Folga

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Como sempre, meu trabalho não para, mas hoje me dei o luxo de parar num bar para beber. Luxo sim, pois alguém como eu nunca para, isso é que dá ser o secretário da Morte. Hoje ela ficou por conta de algumas tragédias envolvendo trens e ônibus, nada muito fora do normal. Eu como sempre, fico por conta dos teimosos.

Pode parecer que não, mas a “vida” aqui do outro lado é muito entediante. Sempre a mesma rotina, e nada te surpreende, pois por mais bizarro que algo possa parecer, faz você lembrar que também é uma criatura bizarra, logo, um ser normal aqui deste lado.

Hoje em dia, bizarro pra mim são os seres humanos. Desperdiçam suas vidas com coisas tão pequenas, sempre interessados em acumular mais e tão apegados a vida. Se bem, que não posso condená-los por buscar coisas pequenas pois, eles não tem noção da dimensão que pode ser o grande ou o pequeno, por isso se contentam com qualquer coisa achando que deram um grande passo. Essa ingenuidade deles é que ainda faz meu trabalho ser um pouco bom, pois me diverte.

É muito engraçado ver as reações de surpresa e todas os questionamentos. “Quando morrer, todas as suas dúvidas serão respondidas”. Não serão. Haverão mais questionamentos na verdade que vão cobrir os outros e te deixar mais confuso, mas quando chegar no seu lugar, tudo isso passa.

Claro que eu não tenho tempo de ter longas conversar existenciais com os meus “convidados”, pois a mim só cabe mortes fúteis e seres que não aceitam a morte de início ou ainda os que aceitam mas acham mais divertido brincar de fantasma do que ir logo embora.

Um dia desses fui buscar um estuprador. Ele passou a vida inteira dele abusando mulheres e homens e conseguiu fugir da polícia por muito tempo. Morreu ao tropeçar e cair da escada e uma de suas fugas. Apenas um tropeção e eu tive que correr atrás dele porque ele continuou correndo achando que ainda tava vivo, nem se deu conta que seu corpo ficou pra trás estirado na escadaria da ponte.

Primeiro ele tentou me socar. Depois tentou chorar. Quando estava quase aceitando a sua condição, viu uma mulher passando e agarrou os seios dela. Suas mãos atravessaram como vultos mas ele ainda pôde sentir a pele dela, e a moça, sentiu um arrepio estranho e saiu olhando para os lados.

Por sorte, antes que ele tentasse de novo desta vez passando a mão na bunda de um homem, consegui acorrentá-lo e agora sua alma estaria encaminhada, mesmo que contra a vontade dele.

A verdade é que os seres humanos foi uma raça criada pra dar certo, mas não deu, por culpa deles mesmo. Um ou outro ainda consegue seguir o objetivo certo, mas todos pecam em suas prioridade e é isto que faz o mundo ser como é hoje.

Aqui do outro lado, nada importa muito, assim como a minha opinião ou a de qualquer um por aqui, pois todos estão ocupados cumprindo com suas missões e lutando por seus objetivos. Aqui não temos aquela de “é preciso correr atrás, antes que seja tarde demais”, porque aqui não existe o “tarde demais”. Não morremos, não temos a “única certeza” da vida, e então podemos fazer o que queremos quando quisermos, e talvez por isso, a grande maioria faça logo pois é chato ficar no ócio por tanto tempo.

E falando em tempo ócio, acabou minha folga, lá vou eu buscar um cara que morreu numa biblioteca. Espero que ele esteja quietinho lendo e não derrubando os livros por diversão.

 

juhliana_lopes 25-11-2013

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Amante

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E então você aparece.

Com movimentos leves e envolventes,

Passos certos e um calor intenso,

enlaça seus braços delicados sobre meu pescoço,

e com movimentos sutis me puxa para junto de seu corpo.

Me largue!

Não quero o seu abraço, muito menos o seu beijo.

Não quero saber de seu feitiço!

Mas nada disso é capaz de te parar.

