Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013

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