Completo

andando_no_escuro,_mas_com_bengala_e_piso_tatil23010Vivia estressado e procurando uma forma de fugir daquilo. Conselhos não faltavam, mas nenhum servia de fato. Ele poderia viajar, mudar de ares, mas isso seria apenas temporário. Poderia fazer uma mudança definitiva, mas isso só seria trocar os velhos problemas por novos. Poderia se aposentar, mas uma vida parada também não lhe atraia. Ele precisava fazer algo. Precisava procurar outra forma de continuar tendo uma vida sem ter que conviver com o estresse do seu cotidiano.

Não havia jeito, por mais que pensasse não conseguia achar uma solução. Parou de sair, talvez se ficasse mais em casa conseguiria esfriar a cabeça. Não, conseguiu apenas trocar um vício pelo outro, parou de beber com os amigos para varar as madrugadas em jogos online que ele mesmo havia abandonado por um tempo.

Fez o contrário, saiu muito. Não importava pra onde fosse, ele ia com seus amigos, seus fins de semana começavam nas sextas a noite e terminavam nas segundas de madrugada. Não adiantou. Percebeu que mesmo entre amigos ou estranhos, ainda se sentia vazio. Conversas vazias, bebidas vazias, nada preenchia o seu ser.

Arrumou uma namorada, fez o mesmo processo. Por um tempo saiam muito, passeios em família, passeios com amigos, passeios sozinhos. Nada. Ficaram mais caseiros, noites e mais noites “românticas” que terminavam com os dois na cama. Ainda vazio. Quando ia dispensar a moça, ela o dispensou primeiro ao perceber a falta de interesse dele.

Cigarros, bebidas, livros, jogos, músicas, danças, desenhos, nada era capaz de deixá-lo em paz por muito tempo ou interessado. Se deixou levar e ficou mais agressivo, mais raivoso, qualquer coisa era motivo para brigar. Não adiantou. Ficou mais serenos, ajudava mais as pessoas, trazia desconhecidos da rua para dentro de casa, oferecia-lhes banho e comida. Ainda vazio.

Um dia, andando pelas ruas a noite, tentando se distrair, foi abordado por dois homens com facas. O primeiro lhe agrediu com um soco e fez um corte profundo em seu braço. Quando o segundo ia lhe esfaquear a barriga enquanto o primeiro lhe segurava, ele começou a rir freneticamente. Os dois homens olhavam-no incrédulos mas ele continuava a rir, ignorando totalmente a dor e o sangue que escorria sem cerimônias do braço esquerdo.

O segundo homem se afastou olhando o homem risonho e o primeiro, perdeu a paciência, o soltou e se preparou para mais um golpe, “drogado inútil” ele dizia até ser surpreendido por um contra-ataque da sua vítima. Ainda rindo, ele agarrou o braço dele jogando a faca longe e o pressionando de costas para ele contra a parede. Com a outra mão apertava seu pescoço e só o soltou quando o corpo amoleceu. O jogou no chão e ficaram os três ali, em silêncio por alguns segundos. Logo, mais risadas.

O segundo homem ainda assustado com a reação da vítima, não conseguiu correr a tempo e quando percebeu já estava contra a parece com a faca que segurava contra seu próprio pescoço. O homem olhava em seus olhos como se buscasse o seu íntimo e então, começou a rir na sua cara.

– O que diabos você tem que tanto ri?

– Desculpe… – mais risos – o que te completa?

– Como é que é?

– É sério. O que te completa?

– Que conversa estranha é essa?

– Vai me responder ou não? – disse pressionando mais a faca contra o pescoço do assaltante.

– Vai me matar que nem fez com meu amigo?

– Ele? – riu até ficar sem ar – Não, ele não está morto, só desmaiado. Você ainda não me respondeu… – pressionando mais a faca.

– Eu… acho que minha mãe… Não. Minha filha… Eu… acho que não sei…

– Viu? – rindo largando o homem – Ninguém sabe! Como alguém pode exigir esse tipo de resposta de mim?

– Você parece um maníaco rindo desse jeito… Para.

– E você parece um idiota. – disse tentando ficar sério – Sério. Essa foi a melhor sensação da minha vida…

– Do que você está falando?

– De quase morrer e ao mesmo tempo quase matar. É incrível!

– Você é doente…

– Será que eu sou? – disse fazendo um movimento rápido com a faca parando a poucos centímetros da costela do assaltante que ficou paralisado de medo. – É… Acho que sim. – disse soltando a faca e virando as costas.

– Pra onde você vai?

– Eu não sei o que vai ser capaz de tirar essa angústia de estar faltando algo de mim, você acha que eu sei pra onde eu vou? – disse ele olhando para o assaltante de longe com os braços erguidos com um sorriso maníaco. – Acho que vou pra casa. Se eu fosse você iria também. E seu amigo tá acordando, dá um pouco de água pra ele.

O assaltante ainda olhava sem entender e seu amigo, quando acordou achou que tinha sonhado. Os dois foram embora sem nenhuma carteira e ainda sem entender o que havia acontecido. O outro, a vítima, andava balançando os braços até que sentiu sua mão melada.

– Nossa, tá sangrando ainda, por isso que tá doendo. – parando um táxi. – Moço, você…

– Rapaz, você vai entrar ou vai ficar ai pensando na vida? Eu tenho o que fazer…

– Nada. Você não saberia me responder. Vamos ao hospital sim.

 

juhliana_lopes 10-11-2013

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