Novamente você vem,

como uma serpente se enrola em minha perna,

logo, está tomando meu ar,

me deixando sem jeito.

Saia! Não preciso do seu apreço,

muito menos dos seus carinhos.

Já é tarde, e eu não consigo me livrar,

você domina a situação,

agora jogando seu peso sobre meu corpo,

Me rouba mais um beijo demorado de meus lábios,

e sussurra em meu ouvido: “Faça”,

e então eu faço.

Quando amanhece, você já se foi,

e resta apenas eu e um corpo morto ao meu lado.

Doce loucura, que me perturba,

por que se aproveita assim de mim?

Não poderia me levar para o outro lado?

Me faça seu marido, cansei de ser seu amante.

 

juhliana_lopes 17-11-2013

Completo

andando_no_escuro,_mas_com_bengala_e_piso_tatil23010Vivia estressado e procurando uma forma de fugir daquilo. Conselhos não faltavam, mas nenhum servia de fato. Ele poderia viajar, mudar de ares, mas isso seria apenas temporário. Poderia fazer uma mudança definitiva, mas isso só seria trocar os velhos problemas por novos. Poderia se aposentar, mas uma vida parada também não lhe atraia. Ele precisava fazer algo. Precisava procurar outra forma de continuar tendo uma vida sem ter que conviver com o estresse do seu cotidiano.

Não havia jeito, por mais que pensasse não conseguia achar uma solução. Parou de sair, talvez se ficasse mais em casa conseguiria esfriar a cabeça. Não, conseguiu apenas trocar um vício pelo outro, parou de beber com os amigos para varar as madrugadas em jogos online que ele mesmo havia abandonado por um tempo.

Fez o contrário, saiu muito. Não importava pra onde fosse, ele ia com seus amigos, seus fins de semana começavam nas sextas a noite e terminavam nas segundas de madrugada. Não adiantou. Percebeu que mesmo entre amigos ou estranhos, ainda se sentia vazio. Conversas vazias, bebidas vazias, nada preenchia o seu ser.

Arrumou uma namorada, fez o mesmo processo. Por um tempo saiam muito, passeios em família, passeios com amigos, passeios sozinhos. Nada. Ficaram mais caseiros, noites e mais noites “românticas” que terminavam com os dois na cama. Ainda vazio. Quando ia dispensar a moça, ela o dispensou primeiro ao perceber a falta de interesse dele.

Cigarros, bebidas, livros, jogos, músicas, danças, desenhos, nada era capaz de deixá-lo em paz por muito tempo ou interessado. Se deixou levar e ficou mais agressivo, mais raivoso, qualquer coisa era motivo para brigar. Não adiantou. Ficou mais serenos, ajudava mais as pessoas, trazia desconhecidos da rua para dentro de casa, oferecia-lhes banho e comida. Ainda vazio.

Um dia, andando pelas ruas a noite, tentando se distrair, foi abordado por dois homens com facas. O primeiro lhe agrediu com um soco e fez um corte profundo em seu braço. Quando o segundo ia lhe esfaquear a barriga enquanto o primeiro lhe segurava, ele começou a rir freneticamente. Os dois homens olhavam-no incrédulos mas ele continuava a rir, ignorando totalmente a dor e o sangue que escorria sem cerimônias do braço esquerdo.

O segundo homem se afastou olhando o homem risonho e o primeiro, perdeu a paciência, o soltou e se preparou para mais um golpe, “drogado inútil” ele dizia até ser surpreendido por um contra-ataque da sua vítima. Ainda rindo, ele agarrou o braço dele jogando a faca longe e o pressionando de costas para ele contra a parede. Com a outra mão apertava seu pescoço e só o soltou quando o corpo amoleceu. O jogou no chão e ficaram os três ali, em silêncio por alguns segundos. Logo, mais risadas.

O segundo homem ainda assustado com a reação da vítima, não conseguiu correr a tempo e quando percebeu já estava contra a parece com a faca que segurava contra seu próprio pescoço. O homem olhava em seus olhos como se buscasse o seu íntimo e então, começou a rir na sua cara.

