Doces ou Travessuras?

Doces ou travessuras era o que sempre diziam. Não gostava daquele dia. Não que fosse melhor nos outros, mas naquele dia, tudo aumentava em proporções monstruosas. Confiava nos seus pacientes, é verdade, mas neste dia, tudo era motivo para se desconfiar.

Não podia impedir. Fazia parte do programa incentivar a interação e datas comemorativas para auxiliar na recuperação dos pacientes. Todos ficavam empolgados em decorar seus quartos e o pátio da clínica, em fazer coisas de artesanato e dinheiro de mentira para vender na feira da festa. Ninguém vendia nada de verdade, apenas trocavam por pedaços de papel já que a festa não era aberta para pessoas de fora.

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Ela não tinha dificuldade em lidar com pacientes brutos e ignorantes. Os assassinos eram a sua especialidade, já haviam dois dos mais perigosos no seu currículo que hoje a tratam com tamanho respeito como se fosse sua mãe. Era segura de si, gostava do seu trabalho mas neste dia…

“Talvez seja algum trauma de infância”, ela justificava, sem se lembrar do que poderia ser exatamente. O fato é que odiava esse dia e as surpresas que vinham com ela. Sempre acontecia algo de constrangedor ou que fazia ela se arrepender de não ter inventado uma desculpa pra não vir ao trabalho.

Doces ou travessuras eles gritavam de repente. Era recomendado andar com os bolsos cheios para escolher logo a primeira opção e acabar logo com o tormento. Quando chegavam em alguém que já estava de bolsos vazios, a segunda opção sempre vinha acompanhada de gritos de terror e risadas macabras, pelo menos dentro da cabeça da doutora.

Andando com passos rápidos em um corredor, olhando para os lados quase tremendo, ouviu a frase assustadora. Não era pra ela e sim para um colega de trabalho. Ele tinha acabado de entregar os últimos doces para um grupo que havia passado na frente e pra esse, só sobrou “as travessuras”. Arrancaram o seu jaleco e o obrigaram a vestir aqueles aventais de cirurgia que são abertos atrás. Ele teria que andar por todo hospital sem levantar a cabeça pra nada e nem falar com ninguém. Só pararia quando eles dissessem que devia parar. E assim ele foi, ainda mais depois que ficou sabendo da consequência, ele não queria apanhar nu, em uma cadeira.

A doutora se distraiu vendo a cena e quando percebeu, parte do grupo vinha em sua direção. Por instinto ela correu. Até trombar no grupo dos “fortes”, formado pelos loucos com o corpo mais definido, grandes e musculosos que em seus banhos de sol se exercitavam para manter a forma. Caiu no chão e agora estava cercada por dois grupos. Sentiu-se como uma criança indefesa pois não havia como fugir.

Quando os dois grupos perguntaram e perceberam que só ia haver uma opção, eles foram atacados por balas e pirulitos, além de pedaços de caramelo e chicletes. Uma verdadeira onda de doces que fez com que os grupos corressem rindo como moleques levados.

A frente da médica agora, havia dois homens altos, com aquele rosto imparcial sem emoção. Ainda com medo olhou levemente para cima e percebeu que um deles lhe estendia a mão.

– Está tudo bem doutora? – disse o que estava com a mão aberta.

– Eu… acho que sim. – ela respondeu lhe dando a mão e levantando.

– Mais cuidado – disse o outro. – Hoje, até a noite ninguém vai ter paz.

– Obrigada rapazes. – ela respondeu um pouco mais aliviada.

– Não se pode confiar em ninguém hoje… – disse o rapaz que a ajudou.

– Verdade, obrigada mesmo…

– Não agradeça… – disse o outro colocando a mão em seu cabelo. – Agora responda rápido: Doces ou travessuras?

 

juhliana_lopes 31-10-2013

A verdade

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Eu acordo todos os dias com o mesmo pensamento… No fundo eu quero que aconteça pois me traria paz. Alguns já chegaram bem perto mas até hoje ninguém tem certeza.

Admiro profundamente aqueles que perceberam só de olhar, mas não posso amá-los pois assim como os outros, não descobriram a verdade.

O fato é que na maioria das noites, esqueço completamente disso, mas quando lembro, não consigo dormir, e claro, escondo os motivos com máscaras e dramas.

Eu poderia contar, mas não teria graça. Na verdade, eu já contei para todos, mas ninguém percebeu. Mais do que sonhos, as vezes precisamos de algo melhor para aproveitar nosso sono. Foi numa dessas noites em que procurei algo melhor que sonhos que aconteceu.

Ando pelas ruas imaginando se alguém já o encontrou. Acredito que não pois, não houveram notícias. Talvez não fizesse falta no mundo como eu, talvez desejasse a isso como tantos outros. A única testemunha alcança o alto do céu todas as noites, ora completamente exposta com seu brilho magnífico, ora oculta apenas observando os movimentos noturnos.

Se ela pudesse falar certamente já teriam me descoberto, mas para minha sorte, ou azar, ninguém saberá.

