Jules Contard

Era o primeiro dia da faculdade. Estava nervoso mas ainda sim decidido. Foi tremendo e com um sorriso tímido no rosto e voltou com um de orelha a orelha. Fiquei feliz. É o que a gente espera nessa altura da vida, que as coisas deem certo. Eu mesma dei muitos incentivos mas sempre tomando cuidado para não causar influências. É uma escolha dele e eu não poderia interferir. Depois de quatro semestres veio a dúvida. Confesso que fiquei apreensiva, afinal, depois desse tempo perceber que não é aquilo que ele queria seria um tiro no pé. Ainda sim demonstrei imparcialidade, fazendo com que entendesse que a decisão teria que partir dele, para o bem dele.

As coisas eram mais fáceis quando as dúvidas e suas angústias ficavam restritas a pequenas crises existenciais como essas. Sabe, “o que eu vou ser quando crescer?”, “será que é isso mesmo que eu quero?”, “mas eu me dou bem em outra área…” nada disso é tão grave como o que aconteceu por fim.

Começou depois de uma festa da faculdade, confesso que a princípio achei que poderiam ser drogas. Mais quieto, mais escondido no quarto, mal descia para comer e só saia para a faculdade. Depois das férias dele, comecei a trabalhar e então não pude ver o crescimento do que no fim, tomou proporções irreversíveis.

Estranhei quando em um fim de semana, um amigo dele me ligou perguntando sobre ele. Me disse que não ia mais para a faculdade, que mal atendia o celular e que nem nas redes sociais era possível encontrá-lo. Não saia e nem visitava os amigos, não jogava bola aos domingos. Quando subi no seu quarto para perguntar o que estava acontecendo, senti meu coração enfraquecer.

Sentado num canto do quarto, com os olhos fundos da magreza aparente e a pele pálida pela falta de sol. Suas mãos inquietas coçavam os braços e as pernas e leves gemidos de horror aumentavam a dor – tanto dele, como a minha -, coloquei a mão em sua testa rapidamente para verificar a temperatura, depois o ajudei a sentar na cama.

– O que aconteceu filho?

– Eu morri mãe.

– Não filho, você tá vivo. O que você tá sentindo filho?

– Eu morri mãe. Você não vê? Olha, os vermes estão comendo a minha carne. Eu sinto. Dói. Eu já estou cheirando a podre, eu sinto meu estômago apodrecendo. Me enterra mãe. Eu morri…

Apesar das várias negações, ele insistia em dizer que havia morrido. O levei a um médico, dois, três e ninguém sabia dizer o que estava acontecendo. Até que ao passar com o Dr. Contard tive enfim a resposta que não me deixou menos tensa e tirou por fim a pouca tranquilidade que me restava.

Uma síndrome no qual a pessoa acha que morreu. Meu pequeno Jules, meu único filho numa situação assim. O tratamento era complicado porque requeria muita conversa e alguns medicamentos em casos de ansiedade pelo “enterro”. Seus gritos de dor durante a noite me traziam um horror a impotência que eu tinha naquele momento que também não me permitia dormir. Mais de uma vez tive que o segurar porque ele se coçava com tamanha ferocidade para retirar os “vermes de cemitério” de seus braços e rosto que chegou a sangrar.

162083_Papel-de-Parede-Lagrimas-e-rosa_1400x1050Um dia, uma encomenda chegou. Fiz de tudo para não permitir a entrada daquele objeto mas Jules conseguiu colocar num momento que tive que sair para comprar seus remédios. Durante dois meses ele dormia dentro de um caixão.

Comprou nas cores que mais gostava, vermelho e preto, e vestia uma roupa leve toda noite para dormir. Ainda gemia de agonia com os “vermes” lhe corroendo mas conseguia dormir levemente mais tranquilo.

Um dia, depois de uma sessão que havia relativamente dado certo, ele estava aparentemente mais feliz. Meu coração se encheu de esperança de poder sair daquele pesadelo horrível, mas aquela noite acabou por confirmá-lo de vez.

Ele morreu dormindo em seu caixão. Não houve uma explicação lógica, apenas uma explicação médica qualquer de que seus órgãos haviam parado de funcionar subitamente.

Ainda hoje minhas lágrimas correm soltas quando lembro do meu menino. Muitas mães perdem seus filhos para a morte é verdade, seja por guerras, acidentes, assaltos… Mas o meu… Com o meu a morte fez questão de seduzi-lo e de se deitar com ele todas as noites, com várias sessões de agonia extremas e sonhos macabros até o dia que se cansou de brincar e o tirou de mim.

Meu filho me contava como sentia suas partes do corpo apodrecerem e a dor e agonia que isso lhe causava. Hoje eu sinto meu coração apodrecendo por não poder ter feito nada para livrá-lo do maldito sono eterno.

juhliana_lopes 14-08-2013

 

Referências:

– Título e nome dos personagens: Referência a Síndrome de Jules Contard, também conhecida como “delírio de negação” ou “delírio de negação de órgãos”, onde o paciente tem a certeza, sob delírio de estar morto ou de que seus órgãos estejam paralisados ou podres, ou ainda de que amigos, familiares, o mundo à sua volta não existem mais. Nesta síndrome é muito comum que os doentes percebam o cheiro de sua carne em putrefação ou sentem como os vermes os estão devorando. (Info)

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