Sinfonia da Loucura

É engraçado quando, todos te chamam de louco. Vira algo banal, natural, até mesmo um desafio. Não sinta angústia, nem remorso. Não tente mudar caso alguém te chame de louco. Não se incomode, não se assuste, pois existe algo pior…

O que poderia ser pior? Você poderia facilmente me perguntar… Se perguntasse, eu responderia com prazer que o pior é quando não falam nada. O pior, é o silêncio.

Você anda, vive, ri, bebe, come, dorme, estuda, trabalha, convive, se relaciona, chora, abraça, bate, corre, pisca, fala, respira… Ninguém vê. Ninguém percebe. O normal é como denominam a sua vida. “Aquele cara normal” é como te chamam. Nada do que você faz ganha uma nota. Ninguém se admira das suas atitudes, ninguém aposta no imprevisível. As pessoas te leem como um livro velho de poucas páginas. Sabem exatamente o que pode acontecer… Mas e se eu disser que na verdade não pode?

Os loucos, os verdadeiros loucos, em sua maioria, nunca são notados. Ninguém repara, encaram a insanidade como algo natural, e menosprezam os pedidos de socorro. Ninguém gosta de ser louco de verdade. É divertido por um tempo, mas cansa. Você necessita de um pouco de realidade. Necessita sentir o gosto das coisas, o toque, ouvir a melodia… Por mais que ninguém repare, o mundo é completamente diferente. Você não consegue pensar, você não consegue dormir, não consegue ao menos ficar sozinho sem ter aquelas visitas desagradáveis.

1044314_547086868671060_674651991_nSim. Os loucos nunca estão sozinhos de verdade. No começo todos encaram como brincadeira de criança, mas só quem vive sabe o que é ter essas visitas. Começam numa coisa simples, dando poucos palpites, um tom diferente, uma música nova… Depois eles entram em sua mente como cobras e tomam seu pensamentos, um a um. Já não há mais privacidade. Tudo o que você pensa passa por eles e pensamentos de: “Deixa de ser idiota”, “Nossa, você não percebe que todos vão rir de você assim?” ou ainda “Nem começa, você sabe que não vai prestar… Sabe que vai ficar um lixo e ainda vai tentar?” se tornam frequentes.

Não existe mais o “dormir em paz”, duas, três, milhares ao mesmo tempo, numa louca sinfonia aguda e torturante. Várias opiniões, várias cartas, várias imagens… Tudo num loop até o corpo ser vencido pelo cansaço.

Ao acordar, mais um dia começa, assim como a rotina de trabalho. Mais pessoas dizendo “bom dia” de forma vazia e não enxergando o peso que você leva nas costas. Mais um dia normal, numa mente delirante. Mais um dia… Mais um…

 

juhliana_lopes 24-08-2013

Jules Contard

Era o primeiro dia da faculdade. Estava nervoso mas ainda sim decidido. Foi tremendo e com um sorriso tímido no rosto e voltou com um de orelha a orelha. Fiquei feliz. É o que a gente espera nessa altura da vida, que as coisas deem certo. Eu mesma dei muitos incentivos mas sempre tomando cuidado para não causar influências. É uma escolha dele e eu não poderia interferir. Depois de quatro semestres veio a dúvida. Confesso que fiquei apreensiva, afinal, depois desse tempo perceber que não é aquilo que ele queria seria um tiro no pé. Ainda sim demonstrei imparcialidade, fazendo com que entendesse que a decisão teria que partir dele, para o bem dele.

As coisas eram mais fáceis quando as dúvidas e suas angústias ficavam restritas a pequenas crises existenciais como essas. Sabe, “o que eu vou ser quando crescer?”, “será que é isso mesmo que eu quero?”, “mas eu me dou bem em outra área…” nada disso é tão grave como o que aconteceu por fim.

Começou depois de uma festa da faculdade, confesso que a princípio achei que poderiam ser drogas. Mais quieto, mais escondido no quarto, mal descia para comer e só saia para a faculdade. Depois das férias dele, comecei a trabalhar e então não pude ver o crescimento do que no fim, tomou proporções irreversíveis.

Estranhei quando em um fim de semana, um amigo dele me ligou perguntando sobre ele. Me disse que não ia mais para a faculdade, que mal atendia o celular e que nem nas redes sociais era possível encontrá-lo. Não saia e nem visitava os amigos, não jogava bola aos domingos. Quando subi no seu quarto para perguntar o que estava acontecendo, senti meu coração enfraquecer.

