Depoimento

– Podemos começar novamente?

– Sim senhor.

– Só quero que entenda que este é um procedimento padrão…

– Sim senhor.

– Vamos começar, ok?

– Sim senhor.

– Então me diga, o que exatamente, aconteceu aquela noite.

– Não foi nada demais na verdade. Era uma festa, alguns estavam bêbados, mas eu e meus amigos só estávamos rindo e nos divertindo. Já devia ser mais de duas horas da madrugada e os bêbados começaram a encher o saco. Sabe como é, alguns choram, outros ligam pras exs, outros começam a tirar as roupas… Essas coisas. Não tínhamos muito o que fazer senão apreciar o show, então ele chegou. Eu pensei que ele nem viria mais, ainda mais pelo horário. Chegou cheio de marra e provocando todo mundo e então começou a pegar pesado comigo.

– E o que ele fez a você?

– Bem, primeiro começou as com as provocações verbais. Me chamando de idiota, medíocre e humilhando a minha amiga, chamando-a de vadia e perguntando quanto ela cobrava por noite. Depois jogou um copo de bebida em um amigo meu, mas não foi daquele jeito de derrabar o líquido sobre a pessoa, ele jogou o copo de longe e acertou o rosto dele. Claro que nem eu e nem outros caras presentes na festa gostaram a atitude e então um grupo se juntou para pedir educadamente que ele se retirasse da festa. Ele se virou e tudo indicava que a paz iria voltar, até que ele voltou correndo, pegou minha amiga pelos cabelos e começou a esfregar dinheiro no rosto dela falando que queria serviço completo aquela noite.

– Ele estava bêbado?

– Não sei. Não parecia. Acredito que não, quem o conhece a tanto tempo como eu, sabe que ele consegue ser ruim naturalmente.

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– Quando ele agarrou a sua amiga…

– Eu agi. Francamente senhor, já que estamos aqui e esta é a terceira vez que eu conto a mesma coisa, vou ser bem sincero. De uma forma ou de outra eu queria que acontecesse. Sério. Juro que desejei algo desagradável assim só para eu ter um motivo. Eu não queria machucar ninguém, é verdade, pelo menos não comigo tomando a iniciativa, mas no caso dele… Ele já havia feito muito, humilhado muitas pessoas, precisava de uma lição. Eu tinha dado o recado. Quando eu vi ele com a minha amiga, eu simplesmente empurrei os dois ao chão. Ela levantou logo e correu e ele ao se levantar veio em minha direção. Tentou me acertar um soco só que logo outros caras seguraram ele e levaram em direção a porta, eu peguei uma garrafa, quebrei no chão, e antes que outros pudessem me impedir, gravei a parte com o caco mais pontiagudo no braço. Não havia nenhum médico no local ou alguém que estudasse enfermagem então, tiraram a garrafa do braço dele de modo que aumentou mais a ferida. Agora era a mim que seguravam e ele chorava ao ver o sangue escorrendo.

– Você considera que agiu por instinto de defesa?

– Não. Seria se eu não tivesse pensado nisso antes, mas eu pensei. Como eu disse, desejei uma situação assim só para poder agir. Confiei na fraqueza dele em não cumprir o “não vou fazer de novo” e consegui. Ganhei. Não agi por instinto. Sabia exatamente o que eu estava fazendo, e mais uma vez sendo bem sincero, eu já tinha planejado pelo menos três formas diferentes de agredi-lo sem matá-lo. Sim, eu não queria matar, só machucar. Desculpe a minha frieza, mas se ele não tivesse agredido a minha amiga, eu seria capaz de entrar em alguma provocação dele só para empurrá-lo da escada. Esse era um dos planos. O outro era aproveitar quando ele tivesse brigando com alguém, dar uma chave de braço e quebrar uma garrafa na cabeça dele de modo que abri-se um corte considerável. Não foi instinto, eu queria e eu fiz. Mas ainda fiz por defesa, no caso da minha amiga.

– Você sabe que pode ser preso por tentativa de homicídio?

– Sei. Já sabia na verdade e mesmo sabendo eu continuei querendo. É difícil de explicar senhor, no fim pode ser que me considere um louco, mas no fim das contas sou apenas um psicopata mesmo, um psicopata são.

– Bem, você disse que não queria matá-lo, só machucá-lo, mesmo sabendo das consequências… Sabendo que você poderia enfrentar uma cadeia de qualquer forma, por que não matar?

– Respeito.

– Respeito?

– Sim. Respeito. Aos familiares dele, lógico. Conheço os pais dele e algumas tias. Na festa havia duas primas e um sobrinho. Apesar da família conhecer o gênio ruim dele, não ia querer vê-lo morto, e eu não ia querer comprar uma briga tão grande com a família dele, pois no fim, ele se tornaria uma vítima mártir. Eu só queria fazê-lo sentir um pouco da dor que ele faz as outras pessoas sentirem.

– E fez.

– Sim, porque eu quis.

– Bem garoto, me dê um minuto sim, vou analisar os papéis do escrivão e já volto para conversarmos. Pode tomar um café, se quiser ligar para seu advogado ou algum parente você tem alguns minutos.

– Obrigado. Ah… Oi, por favor o Henrique está? Obrigado… Ah, oi, então, eu fiz… Não, não morreu, eu disse que não ia matar. É… Sim… Olha, você pode vir até a delegacia, eu to com fome, acho que vai demorar, aproveita e chama o Joaquim, ele ainda é advogado não é? Sim. Já disse… Olha, vem logo, antes que eu mate o delegado se ele me pedir uma quarta versão…

– Licença?

– Ah, sim, oi delegado. Já terminei.

 

juhliana_lopes 04-11-2013

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