Destino

De todos os casos, este realmente é o mais estranho. A Morte como sempre estava ocupada. Houve um atentado em algum lugar e ela fez questão de ir até lá recolher as almas, afinal, é mais fácil levar todas de uma vez que uma a uma depois nos hospitais. Eu, fui atender uma ocorrência num lugar afastado, um acidente de carro. Duro como sempre, afinal, como convencer duas pessoas que estão brigando sobre seus estragos nos carros e sobre quem vai pagar o quê, sobre de quem é a culpa de que não há mais nada para se discutir? É complicado sabe? Até cair a ficha de que não há mais nada, as pessoas costumam brigar bastante.

Enquanto eu esperava a discussão terminar, sentado na beira da estrada com um cigarro velho (já que pra mim não faz diferença, não sinto nada), percebi a sua leve presença. Tinha olhos negros e sem brilho, e seu olhar trazia uma certa segurança e ao mesmo tempo um tom de inveja. Olhava fixamente para os corpos no chão, o resgate ainda não havia chegado. Pelo olhar gélido pensei que poderia ser uma psicopata ou talvez uma serial. Eles nos ajudam muito as vezes porque sempre fazem uma limpa onde é necessário. Não. Havia algo nela, alguma coisa diferente. Ignorei. Acorrentei as almas briguentas que continuaram brigando por todo o caminho e fui embora.

Uma semana depois fui designado para buscar um idoso no hospital. “Sua hora havia chegado”, e foi um pouco difícil me aproximar com tanta gente chorando em volta, e claro, pra não ser diferente, o velho queria ficar ali para observar toda a falsidade que estava a sua volta com direito a comentários. Quando estava passando pelo corredor arrastando a corrente com o velho teimoso e desgostoso com seus familiares eu a vi novamente. Estava em outro quarto com algumas mulheres em volta e tomando soro, o olhar sempre gélido mas um pouco mais fundo, parecia mais magra também.

4010800Passaram-se alguns anos desde então, e quando eu fui pegar um cara que estava tomando todo o veneno possível no alto de um prédio para se jogar e não sentir dor (estranho, ele iria se matar “duas vezes”), eu a vi observando de longe por uma janela de outro prédio. Mais adulta, com o corpo formado, mas o olhar era o mesmo. Enquanto o cara brigava com ele mesmo para ver se tomava ou não o veneno, se ia mesmo jogar-se do prédio ou não, fui até ela.

Nós temos o poder de escolher pra quem queremos aparecer além das almas impertinentes e algo na sua presença me incomodava então, eu tinha que perguntar. A primeira reação lógico foi um susto mas um leve sorriso se abriu ao me ver.

– O que você quer? – Eu perguntei de uma vez.

– Eu… Você veio me buscar não foi? Chegou a minha hora? – ela respondeu com uma certa alegria na fala.

– Não. Você quer morrer?

– Desejei isso a minha vida toda. Desejo ainda.

– Por quê?

– Eu não tenho expectativas. Não tenho sonhos. Não tenho ninguém. Me leve por favor! – disse ela tocando em meu braço, segurando forte.

– Eu não sou a Morte sabe? Não a Dona Morte. Sou só o secretário. Você me tocando ou não, não vai fazer diferença. É um sistema de segurança contra possíveis erros ou “vinganças”.

– O que eu tenho que fazer então? Me jogar que nem aquele cara vai fazer? Se eu me jogar você ou Ela vem me buscar?

– Não. Até onde eu posso ver você vai viver mais. Se você se jogar vai ficar trancada num hospital por algum tempo mas vai se recuperar rápido. É curioso, algo em você faz você se curar rápido de qualquer coisa justamente para continuar vivendo, e ai, você fica pedindo pra morrer… Irônico.

– Então eu tenho que esperar?

– Sim. Agora me dê licença, tenho que pegar aquele imbecil. E pare de me perseguir.

– Tudo bem… – sua voz agora trazia um tom de choro, soluçado como de criança.

– Olha. Se for chorar, chore por outra coisa. Eu não sinto pena, então dê um motivo melhor para suas lágrimas. Cada lágrima chorada em vão é mais tempo que você permanece viva, para que um dia você possa dar um motivo a elas.

Ela permaneceu sentada mas o soluço aparentemente parou. Deixei-a sozinha. O cara finalmente havia engolido o veneno e agora aproveitava a tontura para ficar na beirada do prédio. Seus corpo ficou bambeando para frente e para trás e por falta de paciência toquei fazendo uma leve pressão pra frente.

A alma ficou em minhas mãos e o corpo se foi ao sabor do vento se espatifando nos asfalto.

– Uow! Eu pensei que…

-Você morreu. Feliz agora? Vamos!

– Espere, era meu corpo mesmo caindo? Nossa que irado!

– Sério que você ainda usa essas gírias? Tá explicado o porquê da sua morte. Venha!

Acorrentei-o e sai arrastando a alma alegre (ou seria surpresa?) pela escadaria para poupar quem estava no elevador de levar uns cutucões ou sentir arrepios desnecessários.

A garota que buscava a morte? Continua procurando por ela e colhendo motivos para quem sabe convencê-la. O que ela não entendeu é que existem pessoas que não podem morrer, não enquanto não cumprirem seu destino. E pra infelicidade dela, nem eu pude ver que destino é esse…

 

juhliana_lopes 07-08-2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s