Experiência

17042012drogas012

 

Aguardava sentada, ansiosamente. Não sabia exatamente o porquê, mas queria estar ali e mal via a hora de poder se realizar. Na verdade sabia, sempre soube mas naquele momento, enquanto esperava, esqueceu. Algo natural pra dizer a verdade, esquecimentos aconteciam e por um leve momento sentiu um arrepio na espinha quando o medo lhe passou pela cabeça. O que veio fazer ali afinal? Tirou o medo de sua cabeça, afinal, apesar de serem frequentes, seus esquecimentos nunca levaram-na a encrencas.

O barulhos do relógio lhe dava uma agonia a mais e já estava quase indo embora. Seja lá o que fosse que ela tinha ido fazer ali, talvez não valesse tanto a espera. Era isso que ia fazer mas quando pensou em se levantar sentiu que não conseguia andar. Suas pernas formigavam profundamente que chegava a doer por causa do tempo que ficou parada. Foi mexendo o pé lentamente mesmo sem a sensibilidade necessária, apenas para o sangue voltar a circular. Logo sentiu aos poucos uma dor seguida de choques, como se as pernas estivessem crescendo novamente mas era só o sangue circulando e a parte sensível voltando.

Ao se levantar, a porta se abriu, chamando o próximo. Entrou com um sorriso de orelha a orelha e sentou-se confortavelmente na cadeira que lhe indicaram. Estava a vontade e se sentia bem, exceto por uma coisa, não sabia o que havia vindo fazer ali.

– Tudo bem moça?

– Sim.

– Quer alguma coisa? Uma água, um café?

– Não, obrigada.

– Podemos começar então?

-Eu… – pensou por um instante em perguntar sobre o que iria começar mas percebeu que poderia não haver tempo para isso. – podemos.

Só então percebeu que deveria ter perguntado. O rapaz de branco, trouxe uma seringa enorme e sem ao menos uma conversa tranquilizadora injetou o líquido que parecia fogo em seu braço. Sentiu aquilo invadir suas veias e queimá-las de dentro pra fora, se espalhando como uma febre pelo seu corpo até atingir seu coração e fazer com que seu corpo paralisasse. Sentiu seu corpo cair e viu quando o enfermeiro a segurou e a ergueu, colocando sobre a maca.

Seus olhos agora também estavam quentes e apesar de não conseguir se mexer, ainda sentia coisas sobre a pele, como a parte fria da maca q tocava seu braço. Queria gritar mas até a sua língua havia encontrado descanso dentro da boca. Começou a respirar com certa dificuldade pois o pulmão também esquentava e não tinha forças para puxar o ar.

Sua cabeça foi virando num movimento involuntário para o lado da porta e ao ler o letreiro que havia acima, sentiu o desespero tomar conta de seu ser e o desejo de fugir ficou maior, aumentando a dificuldade da respiração e agora também dos seus batimentos cardíacos.

Acima da porta havia um letreiro em vermelho escrito: EXPERIÊNCIAS ASSISTIDAS, e um homem alto com cabelos grisalhos entrava com uma pequena maleta nas mãos. Encostou a maleta sobre o balcão, pegou os papéis e leu todos, mostrando a assinatura sobre seus olhos que ainda estavam abertos. Ela quis discordar mas não havia mais como, afinal, sua assinatura estava ali e o processo já havia começado.

Ouviu o médico dizer enquanto abria a maleta e tirava vários objetos que poucas pessoas procuram este tipo de atendimento e a maioria só vem pelo dinheiro que a clínica paga após os experimentos. Ouviu ele dizer também que muitos não se importam em vender seus corpos para essas experiências, pois desde que se receba dinheiro após isso, eles poderia até mesmo amputar as pernas dos pacientes que eles não ligariam. Viu ele ficar surpreso quando leu os motivos e percebeu que ela estava ali por vontade própria e “curiosidade”. Viu que ela marcou com destaque a parte em que “aceito qualquer condição que envolver o experimento, desde que me mantenham vivo(a)”. Viu o sorriso sarcástico surgir em seu rosto e o momento que ele pegou outra seringa. Desta vez, injetou levemente em sua barriga pois sentiu apenas a agulha rasgando a sua pele pedindo por espaço e nada mais.

Logo, ele virou o rosto dela e o apoiou com um pequeno travesseiro de modo que ela conseguia ver sua barriga nua e todos os procedimentos que estavam por vir. Ele cortou e abriu, ela conseguiu ver seus próprios órgãos em funcionamento. Ele cortava a pele e a abria, separava e prendia como se estivesse mexendo com uma rã em uma faculdade. Sentia apenas frio e uma leve queimação no lugar dos cortes, mas por causa das anestesias, nada mais que isso. Pensou que iria sentir nojo daquilo mas de certa forma se sentia confortável. Além de expor seus órgãos, deixou que pequenas larvas andassem sobre eles e ver as reações imediatas e as que só apareciam depois de alguns minutos.

Com as larvas sentiu dor, dores agudas e uma angustia que lhe causava náuseas. Ver aqueles bichos te devorando e saber que é você que eles estavam comendo. Será que era assim que os mortos se sentiam? O médico retirou as larvas, limpou e começou a fechar os cortes, e desta vez ela sentiu tudo. A anestesia estava passando, tanto a que paralisava quando a que não permitia sentir os cortes, percebeu que o médico também havia notado pois antes de fechar ele amarrou seus pulsos nos ferros da maca e seu quadril com um cinto bem ajustado. Sentiu cara passada de agulha enquanto ele fazia os pontos. Viu seus sangue num tom rubi correr solto e sem cerimônia e pensou que talvez houvesse algo de errado.

Depois de mais algumas anotações, o médico a soltou mas não antes de mais uma anestesia. Agora sentia um sono e aos poucos perdeu todos os sentidos. Quando acordou, percebeu que havia dormido por horas e que algo havia acontecido. A sua frente viu dois aquários, um com uma canela de um cadáver, cheia dos vermes que haviam sido colocados em sua barriga. Estava podre e cinzenta o que indicava que já havia alguns dias que estava ali. No aquário ao lado viu uma placa com “carne fresca”, e uma canela sendo devorada por vermes também. Abafou um grito de horror com as mãos ao ver que a canela do aquário tinha a mesma tatuagem que a dela. Chorou compulsivamente ao notar que agora tinha uma perna mecânica no lugar a sua perna que agora servia de refeição para vermes famintos.

Foi para casa com ajuda de um amigo que não conseguia acreditar no que ela tinha feito. Ela tinha que passar em um médico agora, não para experiências mas sim, para o tratamento de seus esquecimentos, antes que perdesse a vida com vontades e desejos estranhos. Ela não entendia e não se sentia a vontade para querer entender de fato. Queria apenas dormir e pensar que aquilo tudo era um sonho.

 

24-09-2013 /juhliana_lopes

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