– O que diabos você tem que tanto ri?

– Desculpe… – mais risos – o que te completa?

– Como é que é?

– É sério. O que te completa?

– Que conversa estranha é essa?

– Vai me responder ou não? – disse pressionando mais a faca contra o pescoço do assaltante.

– Vai me matar que nem fez com meu amigo?

– Ele? – riu até ficar sem ar – Não, ele não está morto, só desmaiado. Você ainda não me respondeu… – pressionando mais a faca.

– Eu… acho que minha mãe… Não. Minha filha… Eu… acho que não sei…

– Viu? – rindo largando o homem – Ninguém sabe! Como alguém pode exigir esse tipo de resposta de mim?

– Você parece um maníaco rindo desse jeito… Para.

– E você parece um idiota. – disse tentando ficar sério – Sério. Essa foi a melhor sensação da minha vida…

– Do que você está falando?

– De quase morrer e ao mesmo tempo quase matar. É incrível!

– Você é doente…

– Será que eu sou? – disse fazendo um movimento rápido com a faca parando a poucos centímetros da costela do assaltante que ficou paralisado de medo. – É… Acho que sim. – disse soltando a faca e virando as costas.

– Pra onde você vai?

– Eu não sei o que vai ser capaz de tirar essa angústia de estar faltando algo de mim, você acha que eu sei pra onde eu vou? – disse ele olhando para o assaltante de longe com os braços erguidos com um sorriso maníaco. – Acho que vou pra casa. Se eu fosse você iria também. E seu amigo tá acordando, dá um pouco de água pra ele.

O assaltante ainda olhava sem entender e seu amigo, quando acordou achou que tinha sonhado. Os dois foram embora sem nenhuma carteira e ainda sem entender o que havia acontecido. O outro, a vítima, andava balançando os braços até que sentiu sua mão melada.

– Nossa, tá sangrando ainda, por isso que tá doendo. – parando um táxi. – Moço, você…

– Rapaz, você vai entrar ou vai ficar ai pensando na vida? Eu tenho o que fazer…

– Nada. Você não saberia me responder. Vamos ao hospital sim.

 

juhliana_lopes 10-11-2013

Depoimento

– Podemos começar novamente?

– Sim senhor.

– Só quero que entenda que este é um procedimento padrão…

– Sim senhor.

– Vamos começar, ok?

– Sim senhor.

– Então me diga, o que exatamente, aconteceu aquela noite.

– Não foi nada demais na verdade. Era uma festa, alguns estavam bêbados, mas eu e meus amigos só estávamos rindo e nos divertindo. Já devia ser mais de duas horas da madrugada e os bêbados começaram a encher o saco. Sabe como é, alguns choram, outros ligam pras exs, outros começam a tirar as roupas… Essas coisas. Não tínhamos muito o que fazer senão apreciar o show, então ele chegou. Eu pensei que ele nem viria mais, ainda mais pelo horário. Chegou cheio de marra e provocando todo mundo e então começou a pegar pesado comigo.

– E o que ele fez a você?

– Bem, primeiro começou as com as provocações verbais. Me chamando de idiota, medíocre e humilhando a minha amiga, chamando-a de vadia e perguntando quanto ela cobrava por noite. Depois jogou um copo de bebida em um amigo meu, mas não foi daquele jeito de derrabar o líquido sobre a pessoa, ele jogou o copo de longe e acertou o rosto dele. Claro que nem eu e nem outros caras presentes na festa gostaram a atitude e então um grupo se juntou para pedir educadamente que ele se retirasse da festa. Ele se virou e tudo indicava que a paz iria voltar, até que ele voltou correndo, pegou minha amiga pelos cabelos e começou a esfregar dinheiro no rosto dela falando que queria serviço completo aquela noite.

– Ele estava bêbado?

– Não sei. Não parecia. Acredito que não, quem o conhece a tanto tempo como eu, sabe que ele consegue ser ruim naturalmente.