Sentado num canto do quarto, com os olhos fundos da magreza aparente e a pele pálida pela falta de sol. Suas mãos inquietas coçavam os braços e as pernas e leves gemidos de horror aumentavam a dor – tanto dele, como a minha -, coloquei a mão em sua testa rapidamente para verificar a temperatura, depois o ajudei a sentar na cama.

– O que aconteceu filho?

– Eu morri mãe.

– Não filho, você tá vivo. O que você tá sentindo filho?

– Eu morri mãe. Você não vê? Olha, os vermes estão comendo a minha carne. Eu sinto. Dói. Eu já estou cheirando a podre, eu sinto meu estômago apodrecendo. Me enterra mãe. Eu morri…

Apesar das várias negações, ele insistia em dizer que havia morrido. O levei a um médico, dois, três e ninguém sabia dizer o que estava acontecendo. Até que ao passar com o Dr. Contard tive enfim a resposta que não me deixou menos tensa e tirou por fim a pouca tranquilidade que me restava.

Uma síndrome no qual a pessoa acha que morreu. Meu pequeno Jules, meu único filho numa situação assim. O tratamento era complicado porque requeria muita conversa e alguns medicamentos em casos de ansiedade pelo “enterro”. Seus gritos de dor durante a noite me traziam um horror a impotência que eu tinha naquele momento que também não me permitia dormir. Mais de uma vez tive que o segurar porque ele se coçava com tamanha ferocidade para retirar os “vermes de cemitério” de seus braços e rosto que chegou a sangrar.

162083_Papel-de-Parede-Lagrimas-e-rosa_1400x1050Um dia, uma encomenda chegou. Fiz de tudo para não permitir a entrada daquele objeto mas Jules conseguiu colocar num momento que tive que sair para comprar seus remédios. Durante dois meses ele dormia dentro de um caixão.

Comprou nas cores que mais gostava, vermelho e preto, e vestia uma roupa leve toda noite para dormir. Ainda gemia de agonia com os “vermes” lhe corroendo mas conseguia dormir levemente mais tranquilo.

Um dia, depois de uma sessão que havia relativamente dado certo, ele estava aparentemente mais feliz. Meu coração se encheu de esperança de poder sair daquele pesadelo horrível, mas aquela noite acabou por confirmá-lo de vez.

Ele morreu dormindo em seu caixão. Não houve uma explicação lógica, apenas uma explicação médica qualquer de que seus órgãos haviam parado de funcionar subitamente.

Ainda hoje minhas lágrimas correm soltas quando lembro do meu menino. Muitas mães perdem seus filhos para a morte é verdade, seja por guerras, acidentes, assaltos… Mas o meu… Com o meu a morte fez questão de seduzi-lo e de se deitar com ele todas as noites, com várias sessões de agonia extremas e sonhos macabros até o dia que se cansou de brincar e o tirou de mim.

Meu filho me contava como sentia suas partes do corpo apodrecerem e a dor e agonia que isso lhe causava. Hoje eu sinto meu coração apodrecendo por não poder ter feito nada para livrá-lo do maldito sono eterno.

juhliana_lopes 14-08-2013

 

Referências:

– Título e nome dos personagens: Referência a Síndrome de Jules Contard, também conhecida como “delírio de negação” ou “delírio de negação de órgãos”, onde o paciente tem a certeza, sob delírio de estar morto ou de que seus órgãos estejam paralisados ou podres, ou ainda de que amigos, familiares, o mundo à sua volta não existem mais. Nesta síndrome é muito comum que os doentes percebam o cheiro de sua carne em putrefação ou sentem como os vermes os estão devorando. (Info)

Destino

De todos os casos, este realmente é o mais estranho. A Morte como sempre estava ocupada. Houve um atentado em algum lugar e ela fez questão de ir até lá recolher as almas, afinal, é mais fácil levar todas de uma vez que uma a uma depois nos hospitais. Eu, fui atender uma ocorrência num lugar afastado, um acidente de carro. Duro como sempre, afinal, como convencer duas pessoas que estão brigando sobre seus estragos nos carros e sobre quem vai pagar o quê, sobre de quem é a culpa de que não há mais nada para se discutir? É complicado sabe? Até cair a ficha de que não há mais nada, as pessoas costumam brigar bastante.

