês acabou, mesmo tão doente como seus pacientes, continuava atendendo e ficou feliz por saber que seu amigo voltaria das férias dele e poderia lhe ajudar.

Mais um dia se passou, e agora trabalhando juntos, eles tentavam descobrir a cura, porém ao fim de mais um dia, quando o nobre doutor sentou para descansar e tomou um de seus remédios, percebeu o olhar sério de seu amigo.

– O que foi?

– Desde quando você tá tomando isso?

– Desde que voltei, eu sempre tomei eles pra relaxar, são fracos lembra?

– Sei…

– Para, não vai querer dizer agora que eu to viciado…

– Não é isso, é que eu não queria atingir você…

– Como assim me atingir?

Foi realmente um susto. A frieza com que ele falava, parecia que tudo era tão simples e fácil, e ao perceber e analisar, foi realmente e agora ele também estava combinado.

Enquanto estava fora, seu amigo se encheu dos pacientes sempre bondosos e adoráveis, e então, alterou todas as composições de seus remédios, fazendo placebos com doses pequenas, abaixo da dose letal de ricina, e misturando os comprimidos modificados aos comprimidos normais de seus pacientes. Passou dias apenas alterando todos os remédios e os distribuindo. Porém esqueceu que um deles era o que seu amigo tomava.

Agora ele estava condenado assim como todos os outros paciente e seu amigo, não parecia nem um pouco preocupado.

– Seu monstro, como você pôde!

– Pelo menos você aprendeu a tomar remédios direito. E eles também.

Antes que ele pudesse sair pela porta para denunciá-lo, sentiu seu estômago sendo perfurado e depois vários outros golpes de faca até ficar desacordado.

Hoje, os pacientes continuam doentes. Outros morreram e a mulher ainda procura seu marido desaparecido, seu amado doutor, enquanto outros pacientes continuam recebendo os remédios sem efeito.

 

juhliana_lopes 22-01-2014

Gratia Artis – Sergio Martorelli

Pelos entalhes perfeitos, eu já sabia que era obra dela.

Os policiais não achavam que fosse uma mulher, pela quantidade de fraturas no corpo. Mas eu sabia que era uma mulher. E conhecia o rosto dela.

Dizem que um assassino sempre volta ao lugar do crime. Isso é bobagem. Mas ela, para minha sorte, voltou. Toda as vezes. Miúda, morena, magra e sardenta, de roupas pretas e óculos escuros, ela sempre ressurgia nas fotos dos transeuntes que registravam as cenas do crime com seus smartphones.

Me admira que nenhum dos nossos bem pagos detetives tenha notado isso.

Mas sua obra… era linda. O corpo tinha sido totalmente esfolado da cabeça aos pés, e ainda estava vivo quando a pele foi colada de volta nos músculos em espirais, figuras geométricas e cones. O que em vida foi um homem corpulento e brutal tinha se transformado na mais bela escultura de carne já feita, com uma riqueza de detalhes que faria inveja aos Renascentistas .

É com pesar que preparo o corpo para ser cremado. É um ato de vandalismo, mas tem que ser feito.

Que artista!

E eu sei onde ela mora!

Um dia, se eu tiver sorte, irei vê-la em ação. Mas por ora, devo praticar.

Mais um corpo indigente para ser cremado, o de uma velha mendiga. Gorda, peituda. Bom. Mais carne para praticar. Escolho as ferramentas e começo a descarnar os seios como se fossem cascas de laranja. Estou ficando bom nisso. Muito bom.

 …

 Ela tem outro. Não acredito. E é um idiota que, com certeza, não vai saber aproveitar a arte de minha amada.

Do meu prédio eu a observo espreitando seu vítima. Há dois dias ela acompanha seus hábitos, esperando o momento certo. E me pergunto como, sendo tão pequena, minha artista consegue dominar pessoas tão maiores.

Sedução? Ela não faz o tipo. Parece uma freira. Artes marciais? Estou curioso demais.

Mas, primeiro, preciso me livrar desse estorvo. Desperdiçar sua arte com… ele? Eu não permitirei.

 É a minha primeira vítima, viva. E cada vez mais admiro a arte dela. O imbecil não sobrevive quando retiro a pele de seu peito, desajeitadamente. O corpo… ficou inutilizável. Mas ainda resta a cabeça. Tenho ideias conceituais para ela. Será que ela, como eu, faz esboços antes de cortar? Ou improvisa na hora?

Ligo a serra e penso como ela faz para partir o osso da coluna. Minha pequena artista. Minha musa.

Ela não parece muito surpresa quando me vê parar o carro exatamente ao lado dela. Timidamente, informo que sua vítima não vai aparecer hoje. E mostro, dentro da caixa de papelão no banco do carona, o motivo.