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– Quando ele agarrou a sua amiga…

– Eu agi. Francamente senhor, já que estamos aqui e esta é a terceira vez que eu conto a mesma coisa, vou ser bem sincero. De uma forma ou de outra eu queria que acontecesse. Sério. Juro que desejei algo desagradável assim só para eu ter um motivo. Eu não queria machucar ninguém, é verdade, pelo menos não comigo tomando a iniciativa, mas no caso dele… Ele já havia feito muito, humilhado muitas pessoas, precisava de uma lição. Eu tinha dado o recado. Quando eu vi ele com a minha amiga, eu simplesmente empurrei os dois ao chão. Ela levantou logo e correu e ele ao se levantar veio em minha direção. Tentou me acertar um soco só que logo outros caras seguraram ele e levaram em direção a porta, eu peguei uma garrafa, quebrei no chão, e antes que outros pudessem me impedir, gravei a parte com o caco mais pontiagudo no braço. Não havia nenhum médico no local ou alguém que estudasse enfermagem então, tiraram a garrafa do braço dele de modo que aumentou mais a ferida. Agora era a mim que seguravam e ele chorava ao ver o sangue escorrendo.

– Você considera que agiu por instinto de defesa?

– Não. Seria se eu não tivesse pensado nisso antes, mas eu pensei. Como eu disse, desejei uma situação assim só para poder agir. Confiei na fraqueza dele em não cumprir o “não vou fazer de novo” e consegui. Ganhei. Não agi por instinto. Sabia exatamente o que eu estava fazendo, e mais uma vez sendo bem sincero, eu já tinha planejado pelo menos três formas diferentes de agredi-lo sem matá-lo. Sim, eu não queria matar, só machucar. Desculpe a minha frieza, mas se ele não tivesse agredido a minha amiga, eu seria capaz de entrar em alguma provocação dele só para empurrá-lo da escada. Esse era um dos planos. O outro era aproveitar quando ele tivesse brigando com alguém, dar uma chave de braço e quebrar uma garrafa na cabeça dele de modo que abri-se um corte considerável. Não foi instinto, eu queria e eu fiz. Mas ainda fiz por defesa, no caso da minha amiga.

– Você sabe que pode ser preso por tentativa de homicídio?

– Sei. Já sabia na verdade e mesmo sabendo eu continuei querendo. É difícil de explicar senhor, no fim pode ser que me considere um louco, mas no fim das contas sou apenas um psicopata mesmo, um psicopata são.

– Bem, você disse que não queria matá-lo, só machucá-lo, mesmo sabendo das consequências… Sabendo que você poderia enfrentar uma cadeia de qualquer forma, por que não matar?

– Respeito.

– Respeito?

– Sim. Respeito. Aos familiares dele, lógico. Conheço os pais dele e algumas tias. Na festa havia duas primas e um sobrinho. Apesar da família conhecer o gênio ruim dele, não ia querer vê-lo morto, e eu não ia querer comprar uma briga tão grande com a família dele, pois no fim, ele se tornaria uma vítima mártir. Eu só queria fazê-lo sentir um pouco da dor que ele faz as outras pessoas sentirem.

– E fez.

– Sim, porque eu quis.

– Bem garoto, me dê um minuto sim, vou analisar os papéis do escrivão e já volto para conversarmos. Pode tomar um café, se quiser ligar para seu advogado ou algum parente você tem alguns minutos.

– Obrigado. Ah… Oi, por favor o Henrique está? Obrigado… Ah, oi, então, eu fiz… Não, não morreu, eu disse que não ia matar. É… Sim… Olha, você pode vir até a delegacia, eu to com fome, acho que vai demorar, aproveita e chama o Joaquim, ele ainda é advogado não é? Sim. Já disse… Olha, vem logo, antes que eu mate o delegado se ele me pedir uma quarta versão…

– Licença?

– Ah, sim, oi delegado. Já terminei.

 

juhliana_lopes 04-11-2013