Passiva

tumblr_l7rc5fR4NY1qzdiqvo1_400

Meus olhos ardem, e o ar da manhã faz minha respiração pesar. Minha única emoção diária é a pequena corrida que faço para pegar os ônibus que já estão indo adiantados. Todos os dias ouço músicas, sons, ruídos, todo tipo de perturbação sonora que me irrita os ouvidos, mesmo assim, eu ouço. Todos os dias.

Uso perfumes. Dos mais variados aromas desde cheiros agradáveis até os que causam ânsia. Cheiro das pessoas que esbarram em mim e que deitam em cima de mim nos coletivos. Cheiro da fumaça dos carros, da fumaça de cigarros, do óleo usado para fritar os salgados na esquina.

Também fumo. Vários cigarros por dia. Das mais variadas marcas, com diversos aromas e sabores. Cigarros que passam por mim deixando apenas seus rastro, que fumo sem querer e as vezes sem hesitar. A fumaça penetra minhas narinas, causando uma irritação forte, seguida de alergia, mas assim como todos os dias, faço o que os outros fazem.

As vezes defino um trajeto mas sempre faço trajetos alheios, sendo guiada por pessoas que bloqueiam qualquer rota alternativa. Tenho conversar agradáveis com estranhos, mesmo quando não quero pois sempre alguém aparece me interrompendo.

Bebo o que os outros bebem, vou pra onde os outros querem e volto desejando uma coisa e fazendo outra. Sonho o sonho dos outros, realizo projetos alheios. Vivo uma vida que não é minha e até quando sou apenas eu, há outra pessoa em mim.

Até mesmo as vozes não são minhas. Nem quando falo, nem as que ouço. O que digo não é para mim, nem sobre mim, nem sobre alguém ou para alguém. As ordens que ouço em minha mente diariamente, não são para mim, mas sigo cegamente, abertamente, impacientemente, inconscientemente.

Minha rotina passiva me domina e me aprisiona, porém não sou eu, pois já deixei de ser a muito tempo, e por isso ela seguirá até o fim dos meus dias pois até na hora do meu descanso, não será o meu e sim o de alguém.

juhliana_lopes 16-12-2013

Legião

A legião voltou ao seus anos dourados. Era incrível a quantidade de trabalhos encomendados. Os filhos realmente estavam honrando os nomes dos pais. Era muito difícil exercer qualquer atitude ilegal, pois eles estavam por todo canto, seja misturado entre os monstros como entre os humanos.

Numa cidade afastada, a coisa cresceu de forma tão medonha que eles tomaram o lugar. Agora eles não trabalhavam mais para ninguém e sim governavam aquela área, e a regra principal era que não devia haver conflitos. Se alguém fosse pego roubando, era morto. Se alguém fosse pego fofocando a ponto de criar intrigas, era morto. Se alguém fosse pego fazendo qualquer coisa de errado, era morto.

Começou uma caça infernal, mas a cidade viveu bem por um ano, como uma cidade perfeita. Porém, houve um “golpe de estado” por parte de um dos membros da legião, e assim a cidade perfeita agora vivia quase num sistema feudal. Toda a população deveria pagar impostos que antes não era cobrados. Tudo que fizessem devia ser entregado ao chefe e tudo que quisessem fazer devia antes ter uma permissão. Qualquer um que não cumprisse e questionasse as ordens, seria morto.

Controlado literalmente pelas trevas, o povo vivia com medo, dentro de suas casas, se escondendo em becos, temendo as asas negras que anunciavam a morte. Ninguém podia entrar na cidade e muito menos sair dela. O novo chefe faria de tudo para extrair até o último suor daquele lugar para depois, tentar uma conquista maior.

Outros membros foram notificados sobre a situação mas a maioria não quis se meter. A legião não briga entre si e muito menos dá lição de moral. Se protegem dos perigos externos, onde se um se machuca, todos buscam seu agressor, porém, ninguém protegia ninguém de si mesmo.

Alguém se preocupou, e para a surpresa de muitos, mesmo com a rejeição, foi para ajudar as pessoas da mesma forma. Logo outros se juntaram e seguiram rumo a cidade.