Enquanto eu esperava a discussão terminar, sentado na beira da estrada com um cigarro velho (já que pra mim não faz diferença, não sinto nada), percebi a sua leve presença. Tinha olhos negros e sem brilho, e seu olhar trazia uma certa segurança e ao mesmo tempo um tom de inveja. Olhava fixamente para os corpos no chão, o resgate ainda não havia chegado. Pelo olhar gélido pensei que poderia ser uma psicopata ou talvez uma serial. Eles nos ajudam muito as vezes porque sempre fazem uma limpa onde é necessário. Não. Havia algo nela, alguma coisa diferente. Ignorei. Acorrentei as almas briguentas que continuaram brigando por todo o caminho e fui embora.

Uma semana depois fui designado para buscar um idoso no hospital. “Sua hora havia chegado”, e foi um pouco difícil me aproximar com tanta gente chorando em volta, e claro, pra não ser diferente, o velho queria ficar ali para observar toda a falsidade que estava a sua volta com direito a comentários. Quando estava passando pelo corredor arrastando a corrente com o velho teimoso e desgostoso com seus familiares eu a vi novamente. Estava em outro quarto com algumas mulheres em volta e tomando soro, o olhar sempre gélido mas um pouco mais fundo, parecia mais magra também.

4010800Passaram-se alguns anos desde então, e quando eu fui pegar um cara que estava tomando todo o veneno possível no alto de um prédio para se jogar e não sentir dor (estranho, ele iria se matar “duas vezes”), eu a vi observando de longe por uma janela de outro prédio. Mais adulta, com o corpo formado, mas o olhar era o mesmo. Enquanto o cara brigava com ele mesmo para ver se tomava ou não o veneno, se ia mesmo jogar-se do prédio ou não, fui até ela.

Nós temos o poder de escolher pra quem queremos aparecer além das almas impertinentes e algo na sua presença me incomodava então, eu tinha que perguntar. A primeira reação lógico foi um susto mas um leve sorriso se abriu ao me ver.

– O que você quer? – Eu perguntei de uma vez.

– Eu… Você veio me buscar não foi? Chegou a minha hora? – ela respondeu com uma certa alegria na fala.

– Não. Você quer morrer?

– Desejei isso a minha vida toda. Desejo ainda.

– Por quê?

– Eu não tenho expectativas. Não tenho sonhos. Não tenho ninguém. Me leve por favor! – disse ela tocando em meu braço, segurando forte.

– Eu não sou a Morte sabe? Não a Dona Morte. Sou só o secretário. Você me tocando ou não, não vai fazer diferença. É um sistema de segurança contra possíveis erros ou “vinganças”.

– O que eu tenho que fazer então? Me jogar que nem aquele cara vai fazer? Se eu me jogar você ou Ela vem me buscar?

– Não. Até onde eu posso ver você vai viver mais. Se você se jogar vai ficar trancada num hospital por algum tempo mas vai se recuperar rápido. É curioso, algo em você faz você se curar rápido de qualquer coisa justamente para continuar vivendo, e ai, você fica pedindo pra morrer… Irônico.

– Então eu tenho que esperar?

– Sim. Agora me dê licença, tenho que pegar aquele imbecil. E pare de me perseguir.

– Tudo bem… – sua voz agora trazia um tom de choro, soluçado como de criança.

– Olha. Se for chorar, chore por outra coisa. Eu não sinto pena, então dê um motivo melhor para suas lágrimas. Cada lágrima chorada em vão é mais tempo que você permanece viva, para que um dia você possa dar um motivo a elas.

Ela permaneceu sentada mas o soluço aparentemente parou. Deixei-a sozinha. O cara finalmente havia engolido o veneno e agora aproveitava a tontura para ficar na beirada do prédio. Seus corpo ficou bambeando para frente e para trás e por falta de paciência toquei fazendo uma leve pressão pra frente.

A alma ficou em minhas mãos e o corpo se foi ao sabor do vento se espatifando nos asfalto.

– Uow! Eu pensei que…

-Você morreu. Feliz agora? Vamos!

– Espere, era meu corpo mesmo caindo? Nossa que irado!

– Sério que você ainda usa essas gírias? Tá explicado o porquê da sua morte. Venha!

Acorrentei-o e sai arrastando a alma alegre (ou seria surpresa?) pela escadaria para poupar quem estava no elevador de levar uns cutucões ou sentir arrepios desnecessários.

A garota que buscava a morte? Continua procurando por ela e colhendo motivos para quem sabe convencê-la. O que ela não entendeu é que existem pessoas que não podem morrer, não enquanto não cumprirem seu destino. E pra infelicidade dela, nem eu pude ver que destino é esse…

 

juhliana_lopes 07-08-2013

Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013