Ela observa minha obra. Seu rosto é indecifrável. Passa os dedos pelos cortes. Examina as tiras de pele cozida coladas nos músculos. Tenho orgulho do que consegui fazer com os olhos. Congelados, depois fatiados e remontados. Será que ela gostou?

Ela é rápida. Muito rápida. Nem vi a arma de choque que ela colocou no meu pescoço, só senti a pancada elétrica e o cheiro de queimado quando perdi a consciência. Era ASSIM que ela dominava suas vítimas. Ah.

Ela é linda e está nua, colocando longas tiras da minha pele no panelão, para prepará-las.

“Amador”, ela diz, apenas. Não  posso retrucar porque eu já estava sem a língua quando acordei. É assim que ela consegue trabalhar, com suas vítimas desacordadas. Ah.

Felizmente, pelo meu olhar, me faço entender que não quero ser morto tão cedo. Quero ver o processo inteiro. Quero ver como serei  transformado em mais uma obra de arte. Estou tão excitado que nem sinto a dor.

Sei que ficarei lindo. E sei que os malditos “críticos de arte” do distrito vão incinerar meu corpo no fim das contas. Mas vai valer a pena. Ah, como vai.

 

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Sergio Martorelli

Especial

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Tudo o que a gente faz e gosta, requer uma forma especial, uma dedicação diferente. É curioso como quando gostamos de algo, procuramos sempre nos superar em fazer melhor e quando gostamos de alguém buscamos ser o melhor. Não há distinção sobre o fato em relação as situações, o que muda são as maneiras como isso ocorre. Eu sou muito dedicado a minha amante. Adoro ver o seu sorriso antes do êxtase. Quando gostamos de algo ou de alguém, tudo fica perfeito, e não importam o que digam a você, os outros estão errados.

Claro que muitos não entendem a minha devoção por ela, e por vezes fui chamado de louco ou monstro. Confesso que por vezes me senti mal, pois sempre aparecia um leve sentimento de arrependimento, mas a verdade é que agora, ninguém precisa entender realmente, desde que minha pequena esteja feliz. Sim, minha pequena, minha criança. Uma criaturinha tão perfeita que nem mesmo um quadro seria tão lindo. Os leves arrepios de seu corpo frágil me deixam em paz quando o envolvo em meus braços. Sua boca fria me despertam desejos insanos e eu sempre quero mais.

É verdade que, quando comecei a mostrar a minha devoção pela minha amada houve muita desaprovação. Eu tive medo, e as poucas pessoas em quem confiei também ficaram com medo. Tanto que por muitas vezes fui denunciado… Só quando eu fiz minha primeira “loucura de amor” por ela, eu me senti quase pleno e vi que os outros eram loucos. Fui detido várias vezes, e  eu não me importava em ficar recluso por um tempo para pagar por essas loucuras, porém, com o tempo, a saudade aumentou e mesmo aprontando para poder vê-la as vezes, eu precisava sair para ficar livre com ela, por isso, comecei a tomar mais cuidado pois, ficar longe do meu anjinho era muito torturante.

Lembro que quando matei a primeira pessoa, eu estava apavorado mas eu tinha que arriscar. Era um caminho sem volta e isso foi me tomando todo o ar. Fiquei extremamente confuso, pensei por dias se eu estava no caminho certo, já que não havia conseguido ver nada, nem sentir nada além do pânico. Porém, todas as minhas dúvidas se foram quando vi seu sorriso tímido pela primeira vez. Ela apareceu pra mim e só de olhar aquele jeito meigo, tive certeza de que era ela. Na segunda vez, lembro que tudo saiu tão perfeito, que minha amada nem esperou para me encontrar depois, fiquei radiante de alegria ao sentir seu corpo, quando abracei o corpo que jazia ao meu lado. É assim nosso contato, através das vítimas, só assim pode me tocar sem me condenar.

Não lembro mais quantas mortes foram necessárias para que enfim eu pudesse sentir o gosto de sua boca. Foram muitas outros falecimentos também para que nós pudéssemos nos unir, mas desde a primeira vez, busco este amor. Um amor tão intenso que me consome e me faz buscar sempre, mesmo que para isso, eu acabe com o amor (e a vida) de outras pessoas…

Vivo escondido para proteger o externo, me disfarço na sociedade para não ser visto, pois meu interior só está em paz quando estou com ela… Namorando a Morte, me sinto completo e enquanto esse amor durar, vou continuar buscando com ganância, sede e fome, pois só vou sossegar quando ela me buscar.

juhliana_lopes 04-01-2014