A legião era paga e conhecida como o maior grupo de assassinos de aluguéis, e apenas os que tinham suas cabeças marcadas deveriam morrer. Foi com esse pensamento que o grupo seguiu, ainda mais sabendo que a primeira ideia que era ajudar as pessoas a apenas viver de forma mais civilizada, havia sido deturpada para algo controlador e sem sentido.

– Você achou mesmo que eu não iria ficar sabendo que você estava escondendo esses quadros em sua casa?

– Desculpe senhor, minha filhinha gosta quando eu pinto, então estava fazendo só para ela ver, não ia vender, tentei jogar fora, mas ela começou a chorar, então eu ia guardá-los até ela se cansar e eu me desfazer deles…

– Não interessa, sua filha vai ter que arranjar outra distração, acredito que sua esposa dará conta disso…

– Senhor… – foi o que o homem conseguiu dizer antes de ser decapitado.

– Hoje senhores – dizia o um homem alto com enorme asas negras e uma túnica preta, se levantando de seu torno – começa um novo ciclo. Conquistamos esta cidade, e logo conquistaremos mais!

Ele tinha o cabelo baixo e costeletas marcadas nas laterais do rosto. Gesticulava muito com as mãos ao explicar os próximos passos.

– Em breve, conquistaremos uma cidade comum, e então, nada poderá nos deter.

– Mas senhor… – levantou a mão um tímido soldado com asas menores. – como faremos, os humanos… Eles não acreditam em nós, nem nos conhecem…

– Não se preocupe, eles conhecerão, e nunca esquecerão de quê somos capazes.

– Eu acho que não. – uma voz falou forte tomando conta de todo o salão. O lorde, ficou surpreso, e mais espantado ainda ao ver quem era a dona da voz.

1450795_621670891212657_1689702233_n

– A herdeira do Phillip, achei que tivesse coisas mais importantes para fazer… – disse o lorde sentando e juntando os dedos.

– Na verdade eu tenho. – disse a herdeira pousando lentamente com suas enorme asas. – Mas tenho um tempo pra perder com você primeiro.

– Meu pedido de casamento ainda está de pé, veio aceitar?

– Não. Tenho tempo pra perder, não uma vida. E eu só vim resolver um assunto. – disse ela se aproximando junto com seus companheiros.

– Olha querida… Ei me largue!

– Eu não vim para bater papo, vim para resolver um assunto, e você sabe como nós, da Legião dos Corvos resolvemos nossos problemas.

– Você não acha que seria capaz? – disse o lorde rindo.

– Não custa tentar.

Ao erguer a mão, o lorde se esquivou e logo tinha a bela dama em seus braços. Ela também foi rápida e assim deu-se início a uma batalha. Os outros Corvos pararam de lutar entre si para observar a luta dos dois. Os movimentos, as esquivas, socos, pontapés, enforcamentos… Tudo acontecia de forma bruta mas graciosa, porém antes que espetáculo pudesse ter um segundo ato, um ataque revelou a verdadeira força da herdeira.

Numa explosão de trevas e calor, os dois foram para em lugares distintos do salão principal, e todos os outros corvos, tentavam recuperar a pressão dos ouvidos e enxergar algo em meio a escuridão.

Juliana, a herdeira, antes de se levantar sentiu algo segurando suas asas e então olhou nos olhos de seu algoz:

– Seu pai podia ser poderoso, mas era um inútil. Você é igual a ele, no poder e na inutilidade. Agora vai sofrer, mas diferente do seu pai, vai ser bem lentamente… – disse puxando uma pena da asa presa.

– Você me subestima. Mas agora irá aprender a fazer o serviço direito. Nunca mate lentamente alguém que tem um potencial igual ou melhor que o seu…

Outra explosão se formou e o que se ouviu foram gritos de horror tão medonhos que era impossível não sentir uma agonia que corroia o estômago. A noite se encerrou com uma forte chuva, com direito a relâmpagos e trovões, porém, o dia da grande glória, não amanheceu.

 

juhliana_lopes 09-12-2013