Medo do escuro

Por gerações em gerações as pessoas aprenderam a temer os seres das trevas. Aprenderam a ter medo do escuro, a amar a luz e a ter medo de tudo que se ocultava. O medo na verdade ganhou força, desde as pequenas criaturas até as mais fortes que um dia juraram jamais tremer na frente do inimigo.

Foram desenvolvidas então várias formas de se espantar as trevas. Os braseiros aumentaram, mudaram o combustível que os alimentava para que o fogo permanecesse aceso por mais tempo. Começaram a acordar assim que os primeiros raios de sol aparecessem e a dormir assim que ele sumisse no horizonte. Não admiravam mais as noites de lua com medo das trevas e os poucos que ficavam acordados durante as noites mantinham sempre um ponto de luz por perto.

Todo ruído era temido na escuridão, e durante os invernos rigorosos, muitos morreram de frio por enfrentarem seus medos e saírem a noite para pedir ajuda, pois ninguém abrir a porta para ninguém durante a noite.

Eu era uma criança quando meu pai chegou aquele dia. Eu estava brincando do lado de fora a luz do sol como sempre fazia quando meu tio vinha visitar minha mãe. Vi meu pai entrando  e logo meu tio sair correndo a base de pancadas. Depois, quando eu entrei em casa ao ouvir os gritos de minha mãe, vi o rastro de sangue que vinha do quarto. Ao entrar, minha mãe deitada com a cabeça pendurada como se estivesse caindo da cama e o sangue que jorrava. O machado ainda estava cravado em seu pescoço e meu pai ao lado sentado em sua cadeira de balanço, fumava olhando para o corpo.

Toquei no braço de minha mãe e ele estava gelado. Meu pai me olhou e vi lágrimas em seus olhos. Na minha inocência perguntei se ela estava doente e meu pai virou o rosto para não me encarar mais. Voltei para a cozinha e fiquei sentado esperando até que percebi que o sol já se preparava para por fim a aquele dia. Então elas vieram.

Tinham a pele pálida de tão alva que reluziam ao sol e sob qualquer luz que lhes apontassem. Braços longos que finos e penas que se assemelhavam a tentáculos. Não tinham cabeças e no pescoço havia um buraco com dentes que seguiam uma sequencia em espiral. Elas passaram por mim com desdém, sentindo o cheiro do sangue de minha mãe. Logo ouvi gritos do meu pai e notei mais sangue vindo da porta. Quando começou a escurecer, me encolhi no canto da parede, temendo as trevas. As criaturas então saíram do quarto. Conforme ia escurecendo, as criaturas ganhavam brilho próprio que quase cegava de tão forte, e se rastejavam em minha direção.

1043861_575086282537785_1945678460_nLogo, pela porta, entrou outra criatura. Cadavérica, igualmente alva porém com chifres e asas. Ela pulava com as patas traseiras e fazia um ruído indecifrável. As criaturas alvas então definharam até sumir na escuridão.

Eu tremia e suava frio com medo e sem entender o que estava acontecendo. A criatura cadavérica então se aproximou de mim, porém com cuidado. Ela também brilhava, porém era algo terno e quase imperceptível como a lua. Ela se posicionou atrás de mim e me cobriu com seus braços. Percebi que haviam olhos sem suas asas e eles me olhavam com ternura. Ouvi uma leve canção de ninar que acalmou meu coração e me trouxe uma paz sem tamanho.

Os dias seguiram e fui adotado pelo bibliotecário da cidade. Ele me ensinou ler e a escrever e depois de meses mudo, finalmente consegui contar a ele tudo que havia acontecido. Ele então me contou que as criaturas alvas eram as criaturas da luz, que devia ser temidas mais do que as das trevas pois elas se alimentam dos sonhos presos pelos medos que crescem sem direção.

Peguei gosto pela noite e pelas trevas. Aprendi que são nada mais que algo que nos envolve e nos permite pensar e ser quem quisermos ser. Quando escrevia minhas histórias de criança, a criatura das trevas sempre vinha em meu auxílio. Soprava algumas palavras em meus ouvidos e me ajudava com a inspiração. Ele me guarda e me faz dormir bem em meio a pesadelos macabros. Não o chamo de anjo, mas o chamo de amigo. O amigo que encontrei nas trevas e que me ensina a enfrentar meus medos.

 

18-09-2013 /juhliana_lopes

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