Talvez, quando descobrirem será tarde demais… Talvez, quando descobrirem, não haja mais solução. Talvez ninguém descubra, porque não sobrará ninguém para descobrir nada.

Dizem que os melhores vinhos são os envelhecidos, e eu concordo com tal informação, desde que se acrescente que são os melhores misturados com algo fresco, quente, tirado na hora. Algo do mesmo tom de cor, escuro, forte e encorpado. Seus sabores se misturaram e dançaram na minha língua aquela noite.

Aguardo somente o dia, em que alguém olhará em meus olhos e descobrirá a verdade, colocando um fim no meu tormento. Esse alguém já olhou em meus olhos e desconfio que já saiba a verdade, mas desconfio também que assim como eu, lhe falta coragem para abrir a boca e despejar tudo em palavras.

Enquanto aguardo, observo a lua, minha única confidente, única companheira e amiga… Minha única testemunha, contra e a favor.

 

juhliana_lopes 25-10-2013

Meus medos

Não tenho objetivo, já não vivo em função de mim. Meus sentimentos se misturam e minha mente entra num colapso. Ora expande, ultrapassando fronteiras, ora contrai como se fosse morrer.

Não enxergo nada em meio a luz que me cega, e por mais que eu tente, não encontro um caminho. Meu coração bombeia o sangue para o meu corpo violentamente, no mesmo passo que o pulmão tenta em vão, buscar ar.

Não é morte. Não sei o que é. Não existe uma definição certa para os sofrimentos alheios além do que se pode ver. A vida expira, da mesma forma que inspira o poeta, e o que pode ser bom, amanhã te destrói.

Se na luz não me encontro, na escuridão me afogo. Dou de cara com meus medos que dilaceram a minha carne em busca de um pouco de coragem. Já não tenho mais nada além insegurança. Até mesmo meus medos que a pouco me devoravam, agora me abandonam, buscando outra mente pra se alimentar.

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O que eu tinha ninguém roubou, apenas perdi ao vento, em busca de algo que nunca soube o que era. A certeza corre de mim tão veloz que nunca soube o que quis. Já não há lugar para o repouso, as vozes invadem meus ouvidos me deixando atordoada e completamente sem ação.

Preciso de repouso, um colo. Me deitar e tirar tudo que pesa em meu peito. Esmagar meus problemas num abraço para que todos achem a solução, esvaziar minha mente com uma boa conversa e risadas. Acho que preciso de paz, mas a certeza não me deixa descobrir, pois nunca consigo ter certeza de nada. Nada mais me resta, senão sucumbir enquanto procuro minha paz.

 

juhliana_lopes 18-10-2013

Assalto

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Olhos inchados, sangue seco pelo rosto. A boca ainda sangrando e as marcas roxas pelos braços denunciavam a agressão. Mais um copo de água, mais explicações. Pela terceira vez depois de mais um descanso deu a mesma versão ao delegado. Estava andando, indo para o cinema encontrar uns amigos, mas no meio do caminho ligaram avisando que não iriam mais. Voltou a pé mesmo, foi abordada, tentaram levar a bolsa, ela reagiu, apanhou, e eles correram.

O policial anotou tudo, e pensou em fazer mais perguntas, mas a pobre moça parecia exausta. Como se não bastasse as dores, já estava ali a quatro horas dando o mesmo depoimento, cada vez com mais detalhes conforme as suas perguntas mas sempre na mesma versão. Resolveu encerrar mas antes verificou se ela tinha alguém que pudesse buscar. Ela respondeu timidamente que não, pelo menos não naquela hora, disse que pegaria um taxi se pudessem emprestar algum dinheiro pra ela.

Ele emprestou e disse para ela retornar no outro dia para tirar novos documentos já que os seus foram levados com a bolsa. Ela agradeceu, mais um copo de água, alguns passos mancos e desordenados. Precisou de ajuda pra chegar até a calçada. Logo veio um taxi e ela se foi.

Mais cedo, não muito longe dali, um casal foi abordado por um garoto. Usava roupas largas e ele parecia conhecer alguns golpes. Assaltou o casal e os bateu, saiu com carteiras e uma bolsa. Ao longo do caminho tirou tudo de dentro das carteiras e da bolsa, escondeu em suas roupas íntimas e tirou a roupa larga. O garoto na verdade era uma mulher que agora desfilava por ruas escuras com calça jeans e uma blusa leve. Logo foi abordada por alguns rapazes que tentaram levar a sua bolsa, ela resistiu e lhes deu uma surra, mas logo apareceram outras mulheres que bateram-na e levaram a bolsa. Depois da delegacia e do taxi, chegando em casa para enfim cuidar dos ferimentos, sorriu em frente ao espelho.

Boca vermelha, olhos inchados, mas muito dinheiro, junto com outras quantias que já havia ganhado em noites anteriores, mas desta vez, sem uma bolsa para sua coleção.

“A 99 pode esperar” ela pensou enquanto cuspia sangue na pia.

 

11-10-2013 /juhliana_lopes